– Certo, vamos começar pelos Comensais da Morte que foram exilados.

Hermione estava no térreo da casa de Malfoy. Ele havia acabado de fazer um movimento de varinha e uma das prateleiras repletas de livros moveu-se para o lado revelando uma sala secreta escura.

Ainda estava impressionada com o fato de ele ter se adaptado tão rapidamente com a cultura trouxa. Aliás, com o melhor da cultura trouxa. Havia quadros famosos que valiam muito dinheiro, aparelhos trouxas por toda a casa, música e livros.

– O Ministério exilou Comensais após a Guerra?

– Apenas os que possuíam a Marca Negra foram presos.

As luzes da sala foram acesas com um aceno de varinha revelando uma sala secreta. Havia uma mesa de mogno escuro, estantes cheias de livros de magia antigos e grossos e jornais antigos, dois sofás de couro marrom, um aparador com diferentes tipos de bebidas e alguns blocos de anotação sobre a mesa. Diferentemente dos outros cômodos da casa, esse era bastante desorganizado e Hermione supôs que ele refletisse Malfoy.

Ela parou de analisar as flores secas que estavam num vaso sob a mesa e olhou Malfoy. Ele estava examinando alguns exemplares antigos do Profeta Diário.

– E por que você e sua família não foram presos?

– Potter testemunhou a nosso favor.

– O quê?! – Hermione andou até ficar ao lado dele. – Harry livrou vocês da cadeia? Por quê?

– Minha mãe salvou a vida dele.

Isso era mais um choque para Hermione. Harry sempre havia odiado os Malfoy, principalmente Lucius, já que sua inimizade com Draco era apenas uma extensão das ações do mesmo. Era estranho demais pensar que ele havia testemunhado para livrá-los da prisão depois de tudo que acontecera no sexto ano.

– Lembra quando vocês estiveram na Mansão Malfoy antes da guerra? – Ele voltou à atenção para Hermione, que apenas meneou a cabeça. – No dia do julgamento, Potter contou que eu sabia a todo o momento que ele estava sob um feitiço. E também contou que, no dia da guerra, minha mãe mentiu para Voldemort dizendo que ele estava morto.

– Nossa…

– É, Granger, você perdeu muita coisa.

Narcissa certamente havia percebido que o lado de Voldemort estava perdendo. Os Malfoy, acima de tudo, jogavam por si. Eles eram uma família mais que unida, isso foi o que Hermione percebeu depois de alguns anos analisando o comportamento deles. Se um debandasse num momento tão importante como a guerra, os outros dois debandariam juntos, e deve ter sido isso que Narcissa havia feito.

Draco voltou à atenção aos jornais antigos.

– O que está fazendo?

– Nos jornais da época estão os nomes de todos os Comensais exilados e fugitivos. Podemos descartar os que foram presos, nenhum fugiu desde então.

– O Ministério não poderia abafar uma possível fuga?

– Kingsley é o Ministro, Granger, o Ministério da Magia agora é movido com transparência. Nada de resquícios do governo de Fudge. – Com um pouco de força, Draco conseguiu tirar alguns jornais que estavam embaixo de uma pilha enorme e os jogou sobre a escrivaninha, sentando-se atrás da mesma. – Sente-se, Granger, temos muito trabalho a fazer.

Suspirando, Hermione pegou uma pilha de jornais e sentou-se num dos sofás de couro com os pés embaixo do corpo.

Porém, quando abriu o primeiro jornal percebeu que não seria uma tarefa fácil. O mesmo estava cheio de notícias pós-guerra. Ela engoliu em seco, tentando concentrar-se apenas no que estava procurando, mas era impossível não ler todas as manchetes e pelo menos um trecho das matérias. “Ministério tenta renovar acordo de paz com os franceses”, “Tabu foi quebrado definitivamente após a morte do Lorde das Trevas, afirma Kingsley”, “Arquiteto renomado é contratado para dirigir reconstrução da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts”, “Conselho vota e Kingsley é eleito novo Ministro da Magia”…

Deus, aquilo estava sendo difícil demais! Nos primeiros jornais não havia nada de Comensais da Morte exilados, isso ela podia garantir. Uma olhada para Malfoy e Hermione podia garantir que ele havia sido mais sortudo do que ela. Ele copiava algo em um caderno olhando de vez em quando para o jornal que tinha em mãos.

Ao pegar o segundo jornal, percebeu que a matéria de capa era sobre “Potter, o Menino-Que-Sobreviveu-Duas-Vezes, vai se casar”. Havia uma foto de Harry e Ginny de mãos dadas entrando apressados na loja das Gemialidades Weasley. A nota dizia que a cerimônia seria para poucos convidados e que teria como padrinhos Ron Weasley, Neville Longbottom e suas respectivas namoradas, Lilá Brown e Luna Lovegood.

– Granger? – Ela o encarou, como quem era tirada de um devaneio. – Eu posso procurar sozinho.

– Eu estou bem, só… Estes jornais não estão sendo de grande ajuda.

Ela levantou-se e colocou os jornais sobre a escrivaninha parando ao lado dele para olhar o que havia anotado até então. De relance viu uma foto de McGonagall estampando a capa de um Profeta Diário que ele havia acabado de jogar para o lado.

– Meu Deus, ela é a diretora de Hogwarts?

– Foi, por um tempo. Agora, Longbottom já tomou posse do cargo. Parece que McGonagall percebeu que já estava velha demais para tanta responsabilidade. – Disse sem tirar os olhos do que estava fazendo.

– Não fale assim dela. – Podia estar há anos fora do mundo bruxo, mas McGonagall ainda era especial.

– Não se sinta ofendida, Granger. – Ele lhe lançou um sorriso irônico, no que Hermione retribuiu sem hesitar. – Esses aqui são os Comensais exilados. Um desses nomes te lembra… Algo?

Draco virou o caderno para Hermione, que o leu sem dar muita atenção. Selwyn, Umbridge, Mulciber, Smeek, Quirrel, Perks…

– Umbridge não gostava muito de mim, mas… Ela não se daria ao trabalho de me procurar para se vingar depois de todos esses anos… — Ela o olhou, duvidosa. – Não é?

– Ela não deve nem lembrar de você. – Disse, desdenhoso, colocando o caderno de lado. – Há boatos de que ela mora com uma das filhas, mas ficou senil depois da guerra. Não sabe mais o que é realidade ou não.

Hermione sentou-se numa das cadeiras de frente para ele cruzando as pernas, sem se abalar muito com o que ele havia acabado de contar sobre Umbridge. Mordeu os lábios, depois de cruzar os braços. Havia acabado de decidir, não olharia aqueles jornais. De qualquer maneira, Malfoy estava sendo muito mais bem sucedido do que ela nessa empreitada.

Não iria encontrar nada sobre Comensais da Morte se ficasse lendo todas as notícias que o Profeta havia publicado nos últimos dez anos, então se colocou a trabalhar com o cérebro, que era comprovadamente o que sabia fazer de melhor.

Os Comensais exilados sendo excluídos da lista de suspeita já eram de grande ajuda. Os foragidos não poderiam ter sido muitos. Foi o que perguntou à Malfoy.

– Bem, muitas famílias foram embora depois do fim da guerra. – Ele tirou a atenção do jornal que tinha em mãos. – Algumas por vergonha, outras para esperar a economia se estabilizar novamente e, claro, as famílias inteiras que foram embora e que nenhum membro possuía a Marca como prova de que apoiavam o Lorde das Trevas. O Ministério não pôde fazer nada, nem mesmo tendo em mãos o testemunho dos Comensais presos.

– Mas algumas dessas famílias certamente já voltaram para a Inglaterra?

– Com certeza, muitas delas. É por isso que você precisa associar o nome de pelo menos uma para podermos começar de algum lugar.

Ele voltou a fazer o que estivera fazendo e dessa vez ficaram em silêncio. Hermione levantou-se apenas para pegar uísque para ambos e um livro da prateleira. Resolveu que falar com Malfoy estava fora de cogitação enquanto ele trabalhava, embora quisesse fazer mais perguntas.

Hermione reparou em como ele parecia alheio à sua presença, totalmente concentrado nos jornais à sua frente, e em como parecia mais maduro quando passava uma das mãos na nuca ou quando se encostava no cadeirão e batia a ponta da caneta contra a mesa de mogno.

Quando Malfoy havia se tornado um homem tão atraente? Foi o que se perguntou ao vê-lo debruçar-se mais uma vez sobre o caderno e escrever algo rapidamente. Lembrava-se que em Hogwarts Malfoy fazia muito sucesso entre as garotas, mas nunca havia tido esse tipo de interesse por ele.

Na verdade, não tinha esse tipo de interesse por garoto algum, estava ocupada demais amando Ron em segredo. Quase revirou os olhos por isso. Agora, madura e mais sábia, sabia muito bem que aquela paixãozinha platônica que achava que ia durar para o resto da vida não passava de capricho de menina. Toda garota já se apaixonou pelo melhor amigo, totalmente compreensível.

– Granger… — Malfoy a chamou, quase hesitante. Ele a encarava com o olhar penetrante, o que a fez pensar que não vinha boa coisa a seguir. – Estamos procurando o invasor da sua casa, certo? Você diz que tem certeza de que é um bruxo…

– Eu…

– Me deixe terminar. – Hermione fechou o livro e revirou os olhos, ajeitando-se na cadeira. – Antes de decidir sumir do mundo bruxo, você fez algo que motivasse alguém a invadir sua casa? Você guarda algo na sua casa que não seja seu? Um objeto importante, qualquer coisa…

– Não! – Ela levantou-se, engolindo em seco. Malfoy continuou em sua mesa, encarando-a impassível. – Eu não fiz nada, tudo bem?

– Ninguém faria isso sem um bom motivo, Granger. Não tente me enrolar, eu não sou Potter e Weasley e não acho que você é uma santa.

Ela tentou desviar o olhar, mas não foi possível. Mordendo os lábios, Hermione sentou-se novamente, sentindo o coração bater mais rápido contra o peito. Era a primeira vez que ia contar algo sobre seu passado a alguém. Desde que havia escolhido ir embora do mundo bruxo sempre havia lidado com tudo sozinha e agora Malfoy exigia que ela lhe contasse tudo.

Será que Harry e Ron fariam a mesma coisa? Resignada, presumiu que eles lhe dariam seu próprio tempo para contar. Era impossível contar algo sem envolver o próprio Malfoy. Resolveu ir pelo caminho mais fácil.

– Eu tenho uma suspeita. – Malfoy levantou uma sobrancelha e encostou-se na cadeira, esperando. De repente se sentiu muito pequena em meio às enormes prateleiras de livros que haviam naquela sala. Elas pareciam estar se fechando contra ela. – Você disse que Bellatrix Lestrange foi morta na guerra, certo? O marido dela…

– Foi a minha mãe quem fez o reconhecimento de corpo dele.

– Ele está… — Ele meneou a cabeça em afirmação, semicerrando os olhos para ela.

– Por que todo esse interesse na família Lestrange? Você só era relevante por ser a melhor amiga de Harry Potter, Granger, era apenas por isso que eles também te caçavam. – Ela suspirou, deixando suas costas encontrarem o encosto da cadeira. A família Lestrange era o único ponto mais provável onde ela própria começaria uma busca. Fora eles não havia mais ninguém que poderia fazer isso contra ela, não tinha sentido! – Mas se quer culpar alguém com esse sobrenome, dê uma olhada na lista de foragidos.

Hermione esticou-se e pegou o caderno que ele lhe estendia. Os nomes estavam organizados em coluna, de acordo com o último lugar que eles haviam sido vistos. Ela supunha que, depois de um tempo, o Profeta Diário havia parado de dar importância a casos como esses e as notícias haviam cessado.

Infelizmente, quando bateu o olho na lista, o nome que lhe chamou a atenção de imediato fez um arrepio correr por seu corpo, desde o início da coluna até as pontas dos dedos. Estava lá, desenhado com a caligrafia fina e bem desenhada de Malfoy:

Rabastan Lestrange; Vale do Loire, França.

Notas finais
Oi gente!! Estou tão feliz hoje, a fic teve tantos comentários que eu resolvi até postar antes por que acho que não vou ter tempo no fim de semana :)) Então, as buscas pelo invasor apenas começaram, vocês ainda vão ter muitas surpresas (e algum drama). O que estão achando dessa parceria?? E esse final? Quem esperava Rabastan Lestrange? Será mesmo que ele é o invasor? Tantas perguntas! :D Resolvi escrever os títulos das matérias dos jornais pensando em quem estava curioso para saber o que aconteceu nesse meio tempo em que Hermione esteve ausente. Alguém já comentou aqui sobre isso, mas não me lembro o nome (sou péssima pra isso). Foi pensando em você, leitor (a). No decorrer da história vamos descobrir sobre isso. Enfim, um pequeno spoiler para deixá-las mais curiosas e pensarem a respeito: "Sua decisão, ela mudou qualquer futuro que poderíamos ter. Iríamos formar uma bela dupla, Hermione, eu e você. Pena que não soube se decidir pelo melhor.” Bjobjo, até o próximo!