Memória

4 Apreensão


Notas iniciais
O aniversário é meu, mas quem ganha capítulo de presente são vocês.

Retornar a Jamiel tornara-se um alívio, mais do que um martírio. Acostumara-se mais rapidamente do que poderia esperar com o isolamento proporcionado pela geografia montanhosa, e pelos obstáculos em torno do pagode que desafiavam a imaginação humana.

O que, no início, era uma tentativa de fuga e sobrevivência tomava contornos de preferência com o tempo. Descobrira que poderia ter paz, aprendera a venerar o silêncio e a calmaria. Precisava aceitar o local como seu lar. Não havia, afinal, para onde pudesse ir em segurança. (Exceto, talvez, Rozan — mas Dohko já possuía seu próprio fardo para carregar. E Mu não gostava de impor sua presença ao ancião.)

Lembrava-se bem do quanto sentira-se oprimido, nos primeiros dias, nas primeiras semanas. Até que, algum dia, a angústia deu lugar a uma espécie de sentimento que Mu ainda não saberia nomear. Talvez estivesse apenas conformado com a sua situação. Alguma forma de aceitação se delineava em sua mente e em seu coração, quase pacífica. Sem revoltas, mas permeada por tristeza e por lacunas, como os longos silêncios de seu mestre, após suas perguntas, nos últimos dias dele.

A presença de Shion sempre fora muito mais forte ali. Superada a dor inicial, Mu conseguia compreender o estranho conforto proveniente de estar em casa, onde cada pedaço parecia sussurrar incessantemente o nome de seu mestre.

Aquela construção não era imutável, nem o eram seus habitantes. Embora suas antigas paredes falassem sobre o passado, embora seu teto abrigasse infinitas recordações, Mu tornou a chamá-lo de lar apenas quando recebeu o pequeno garoto em seus braços.

Não fora difícil acostumar-se à presença constante de Kiki, contrariando suas suposições e expectativas. Mu descobriu rapidamente o significado de cuidar de uma criança. Não se tratava da coisa mais fácil do mundo — jamais se deparara com algo tão complexo e delicado — mas era recompensador.

Ter por quem zelar forçava-lhe a abrir-se para novas perspectivas e experiências — algo que muito o agradava, passado todo o estranhamento e todos os temores iniciais de ter tanta responsabilidade recaindo sobre si. Mu poderia colocar uma máscara para todo sentimento, quando defrontado com outras pessoas; o encanto e o orgulho com o crescimento do pupilo, no entanto, não mereciam ser disfarçados.

Guardava com carinho cada pequeno progresso, as primeiras palavras e os primeiros passos de Kiki. Foi apenas questão de tempo até que as traquinagens infantis preenchessem a torre com mais vida e ânimo do que Mu jamais vira no local.

Em um dia como aquele, em que retornavam da longa viagem a Rozan, a presença infantil o alentava ainda mais do que rotineiramente. Mais do que mera distração, aquela criança era uma promessa. Esperava que Kiki tivesse uma vida melhor do que a sua.

— Finalmente chegamos! — Kiki bocejou. — É tão longe!

— Mas valeu a pena conhecer o Roshi, não valeu? — Mu indagou-lhe com suavidade.

Kiki sorriu abertamente. Dohko o acolhera, até mesmo tentara brincar com o garoto. No fim, acabou reclamando que não era mais tão jovem para acompanhar alguém com tanta energia.

— Sim, sim! — A empolgação na voz do garoto denotava que, de fato, fora uma boa ideia apresentá-lo a Dohko.

A expressão quase sempre imperturbável em seu rosto transformou-se por instantes, o lampejo de um sorriso ao mirar o pupilo. Seu meio-sorriso desapareceu quando se lembrou do destino provável daquela criança. Desejava conceder-lhe um futuro melhor do que o seu, mas os caprichos do destino não atendiam a desejos humanos.

Mu de Áries tentava não apegar-se tanto ao passado. A data, porém, não permitia que ele tivesse este luxo. Eram dez anos sem seu mestre. As lembranças da noite de sua fuga pareciam ainda mais nítidas em sua mente.

O fato de ter retornado havia pouco tempo de Rozan apenas deixava tudo mais complicado. Estar com Dohko era sempre uma experiência intensa. Ambos carregavam bagagens repletas de dor que, no entanto, eram sentidas de modos diferentes. Ainda era difícil encarar o ancião sem pensar no que poderia ter sido se seu mestre ainda estivesse vivo, em como seriam aqueles reencontros com Shion — como deveriam ser.

Finalmente, estava em casa. Vagou pelos cômodos do antigo pagode em Jamiel. Seu pequeno aprendiz dormia profundamente, sereno, tão diferente de como era durante o estado de vigília. Desperto, Kiki certamente faria alguma travessura. Mu não poderia deixar de sorrir.

Quando o acolheu, sentiu-se de certa maneira mais próximo a Shion. Considerava fantástico acompanhar as pequenas conquistas de Kiki, o aprimoramento quotidiano. Orgulhava-se daquele garoto. Era inevitável perguntar-se se seu mestre também sentira o mesmo.

Sentou-se à mesa da biblioteca. O livro que Shion deixara sobre ela permanecia ali. Não que Mu nunca o tivesse movido. Pelo contrário, ele estava constantemente folheando aquele volume, apenas para depois deixá-lo exatamente no mesmo local. Era uma tentativa infrutífera de conectar-se com Shion, compreendia aquilo, mas não conseguia forçar-se a parar.

Naquela noite não seria diferente, embora já soubesse a posição de cada uma das estrelas nomeadas e apontadas naquele livro. Custava-lhe admitir, mas se sentia perdido sem a presença do mestre. Não lhe parecia certo... Afinal, já tinha dezessete anos. Deveria saber viver sem orientações.

Pensara que sabia viver sem Shion, quando o mestre retornava à Grécia, e o deixava sozinho por semanas. E era verdade que Shion ensinou o pupilo a sobreviver sem a sua presença e supervisão. O que ele desconhecia era que Mu se esforçava porque sabia que, quando menos esperasse, seu mestre estaria de volta, e o garoto ansiava por vê-lo orgulhoso de seus progressos.

O amadurecimento forçado pela perda deixou marcas que Mu preferia ignorar. Tentava enterrá-las a fundo, nos dias em que as lembranças tornavam-se pesadas demais, nos dias em que se sentia culpado. Quando isto acontecia, ele trabalhava em um volume ainda maior de armaduras. Aquele tipo de distração parecia bem-vindo. Colocar-se ao serviço de restaurar algo fazia com que se sentisse útil.

Passos leves e rápidos, seguidos por um bocejo infantil, romperam o silêncio. Mu observou a pequena figura que quase se arrastava para seu colo, os olhos azuis semicerrados com o peso do sono, os fios ruivos em desalinho. Admirava-se com a possibilidade de afeiçoar-se tão rapidamente a uma criatura tão diferente de si.

Os livros de puericultura encontrados nas estantes de Shion — após tantos anos, e eternamente, Mu pensaria nelas como as estantes de seu mestre — os manuais e revistas sobre educação de crianças repentinamente pareciam-lhe inúteis, irrelevantes.

Acrescentou a variedade de publicações naquela biblioteca às coisas que jamais compreenderia sobre Shion, embora entendesse bem o motivo de ter manuais de anatomia ou publicações sobre cuidado com crianças por ali. Os documentos sobre botânica do Himalaia já se mostraram um tanto úteis para Mu, em várias ocasiões. Era apenas algo típico de seu mestre, colecionar manuais e documentos de todos os tipos.

Teria Shion se sentido tão perdido quanto Mu, quando finalmente acolheu um pupilo? Logo Shion? Mu ainda pensava em seu mestre como alguém infalível. Surpreendera-se com o próprio tato e — por que não? — talento para cuidar daquela criança confiada a ele.

— Algo errado? — O tom cuidadoso e suave na voz de Mu provocou certo estranhamento no garoto. Kiki quase esperava por um sermão; seu mestre costumava ser muito atencioso com a rotina do aprendiz, o que envolvia a hora de dormir.

— Não consigo dormir. — A resposta chegou-lhe aos ouvidos em um tom sonolento e arrastado.

— Tudo bem. Nós teremos um visitante em breve. Quer ficar aqui? Posso ler para você, se quiser. — As leituras eram uma atividade frequente; tornaram-se ainda mais habituais quando Mu começou a alfabetizar Kiki. Parecia-lhe que o tempo transcorria depressa. Dedicavam-se àquelas atividades havia quanto tempo?

— Uma visita? Tem muito tempo que ninguém vem. É mais uma das suas adivinhações? — Aos cinco anos, era natural que Kiki acreditasse em explicações mágicas para os acontecimentos.

— Não é uma adivinhação, Kiki. É um padrão.

— Um padrão?

— Sim, Kiki, um padrão. — Mu confirmou com um sorriso afetuoso. — Um padrão é algo que se repete. Há alguns anos nosso visitante vem aqui nesta mesma data, nesta mesma hora.

Precisou lembrar-se de que seu pupilo não era mais uma criança tão nova e que certamente sabia o significado daquela palavra. Mu ensinara-lhe bem, afinal.

— Não me lembro de ninguém vindo aqui a essa hora.

— Você ainda era muito pequeno.

— Cresci bastante! — Uma careta de indignação tomou conta do rosto da criança. — O bastante para me lembrar se alguém veio ou não no ano passado.

Mu sorriu. Ainda maravilhava-se com a ideia de alegrar-se tanto ao acompanhar — e ser parte importante do processo — o crescimento e amadurecimento de uma criança.

— Você estava dormindo no ano passado. Você conhece o nosso visitante, porém. Tente não fazer muitas travessuras com ele, a menos que ele te irrite.

Pela quinta vez, Shaka realizava o percurso já conhecido. Para ele, o pagode era imutável. Uma construção sólida capaz de resistir à passagem de séculos, à passagem de habitantes impermanentes.

Franziu o cenho para a porta inexistente. O silêncio entrecortado apenas pelos ventos e a falta de movimentação poderiam enganar a qualquer outra pessoa. A percepção de Shaka, contudo, segundo ele mesmo, era impecável.

Elevou levemente o cosmo, um aviso de sua presença. Não que fosse necessário. Sabia que Mu já o esperava. Dois anos antes, recebera uma carta avisando-lhe que não encontraria ninguém naquele local remoto. No fim de mundo, foram as palavras escritas por Áries, repletas de ironia. O impulso de Shaka foi contrariar e aparecer mesmo assim. Não o fez, porém, pois não seria sensato.

— Sei que estão aí.

A resposta materializou-se na forma do já conhecido garoto ruivo. Ele havia crescido consideravelmente desde a última visita de Shaka.

— Mestre Mu me disse que teríamos visitas, mas eu não imaginei que fosse você.

Kiki mostrou-lhe a língua e, simultaneamente, fez alguns pedregulhos levitarem. Não compreendia exatamente o quê, ou por qual motivo, mas considerava Shaka um tanto chato. Além do mais, não gostava de quando Mu dava atenção demais para a outra pessoa em sua própria casa. Uma coisa era quando estavam fora, em busca de suprimentos, ou em viagens esporádicas. Outra, bem diferente, era dividir a atenção que era quase exclusivamente sua no único lar que conhecia.

— Não ache que não vi isso, seu diabrete!

O pequeno tibetano desconcentrou-se, deixando as pedras caírem, quando sentiu a presença de seu mestre atrás de si. A poeira resultante do impacto cobriu a Shaka e a Kiki com uma fina camada.

— O que é isso?

— É só um treino, mestre Mu! — A criança sorriu abertamente. — Acho que a visita chegou.

— Vejo que você realmente melhorou a recepção da sua casa, Mu. — O sorriso de Shaka era um desafio. — Finalmente, depois de tantos anos...

Mu recebeu o comentário com aparente indiferença. Poucos eram os que se aventuravam e eram bem-sucedidos em encontrá-lo. Mais raros ainda eram os que retornavam ano após ano.

Neste ínterim, estava quase se habituando à presença ocasional de Shaka. Não mais sentia vontade de expulsá-lo. Ainda era cedo para confiar nele, portanto Mu vigiava-lhe implacavelmente.

Adentravam um território sem definições. Ainda possuíam mais dúvidas do que certezas. Mas, àquela altura dos acontecimentos, havia algum prazer em desvendarem as motivações um do outro. Ambos acabariam por constatar que era o prazer das descobertas — o fato de conhecerem-se, de desvendarem-se, pouco a pouco — o que os movia.

Adquiriram uma espécie de proximidade cautelosa desde o último encontro. Quaisquer revelações e quaisquer tentativas de aproximação seriam feitas de forma gradual. As provocações habituais tomavam menos tempo e menos espaço entre eles. Ainda ocorriam, evidentemente, e por vezes eram intensas o bastante para que ambos se perguntassem o que, exatamente, estavam fazendo um com o outro.

Mesmo que suas visitas fossem pouco frequentes, a torre de Mu tornara-se uma espécie de segundo lar para Shaka. Naquele dia, porém, o cavaleiro de Virgem parecia inusualmente inquieto: algo que não passou despercebido para Mu.

— Mu, você deveria voltar — urgência somava-se às notas de pesar na voz do indiano.

O cavaleiro de Áries desviou o olhar por um átimo. Quando tornou a fitar Shaka, sua voz e sua expressão não demonstravam emoção.

— Não se engane, Shaka. Não tente me enganar. Sei muito bem que não seria bem recebido por lá. Não mais. Tenho um aprendiz, agora. Jamiel é o local ideal para treiná-lo.

— Nada impede que você treine seu pupilo no Santuário.

— De fato, não. Mas aqui seria ideal. Seria o desejo de…

Antes que pudesse se censurar, sentiu-se agradecido — pela primeira vez — pela mania de Shaka de interromper o discurso alheio sem se preocupar com a diplomacia. Quase denunciara-se. Quase sentia-se um criminoso. Não estaria muito longe da verdade, considerando seu status de dissidente.

— O desejo de quem? Isto não passa de um capricho.

Mu pestanejou. Sabia que não poderia vacilar. Sabia sobre a posição de Shaka como conselheiro do Grande Mestre — ou melhor, do impostor que se passava por Grande Mestre. Isto tornava tornava a relação já delicada entre eles ainda mais frágil.

Ademais, Mu não gostaria de esconder todas as suas suspeitas — que, àquela época, já tinha como confirmações — mas sabia que era necessário não deixar nada disto transparecer. Sabia que era necessário agir e falar apenas no tempo certo.

Não era mais apenas a própria segurança que estava em risco: agora Mu via-se responsável por uma criança, e era incapaz de imaginar alguém fazendo mal a Kiki.

— O desejo de nosso povo. Jamiel tem sido o local de treinamento para nós há gerações e não há motivos para mudarmos.

Os olhos de Shaka não descerrar-se-iam durante aquela visita. Entretanto, Mu era capaz de sentir a intensidade do olhar lançado sobre si, mesmo sob as pálpebras fechadas.

— Os recursos e suprimentos necessários para um restaurador de armaduras são mais facilmente encontrados aqui. Não é algo tão difícil de entender.

Era mais do que aquilo, porém. Havia muito do que proteger uma criança no vasto mundo fora daquela cordilheira. Mu não se sentia preparado para enfrentar um ambiente onde, talvez, sua presença não fosse benquista.

— Anos já se passaram, Mu. Não haveria prejuízo para o seu aprendiz se você retornasse.

— É a voz da razão falando? Porque, para mim, parece que você quer entregar não apenas a minha, mas também a cabeça de Kiki de bandeja para o Santuário.

— Não pode me conceder um voto de confiança? — A nota de mágoa de naquelas palavras foi percebida fácil e imediatamente por Mu.

— Confiança, você diz?

— Acredito que você conheça o significado disto, Mu.

O olhar de Áries sobre Shaka foi grave e prolongado.

— Conheço muitas coisas, Shaka de Virgem. O que eu desconheço e impede que eu dê o tal voto de confiança, são as razões para a sua presença constante aqui.

Não era um confronto novo para os dois. Era apenas mais uma das perguntas que Shaka deixava sem respostas. E não ter respostas, ainda mais tão importantes quanto aquelas que Shaka recusava-se a dar, causava extrema irritação em Mu.

Descortinara, ao longo daqueles anos, algumas camadas do cavaleiro de Virgem. Existiam partes de Shaka, contudo, que permaneciam ocultas ao discreto porém insistente escrutínio de Áries. Mais uma vez, a sede por respostas de Mu não seria satisfeita. Passara a desconfiar que Shaka, na verdade, apreciasse sua companhia, mas quão errado poderia estar?

E Mu estava disposto a desvendar cada nuance do cavaleiro de Virgem. Mal sabia que Shaka tentaria retribuir. Tentaria desvendá-lo… E compartilharia da mesma frustração, pelo menos naquele momento.

Quando Shaka finalmente partiu, Mu não saberia dizer se era alívio ou preocupação o sentimento que prevalecia. Havia uma certeza, contudo: aquela rotina ainda estava longe de encerrar-se.

Notas finais
Como o usual, estou sempre aberta a quaisquer comentários que tenham, caso queiram fazê-los.