Memories of the Past
41 Capítulo 41
Debatendo-se nos braços de McLaggen, Hermione foi praticamente jogada dentro de um quarto escuro e mal cheiroso.
– Aproveite enquanto pode, querida.
A porta foi fechada com um estrondoso e ela permitiu-se se sentar na parede, suspirando enquanto esfregava o ponto em seu braço onde ele havia apertado. Não adiantaria de nada ficar nervosa naquele momento, tinha de pensar em uma solução para sair dali o mais rápido possível e, ainda, levar Lucy. Harry, provavelmente, já sabia que não estava em local seguro previamente designado pelo Ministério, então não demoraria a encontrá-la, apenas precisava manter a calma.
– Hermione? – Disse uma voz conhecida na escuridão. Levantou a cabeça tentando acostumar os próprios olhos à escuridão, mas não havia sequer um feixe de luz adentrando por uma fresta na porta.
– Lucy! Onde você está? – Disse aliviada que pelo menos a mulher estivesse bem.
Hermione colocou-se de pé e tateou pela parede, tomando nota sobre tudo ali. As paredes eram de pedra, como supôs durante o caminho, pois justamente com Córmaco – logo após aparatar com ela para sabe-se lá onde – descera vários lances de escada até a masmorra onde se encontrava. Achou que fosse alguma propriedade antiga de família, pois somente estas possuíam tais locais, porém, seus pensamentos se perderam no momento em que tateou o braço de Lucy.
– Como você veio parar aqui?! – Perguntou Lucy, a apertando num abraço forte. Era um alívio tê-la por perto, mesmo que estivessem presas. – Quem é esse homem?
– Um antigo colega de Hogwarts. – Com cuidado, passou as mãos pelo rosto e cabelo da morena, lamentando que não houvesse luz para que pudesse vê-la e constatar que realmente estava ali. – Você está bem? Ele fez algo com você? Lhe machucou?
– Está tudo bem, eu estou bem. – Ambas sentaram-se no chão, ombro a ombro e de mãos dados. – Ele me traz comida duas vezes por dia e até me deu esse cobertor na segunda noite.
– Bem, comida duas vezes por dia não é o que uma mulher grávida necessita, certo? – Revirou os olhos, irritada, ao invés de amedrontada, por toda a situação. – O que esse idiota está querendo comigo? Não pode ser só uma vingança por uma travessura de adolescentes!
– Quem é ele, Hermione? – Bufou, acariciando os dedos da mulher.
– Pomposo do jeito que é, fico surpresa que não tenha contado. – Apoiou a cabeça na parede e fechou olhos. – É só... Um cara com quem tive algo aos 16 anos, mas... Eu não consigo perceber que o machuquei tanto a ponto de... Estarmos aqui hoje.
Devido a tantos bilhetes e ameaças com aquele contexto, Córmaco parecia muito bravo com ela. Deus, aquilo não fazia sentido! Pelo que se lembrava, McLaggen era um egocêntrico mulherengo de primeira e haviam ficado apenas algumas vezes, a festa de Slughorn foi o ponto de final de tudo, pois não aguentava mais sua personalidade irritante.
Tudo bem, depois daquele Natal de 1996 não haviam conversado mais, principalmente devido ao fato de Hermione evitá-lo o quanto podia, então não tinha ideia de como o loiro ficara depois disso. Mas tinha certeza absoluta de que não se lembrava de ver Córmaco McLaggen se comportando estranhamente, espreitando-a pelos corredores ou algo do tipo. Muito pelo contrário, depois de algum tempo, o ego dele ficara tão ferido que o próprio passou a ignorá-la. Hermione estava tão concentrada nos problemas de Harry e as horcruxes que sequer se preocupara com isso.
– Sei que não é algo legal para se falar, mas estou feliz que esteja aqui. – Começou Lucy, quase tímida, apertando sua mão. – Digo, no sentido de que não estou sozinha! Não que desejava...
– Não se preocupe, Lucy, eu entendo. – Lembrou-se de quando foi torturada por Bellatrix Lestrange na Mansão Malfoy e ficou feliz que Harry e Ron tinham ido ajudá-la, mesmo que tal atitude pudesse matar a todos eles naquele momento. Porém, sempre foram exímios sortudos nessa questão. – Entendo perfeitamente.
Ambas ficaram em silêncio por longos minutos. Lucy dormiu rapidamente agarrada a ela, com a cabeça em seu ombro e o cobertor estendido em seu colo. Hermione compreendia a sensação de segurança que uma companhia amiga poderá passar naquele momento e, durante algum tempo, permitiu-se cochilar, certa de que seu subconsciente estava mais do que atento a qualquer movimento estranho.
Devido a isso, acordou em um sobressalto assim que a porta de ferro batido se abriu novamente e a sombra de Córmaco desenhou-se contra a quase escassa luz de uma tocha presa a parede do lado de fora.
Em silêncio, o mesmo aproximou-se lentamente e se abaixou a sua frente. Lucy respirou rapidamente ao seu lado e a luz do lado de fora fez com que pudesse enxergar o rosto dele quase que com clareza. Os olhos azuis apresentavam um brilho alucinado que Hermione vira poucas vezes na vida.
Alinhou-se a parede, tentando manter distância, no que ele sorriu e levou um dedo para acariciar a curva de seu maxilar.
– Sempre tão linda. É muito injusto que Malfoy tenha tanta sorte depois de tudo que fez. Você não acha, Hermione? – Pelo canto dos olhos, percebeu Lucy a encarando, certamente sem ter ideia do que ele estava falando. – Ele jamais a mereceu.
– Não estou aqui para falar de Draco. – Declarou com a voz firme. Depois de tanto tempo, havia aprendido a mascarar suas emoções da melhor forma possível. – O que quer de mim?
– Acha que tudo isso não é sobre ele? Acha que não estamos aqui por causa dele? – Córmaco sorriu, achando graça de um alguma piada interna. – Tudo começou por causa de Draco Malfoy. Não se engane pelo fato de ele parecer ser um bom moço, Hermione.
– Do que está falando? – Perguntou intrigada.
– Você gostaria muito de saber, não é? – Ele aproximou-se até que estivesse tão perto que podia sentir a respiração quente e alheia em seu rosto. – Mas sabe de uma coisa, Hermione? Você não está merecendo. Talvez, se estiver disposta a fazer algo que me agrade...
Nesse instante, Córmaco colou os lábios aos dela e pediu passagem para a língua, ignorando que a mesma mantinha a boca teimosamente fechada. Hermione, em sua primeira reação, recuou a perna o quanto podia e usou a sola do pé para afastá-lo com toda a força que podia.
– Não se aproxime de mim.
Declarou olhando-o cair sentado no chão a sua frente. Porém, não moveu um músculo, pois sabia que de nada adiantaria tentar medir forças com o loiro. Lucy ajeitou-se ao seu lado assustada, mas Córmaco apenas riu como um maníaco e se levantou.
– Acha que deve fidelidade a ele?
– Acho que não devo deixar o homem que quase matou minha amiga e me ameaça há semanas me tocar. Sugiro que não tente, Córmaco. — Disse friamente, no que ele se aproximou novamente, dessa vez mais cauteloso e não para tentar beijá-la.
– Você ainda irá mudar de ideia, Hermione.
Assim, ele saiu novamente e sequer deixou claro o motivo de sua vinda. Hermione julgou que ele tivesse ficado, pelo menos, abalado por suas palavras. Respirou fundo, agradecendo por estar na escuridão novamente, pois assim Lucy não poderia perceber como ela própria havia ficado.
Qual era o envolvimento de Draco em toda essa história? Por que Córmaco insistia em odiá-lo e mencioná-lo? Fechou os olhos, desejando enfiar a cabeça nos próprios joelhos e chorar de frustração, afinal detestava não ter todas as respostas. Porém, Lucy estava ali e Hermione, como responsável por isso, deveria continuar firme e pensar, mesmo diante de todas as limitações, em um jeito de sair dali.
– Está mesmo com Draco? – A voz de Lucy ao seu lado a despertou, parecendo surpresa. Suspirou, olhando para onde suas mãos estariam; não podia vê-las, mas ainda assim era um costume.
– Ele tem me ajudado nesses dias. – Sentiu a voz embargando. – Quer dizer, ele fez tudo que era possível por mim, eu... Lhe devo muita coisa.
– Mas estão juntos?
– Eu acho que não. – Deu de ombros e balançou a cabeça. – Não tivemos... Tempo parar falar sobre.
– Sinto muito.
– Temos coisas mais importantes para nos preocupar agora. – Disse tentando sorrir em meio à escuridão enquanto buscava a mão da amiga. – Sinto muito por ter entrado nisso tudo.
– Sinceramente? Acho que depois de ter sumido da cozinha da minha casa e aparecido aqui um minuto depois posso acreditar em qualquer coisa. Eu sequer sei em que parte do país estou!
Hermione sorriu, certa de que aquela era mesmo Lucy e sua incrível capacidade e concentração para lidar com situações extremas usando uma tranquilidade que admitia que não possuía naquele nível, e começou a contar à mesma sobre tudo que sabia sobre o mundo bruxo e como ele funcionava, tentando ignorar que estavam em um quarto escuro e frio num lugar onde nem sabiam onde era.
Há muitos quilômetros dali
– Como puderam deixar que ela sumisse bem embaixo dos seus narizes?! – Draco quase gritou, fora de si, com os aurores que lhe relatavam que Hermione havia sido raptada.
– Foi uma situação inesperada, ninguém no Quartel cogitou que McLaggen pudesse ser o invasor, Malfoy. – Retrucou McCarthy. – Ele supostamente era um homem de confiança, apesar de tudo.
– Eu poderia fazer com que todos vocês fossem demitidos!
Theodore Nott revirou os olhos e informou a todos que saíssem para que Draco pudesse recobrar a calma. O mesmo soltou o ar, sentindo a pele quente e tendo consciência de que estava corado de raiva.
Dirigiu-se ao bar do escritório e serviu uma dose de uísque, bebendo tudo de uma só vez, sem gelo, deliciando-se com a sensação de queimação na garganta. Tirou o terno, sentindo o ar escasso dentro daquele local, e afrouxou a gravata, sentando-se numa poltrona enquanto bagunçava de frustração os impecáveis cabelos loiros.
– Cara, você está muito alterado! – Declarou Nott, apoiando-se na mesa e cruzando os braços, tranquilamente. Certamente, fora treinado pelo Ministério para lidar com aquele tipo de situação.
– Ela foi raptada, Theo, eu acho que tenho alguns motivos para estar um pouco alterado. – Disse como se fosse óbvio.
– Não é de seu feitio perder o controle e sabe disso. – Draco bufou e levantou-se, constatando ser impossível manter-se parado. – Ela te afetou mais do qualquer outra, admita, é impossível não perceber.
– Que diferença faz falarmos disso agora? Estou estressado, Granger se tornou um grande empecilho na minha vida...
– Empecilho?! – Riu Nott. – Nunca se apaixonou, não é Draco?
Draco pegou o terno, a pergunta de Theo ecoando em sua mente como um alerta. A questão é que tal absurdo já havia passado por sua mente – o fato de estar apaixonado por Hermione -, mas nunca havia dedicado realmente algum tempo para destrinchá-lo e chegar a uma conclusão concreta.
Olhou pela janela, percebendo que o dia já estava quase amanhecendo e não tinha sequer perspectiva de quando tentaria dormir. Os aurores não mais trabalhavam em sua casa, o que agradecia mentalmente, pois não tinha cabeça para lidar com os mesmo sem que perdesse a paciência devido a sua grande incompetência para gerenciar a situação de Hermione. O serviço deles naquela noite era tão simples!
Deixou os ombros caírem, pela primeira vez na noite/madrugada, e pegou o terno, refazendo sua aparência – pelo menos exterior, pois estava psicologicamente exausto.
– Não estou disposto a falar sobre isso agora. Sugiro que vá para casa, eu irei dar uma volta, tentar pensar em algo. – Pois a primeira coisa que havia feito quando soube da notícia foi entregar o endereço das quatro casas fora da rota do Ministério que haviam sido alugadas e para onde o invasor poderia ter levado Granger (e Lucy).
Despedindo-se de Theo, fechou a porta do escritório e, no instante em que abriu a porta de entrada de sua casa, teve uma surpresa.
– Mãe! – Narcissa estava pronta para tocar a campainha e parecia bastante nervosa, olhando para os lados à todo instante. – O que está fazendo aqui há essa hora?
– Desculpe vir tão cedo, mas devido às circunstâncias acho que não estou atrapalhando.
A loira entrou antes que pudesse convidá-la e Draco fechou a porta, desconfiado. Como ela poderia saber de tudo que havia acontecido sem que houvesse saído na imprensa?
– O que aconteceu?
– É sobre Hermione. – Ela suspirou, fechando os olhos por um momento, parecendo pesar cada palavra dita. – Tenho algo que pode ajudar a encontrá-la.
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