Memórias
21 Esperando
Notas iniciais
Desliguei o chuveiro me sentindo um pouco melhor.
Acordei depois de uma noite muito intensa, tanto pelo quarto de jogos, quanto em relação ao que eu estava sentindo. Tudo era tão forte que mesmo dormindo, em meus sonhos, eu podia sentir a força de meus sentimentos por minha senhorita, os quais ficaram mais claros em minha mente quando finalmente eu entendi o que ela queria dizer sobre nós.
Cuidar de Bella, de suas necessidades e não apenas de seus desejos sexuais, abriram meus olhos para o quanto ela significava para mim, o quanto que vê-la bem, em meus braços e feliz era o que eu mais queria. Eu queria mais do que qualquer coisa, viver assim pelo resto de minha vida e queria que minha senhorita me quisesse da mesma forma, nem que fosse um pouco.
O que eu estava sentindo era atordoante, assustador ainda mais por saber que eu era um homem que sempre teve o que quer, senhor de si e de suas vontades, mas isso era na teoria ou no passado, uma vez que agora, eu estou sem rumo por causa de uma menina e isso não ajudava a restituir quem eu era. Se eu não conseguia entender ou definir o que estava sentindo o que dirá descobrir sobre minha própria vida.
Em meio a tudo isso, eu me perguntava se conseguiria voltar a ser o homem que um dia eu fui, ou se me lembraria de como era, já que agora tudo é tão diferente, pareço tão diferente do que dizem que fui que parece ser impossível retomar tudo.
A verdade é que eu me sentia perdido.
Tudo isso se passava em minha mente antes mesmo de abrir meus olhos. Tudo ali estava impregnado dela, de seu cheiro, de sua presença... de Bella, tanto que estava me deixando ainda mais atordoado, perdido nesses pensamentos, me fazendo refletir sobre o quanto eu estava envolvido com ela.
Por mais confuso que eu estivesse, a presença dela me confortava e me dava a segurança de que tudo ficaria bem se estivéssemos juntos, por isso foi um choque imenso quando abri meus olhos e vi que Bella não estava lá.
Por um momento, imaginei que tudo o que tinha dito na noite anterior tinha sido demais para ela e a assustado de vez, que na tentativa de ganha-la eu acabei perdendo.
Meu coração perdeu uma batida e eu não conseguia respirar.
Essa hipótese me machucou mais do que qualquer coisa tenha feito desde que acordei naquele hospital. Eu não conseguia imaginar como eu seguiria sem a minha senhorita.
Antes que eu pudesse fazer algo para me recuperar desse pensamento perturbador, eu ouço um barulho na cozinha e só então olho em volta e vejo seu roupão na cadeira ao lado da cama, onde estava ontem à noite e sorri de alivio e de prazer ao imaginar minha senhorita caminhando nua pela casa.
Só depois de ouvi-la se movimentar por alguns minutos é que eu consegui me levantar e tomar um banho para me acalmar e só agora, depois de um pouco de água quente, eu me sinto bem melhor.
Eu me vesti o mais lentamente que pude antes de sair do quarto e acompanhar os sons, o cheiro que vinham da cozinha e quando cheguei, eu a vi de costas, o cabelo solto e molhado pelo banho recente. Ao contrario do que imaginei, minha senhorita estava completamente vestida, usando uma calça jeans justa – peça que eu nunca vi nela – uma blusa elegante, mas os pés descalços.
Fiquei observando por um tempo tentando imaginar o que isso significava. Não sabia se era bom por ela não estar caminhando nua pela casa, longe de estar presa ao nosso contrato, ou se era ruim por ela estar vestida assim pronta para me deixar.
Enquanto eu pensava, Bella se virou e me viu ali. Ela me encarou por um instante antes de sorrir e abaixar os olhos.
—Bom dia! – falou baixinho.
—Bom dia – respondi me aproximando dando tempo para me acalmar – você acordou cedo.
—Acho que não conseguiria dormir mais do que isso – a voz dela não era mais do que um murmúrio e eu a alcancei antes que pudesse dizer mais alguma coisa. Segurei seu queixo sabendo que era a única maneira de olhar em seus olhos, uma vez que ela sempre ficava com eles baixos na minha presença.
Olhei para ela por incontáveis segundos e ela me parecia um tanto receosa, como se não soubesse o que fazer ou que estivesse com medo do que aconteceria. Imaginei que meus olhos transmitissem a mesma coisa.
Eu estava precisando e muito de algum contato e beijei seus lábios, primeiramente, de leve apenas um tocar, para ver se ela me aceitava, se queria e precisava daquele contato tanto quanto eu. Foi um alivio quando ela me beijou de volta, me dando um beijo parecido com o da noite anterior, um beijo apaixonado.
Quando nos separamos, ela estava vermelhinha parecendo realmente envergonhada, sem olhar para mim e eu ri, deliciado com sua expressão de menina, mordendo o lábio. Aquele sorriso me deixou mais tranquilo e a sua reação ao meu beijo me mostraram que mesmo que não fosse com a mesma intensidade que eu, Bella estava no relacionamento comigo, apesar de provavelmente desejar outras coisas.
Beijei sua bochecha sem conseguir resistir e a abracei desejando que ela aceitasse ser minha de todas as maneiras e que isso desse certo.
—Você está linda! – a beijei mais uma vez antes de me afastar um pouco, mas sem conseguir tirar minhas mãos dela.
—Obrigada – Bella sorriu mordendo o lábio mais uma vez – por que não se senta? O café já está pronto.
—O cheiro está mesmo muito bom – sorri e fiz como ela disse a observando enquanto colocava a mesa e se sentando assim que terminou, sem que eu precisasse pedir que ela o fizesse, me deixando com mais esperanças.
—Eu espero que o gosto também – respondeu antes de dar uma boa olhada para mim e o terno que eu tinha vestido antes de perguntar – o senhor... hm... você... você vai trabalhar?
—Era o que eu deveria fazer, mas eu preciso resolver algumas coisas antes – ela assentiu e eu continuei – eu preciso ir à delegacia.
—Algo errado?
—Eu só quero saber um pouco mais sobre o meu acidente e ver o que o delegado tem a me dizer sobre como estão as investigações. E você? Se vestiu para ficar na casa de meus pais?
—Na verdade não – ela suspirou parecendo nervosa – eu não sei como lhe falar isso...
—O que? – eu fiquei nervoso também – sabe que pode me falar o que quiser.
—Posso? – segurei suas mãos por cima da mesa tentando acalmá-la.
—É claro que sim, tudo o que eu disse ontem não foi da boca para fora, pode acreditar em mim.
—Eu nunca pensei que fosse.
—Então sabe que não precisa ficar tão nervosa para falar comigo, eu quero o melhor para você, sempre.
—Eu sei disso.
—Então... diga o que precisa – pedi depois de um longo tempo em silencio temeroso por ter de tocar nesse assunto tão cedo – quer falar sobre ontem à noite? Você pensou no assunto?
—Eu disse ao se... a você que não precisava pensar em nada...
—E eu lhe pedi que pensasse...
—Mas não precisa, eu sempre soube o que eu quero – assenti sem deixar de olhar em seus olhos.
—Mesmo assim quer falar sobre isso?
—Sim, quero, mas não agora. Eu preciso te dizer algo antes.
—O que é? – Bella abaixou os olhos e pegou algo no bolso da calça.
—Isso chegou hoje pela manhã – ela me entregou o papel várias vezes dobrado. Antes de abrir eu vi o quanto minha senhorita estava apreensiva sobre esse assunto, tanto que pude notar suas mãos tremerem ao me entregarem o papel.
Era uma carta de aceite da Faculdade de Port Angeles.
—Isso é maravilhoso, Bella! – eu me aproximei a abraçando verdadeiramente muito feliz por ela – meus parabéns, sei que você vai conseguir tudo o que sonha, esse é só o primeiro passo.
—Obrigada, isso é muito importante para mim.
—Eu sei, e é por isso que estou tão feliz. Você merece, muito – eu beijei seus lábios com carinho antes de voltar a olhar para ela – eu só não entendi por que você ficou tão nervosa para me mostrar isso.
—É que eu preciso ir até lá o quanto antes e não sabia se tinha planos para nós ou o que ia achar disso...
—Não seja boba, sempre vou torcer por você, não se esqueça disso. Agora precisamos providenciar alguma coisa?
—Eu preciso ir até lá e fazer uma entrevista primeiro e depois fazer minha inscrição.
—Você vai hoje? – ela assentiu – quer uma carona?
—Não quero te atrapalhar...
—Não vai. Eu preciso mesmo passar na delegacia. Eu posso deixar você lá e depois passo para te pegar quando estiver pronta. É só ligar para mim se eu não estiver do lado de fora.
—Tudo bem – ela sorriu – muito obrigada.
—Qualquer coisa por esse sorriso lindo – eu a beijei sem consegui evitar, tão feliz quanto ela parecia estar, orgulhoso de verdade de minha senhorita. Era o que eu pensava quando nossos lábios se juntaram, mas a medida que nosso beijo se tornava cada vez mais intenso, eu não conseguia deixar de pensar em como eu queria que ela fosse minha.
—Eu acho melhor irmos – sussurrei ainda com meus lábios ao dela quando nossas respirações ainda estavam descompassadas – mas nós precisamos conversar e faremos isso quando voltarmos.
—Sim, senhor – ela assentiu antes de me dar mais um beijo e se afastar em busca de seus sapatos.
A floresta perto de minha casa, ficava no meio do caminho entre Forks e Port Angeles, tanto que minha casa já pertencia a Port Angeles, bem como o local do acidente, por isso, imaginei que o delegado de lá cuidaria de tudo e então levei Bella para a faculdade, não sem antes lhe desejar muita sorte e depois segui para a delegacia, torcendo para que eu pudesse descobrir alguma coisa.
Não tinha dado tempo de abrir o envelope que Tanya tinha me entregado quando fui buscar minhas coisas em casa, mas não me preocupei com isso. Por mais que ela tenha dito que ali haviam informações importantes sobre o acidente, Tanya tinha tido tempo o suficiente para forjar tudo aquilo ou alterar informações importantes, por isso, achei melhor falar pessoalmente com o delegado e saber por mim mesmo o que aconteceu e como andam as investigações.
Cheguei a delegacia e logo pedi para falar com o delegado. Não demorou muito e fui conduzido para a sala dele.
—Doutor Edward Cullen – o homem de feições que me pareceram familiares estendeu a mão para mim me convidando a sentar – imaginei que mais cedo ou mais tarde viria até mim.
—Como sabe? Nós nos conhecemos?
—Pessoalmente não, mas quem não conhece o juiz Cullen? O homem cheio de determinação que sempre consegue o que quer e que anda procurando respostas da vida que não se lembra. Uma hora ou outra viria em busca de uma de suas mais frequentes perguntas.
—Como pode saber disso tudo? – perguntei desconfiado. Por mais que quando acordei os jornais falaram de minha recuperação desacreditada e de minha história, isso já fazia algum tempo, ele não se lembraria assim.
—Todo mundo sabe e se comoveu com a história de seu acidente isso sem falar que o doutor é o mais novo paciente de meu irmão – franzi o cenho e olhei em sua mesa para o nome que estava gravado ali Paul Alistair.
—É irmão do doutor Alistair? O neurologista?
—Não se espante, estamos em uma cidade muito pequena, Cullen. Sam me disse que resolveu procurar uma segunda opinião.
—E vocês conversam dessa maneira sobre a vida dos pacientes dele? – perguntei indignado pela indiscrição.
—Na verdade não – ele parecia pensar na resposta – Meu irmão apenas comentou que você foi até seu consultório. Ele sabe que tive seu caso nas mãos na época do acidente e comentou sobre sua consulta...
—Espere, você esteve com meu caso em suas mãos? Não tem mais?
—As investigações acerca de seu acidente foram arquivadas.
—Arquivadas? Por que? Pelo que eu soube o acidente foi provocado por alguém e vocês ainda não descobriram por quem. Ou descobriram?
—Não descobrimos, mas não havia pistas e o doutor é um homem muito importante, um juiz que depois de tantos julgamentos deve ter muitos inimigos e inimizades, muitas pessoas que querem te ver morto.
—E esse não é mais um motivo para vocês investigarem?
—Não tínhamos provas nenhuma – ele deu de ombros se esticando na mesa – nós precisávamos da ajuda das pessoas mais próximas do doutor para dar depoimentos e sua esposa estava abalada demais, fragilizada por seu estado e para poupa-la decidimos aceitar seu pedido e arquivar o caso.
—Foi Tanya quem pediu isso?
—Foi sim.
—E vocês podem simplesmente aceitar um pedido para parar a investigação do crime por causa disso? – perguntei indignado – é um absurdo!
—Não estamos dizendo que não investigamos nada, apenas a demos por encerrada, não havia pista nenhuma, ninguém que pudesse colaborar e uma quase viúva triste.
—É inacreditável! Alguém tenta me matar e a polícia simplesmente arquiva o caso por falta de provas, sem tê-las buscado o suficiente? – eu estava com muita raiva de escutar aquela barbaridade toda, mas principalmente pela tranquilidade com que aquele delegado folgado me falava aquilo.
—Poderia ser qualquer um, todos os malfeitores que o doutor já mandou para a prisão, como poderíamos saber quem, sem a ajuda de alguém de sua família?
—Isso não faz sentido nenhum. Há vários meios de descobrir isso, minha família nem deveria ser envolvida nisso. E tem mais, você não parou para pensar que pode não ser um bandido que mandou me matar?
—O senhor tem alguma suspeita?
—Eu é que deveria estar te perguntando isso, porra! – bati a mão na mesa perdendo a paciência e o delegado apenas deu de ombros.
—Não adianta por que não teria como responder, uma vez que as investigações estão paradas há mais de um ano.
—Há mais de um ano! Isso significa que vocês não investigaram quase nada! Conseguiram descobrir alguma coisa?
—A perícia detalhada viu que a falha em seu carro foi realizada por mãos humanas, íamos iniciar a investigação e como já sabe fomos solidários a sua esposa e não fizemos isso.
—Pois então eu quero que você reabra esse caso agora mesmo! Não tem cabimento uma coisa dessas, seus argumentos são pobres e inválidos. Eu poderia processar vocês por negligencia por abandono de caso. Como eu fico? Como pode deixar uma pessoa que quis me matar a solta! Não pensa que ele poderia querer matar meus pais, minha família depois que eu morresse?
—Não, isso não aconteceria...
—Como você sabe, caralho!
—Sua esposa estava segura, estávamos de olho nela.
—Pouco me importa Tanya, vocês deveriam ter pensado em minha mãe, no meu pai, nos meus irmãos e sobrinhos. Eles deveriam ter sido vigiados e cuidados pela polícia. Eles sim corriam perigo e se acontecesse alguma coisa, a responsabilidade seria toda sua.
—Doutor...
—Não quero saber de mais nada, só que reabra o caso e me dê resultados o mais rápido possível.
—Olha aqui, o senhor não pode chegar aqui dando ordens dessa maneira.
—Como assim eu não posso? Você foi completamente irresponsável e preguiçoso ao encerrar as investigações por nada. Eu posso processar você e te transformar em um nada se não tiver as respostas que preciso. Entendeu? – ele me olhou por um tempo e provavelmente percebeu que eu não estava brincando. Estava fervendo de raiva e me controlando para não partir a cara dele.
—Não precisa ser assim.
—Então reabra o caso e o resolva depressa.
—Farei o que for possível.
—Então fará até o que não for. Quero respostas na semana que vem ou eu mesmo abro um inquérito sobre você e essa pocilga aqui. Fui claro? – não esperei que ele respondesse e me levantei saindo daquele lugar.
A raiva que eu estava sentindo era incalculável.
Eu deveria mesmo entrar com um inquérito e foder cada um dos palhaços que trabalhavam naquela delegacia, do faxineiro até o babaca do delegado. Meu faro não me enganava, aquele homem era um vagabundo, provavelmente fazia parte da escoria que envergonhavam os que faziam justiça.
Mesmo sem ele me dizer uma única palavra, eu entendi muita coisa com aquela conversa.
Entendi que não foi por acaso meu acidente ter acontecido onde e quando aconteceu. Meu divorcio ter saído dias antes do acidente, um dia antes de eu poder ficar com Bella como eu gostaria me faziam ter a desconfiança de que Tanya estava envolvida nisso, mas o fato de tudo ter acontecido em Port Angeles, com esse delegado filho da puta preguiçoso e manipulado me faziam ter a certeza de que tudo isso foi muito bem pensado.
Tudo aconteceu longe de onde eu trabalhava, poderia até não ter amigos, como já tinha percebido, mas deveria ter algum aliado ou alguém que ao menos se colocaria a frente das investigações e desvendasse cada detalhe do ocorrido, mas ele foi para longe de onde eu trabalhava, pra longe de qualquer um que pudesse me ajudar.
Eu só precisava descobrir se o delegado e Tanya estão juntos nessa. Não posso descartar essa hipótese por que é muito estranho uma investigação ser encerrada por um mero pedido. O fato do delegado e o meu novo médico serem irmãos também me perturbou bastante. Será que Tanya o conhecia, será que ele estava junto nessa também?
Porra! Será que tem alguém nesse mundo em que eu possa confiar?
Sai da delegacia ainda sem conseguir acreditar no que estava acontecendo. Cada vez mais eu acreditava no envolvimento de Tanya nesse acidente, não queria fazer isso, mas não tinha outra explicação para o fato de ela querer que as investigações acabassem e não chegassem ao culpado. E ainda tinha o fato de ela ter me escondido sobre o divórcio, fingindo ser minha esposa, se aproveitando do fato de eu não ter mais a minha memória para fingir que nossa vida era uma maravilha e que sempre foi assim, que éramos felizes.
O que mais me impressionava era o fato de o acidente ter acontecido quando Bella e eu finalmente conseguiríamos estar juntos sem empecilhos da lei, livre de Tanya e meus compromissos matrimonial. Se isso não era um indicio de que ela estava envolvida até o pescoço nisso, eu não sei o que mais seria.
Achei muito estranho o fato de meu médico ter comentado com seu irmão a respeito de mim. Tudo bem que ele era o delegado que cuidou do caso do acidente, mas fazia menos de vinte e quatro horas que eu tinha falado com ele, era como se eles esperassem por isso. Pensei no que Bella disse sobre Jacob, como ela sempre o defendia e confiava nele, depois em na forma como Sam Alistair não quis dizer se meu antigo médico estava sendo negligente. Ele queria mesmo ser ético? Eu poderia mesmo confiar nele?
Minha cabeça era uma confusão completa, querendo pensar em tudo, mas não conseguindo pensar em nada. Tudo o que consegui foi pegar o carro e pisar fundo em direção a Forks descontando minha raiva no acelerador e o volante. Quando dei por mim, estava parado em frente ao fórum e sem outra ideia do que poderia fazer para me acalmar e ter de volta o controle em minhas mãos, decidi entrar e cuidar de meus afazeres.
Dirigir me fez bem e eu consegui pensar um pouco. No momento a única solução que me passava pela cabeça àquela hora era de esperar o prazo que tinha dado ao delegado e se não houvesse a resposta que eu queria e precisava, que fossem satisfatórias, eu procuraria outro delegado e começaria novas investigações, inclusive a respeito dele.
Entrei no fórum e estava indo direto para a minha sala quando encontro com Quil Atera sorrindo em minha direção.
—Ei Cullen!
—O que foi? – perguntei sem simpatia alguma irritado por ter sido interrompido. Seu sorriso sumiu de imediato e ele engoliu em seco antes de responder.
—Desculpe, sei que deve estar ocupado, mas eu gostaria de saber se vai assumir os casos novos de criminal...
—Eles são designados para mim, não são?
—Sim, mas... você ainda está de licença saúde e eu não tinha certeza se voltaria a trabalhar ou ficaria fora mais algum tempo, até se recuperar de todo. Você não tem aparecido aqui todos os dias e eu pensei...
—Estou sem a minha memória, mas estou recuperado. Não precisa se preocupar com isso. Se estou aqui é um sinal de que vou ficar, não pensou nisso?
—Eu só queria saber porque...
—Por que queria os casos para você. Eu sei. Mas pode tirar seu cavalinho da chuva por que eu estou de volta – terminei de falar e caminhei a passos duros para a minha sala. No caminho eu fui percebendo que não foi uma conversa muito silenciosa, uma vez que muita gente me olhava um pouco intimidada, inclusive Aro Volturi que me encarava com os olhos em fenda, como se soubesse o tempo todo que isso iria acontecer.
Eu ignorei todos eles e fui para a minha sala.
Tudo o que eu queria era poder me concentrar nos meus processos para poder julgá-los adequadamente, me concentrar no trabalho e momentaneamente esquecer todo o resto, mas não foi bem assim.
—Edward? – olhei para cima enquanto eu lia alguns papeis e não acreditei no que eu vi.
—O que você acha que está fazendo aqui?
—Era o único lugar que eu podia te encontrar – Tanya não se intimidou com minha rispidez e entrou em minha sala – e eu precisava muito falar com você.
—Sai daqui. Você é a última pessoa que eu quero ver na minha frente.
—Bem que me disseram que você não está de bom humor hoje – ela se aproximou e parou ao meu lado – eu aposto que você está sentindo tanto a minha falta quanto eu estou sentindo a sua, não é? – suspirei largando meus papéis pensando em uma maneira de me livrar dela o mais depressa possível.
—Diga logo o que quer e vai embora, Tanya. Como você disse eu não estou em um bom humor e não tenho tempo a perder com você.
—Vim saber se você já se acalmou e se já consegue voltar para casa.
—Já disse que não vou voltar.
—É claro que vai, Edward. Aquela é a sua casa, eu sou sua esposa e temos uma vida juntos. Volte para casa para retomarmos nossa vida, volte para sermos felizes novamente – e suspirei diante de tamanha cara de pau. Esse seria o momento ideal para dizer a ela que eu já sabia de tudo, que não éramos mais marido e mulher, dar um basta de vez naquela situação para nunca mais ter de vê-la, mas depois da conversa com o delegado, com todas as coisas que já pensei a esse respeito, eu imagino que não é muito inteligente de minha parte fazer isso. Por isso, mais uma vez engoli tudo o que estava pensando e respondi o mais tranquilo que pude.
—Eu nunca fui verdadeiramente feliz com você nesses oito meses, Tanya, nunca. Para mim tinha alguma coisa errada, alguma coisa faltava entre nós.
—Isabella faltava – ela riu – se eu soubesse que faria tanta diferença assim, eu teria te contado sobre ela antes e nosso casamento poderia voltado a ser o que era.
—O que quer dizer com isso? Isabella é parte de nosso casamento?
—É claro que é. Ela é um elemento essencial para nossa vida, eu não sabia o quanto até agora. Quem poderia imaginar que uma submissa pudesse fazer tanta falta? Agora que vocês retomaram tudo, podemos retomar nosso casamento também não é? – ela sorria animada – Vamos continuar de onde paramos com nossos planos de ter filhos...
-Eu simplesmente não consigo acreditar nisso. Como eu posso acreditar que éramos felizes juntos se eu não tive um só momento de felicidade ao seu lado? Ainda mais dadas as circunstancias de nosso casamento... – ela suspirou e se sentou à minha frente.
—Você já conversou com seus pais a respeito do nosso passado pelo visto.
—Agora eu sei o que você estava escondendo de mim – Tanya me encarava parecendo estar abalada com o que eu disse.
—Sinto muito por eu mesma não ter dito isso. Deve imaginar o quanto é doloroso para mim – eu dei de ombros.
—Tem uma coisa que eu não entendi. Quando começamos com isso precisei me afastar de minha família, por que essa era uma condição para o nosso casamento, não é?
—Sim...
—Por que isso?
—Seus pais nunca gostaram de mim, e eu deles, não sei por que. Eu tive medo de que eles pudessem te afastar de mim principalmente por que era muito apegado a eles, muito grato pelo que fizeram. Eu sabia que não demoraria muito para você se afastar ainda mais de nosso acordo e assim criar uma situação insuportável.
—Ainda mais insuportável, você quer dizer. Nós nunca estivemos juntos de verdade, esse casamento foi uma farsa completa, foi apenas um empréstimo.
—Não foi Edward, eu juro que não. Por mais que você tivesse o interesse de pagar a dívida de seus pais e que suas submissas que lhe davam o que você precisava, nós nos dávamos muito bem, éramos um casal feliz e posso provar isso a você. Se me der uma chance e voltar para casa...
—Já fiz isso antes e não deu certo. Não quero mais.
—Sei que ficou chateado por eu não falar muito de nosso passado juntos ou por eu ter omitido algumas coisas e principalmente por não conversar com você na hora que mais precisava, mas... Edward... você precisa entender que era necessário...eu não podia....
—Não podia o que Tanya? Você teve todas as chances de falar comigo, contar tudo o que está me contando agora sem que precisássemos chegar a esse ponto, mas você não o fez, perdeu sua oportunidade.
—Não fala assim meu amor, por favor. O mais importante eu disse a você, eu te amo e faço qualquer coisa por você, para estar ao seu lado, qualquer coisa não duvide, apenas me peça. O que eu posso fazer para você voltar a ser meu?
—Nunca fui seu, Tanya. Eu nunca serei.
-Edward... – eu estendi a mão para ela a impedindo de falar quando meu celular começou a tocar e atendi rapidamente ao ver que era Bella.
—Bella? Algum problema?
—Oi, Edward – ela disse baixinho – não, não tem problema nenhum. Eu não queria te atrapalhar, mas eu já terminei o que precisava fazer aqui e você disse que deveria te ligar se não estivesse me esperando. – eu me levantei no mesmo instante procurando meu paletó com os olhos.
—Eu me esqueci de você, desculpe. Acabei voltando para Forks.
—Ah... Não tem problema, eu posso pegar um ônibus. Eu preciso mesmo me acostumar a isso já que vou estudar aqui, não é?
—De jeito nenhum, estou indo para ai agora mesmo. Não se mexa.
—Tem certeza? Não quero te atrapalhar.
—Não atrapalha, eu chego ai em breve.
—Tudo bem, obrigada. Vou te esperar bem aqui.
—Prometo que não me demoro – ficamos em silencio por um tempo enquanto e juntava minhas coisas com uma mão só e quando terminei perguntei a ela – deu tudo certo? Está matriculada?
—Sim! Eu nem acredito que vou poder começar meus estudos!
—Precisamos comemorar isso. Vou pensar em um jeito até chegar aí. Não saia daí.
—Vou ficar te esperando então. Por favor, não se apresse, dirija com cuidado.
—Não se preocupe. Chegarei bem.
—Até logo então, Edward. Um... um beijo – Bella sussurrou como despedida me pegando completamente de surpresa e não deixou que eu respondesse desligando a chamada imediatamente. Sorri ainda mais do que já estava sorrindo desde que ouvi a voz dela enquanto imaginava como ela estaria vermelha naquele momento e o quanto isso era adorável.
—Ai meu Deus, eu não posso acreditar nisso! – eu tinha me esquecido completamente da presença de Tanya assim que vi o nome de Bella em meu celular e quando volto a olhar para ela, a vejo com o cenho franzido e o punho cerrado sobre a mesa.
—Do que está falando?
—Desse sorriso ridículo em seu rosto! Mas que merda! Não é possível que isso esteja acontecendo.
—Olha aqui...
—Edward Cullen, você está apaixonado por sua submissa? Pelo amor de Deus! – eu não prestava muita atenção no escândalo de Tanya, apenas remoía as palavras que ela disse, a definição que eu tanto procurava em relação ao que sentia por Bella.
Eu estava apaixonado.
Achei que quando soubesse o que era tudo aquilo, saberia o que fazer, mas eu fiquei mais perdido ainda, só pensando na decisão de minha senhorita e o que eu poderia fazer caso tudo o que ela quisesse de mim fosse o que tínhamos no quarto de jogos, me deixando apavorado.
—Você disse que essas mulheres não eram nada para você além de objetos de prazer e agora você me troca por uma delas? – Tanya exigiu me fazendo voltar para a discussão, gritando e reclamando como se fosse realmente minha esposa parecendo traída e desesperada.
—Você não tem nada a ver com a minha vida, não lhe devo satisfações – vesti meu paletó e peguei minhas chaves a deixando para trás falando sozinha, mas antes que eu pudesse sair, Tanya me fez parar segurando em meu braço com força, exigindo que eu a olhasse.
—Como não? Edward eu sou sua esposa, caso não se lembre.
—Não Tanya, eu não me lembro e você sabe muito bem disso – eu me soltei com raiva – e agora eu sei que nunca estivemos juntos de verdade, então não estou trocando você. Estou apenas refazendo minha vida.
—Isso não está acontecendo, Edward! Pelo amor de Deus, você não pode se apaixonar por ela. Isabella é só a sua submissa.
—Não, ela não é. Isabella é muito mais do que você já foi para mim um dia – ela ofegou olhando incrédula para mim.
—Então está mesmo apaixonado por ela?
—Por mais que isso não seja da sua conta, eu vou te falar. Nunca tinha pensado nisso até agora, ou melhor, eu nunca tinha conseguido colocar em palavras o que eu sinto por Bella, o que senti desde que eu acordei no hospital e a vi ao meu lado na cama, mas agora que disse as palavras, eu posso colocar melhor o que estou sentindo. Que estou sim apaixonado por Bella e ela nunca foi só a minha submissa.
—Como você pode saber? Acabou de me dizer que não se lembra de nada.
—Eu não preciso de memória para saber o que sinto por ela é amor e de nem mais um segundo ao seu lado para saber que te desprezo e tudo o que quero é você fora da minha vida. Então, por favor, tenha um pouco de amor próprio e não venha mais me procurar.
Tanya parecia em completo choque quando eu dei as costas e sai de lá para me encontrar com Bella.
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Mais do que nunca eu me sentia um garoto, um menino que viu a garota mais bonita da escola e não sabia o que fazer para dizer a ela o que estava sentindo. Eu ia apertando o volante sem coragem de olhar para o lado, no mais completo silencio, como estávamos desde que encontrei Bella na frente da faculdade.
Evitei beijar os lábios dela com medo de que minha empolgação denunciasse o que eu estava sentindo e trocamos apenas meia dúzia de palavras enquanto ela me contava por alto como foi a entrevista e do tour que ela tinha feito para conhecer as instalações do campus.
Agora seguíamos em silencio para casa. Quando chegássemos conversaríamos a respeito de nosso relacionamento e eu sabia que Bella estava um pouco temerosa, tal qual eu estava e por isso colaborava com o silencio fazendo com que a ansiedade que sentíamos ficasse quase palpável.
—Hm... Edward? – Bella me chamou quando nos aproximávamos – você se importaria de passarmos na casa de Rosalie por alguns minutos? Ontem ela não estava se sentindo muito bem quando saímos de lá e eu gostaria de saber se ela está precisando de alguma coisa.
—É claro, sem problema – respondi pegando o caminho e chegando lá rapidamente. Eu desci e abri a porta para minha senhorita, me encostando no carro logo em seguida.
—Você não vem? – Bella perguntou quando eu não a segui.
—Vou ficar por aqui mesmo, mas não tenha pressa – ela assentiu e entrou. Pensei em matar esse tempo na casa de meus pais, mas sabia que pelo horário não tinha ninguém lá, por isso me encostei no carro e fiquei ali remoendo todas as coisas que me aconteceram neste dia.
Eu tinha tanta coisa para colocar em ordem, tanta coisa para retomar, mas tudo o que eu conseguia pensar era no que dizer a Bella quando chegássemos em casa.
—Ei, Edward! – Emmett me chamou enquanto se aproximava – venha, entre!
—Estou cansado hoje e ansioso para voltar para casa. Só passamos por aqui por que Bella queria ver Rose, mas não vamos demorar – ele deu de ombros e eu sorri – não foi trabalhar hoje?
—Preferi não ir, meu doce não estava muito bem. Nessa época da gravidez é melhor não deixa-la sozinha, não sabemos o que pode acontecer, não é?
—Você tem razão. Falta pouco para sua criança chegar, cada dia menos.
—Não vejo a hora de ter minha garotinha no colo, é uma emoção indescritível, irmão. Verá quando for você – assenti e suspirei – agora me diga o que está acontecendo com você. Não está me parecendo feliz.
—Como sabe?
—Conheço muito bem meu irmão – não podia negar de forma alguma enquanto ele me analisava e ali eu vi uma maneira de poder desabafar – O que está te mordendo por dentro?
—É que eu não consigo parar de pensar em como esse acidente foi mesmo uma merda! Ele interrompeu tanta coisa que eu tinha em mente, me fez esquecer meus planos mais importantes e me deixou completamente perdido. Não poderia ser nada pior.
—Por que diz isso?
—Eu estava prestes a conseguir o que eu mais queria, mas eu não consigo me lembrar, não consigo retomar o que perdi.
—Do que está falando? – suspirei deitando minha cabeça no carro e meu irmão bateu em meu ombro – É sobre Bella?
—E sobre como minha vida estaria se não tivesse sido tirada de minhas mãos.
—Você já a conhecia antes do acidente? – eu assenti.
—Conheço Bella desde que ela tinha quatorze, pelo que ela me disse e, não sei porque... talvez pela forma como me senti desde que a conheci no dia que acordei, eu acho que sempre senti o que estou sentindo por ela agora.
—Você se apaixonou? – respirei fundo sabendo que não tinha mais volta tentando me acostumar com isso.
—Sim. Algo me diz que me apaixonei quando ela ainda era menor e nos envolvemos nessa época, mas era muito sério eu a queria para mim.
—Como sabe?
—Porque eu me divorciei para ficar com ela. A prova disso é que os papeis ficaram prontos perto do aniversário de dezoito anos dela, quando poderíamos nos relacionar sem problema com a justiça. Sem falar que eu encontrei um anel junto a esses papeis, um anel de compromisso – Emmett arregalou os olhos e eu sorri assentindo – entende agora? Não parece que tudo estava pronto e eu perdi a oportunidade?
—Não perdeu não, sabe muito bem que pode recomeçar de onde parou. Ela está aqui, ao seu lado. Tenho certeza que ainda quer tudo o que queria antes do acidente, como você também, não é?
—Eu quero. Sinto como se nessa parte, nada foi apagado ou esquecido.
—É claro que não – meu irmão sorriu batendo em meu ombro – seu problema é no cérebro e não no coração, tudo o que sentia antes está do mesmo jeito, é só você retomar.
—Mas... eu não estou mais tão seguro quanto estava antes, não tenho mais a certeza de nada... não sou a mesma pessoa.
—É claro que é, Edward! Como eu disse essas coisas não são mantidas no cérebro e sei que você tem certeza sim, dá pra ver em seus olhos quando olha para ela. Desde que apareceu com a moça aqui eu soube que era o que faria, quem você acha que disse as meninas que ela é sua esposa? – Emm apontou para si mesmo me fazendo rir.
—É sério?
—Sim. Você não precisa ter medo, apesar de saber exatamente como você se sente, não é fácil assumirmos nossos sentimentos e oficializar tudo, passei por isso também, mas também não tem nada melhor, nada mais gratificante – enquanto falava, apontou para a porta onde a esposa aparecia com aquela barriga enorme sendo seguida de perto por minha senhorita sorridente, me fazendo sorrir também.
Assim que levantou os olhos, Bella sorriu para mim, toda tímida, linda e muito feliz e tive esperanças ao ver aquele sorriso, esperanças de que poderia dar certo e que eu conseguiria levar nosso relacionamento adiante.
Agora era só esperar que ela quisesse também.
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