O quarto disponibilizado para Hermione na Mansão Malfoy era enorme, mas não podia esperar menos de um simples quarto de hóspedes daquela família. A decoração era clássica, com cores neutras e objetos decorativos impessoais, apesar do expressivo bom gosto de quem os havia colocado ali.

A cama de dossel com lençóis de linho egípcio parecia convidativa, uma dor de cabeça havia se iniciado assim que saíra da sala onde os Malfoy estavam, mas se encontrava sentada perto da janela, numa poltrona confortável de veludo vermelho, as pernas enroladas embaixo do corpo.

Tudo que Narcissa havia lhe dito fervilhava em sua mente, era inevitável. Não esperava que a mulher fosse recebê-la com pedras na mão, a nítida vontade de machucá-la perceptível demais para qualquer um naquela sala.

Odiava ser "a hóspede" daquele lugar e detestou Draco por alguns momentos por levá-la até lá. Quem ele estava querendo enganar? Os Malfoy sempre a detestariam. Havia sido criada por gente com valores totalmente diferentes e sempre seria a amiga de Harry Potter, aquela que havia ajudado a derrotar o Lorde que eles seguiam. Entretanto, sabia também que as intenções do loiro eram as melhores e ela teria de ser forte — por si mesma — e lidar com os pais dele da melhor forma possível.

O que mais surpreendera Hermione, apesar de tudo, foi a forma como Narcissa insistiu em defender Bellatrix Lestrange, como se ela quisesse ter sido — naqueles tempos longínquos — uma mãe zelosa, quando tinha certeza de que a mesma apenas queria uma herdeira para continuar o nome da família, assim como havia sido com Draco e seu dever de não deixar morrer o sobrenome 'Malfoy'.

– Eu fiz por você o que não pude fazer pelo meu próprio filho. — Falou Narcissa. — Não espero agradecimentos, mas seria bom lembrá-la de que fui eu quem a livrou das garras do Lorde das Trevas.

– Obrigando a própria irmã a abrir mão da filha. — Retrucou Hermione, consciente de que aquela discussão já estava ultrapassando o limite do aceitável e que Draco tinha os olhos sobre ela, parecendo avisá-la para não insistir naquele assunto. — É realmente incrível o que se pode fazer com o que é dos outros. Mas não pense que estou reclamando, ter sido criada pelos Granger foi a melhor coisa que me aconteceu, considerando toda a situação.

– Eu não obriguei Bellatrix, a fiz pensar com a razão. — A Sra. Malfoy pareceu um tanto indignada por sua afirmação e pareceu pensar melhor ao continuar, mudando o tom para algo mais propositalmente impessoal. — Depois de presa, sua mãe me contatou da prisão, quando ainda não estava tomada pela loucura, concordando que havíamos feito o melhor ao entregá-la. Ela não quis nem mesmo saber quem era a família que a estava abrigando.

Hermione já estava farta de ouvir todas aquelas coisas sobre Bellatrix e os Lestrange, a família que nunca teve, a família da qual não desejava ter feito parte. Presenciar Narcissa defender a irmã à qualquer custo era frustante e surreal. A mesma era uma assassina confessa e ainda assim possuía pessoas que a defendiam devido a laços sanguíneos e valores familiares — os mesmos que Draco dizia ter. E ter consciência, mais do que nunca, de que essa mulher cruel e sanguinária era sua mãe a deixava nauseada de uma maneira que há muito não ficava.

– Não importa o que diga, nunca vou enxergar Bellatrix como alguém capaz de amar um filho, nunca.

Estava há horas pensando sobre seus conceitos e Bellatrix. Lá fora, a chuva havia cessado, embora os jardins estivessem completamente encharcados. A noite havia chegado há poucos minutos e a lua crescente tentava encontrar espaço entre as nuvens pesadas, aparecendo timidamente.

Draco havia dito que precisavam da lua crescente visível no céu ou o ritual não funcionaria e teriam de esperar para o dia seguinte. Hermione, porém, queria terminá-lo o mais rápido possível e ir embora, não queria ficar ali mais do que o necessário. Estava agindo como uma covarde? Sim, mas não era a primeira vez.

Suspirando resignada, Hermione levantou-se e seguiu para o enorme armário de roupas que ficava perto da porta do banheiro. Haviam passado em sua casa e colocado mais roupas na mala antes de aparatar para a Mansão Malfoy, Draco insistira que não poderia ir até lá sozinha. Entretanto, constataram que o invasor não lhe deixara nenhuma surpresa ali, o que era um tanto frustante. Onde ele estava? Por que não aparecera após o ataque a Nina? O que estava planejando?

Tudo bem, essas perguntas já a estavam tirando do sério e detestava questões sem resposta. Pegou uma troca de roupas aceitável e foi para o banheiro. Era maior e mais luxuoso do que necessário, apesar de estar dentro dos padrões Malfoy de beleza. Tudo ali era de mármore escuro com detalhes em dourado (como as torneiras), que ela não duvidava que fossem de ouro. Ignorou a enorme banheira retangular que ocupava quase uma parede inteira e entrou embaixo da ducha, assim que tirou toda a roupa.

A água quente descendo por sua cabeça a relaxava de tal maneira que não queria sair dali tão cedo, embora o estômago começasse a reclamar. Não havia comido nada desde o rápido almoço na Mansão Malfoy — Draco havia aparecido do nada e a apressado para que saíssem o mais rápido possível, pois ele ainda precisava preparar tudo para o ritual.

Hermione lera várias vezes o que aconteceria e perceber que sua pele seria cortada para que a magia retornasse através do sangue dado de bom grado por um parente próximo a deixava temerosa. Não ficaria ligada e depende dessa pessoa após o ritual? Teria que arriscar e descobrir as consequências ela mesma — pois o diário e o livro não dizia nada concreto sobre isso -, tinha consciência de que era sua única chance para reaver a magia perdida e o invasor ainda estava solto por aí.

Desligou a ducha, minutos depois, e buscou a toalha grossa e felpuda, enrolando-se na mesma. Porém, não conseguiu engolir o grito quando viu a figura fantasmagórica pairando sobre a água da banheira — que sequer estava cheia quando entrara no box -, uma janela de vitrais góticos que formavam uma flor, logo acima da banheira, a tornando ainda mais surreal.

– Não grite.

Instintivamente, colocou a mão sobre a boca, a outra segurando a toalha firmemente ao redor do corpo. Não era uma Malfoy, não estava acostumada à presença de fantasmas. Valerie sorriu e inclinou a cabeça para o lado, num gesto infantil. Olhando melhor, ela não parecia ter mais de 15 anos, o fato de não ter cabeça para suportar a morte precoce do marido poderia ser facilmente explicado considerando que se tratava de uma criança vivendo a vida de um adulto.

– O que você quer?

– Você é diferente, posso ver. Não é o que esperavam para a herdeira de um Lestrange.

– Bem, não posso fazer nada quanto a isso. — Respondeu orgulhosamente, mais tranquila com a presença da outra.

– É claro que não. — A fantasma se aproximou. — Ouvi sua conversa com Draco na sala do piano.

– Sobre isso, er... Me desculpe, sei que não foi educado.

– Nós, fantasmas, ouvimos tudo que se passa, apesar de não parecer. — Ela piscou demoradamente, os modos de uma princesa ao passar os dedos levemente sobre a pétala de uma única flor no vaso de cristal sobre a pia. Com alguma surpresa, viu os dedos da fantasma atravessar a matéria da flor. Como, então, ela conseguia tocar o piano? — Há muito tempo a Mansão não fica tão movimentada, desde os tempos de Voldemort. Os Malfoy queriam uma novidade e você representa isso no momento.

– Ah, então sou a nova distração da família. — Disse, ironicamente, saindo do quarto, esperando que Valerie a deixasse para que pudesse se trocar. — Que ótimo.

– Nunca vi Draco se preocupar tanto com alguém. — Hermione parou e encarou a fantasma, ciente de que ela havia dito aquilo para chamar sua atenção. Saber o que alguém, além dela mesma, pensava sobre Draco poderia ser interessante. — E ele se preocupa com você desde que era apenas um menino.

– O que quer dizer com isso? — Valerie passou por ela flutuando, as vestes esvoaçando atrás de si, em direção a janela.

– Ele tentava mascarar o interesse por você usando o ódio pelos trouxas plantado por Lucius, mas lembro claramente das férias de verão em que ele só falava de Hermione Granger. — A fantasma a encarou, teve a impressão de que ela não sorria, nunca. — Bem, Narcissa também percebeu o interesse mal disfarçado.

– Está insinuando que Draco...? — Apenas a hipótese a deixava um pouco temerosa.

– Não estou dizendo que ele é apaixonado por você desde menino, isso soa romântico demais, mas a curiosidade sempre esteve presente. — Valerie aproximou-se da porta e se virou mais uma vez, antes de atravessá-la. — Pense sobre isso.

Perturbada, Hermione sentou-se, ainda enrolada na cama, encarando o chão. Tudo bem, era perturbador saber essas coisas sobre Draco. Era... Estranho demais saber que ele pensava nela quando eram apenas crianças que deveriam se odiar; que havia falado dela para seus pais nas férias de verão, enquanto fazia de tudo para aproveitar suas próprias férias ao lado dos pais e raramente a figura de Malfoy lhe passava pela cabeça.

Sentiu-se um pouco culpado ao fazer tal constatação, mas lembrou-se de que o próprio Malfoy fazia por merecer e, naquela época, o encarava como o garoto preconceituoso que infelizmente era seu colega de escola. As coisas haviam mudado, Hermione sabia disso, mas não estava preparada para lidar com a misteriosa curiosidade de Draco — não prestes a participar de um ritual e tendo que lidar com os pais dele como se fossem seus inimigos.

Levantou-se e vestiu apressadamente o vestido que havia escolhido — preto e discreto — não queria parecer um farol em meio à toda aquela escuridão. Percebeu que Narcissa estava sempre arrumada e não queria dar motivos para que ela a criticasse ainda mais. Deixou os cabelos soltos e passou uma leve maquiagem, escolhendo um salto antes de sair.

Percorreu os corredores escuros e desceu as escadas de pedra, sem dificuldades, haviam feito questão de colocá-la num quarto onde poderia sair e se locomover sem a ajuda de ninguém, pois aquela mansão era enorme. Entretanto, assim que ultrapassou o saguão e se aproximou da sala de estar pode ouvir vozes exaltadas.

– ... Não acredito que trouxe uma sangue-ruim para dentro de nossa casa! — Era a voz de Lucius, por isso estacou onde estava, instantaneamente.

– Ela não é uma sangue-ruim! — A voz de Narcissa se elevou, o que a surpreendeu. — Hermione é filha de Bellatrix e você sabe muito bem disso.

– Ela é a responsável por estarmos onde estamos hoje, ela ajudou Harry Potter a nos derrotar...

– Não a culpe pelos seus erros, Lucius. — Draco falou, a voz contrastando com a fúria no tom do pai.

– Sabe, não me surpreende que a esteja defendendo, Draco, esse seu fascínio por essa garota não...

Nesse instante, uma mão circundou seu braço e a puxou para longe dali, enquanto a outra tapava sua boca. Ainda tentou se soltar, mas não conseguiu antes de ser levada pelas escadas novamente e empurrada para dentro de uma sala, que descobriu ser a biblioteca — enorme e repleta de livros dispostos em prateleiras que iam do teto ao chão.

– Sim, você está causando uma briga familiar, Granger.

Virou-se para dar de cara com o sorriso prepotente de Theodore Nott.

Notas finais
Ooooiii!! Eu sei que sou cruel, demorei mais do que devia, vocês devem estar querendo me matar, mas é que eu simplesmente não conseguia pensar em algo útil para escrever pra vocês. ME DESCULPEM!! Sinceramente :'( Então... Cheguei a conclusão de que eu não poderia fazer o ritual neste capítulo, pois deveria colocar as impressões de Hermione depois de tudo que Narcissa disse a ela. Resolvi colocar o final da "conversa" entre elas e já deu para perceber que Hermione quer distância da Sra. Malfoy, né? Acalmem-se, vocês leram o final, a mesma Narcissa estava a defendo!!! Tudo isso acontece por que a história é pelo ponto de vista da Hermione, então são as impressões e opiniões dela, mas já sabemos que as coisas são bem mais complicadas do que isso, certo? Me digam se gostaram, please!! E Valerie!! Percebi que vocês ficaram bem curiosas em relação a ela! Bem, como vocês devem ter notado, ela é uma fantasma informada e serviu para colocá-la para pensar sobre Draco. Hermione está com medo, é claro, não é em qualquer esquina que se descobre que Draco sempre foi mais curioso do que o normal em relação a ela. Bem, Valerie basicamente não vai sumir!! E o finalzinho?!! Hermione a sós com Nott *-* Vamos ver algumas cartas na mesa no próximo capítulo!! E, sim, o ritual também vai acontecer (chega de enrolação), eu já o estruturei!! :D Eu to muito ansiosa, serio! Muito obrigada pelos comentários, gente, por um momento pensei que meus leitores mais fieis estivessem me abandonando, MAS NÃO, vocês estão aqui!! :D Obrigada mesmo! Espero que comentem suas impressões sobre tudo que aconteceu no capítulo. POR FAVOR!! kkkkkk Bjão, galerinha, até o próximo!!