Memories of the Past
42 Capítulo 42
Atônito, Draco viu Narcissa usar a varinha para retirar fragmentos da própria memória. Os cordões prateados saíram com facilidade assim que ela fechou os olhos e foi obrigado a conjurar uma penseira para que ela pudesse depositá-los.
– Eu sinto muito por isso, Draco, não sei como poderá nos perdoar outra vez.
– Mãe...
– Apenas reviva a memória! – Estranhamente, Narcissa não conseguia encará-lo nos olhos. – Sei que está mais preocupado com ela agora. Nos falamos depois, com calma.
Assim, a senhora passou por ele, parando apenas para depositar um beijo casto em sua bochecha e alisar seu braço por um segundo. Era um costume de Narcissa, Draco sabia, ser extremamente cuidadosa e atenciosa no que se referia a ele, mas ela parecia temerosa demais.
Franziu o cenho ao ouvir a porta bater e encarou o cordão de memória flutuando no líquido transparente da penseira. O que sua mãe poderia ter a ver com o sequestro de Hermione? Por mais estranho que pudesse parecer, por mais desesperado que estivesse para encontrá-la, tinha medo de descobrir. Merlim, não podia ser covarde a esse ponto!
Andou de um lado para o outro, preparando-se para o que quer que fosse o conteúdo daquela lembrança. A própria Narcissa deveria estar certa de seus próprios atos ao lhe entregar aquelas memórias, ele não poderia simplesmente julgá-la sem se lembrar disso, independente do que estivesse ali.
Suspirando, parou em frente à penseira e lacrou a porta do escritório com um feitiço para que não pudesse ser importunado. Descartou a varinha a um canto qualquer da mesa e mergulhou a própria cabeça no líquido frio, os olhos arregalados. Foram poucas as vezes em que usara uma penseira, sua família não tinha o costume de fazê-lo, sempre fora mais adepta ao uso de feitiços como legilimência e derivados.
Percebeu que o cenário era a Mansão Malfoy, o grande lustre sobre a comprida mesa de mogno escuro era mais do que familiar. A lareira acesa ao fundo fazia com que as sombras das chamas tremulassem pelo ambiente. Olhando ao redor, percebeu duas figuras paradas à janela, encarando o tempo revolto lá fora.
Lucius Malfoy segurava um dos lados da antiga cortina de tapeçaria, o vento fazendo com que o vidro rangesse a cada rajada mais forte, enquanto o homem ao seu lado tinha os braços cruzados e batia o pé direito contra o chão com muita frequência, parecendo ansioso.
– Mas, afinal, o que você quer? – Draco aproximou-se, constatando com bastante desgosto que o homem que acompanhava seu pai era McLaggen. Mas de onde eles se conheciam? – Lucius Malfoy não me chamaria simplesmente para degustar uísque de fogo e falar sobre política?
– Você é bastante perspectivo. – McLaggen provavelmente não havia percebido a ironia incrustada em cada palavra. Viu seu pai virar-se para o outro, um sorriso maldoso estampado na face pálida. – Soube que teve um caso com Hermione Granger durante a escola.
– Um caso não é exatamente a palavra certa, mas... Sim. – Respondeu o outro, duvidoso. – E como soube disso?! Foi há muito tempo.
– Sempre estou informado sobre o que me interessa, McLaggen. – Lucius revirou os olhos. – A questão é... O Ministério da Magia finalmente encontrou nossa pequena fugitiva, acredito que tenha conhecimento disso já que foi o seu Departamento quem o fez.
– A questão é... – Imitou McLaggen. – Como você sabe disso?
Lucius sorriu como alguém que se lembra de uma piada interna e deu as costas ao outro, confiante, enquanto encaminhava-se para a cadeira de espaldar alto na cabeceira da mesa. Atônito, Draco não percebia um traço sequer da loucura aparente que o senhor exibia nos últimos tempos e perguntava-se há quanto tempo aquele diálogo havia acontecido.
– Eu quero que você leve Granger embora da Inglaterra, do Reino Unido, da Europa... Dessa vez, para sempre. – Lucius declarou direto, assustando McLaggen.
– Você está louco?
– Eu não sei, exatamente, por que todos repetem isso tão incansavelmente. – O loiro levantou-se, teatralmente, e aproximou-se novamente de um McLaggen desconfiado. – Sei que sempre quis tê-la e, caso aceite minha proposta, isso se dará com muita facilidade.
– Quer me pagar para sequestrar Hermione?! – Perguntou McLaggen atônito, enquanto Draco revirava os olhos. Como aquele idiota poderia ter se tornado membro do Departamento de Mistérios?
– A aritmética é bastante simples, se quer saber. – Lucius disse entediado. – Granger é a herdeira direta e consanguínea dos Lestrange, mas nunca reclamou o que é seu por direito. Tenho para mim que nunca o fará considerando tudo o que aconteceu na Guerra, sem contar que parece muito confortável vivendo entre... Trouxas, sequer parece carregar sangue puro em suas veias. Enfim, se Granger sair da jogada, pelo testamento, Draco passa a ser o dono de toda a fortuna dos Lestrange e, convenhamos, é inaceitável deixar todo aquele ouro intacto em Gringotes enquanto meu filho tem direito a tal.
– Você é maluco! – Disse Córmaco, dando as costas a Lucius enquanto andava em direção a saída. – Eu irei voltar aqui com uma ordem de prisão, Malfoy.
Grande erro, pensou Draco ao observar seu pai puxar o cabo da bengala, revelando sua varinha.
– Imperio. – Córmaco estacou a um passo de onde Draco se encontrava, seus olhos se tornando opacos e sem vida ao encarar um ponto qualquer no chão de pedra. – Eu não pedi ‘por favor’, McLaggen. Se não faremos do jeito fácil, que façamos do jeito difícil então. É sempre assim que preferem. Idiotas.
Viu Lucius se aproximar do corpo do outro e cutucá-lo com um dedo, percebendo satisfeito que sua maldição havia tido sucesso.
– Agora, ouça com bastante atenção, Córmaco.
O cenário mudou e Draco percebeu que agora estava no jardim da Mansão Malfoy, Lucius e Narcissa andavam lentamente pela estrada de pedras ao redor do fantasmagórico lago de água verde escura, onde alguns pavões albinos tentavam chamar a atenção de seu dono. Draco ainda não sabia por que seu pai mantinha aqueles bichos ali, já que sequer lhes dava atenção.
Estava entardecendo, percebeu ao encarar o sol se escondendo logo atrás da estrutura da Mansão. Após acostumar-se com a rotina em casa, seus pais passaram a sair todos os dias para um passeio, ainda que não saísse das dependências do terreno da propriedade, o que era bastante triste para qualquer um que tivesse o mínimo senso de humanidade.
– É incrível o modo como o destino parece brincar com as pessoas, não? – Disse Narcissa, satisfeita, sorrindo para si mesma. – Hermione até algumas semanas era uma estranha para todos nós e agora...
– Agora? – Incentivou Lucius.
– Draco está encantado. – A mulher entrelaçou as mãos no braço direito do marido, animada. – Já o viu assim alguma vez?
– Sim, ao falar de Granger quando era apenas uma criança. – Ele deu de ombros. – O destino parece brincar mesmo conosco.
Draco supôs que o diálogo de seus pais tivesse acontecido depois de Lucius começar seus planos para sumir com Hermione e logo após a estadia da mesma na mansão Malfoy. Ainda que tivessem suas desavenças, Narcissa estava empolgadíssima com a ideia de ter Granger por perto, afinal finalmente teria a chance de conhecer a filha de sua irmã, o bebê que, anos antes, teve sua vida decidida assim que veio ao mundo; sabia que sua mãe se sentia responsável por Hermione, mesmo depois de tantos anos.
Confuso, viu-se ser transportado para um local completamente diferente. Era uma casa de madeira, simples e que parecia bastante antiga. Uma única luz acesa do lado de dentro fazia com que a iluminação do que outrora poderia ser considerado um jardim fosse parca e escassa.
O som de madeira se quebrando foi ouvido e, no instante seguinte, Lucius caíra de mau jeito sobre o braço direito, tentando levantar-se do chão de gramíneas mal cuidadas enquanto McLaggen passava pelo local onde fora a porta e descia os degraus de pedra inundados de lodo, parecendo furioso demais para ser contido.
– Está ordenando que eu pare por que as coisas agora deram certo para você? – Disse Córmaco, o desprezo evidente em sua face. – Escute uma coisa, seu velho interesseiro: eu não irei parar até tê-la para mim. Você não está mais no comando, Malfoy.
– Você não está entendendo, se me deixar usar a varinha...
Lucius fez menção de levar a mão direita ao bolso da capa, mas visivelmente o outro estava visivelmente descontrolado. Um feitiço fez com que o senhor fosse jogado metros à frente, girando em pleno ar em torno de seu próprio corpo.
– Quer usar a varinha para me confundir ainda mais? – McLaggen se aproximou do corpo do outro. Seu pai estava quase desacordado, mas ainda teve forças para virar-se para encarar o mais jovem. – Você não irá me impedir de ter Hermione para mim, Lucius, você não irá tirá-la de mim para jogá-la de bandeja nos braços de seu querido filho. Você está conseguindo o que sempre quis, afinal, qual a dificuldade em me deixar terminar nosso plano?!
– Irá se ferrar no fim, McLaggen. – Disse Lucius, juntando forças para se sentar no chão. — Irá se ferrar sozinho por que é burro o suficiente para não me ouvir. Granger ainda está colocada num pedestal por Potter, o Ministério está vindo atrás de você, idiota! E meu filho... Ele detesta que mexam no que é dele.
Draco sabia, assim como seu pai, que aquelas palavras eram proferidas completamente em vão, pois o efeito da maldição Imperio sobre Córmaco anulava qualquer pensamento racional que ele poderia ter sobre toda a situação que se desenrolava. Tudo que o homem conseguia pensar era que faria qualquer coisa para ter Hermione para si.
A imagem foi mudada bruscamente dessa vez e levou alguns segundos para perceber que o fizera por que Lucius havia aparatado bruscamente para casa. Tossindo sangue no chão de pedra da Mansão, o loiro foi recebido por uma Narcissa preocupada, perguntando incessantemente por que ele estava naquele estado e aonde tinha ido.
– Procure Draco.
Enfim, não precisava de mais respostas.
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