Ela não acreditava no que estava vendo. Não acreditava que Malfoy podia estar na sua frente, no Orfanato que havia escolhido aleatoriamente para passar o dia de Natal. Pelo amor de Deus, aquilo não podia ser apenas coincidência!

Malfoy parecia estar muito incomodado com a situação.

– Granger, o que está fazendo aqui? — Ele perguntou, desanimado.

– Bom, vejo que já se conhecem. – Interviu a diretora, parecendo estranhamente satisfeita. – A senhorita Granger acabou de se tornar uma de nossas bem feitoras, senhor Malfoy.

– É mesmo? – Malfoy pareceu impressionado por alguns segundos. Hermione apenas forçou um sorriso visivelmente falso na direção dele, que se virou para a diretora, empertigado. – Eu já estou indo para a Ala Sul, passo aqui quando estiver indo embora.

– Certo, certo.

– Até… Mais, Granger.

Malfoy deu as costas às mulheres e andou pelo corredor de pedra até desaparecer de vista quando tomou o caminho da esquerda em direção a Ala Sul. Semicerrou os olhos para o local que ele havia acabado de passar. O que havia acabado de acontecer?

Aparentemente, ele não havia ficado feliz com a descoberta de Hermione. Será que ele também passava todos os seus Natais no Orfanato? Se sim, onde estava sua família? Ela foi tirada de seus devaneios ao ouvir o pigarro discreto da diretora. Viu a secretária abafar uma risadinha e a diretora Herman sorriu condescendente.

– Estamos acostumadas com a reação das mulheres ante a presença do Sr. Malfoy.

Enfim, percebeu o motivo dos olhares cúmplices entre as duas mulheres que trabalhavam no Orfanato.

– Ah… Não é nada disso… Vocês estão…

– Venha, Srta. Granger, vamos conversar. – Herman dispensou com um gesto suas explicações sobre suas reações quanto a Malfoy e adentrou sua própria sala.

Hermione olhou a secretária, que apenas deu de ombros, sorrindo. Ela não parecia tão recatada quanto às outras mulheres que havia conhecido naquele dia. Evitou um revirar de olhos e seguiu pelo mesmo caminho da diretora.

Ao contrário do que esperava, a sala da diretoria do Orfanato St. James era muito simples. Havia alguns quadros de antigos diretores e diretoras cobrindo as paredes de pedra, assim como uma estante de livros atrás da escrivaninha de madeira escura. Documentos e mais documentos atulhavam esta. As cadeiras eram acolchoadas com um veludo vermelho e havia um discreto vaso de flores num aparador embaixo da janela.

– Não mencionou que conhecia o Sr. Malfoy quando nos falamos há dois dias.

Herman acomodou-se atrás de sua escrivaninha. Apesar do tom de voz doce e da expressão tranquila, Hermione pode perceber a verdadeira intenção da diretora ao tentar manter o tom indiferente de sua pergunta.

– É uma longa história. – Deu de ombros. – Eu mesmo não sabia que ele era bem feitor desse orfanato.

– Um dos mais antigos, se que saber.

– Interessante. – A diretora sorriu, com nostalgia.

– O senhor Malfoy foi um milagre que aconteceu numa das horas mais difíceis do nosso lar. Estávamos para fechar quando ele apareceu oferecendo ajuda. – Ela entrelaçou as mãos sobre a mesa. – Quer dizer, não tínhamos dinheiro para manter um lar nos moldes que a Assistência Social desejava, mas então ele apareceu e fez tudo que era preciso para que o Orfanato voltasse a funcionar. Foi realmente um presente enviado por Deus.

Hermione franziu o cenho. Malfoy ajudando as pessoas sem pedir nada em troca? Isso estava muito estranho, realmente.

– Bem, isso é ótimo, do contrário eu não estaria aqui hoje. – Sorriu, tentando tirar o episódio ocorrido a pouco da cabeça. – Eu realmente adorei passar parte do meu dia aqui.

– Como eu disse, as crianças tendem a se sentir mais depressivas em datas comemorativas. Elas sentem falta de entes queridos, dos laços consanguíneos que as une a eles, entende? – Acenou afirmativamente. Estava começando a admirar aquela mulher que, assim como Hermione, havia escolhido passar o dia de Natal ali, com suas crianças. – Nós realmente fazemos de tudo para suprir todas as necessidades delas, mas obviamente a superficialidade de presentes não pode substituir a emoção de um abraço de um pai ou uma mãe.

– Você… Tem toda razão. – Afinal de contas estava passando por uma situação semelhante há muitos Natais e só agora havia encontrado uma alternativa para que a data fosse menos solitária para ela. – Eu realmente quero vir aqui mais vezes, não apenas no Natal, percebi que as crianças gostam de receber visitas.

– Os menores são uma alegria, não é?

– Tem uma garotinha, o nome dela é Liesel…

– Ela mudou-se para cá há apenas dois meses, ainda está se adaptando. – Disse Herman. – O começo é sempre o pior, principalmente quando já estão crescidos e entendem, mesmo que em partes, o que está acontecendo. No caso de Liesel, ela perdeu pai e mãe ao mesmo tempo e nenhum familiar manifestou vontade de cuidar dela.

– Eu não entendo. Como as pessoas podem não gostar de uma garotinha como ela? – A diretora suspirou, tristemente.

– Este é o mundo no qual vivemos, Srta. Granger. – Deu de ombros. – Talvez tenha sido melhor assim, quem sabe o que poderia acontecer caso tivesse ficado com um parente displicente.

– Faz todo o sentido. – Hermione levantou-se. – Diretora, eu realmente agradeço pelo dia.

– Hermione, somos nós que agradecemos. – Herman a acompanhou até a porta. – Adoramos receber visitas, isso mostra que ainda existem pessoas capazes de pensar no bem do próximo. Esperamos que venha mais vezes.

– Eu vou vir, pode ter certeza. Tenha um Feliz Natal.

– Um ótimo Natal para você também, Srta. Granger.

Apertou a mão da diretora e deu às costas a ela. A secretária não estava mais em sua mesa.

Percorreu os corredores sem pressa, pensando em como seu dia havia sido ótimo. Desde o início fora bem recebida nas acomodações do Orfanato e tinha certeza de que voltaria mais vezes.

Sorriu ao lembrar-se de Liesel. Ela se adaptaria, tinha certeza. Não podia esquecer do livro que prometera, mas sabia que não deixaria sua promessa passar em branco. Não para aquela garotinha que a lembrava tanto quando criança – quieta, sempre com um livro na mão, preferindo a leitura às conversas paralelas sem sentido.

Ainda com um sorriso no rosto, virou para o Corredor principal, mas pulou de susto ao deparar-se com Malfoy, encostado a parede com ambas as mãos nos bolsos e a cabeça abaixada.

– Malfoy! Você quase me matou de susto. – Ela quase grunhiu com uma das mãos sobre o peito.

– Achei que nunca sairia daquela sala.

– Eu tinha que conversar com a diretora. – Deu de ombros, ainda se recompondo. Tentava fazer o sangue correr mais devagar nas veias.

– O que está fazendo aqui?

Malfoy foi direto ao ponto, desencostando-se da parede. Agora estavam frente a frente e Hermione podia ver uma pequena cicatriz perto da sobrancelha direita. Teve vontade de perguntar onde ele havia conseguido a marca, mas ali o foco era outro.

– Você não ouviu? Sou uma bem feitora do orfanato agora.

– Por quê? – Ele disse entredentes, chegando ainda mais perto. Hermione então se encostou na parede, tentando manter distância.

– E desde quando eu devo satisfações a você, Malfoy? – Disse descrente, cruzando os braços. – Por favor, não é?

Aparentemente, Malfoy estava levando muito à sério a questão de mantê-la longe do Orfanato, pois seus olhos não mudaram o brilho em momento algum e neles Hermione via apenas uma coisa: determinação.

– Não quero que venha mais aqui.

– Sabe, a diretora contou a sua história com o Orfanato. Ela te vê como um herói, sabia? – Isso pareceu atordoá-lo, mas continuou em tom baixo para apenas ele ouvir. – Que ironia, não? Há alguns anos, você era exatamente o oposto.

– Chega, Granger.

Malfoy deu às costas a Hermione, passando uma das mãos entre os cabelos. Então ela pôde ver. Era algo que não havia reparado até agora, mas que em algum momento chamaria sua atenção. Ele ainda usava o tradicional anel da família Malfoy, com um ‘M’ lindamente floreado. Apesar de sua beleza inegável, impunha uma aura de medo a quem o visse usando-o, como se fosse necessário temê-lo apenas por causa de um simples anel.

Devido ao pequeno, mas inegável, fato de que Draco continuava a usar o anel de sua família, por que devia acreditar que ele havia mudado tanto, como estava afirmando desde que haviam se reencontrado? Usar aquele anel significava acreditar nos valores que a família Malfoy pregava e, principalmente, segui-los.

– Malfoy… — Estava pronta para contestá-lo, mas foi interrompida.

– Eu não sou o vilão dessa história, Granger. – Ele se virou para Hermione, falando muito baixo. – Muito pelo contrário, se analisar bem, a vilã é você mesma. Você e suas limitações.

– Não sei de que limitações está falando. Se estamos falando de limitações, por que não falar das suas?

– Você não me conhece. – Há essa altura, ambos tentavam manter a conversa a nível particular.

– Conheço bem o suficiente para saber que as suas limitações são determinadas por esse anel que carrega no dedo até hoje.

– Esse anel não é mais do que uma joia de família.

– Me poupe, Malfoy, ambos sabemos o que esse anel representa e quais são os valores da sua estimada família!

– Você não sabe de nada, você não tem o direito de julgar minha família ou a mim sendo que escolheu ir embora anos atrás. Então, me faça o favor, e use argumentos concretos por que os seus já estão batidos demais!

Hermione quase arregalou os olhos com o choque. Pela primeira vez concordava com algo que ele havia dito. Apesar de não acreditar inteiramente nessa história de perfumista, não sabia o que havia acontecido com Malfoy ou sua família e odiava estar errada.

Respirou fundo, o orgulho estava estampado no rosto dele para quem quisesse ver. Se ele tivesse mudado, apenas se, ainda era um Malfoy e carregar aquele anel era amostra de orgulho. Qualquer um, seja no mundo trouxa ou bruxo, ficava admirado ao se deparar alguém usando um anel de família. Mas poucos tinham a infelicidade de saber o que um anel como aquele significava para uma família como a de Malfoy.

– Não vou parar de vir aqui só por que você quer e este assunto está encerrado.

Virou as costas para o mesmo, com intenção de chegar à saída o mais rápido possível, sem dar atenção à última frase de Malfoy.

– Você que pensa, Granger.

Notas finais
Então... Estamos começando a entender o QUE ele estava fazendo lá. Eu até iria deixar um mistério no capítulo anterior, mas no último momento resolvi que vcs não deviam sofrer um pouco mais com a falta de Draco na história. Ele estava precisando de uma aparição, eu reconheço, okay! Tomara que tenham gostado do embate entre eles nesse capítulo, eu amei escrever :)) Eu ainda pretendo aprofundar essa parte do orfanato no ponto de vista do próprio Draco, mas não vamos apressar as coisas, certo? Gente muito obrigada pelos comentários! É realmente sensacional ver as pessoas gostando do que você se esforça para escrever com o maior cuidado para não haver erros, tanto no enredo da história quanto na construção dos personagens. E, como sempre, continuem deixando a opinião de vocês, eu considero muito esses comentários!! x-------x Como essa é semana do meu aniversário, vocês vão ganhar um presente!! É apenas uma prévia do próximo capítulo e da noite de Natal misteriosa que a Hermione teve: A lágrima fria que escorreu por sua bochecha, porém, logo foi esquecida quando avistou algo que não deveria estar ali. Estava embaixo de suas vestes antigas da Grifinória, mas tinha certeza que nunca havia estado ali em momento algum. x---------x Bjobjo, até o próximo!!