Memories of the Past
8 Capítulo 8
Ela não acreditava no que estava vendo. Não acreditava que Malfoy podia estar na sua frente, no Orfanato que havia escolhido aleatoriamente para passar o dia de Natal. Pelo amor de Deus, aquilo não podia ser apenas coincidência!
Malfoy parecia estar muito incomodado com a situação.
– Granger, o que está fazendo aqui? — Ele perguntou, desanimado.
– Bom, vejo que já se conhecem. – Interviu a diretora, parecendo estranhamente satisfeita. – A senhorita Granger acabou de se tornar uma de nossas bem feitoras, senhor Malfoy.
– É mesmo? – Malfoy pareceu impressionado por alguns segundos. Hermione apenas forçou um sorriso visivelmente falso na direção dele, que se virou para a diretora, empertigado. – Eu já estou indo para a Ala Sul, passo aqui quando estiver indo embora.
– Certo, certo.
– Até… Mais, Granger.
Malfoy deu as costas às mulheres e andou pelo corredor de pedra até desaparecer de vista quando tomou o caminho da esquerda em direção a Ala Sul. Semicerrou os olhos para o local que ele havia acabado de passar. O que havia acabado de acontecer?
Aparentemente, ele não havia ficado feliz com a descoberta de Hermione. Será que ele também passava todos os seus Natais no Orfanato? Se sim, onde estava sua família? Ela foi tirada de seus devaneios ao ouvir o pigarro discreto da diretora. Viu a secretária abafar uma risadinha e a diretora Herman sorriu condescendente.
– Estamos acostumadas com a reação das mulheres ante a presença do Sr. Malfoy.
Enfim, percebeu o motivo dos olhares cúmplices entre as duas mulheres que trabalhavam no Orfanato.
– Ah… Não é nada disso… Vocês estão…
– Venha, Srta. Granger, vamos conversar. – Herman dispensou com um gesto suas explicações sobre suas reações quanto a Malfoy e adentrou sua própria sala.
Hermione olhou a secretária, que apenas deu de ombros, sorrindo. Ela não parecia tão recatada quanto às outras mulheres que havia conhecido naquele dia. Evitou um revirar de olhos e seguiu pelo mesmo caminho da diretora.
Ao contrário do que esperava, a sala da diretoria do Orfanato St. James era muito simples. Havia alguns quadros de antigos diretores e diretoras cobrindo as paredes de pedra, assim como uma estante de livros atrás da escrivaninha de madeira escura. Documentos e mais documentos atulhavam esta. As cadeiras eram acolchoadas com um veludo vermelho e havia um discreto vaso de flores num aparador embaixo da janela.
– Não mencionou que conhecia o Sr. Malfoy quando nos falamos há dois dias.
Herman acomodou-se atrás de sua escrivaninha. Apesar do tom de voz doce e da expressão tranquila, Hermione pode perceber a verdadeira intenção da diretora ao tentar manter o tom indiferente de sua pergunta.
– É uma longa história. – Deu de ombros. – Eu mesmo não sabia que ele era bem feitor desse orfanato.
– Um dos mais antigos, se que saber.
– Interessante. – A diretora sorriu, com nostalgia.
– O senhor Malfoy foi um milagre que aconteceu numa das horas mais difíceis do nosso lar. Estávamos para fechar quando ele apareceu oferecendo ajuda. – Ela entrelaçou as mãos sobre a mesa. – Quer dizer, não tínhamos dinheiro para manter um lar nos moldes que a Assistência Social desejava, mas então ele apareceu e fez tudo que era preciso para que o Orfanato voltasse a funcionar. Foi realmente um presente enviado por Deus.
Hermione franziu o cenho. Malfoy ajudando as pessoas sem pedir nada em troca? Isso estava muito estranho, realmente.
– Bem, isso é ótimo, do contrário eu não estaria aqui hoje. – Sorriu, tentando tirar o episódio ocorrido a pouco da cabeça. – Eu realmente adorei passar parte do meu dia aqui.
– Como eu disse, as crianças tendem a se sentir mais depressivas em datas comemorativas. Elas sentem falta de entes queridos, dos laços consanguíneos que as une a eles, entende? – Acenou afirmativamente. Estava começando a admirar aquela mulher que, assim como Hermione, havia escolhido passar o dia de Natal ali, com suas crianças. – Nós realmente fazemos de tudo para suprir todas as necessidades delas, mas obviamente a superficialidade de presentes não pode substituir a emoção de um abraço de um pai ou uma mãe.
– Você… Tem toda razão. – Afinal de contas estava passando por uma situação semelhante há muitos Natais e só agora havia encontrado uma alternativa para que a data fosse menos solitária para ela. – Eu realmente quero vir aqui mais vezes, não apenas no Natal, percebi que as crianças gostam de receber visitas.
– Os menores são uma alegria, não é?
– Tem uma garotinha, o nome dela é Liesel…
– Ela mudou-se para cá há apenas dois meses, ainda está se adaptando. – Disse Herman. – O começo é sempre o pior, principalmente quando já estão crescidos e entendem, mesmo que em partes, o que está acontecendo. No caso de Liesel, ela perdeu pai e mãe ao mesmo tempo e nenhum familiar manifestou vontade de cuidar dela.
– Eu não entendo. Como as pessoas podem não gostar de uma garotinha como ela? – A diretora suspirou, tristemente.
– Este é o mundo no qual vivemos, Srta. Granger. – Deu de ombros. – Talvez tenha sido melhor assim, quem sabe o que poderia acontecer caso tivesse ficado com um parente displicente.
– Faz todo o sentido. – Hermione levantou-se. – Diretora, eu realmente agradeço pelo dia.
– Hermione, somos nós que agradecemos. – Herman a acompanhou até a porta. – Adoramos receber visitas, isso mostra que ainda existem pessoas capazes de pensar no bem do próximo. Esperamos que venha mais vezes.
– Eu vou vir, pode ter certeza. Tenha um Feliz Natal.
– Um ótimo Natal para você também, Srta. Granger.
Apertou a mão da diretora e deu às costas a ela. A secretária não estava mais em sua mesa.
Percorreu os corredores sem pressa, pensando em como seu dia havia sido ótimo. Desde o início fora bem recebida nas acomodações do Orfanato e tinha certeza de que voltaria mais vezes.
Sorriu ao lembrar-se de Liesel. Ela se adaptaria, tinha certeza. Não podia esquecer do livro que prometera, mas sabia que não deixaria sua promessa passar em branco. Não para aquela garotinha que a lembrava tanto quando criança – quieta, sempre com um livro na mão, preferindo a leitura às conversas paralelas sem sentido.
Ainda com um sorriso no rosto, virou para o Corredor principal, mas pulou de susto ao deparar-se com Malfoy, encostado a parede com ambas as mãos nos bolsos e a cabeça abaixada.
– Malfoy! Você quase me matou de susto. – Ela quase grunhiu com uma das mãos sobre o peito.
– Achei que nunca sairia daquela sala.
– Eu tinha que conversar com a diretora. – Deu de ombros, ainda se recompondo. Tentava fazer o sangue correr mais devagar nas veias.
– O que está fazendo aqui?
Malfoy foi direto ao ponto, desencostando-se da parede. Agora estavam frente a frente e Hermione podia ver uma pequena cicatriz perto da sobrancelha direita. Teve vontade de perguntar onde ele havia conseguido a marca, mas ali o foco era outro.
– Você não ouviu? Sou uma bem feitora do orfanato agora.
– Por quê? – Ele disse entredentes, chegando ainda mais perto. Hermione então se encostou na parede, tentando manter distância.
– E desde quando eu devo satisfações a você, Malfoy? – Disse descrente, cruzando os braços. – Por favor, não é?
Aparentemente, Malfoy estava levando muito à sério a questão de mantê-la longe do Orfanato, pois seus olhos não mudaram o brilho em momento algum e neles Hermione via apenas uma coisa: determinação.
– Não quero que venha mais aqui.
– Sabe, a diretora contou a sua história com o Orfanato. Ela te vê como um herói, sabia? – Isso pareceu atordoá-lo, mas continuou em tom baixo para apenas ele ouvir. – Que ironia, não? Há alguns anos, você era exatamente o oposto.
– Chega, Granger.
Malfoy deu às costas a Hermione, passando uma das mãos entre os cabelos. Então ela pôde ver. Era algo que não havia reparado até agora, mas que em algum momento chamaria sua atenção. Ele ainda usava o tradicional anel da família Malfoy, com um ‘M’ lindamente floreado. Apesar de sua beleza inegável, impunha uma aura de medo a quem o visse usando-o, como se fosse necessário temê-lo apenas por causa de um simples anel.
Devido ao pequeno, mas inegável, fato de que Draco continuava a usar o anel de sua família, por que devia acreditar que ele havia mudado tanto, como estava afirmando desde que haviam se reencontrado? Usar aquele anel significava acreditar nos valores que a família Malfoy pregava e, principalmente, segui-los.
– Malfoy… — Estava pronta para contestá-lo, mas foi interrompida.
– Eu não sou o vilão dessa história, Granger. – Ele se virou para Hermione, falando muito baixo. – Muito pelo contrário, se analisar bem, a vilã é você mesma. Você e suas limitações.
– Não sei de que limitações está falando. Se estamos falando de limitações, por que não falar das suas?
– Você não me conhece. – Há essa altura, ambos tentavam manter a conversa a nível particular.
– Conheço bem o suficiente para saber que as suas limitações são determinadas por esse anel que carrega no dedo até hoje.
– Esse anel não é mais do que uma joia de família.
– Me poupe, Malfoy, ambos sabemos o que esse anel representa e quais são os valores da sua estimada família!
– Você não sabe de nada, você não tem o direito de julgar minha família ou a mim sendo que escolheu ir embora anos atrás. Então, me faça o favor, e use argumentos concretos por que os seus já estão batidos demais!
Hermione quase arregalou os olhos com o choque. Pela primeira vez concordava com algo que ele havia dito. Apesar de não acreditar inteiramente nessa história de perfumista, não sabia o que havia acontecido com Malfoy ou sua família e odiava estar errada.
Respirou fundo, o orgulho estava estampado no rosto dele para quem quisesse ver. Se ele tivesse mudado, apenas se, ainda era um Malfoy e carregar aquele anel era amostra de orgulho. Qualquer um, seja no mundo trouxa ou bruxo, ficava admirado ao se deparar alguém usando um anel de família. Mas poucos tinham a infelicidade de saber o que um anel como aquele significava para uma família como a de Malfoy.
– Não vou parar de vir aqui só por que você quer e este assunto está encerrado.
Virou as costas para o mesmo, com intenção de chegar à saída o mais rápido possível, sem dar atenção à última frase de Malfoy.
– Você que pensa, Granger.
Fale com o autor