Memórias
2 Capítulo 1 - Férias
Kain
Estávamos correndo feito loucos. O pasto por onde corríamos parecia sem fim. Lá estávamos somente eu e ela, tão linda, o sol reluzindo em seus longos cabelos loiros, sua doce pele branca, parecia seda.
Corremos até chegar á uma colina, colina qual tinha uma grande arvore em seu topo. Lá paramos na sombra.
– Então? Como está se sentindo? Perguntou Emy enquanto nos sentávamos ao pé da arvore.
– Sinto-me tonto... – respondi a ela.
– Deve ser o calor, afinal, corremos tanto, não é? – Me respondeu ela enquanto me olhava com seus lindos olhos azuis
Por um segundo senti a terra tremer, um vento gélido tocou meu rosto fazendo meu corpo estremecer. Tive a ligeira impressão de que o dia havia se tornado uma noite escura e sem lua. E por fim, a ultima coisa que ouvi ao longe foi Emy gritando – “KAIN!”.
Recobrei minha consciência, ou pelo menos uma parte dela, eu estava agora em um grande lugar escuro que parecia não ter fim.
Lá era frio, escuro, ventava muito, mas por algum motivo, me sentia bem. Eu conseguia sentir o gélido vento entrando por minhas narinas, indo aos meus pulmões e fazendo meu coração bombear o sangue para o meu corpo. Andei por algum tempo. Tempo em números? Não sei. Alguns minutos, horas, ou quem sabe dias. Quanto mais eu andava, melhor eu me sentia, mesmo não chegando a lugar algum.
Foi então que senti uma sensação ate então inovadora. Meu corpo estremeceu mais uma vez, por entre a escuridão eu pude ver um forte raio de luz branco. Ao fundo pudi ouvir “1, 2,3!”, e mais tremores, novamente raios de luz. “1, 2,3!”, mais tremores.Foi então que ouvi uma voz já conhecida me dizendo “Vamos Kain! Não desista!”. Neste momento senti minha pele ferver, meu coração parar, olhei para o alto e um dos raios de luz veio em direção aos meus olhos me segando. Cai e então tive a sensação de ser arremessado de um prédio de 20 andares em direção ao chão. Com um forte baque, tudo passou, novamente senti o ar pelas minhas narinas. Abri meus olhos e lá estava eu deitado em uma cama hospitalar, ao meu lado... Emy.
Estávamos em um quarto hospitalar úmido e relativamente vazio. Seria completo se não fosse a cama na qual eu descansava e nossa própria presença.
Pudi ouvir mulheres falando coisas do tipo, “Ele quase morreu”, “Foi por pouco”, “Estatura média e cabelos negros, certo?”, “Estou no horário de almoço”, enquanto escreviam anotações paradas em frente à porta entreaberta.
Respirei profundamente e senti uma forte dor nos meus pulmões. Está certo que sempre tive dificuldades respiratórias, deve ter ligações com meus vícios relacionados ao tabaco. Sim amigo. Sou um garoto de 18 anos que fuma. Mas não vem ao caso agora, ou ainda não.
Olhei uma segunda vez para lado, e vi Emy. Doce prima minha. Prima qual despertei um grande sentimento de amor. Confesso acreditar que ela sinta o mesmo por min.
– Então, está se sentindo bem? – Perguntou Emy.
– Não sei, meu peito dói. – Respondi enquanto me ajeitava na dura cama.
Neste momento, entrou no quarto um médico, acompanhado de duas pessoas. Um homem e uma mulher. Demorei a reconhecer o rosto deles. Eram os pais de Emy. Meus tios, os quais eu considerava como meus pais também, sendo que eu fui abandonado quando ainda era pequeno, e tinha um grande respeito por eles. Pessoas simples e trabalhadoras. Meu “Pai”, um homem já bem adiantado em sua idade física e mental, estava sujo de graxa, pois trabalhava com maquinas de fabricas. Minha “Mãe”, mulher simples e simpática, trajava seu velho casaco de lã, apenas cuidava do lar.
– Então Doutor, o que ele tem? – Perguntou meu pai.
– Bem, ainda não sabemos ao certo. Temos que fazer mais alguns exames. – Respondeu o médico.
– O senhor acredita ser algo grave? – Perguntou minha mãe
– Como eu mencionei. Temos que fazer mais alguns exames. – respondeu novamente o Médico.
Fazendo uma pausa, o médico fez algumas anotações na prancheta que carregava em uma de suas mãos. Virou as costas e saiu do quarto. Na porta deu as informações a uma enfermeira que passava pelo corredor enquanto lhe explicava algumas coisas. Eu pudi ouvir as palavras “Pneumonia” e “Câncer”.
Senti uma sensação de sonolência me dominar, só então percebi que eu estava sendo mantido á base de remédios injetados no meu braço esquerdo que estava coberto de fios ligados a alguns aparelhos velhos.
Emy, ainda estava lá. Parada ao meu lado. Observando eu examinar cuidadosamente meus ferimentos. Ferimentos os quais eu não lembrava ter.
– Como foi que me feri? O que aconteceu comigo? – Perguntei a Emy.
– Você não se lembra de nada? – Respondeu ela enquanto me olhava.
– Sinceramente? Quase nada. Lembro-me de sairmos para passear no campo. De estar correndo um pouco. E mais nada. – Respondi a ela enquanto tentava lembrar o que realmente aconteceu.
– Bem, corremos até chegar à grande colina. Lá paramos um pouco sob a sombra da arvore que tem lá. Você estava completamente sem cor, suava bastante. Perguntei-lhe como se sentia e você disse estar tonto. Desmaiou e rolou colina a baixo...
– Então isto explica estes arranhões em meus braços. – Disse eu a mim mesmo.
– E isso é tudo que me lembro de ter acontecido naquele dia. – Concluiu minha prima.
– “Aquele dia?”. Á quanto tempo estou aqui? – Perguntei a ela.
– Você está aqui á quatro dias. – Respondeu Emy.
Sua doce voz ecoou por minha cabeça. Eu estive dormindo por longos quatro dias? O que aconteceu comigo? Logo eu que sempre fui tão saudável? Estive em coma?
Suas palavras me deixaram realmente preocupado. Senti novamente terríveis dores no peito. A sensação que percorria meu corpo talvez fosse impossível de se explicar. Senti por mais uma vez, um doce e gélido vento tomando conta de meu corpo. Repousei minha cabeça no travesseiro que estava na dura cama. Olhei para um dos antigos aparelhos e vi diversos números alternando entre si. Eles simplesmente caiam de forma rápida e ininterrupta
“83, 81, 78,75...” a cada segundo os números decresciam cada vez mais. “70, 65, 60...”
– O que você esta sentindo? – Disse Emy.
– Não sei. Sinto frio. – Respondi a ela.
“50, 45, 42, 38...” A cada numero que baixava, eu sentia um conforto tomando conta de meu corpo. “35, 30, 26, 20...” O local estava ficando escuro. Pensei que estava anoitecendo. Senti um grande sono me dominar. Unindo minhas ultimas forças, olhei uma vez mais para o velho aparelho e vi os números “12, 8, 5”, e então, dormi.
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