Memories of the Past
40 Capítulo 40
Hermione estava acostumada a ser o centro das atenções, mesmo no mundo trouxa isso se tornara comum e aprendera a lidar com o inevitável. Era bonita, inteligente, possuía influência no meio em que se encontrava. Porém, os olhares sobre ela na noite de comemoração de 10 anos do fim da 2° Guerra Bruxa pareciam julgadores, avaliadores e até mesmo traídos.
Por todo aquele tempo ninguém jamais obteve uma resposta de onde Hermione Granger estava e do nada esta aparecia ao lado de Harry Potter, era capaz de entender a confusão. Talvez estivessem achando que sumira após o fim da guerra para fugir dos problemas. Imaginava que não havia sido fácil reorganizar os problemas do Ministério e de toda uma sociedade atingida por Voldemort, mas precisava reorganizar a si mesma e, pela primeira vez em muito tempo, pensara apenas no que achara que seria melhor para ela.
Ignoraram todos os jornalistas presentes, pois Harry julgou que não era hora de conceder entrevistas e responder perguntas que podiam atrapalhar a investigação. O invasor estaria no rastro de qualquer passo que Hermione desse. De braços dados com o moreno, atravessou o átrio do Ministério, cumprimentando conhecidos e fazendo questão de conversar com os antigos amigos.
– Não acredito que está aqui, parece... Surreal. – Falou Neville a encarando maravilhado.
Hermione sorriu encantada por rever as pessoas com as quais lutou lado a lado durante a guerra. O homem a sua frente havia se transformado durante a guerra, de menino tímido a um herói, não era à toa que também seria homenageado naquela noite.
– Também estou feliz por voltar. – Apesar de tudo, rever todas aquelas pessoas era incrível e não percebera como sentia falta de todo o agito daquele mundo.
– Espero que não suma novamente, sentimos sua falta.
– Neville está certo. – Disse uma voz conhecida antes que pudesse retrucar. Virou-se, congelando ao encarar o olhar magoado de Ron. – Sentimos sua falta por 10 anos, apenas não tenho certeza se quero que não desapareça novamente.
– Ron, não faça isso. – Longbottom a encarou com um meio sorriso, antes de se afastar. – Foi ótimo revê-la, Hermione.
Não desgrudou os olhos de Ronald enquanto Neville se afastava. Estava certa de que o encontraria novamente, mas não tinha certeza se estava preparada para uma discussão. Sabia que ele tinha razão, sabia que ele estaria magoado, nada que dissesse poderia mudar isso, mas queria fazê-lo entender.
– Está com Malfoy... As coisas mudam. – Disse Ron, ostentando um sorriso amargo.
– Pelo visto não muito, já que está com Lilá.
– Não compare minha mulher àquele crápula. – Retrucou ele entre dentes aproximando-se para manter a conversa particular, tinha consciência de que todos os olhares da noite encontravam-se deitados sobre Hermione. Suspirou, xingando-se mentalmente por levar a discussão para aquele ponto, aquilo não se tratava de ninguém além dela. – Harry pode aceitar essa sua volta repentina, mas eu não, principalmente depois de saber que está morando com Draco Malfoy.
– Não estou morando com ele, Draco está me ajudando. – O ruivo sorriu irônico.
– Por Merlin, onde está com a cabeça? Malfoy não ajuda ninguém.
Abriu a boca para retrucar todas as coisas que sabia sobre Draco e que Ron sequer tinha ideia, mas parou ao perceber que isso não faria diferença para o loiro, pois ele detestava Ron. Mais uma vez, era sobre ela e seus problemas, não possuía o direito de colocar Malfoy no meio de discussões com seus amigos quando este não tinha nada a ver com isso.
– Você não o conhece. – Apenas queria fazê-los entender que não se tornara má por estar na companhia de Malfoy, que o loiro era uma boa pessoa quando se sabia lidar com todas as suas manias e defeitos. Mas, novamente, Draco não se importava com a opinião deles, quem o estava fazendo era apenas Hermione e seu incrível senso de nobreza. – Apenas quero retomar minha vida em paz, Ron. Por que não facilita para todos nós?
– Não tenho de facilitar nada! – Ele disse, parecendo ultrajado. – Nos abandonou quando precisávamos de você, nem se preocupou com a gente. Por que eu teria de ajudá-la com algo? Não tenho essa obrigação.
– Ron, isso é...
– Não chegue perto da minha família enquanto estiver com Malfoy
Declarou Ron, a interrompendo, pegando uma taça de champanhe de um garçom e afastando-se para encontrar Lilá, que apenas os observava a distância. Respirou fundo, contendo o bolo formado em sua garganta enquanto olhava ao redor a procura de um rosto conhecido, qualquer um. Não queria que as coisas entre eles fossem daquela maneira, mas não poderia esperar menos, Harry havia lhe avisado sobre o temperamento de Ronald. Bem, teria de se preocupar com o ruivo depois, considerando que devia manter-se concentrada.
Encontrou o moreno conversando animadamente em uma roda de senhores. Há 10 anos, imaginara-se vivendo daquela maneira no mundo bruxo, mantendo conversas sérias com pessoas importantes do Ministério, discutindo assuntos de relevância para a sociedade bruxa. Agora, não via por que interromper Harry, parecia mais uma turista em seu próprio mundo.
Resolveu ir até a mesa de bebidas para servir-se de ponche, agradecendo mentalmente que não haviam economizado quanto a isso. Entretanto, uma figura indesejada surgiu ao seu lado, vinda sabe-se lá de onde visto a rapidez com que se materializou ali. Rita Skeeter usava em vestido verde, cheio de plumas e muito espalhafatoso, que em nada combinava com o batom vermelho em seus lábios. Seus cachos continuavam muito loiros, porém o rosto já ostentava rugas da idade, embora a malícia maldosa ainda estivesse presente em suas feições.
– Hermione Granger! – Disse deliciada a encarando de cima a baixo. – Se estava planejando ser o destaque do Profeta de amanhã acho que atingiu seu objetivo.
– Não era minha intenção, se quer saber.
– Então... Por que está aqui? – Rita a rodeou, pegando uma taça de champanhe, mantido gelado permanentemente com um feitiço sobre a mesa. – Onde esteve durante todos esses anos? Podemos fazer uma matéria na primeira página do Profeta!
– Não estou interessada. – Os lábios vermelhos e finos esticaram-se num sorriso irônico, o que irritou Hermione profundamente.
– Julgando que a conheço desde os longínquos tempos de garota quando saía com personalidades da mídia para ganhar manchete, eu duvido muito disso, queridinha. – Disse a mulher, completamente venenosa, tirando um cartão da bolsa. – Pode me procurar neste endereço.
Hermione não aceitou o cartão, mas Rita sorriu e o colocou sobre a mesa, fazendo menção de sair dali.
– Sabe qual é o seu problema, Skeeter? – A loira parou, encarando-a desconfiada. – Você sempre esteve do outro lado, os holofotes nunca estiveram voltados para você, nunca ganhou uma matéria de primeira página falando sobre você... E eu acho que esse é motivo de tanto rancor guardado.
– Sabe qual é o seu problema, Granger? – Rita chegou mais perto, olhando-a com desprezo, para que pudesse abaixar o tom de voz. – Você é uma vadiazinha de primeira classe oportunista e caça-dotes. Sim, sei que está dormindo com Draco Malfoy. Quem diria... Quão baixo Hermione Granger irá para conseguir o que quer?
Skeeter sorriu e virou-se, mas Hermione a chamou novamente e dessa vez não perdoou. Esquecendo-se do decoro, da etiqueta e bons modos que aprendera, jogou todo o conteúdo de sua taça na cara da mulher, que fechou os olhos e abriu a boca, indignada.
Todos do salão pararam para observar a cena, chocados. Sabia que isso só serviria para alimentar boatos sobre seu “misterioso desaparecimento” e também sabia que Rita Skeeter dedicaria toda uma coluna para falar mal dela, mas estava temporariamente satisfeita com a vergonha que fizera a mulher passar. Sabia que o vestido e os cabelos molhados poderiam ser secados com magia, mas o vexame não seria esquecido tão facilmente.
Aproximou-se enquanto a mulher passava a mão no rosto, tentando inutilmente limpá-lo para que pudesse abrir os olhos.
– Mesmo que eu seja uma vadia, isso não é problema seu. – Disse em tom baixo para que só ela visse. Skeeter grunhiu de raiva e finalmente conseguiu abrir os olhos, abrindo caminho e desaparecendo apressada entre a multidão.
Respirou fundo, percebendo que todos ainda a observavam descaradamente. Milagrosamente, McLaggen surgiu em meio às pessoas e a levou para um canto mais reservado, segurando-a firmemente pelo braço.
– Obrigada. – Disse, ajeitando os cabelos.
– Essas pessoas podem ser cruéis quando querem. – Disse o loiro tranquilamente enquanto escondia as mãos no bolso. Quem não sabia, poderia até supor que ele não estivesse ali a trabalho.
– Eu sei, só não me importo mais. – Ela deu um meio sorriso, dando de ombros. – Tenho uma vida lá fora e me parece que estou aqui apenas para resolver um... Importuno. Você sabe, de passagem.
– Acha que conseguirá voltar à vida normal depois de hoje?
Hermione suspirou, meneando a cabeça enquanto encarava os olhos azuis penetrantes. Diferentemente de Draco, os olhos de Córmaco eram realmente azuis, não possuíam matiz acinzentada, aparentavam mais sinceridade e simplicidade.
– Gosto de pensar que sim. – Córmaco não deixou de encará-la enquanto pensava, o que a deixou constrangida, obrigando-a a desviar os olhos para os outros convidados.
– Sabe, não me concedeu uma dança no sexto ano. – Ela voltou a olhá-lo, confusa. – Quando a acompanhei, você fugiu a noite toda.
– Eu era uma adolescente idiota, que tomava atitudes idiotas, nada diferente do usual. – Ela o encarou um pouco desconfortável pelo fato de ter convidado-o a acompanhar no Baile de Slughorn e de ter lhe escorregado o tempo todo, como a menininha inexperiente que era. Porém, Ronald não sabia disso e realmente acreditara que Hermione beijara McLaggen naquela noite, nunca houve chance de esclarecer essa história. – Podemos dançar, se quiser.
– Estou trabalhando. – Ele indicou Harry que se encaminhava até onde estavam.
– Sinto muito.
Sorriu desculpando-se ao mesmo tempo em que o moreno dirigia-se ao outro perguntando se identificara alguma atividade estranha. Quando Córmaco respondeu negativamente, o designou para continuar circulando pela festa e voltou-se para Hermione, entregando uma taça cheia de ponche.
– Achei que não gostasse de McLaggen.
– Isso foi há muito tempo. – Observaram o homem de cabelos cor de areia parar em um grupo de pessoas, conversando animadamente, disfarçando seu papel naquela noite.
– Exceto na hora do trabalho, ainda continua o mesmo egocêntrico, se quer saber. – Harry deu de ombros. – O que aquilo com Skeeter, aliás?
– Ela só estava... Sendo Rita Skeeter. – Hermione revirou os olhos. – Você sabe, fazendo insinuações.
– Não poderíamos esperar menos, realmente.
– Já viu Draco?
Mudou completamente de assunto, pois fazia quase uma hora que estavam ali e nem tiveram sinal do loiro. O moreno curvou a cabeça, encarando-a com um sorriso malicioso. Hermione fechou os olhos e abaixou a cabeça, encarando o conteúdo vermelho em seu copo.
– Está apaixonada por ele? Mesmo? – Balançou a cabeça negativamente, derrotada diante de todos os visíveis sinais que demonstrara diante do amigo.
– É bom que ele não saiba disso.
– Não pela minha boca. – Harry deu de ombros e voltou-se para o púlpito, onde Kingsley se encontrava, esperando o silêncio de seus convidados. Havia algumas cadeiras dispostas logo atrás dele, esperando seus homenageados.
– É com grande prazer que estamos aqui esta noite para celebrar os 10 anos do fim 2° da Guerra Bruxa, homenageando seus heróis, aqueles que deram tudo de si, alguns até a vida, para que pudéssemos desfrutar invejados tempos de paz. – Hermione trocou um olhar significativo com Harry. Tempos de paz não eram para ela, definitivamente. – Gostaria de chamar ao palco alguns dos nomes que prestaram relevantes serviços à comunidade bruxa durante a Guerra. A cada um de vocês aqui presentes, como sabem, reafirmo o que sempre digo: vocês fizeram a parte que lhe cabia e são igualmente importantes para nós.
Kingsley passou a convocar nomes conhecidos, tinha certeza de que, não pela primeira vez, homenageava as mesmas pessoas. Considerava aquele tipo de cerimônia um tanto quanto hipócrita, tanta gente havia se envolvido naquela guerra, tanta gente não fora homenageada, tanta gente teve seu nome esquecido enquanto um nicho composto por preferidos — mas não menos merecedores, é claro — entravam para a história.
Potter, Weasley, Longbottom, Lovegood, McGonagall – curvada e apoiada sobre uma bengala -, Slughorn, Thomas, Finnigan, Granger... Hermione congelou em seu lugar ao ouvir seu nome. Não esperava que seu nome fosse incluído entre o seleto grupo de homenageados, não depois de tanto tempo fora.
Sorrindo encabulada e sob aplausos entusiasmados, começou a encaminhar-se em direção ao púlpito, mas uma explosão em cima do mesmo fez com que parte do teto desabasse sobre os homenageados, gerando gritaria e pânico. Poeira e entulho espalharam-se por todo o local enquanto as pessoas corriam de um lado para o outro em direção à saída.
– Vem comigo.
Não reconheceu a voz devido à gritaria, mas viu-se sendo encaminhada em direção contrária a saída e ao fluxo de bruxos e bruxas que seguiam para o Departamento de Transportes.
Passou pelo púlpito, onde viu Harry levantar completamente sujo, mas intacto, ajudando McGonagall, que se encontrava no mesmo estado. Não viu mais nenhum conhecido, pois tudo aconteceu rápido demais. O olhar do moreno recaiu sobre Hermione e o homem que a guiava, mas parece ter se dado por satisfeito, pois logo se voltou para uma Luna Lovegood descabelada, ajudando-a a levantar.
Seus braços começavam a doer devido ao aperto quando finalmente alcançaram uma das lareiras — que aparentemente eram parte do plano de fuga dos Aurores – e aparataram, sabe-se lá para onde. Tossindo devido à poeira dos entulhos, Hermione clamou mentalmente por um copo d’água. Quando conseguiu normalizar a respiração, finalmente voltou-se para o auror que a havia tirado daquela bagunça que o Ministério se tornara.
– McLaggen. – Suspirou momentaneamente aliviada. – Aquelas pessoas ainda estão lá, o invasor ainda pode estar a minha procura e machucá-las. Temos que voltar!
– Está enganada. Agora, Hermione, vamos seguir as regras do meu jogo.
Encarando o sorriso maldoso, iluminado apenas pela lua cheia, Hermione sentiu o coração disparar e engoliu em seco. Olhando ao redor, pela primeira vez percebeu que estava em um enorme campo de cultivo de rosas negras.
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