Memories of the Past
39 Capítulo 39
– Então... Quer dizer que é filha, filha legítima, de Bellatrix e Rodolphus Lestrange?
– Entende por que não queria que soubessem? – Perguntou Hermione, hesitante.
Harry ainda estava atônito com toda a verdade sendo praticamente vomitada sem cuidado algum sobre ele. Nos últimos 10 anos, Hermione vivera sob a sombra da consciência de que um dia as coisas se encaminhariam para aquele ponto onde estavam, conversando sobre suas origens questionáveis com o cara que mais as detestava.
Respirou fundo e o encarou, esperando uma reação após o moreno processar tudo que contara. Ele queria respostas, ele queria saber por que fugiu, por que não os enfrentou e Hermione julgava seus próprios motivos aceitáveis e até mesmo louváveis. Assim, queria que Harry a compreendesse no melhor sentido da palavra, embora soubesse que esse poderia ser um processo complicado e longo, pois ela própria tivera dificuldades de deixá-lo para trás. Deixar o caminho da compreensão e seguir o da aceitação fora realmente difícil.
Ao mesmo tempo em que o sangue que corria em suas veias era nobre, puro, cobiçado, ele era sujo e, pelo menos para ela, nada invejável. Aquele sangue carregava as marcas de uma família cruel e preconceituosa, tudo que Hermione não era. Orgulhava-se disso, orgulhava-se do pequeno fato de que, apesar de possuir o sangue Lestrange, não representava nenhum dos preceitos que o acompanhava. Porém, havia precisado de muito tempo para entender que aquele sobrenome não a definia, era apenas um rótulo, pois os valores herdados de seus pais trouxas haviam sido moldados firmemente e nos tempos atuais – segura de si – podia afirmar que estes eram os responsáveis por seu caráter.
Estavam no Bar Café Mr. House, o movimento lá fora era frenético, assim como do lado de dentro. O balcão estava completamente atulhado de pessoas fazendo seus pedidos, ansiando para serem atendidos com eficiência para seguir em frente rapidamente. Homens e mulheres vestindo roupas formais falavam apressadamente em seus celulares e consultavam seus relógios com ansiedade.
Surpreendentemente, percebeu que não sentia falta de toda aquela agitação do centro. Adorava exercer sua profissão, sentia-se poderosa e não tinha vergonha de afirmar que gostava do poder que aquele tipo de posição na sociedade lhe proporcionava, era humana, no fim das contas. Porém, trocaria isso para viver em um local mais calmo, onde pudesse aproveitar com prazer a simplicidade que a vida oferecia.
Nos últimos tempos, sua vida girava em torno do trabalho e do dinheiro que ele lhe garantia, com certeza poderia afirmar que não era a pessoa mais feliz do mundo. Não tinha alguém com ela para acalmá-la e simplesmente mimá-la descompromissadamente quando chegava em casa e sentia falta disso, seu relógio biológico estava fazendo um escândalo e esquecera-se disso apenas por que o invasor reivindicava a maior parte de sua atenção. Talvez toda essa história estivesse fazendo com que repensasse sua vida, percebeu com um suspiro enquanto encarava o semblante cansado de Harry.
– Isso é completamente surreal! – Ele parecia conter-se para não passar as mãos pelos cabelos e bagunçá-los, como era sua mania quando adolescente.
– Eu sei. – A xícara de café expresso com açúcar extra ainda estava intocado à sua frente, seus dedos brincavam ansiosamente em cima da mesa ao mesmo tempo em que continha com muito esforço a vontade de morder os lábios e demonstrar o quanto estava insegura com a opinião de Harry. – Só quero que entenda por que não pude ficar. Eu levei muito tempo para aprender lidar com isso e não saberia fazê-lo estando perto de vocês. Agora, por outro lado, me sinto segura o suficiente para encará-los e enfrentar as consequências das minhas decisões do passado. Acho... Acho que posso dizer sem hesitação quem eu sou realmente.
– E quem você é? – Perguntou ele ajeitando os óculos, encarando-a com seriedade.
– Alguém que quer consertar as coisas. Sei que quebrei algo entre nós, sei que as coisas não serão como antes. – Ela respirou fundo, encarando-o determinada. – Porém, também sei que não é pelo fato de ser filha de Comensais, mas... Por causa das escolhas individuais que fiz.
– Isso parece lhe deixar um pouco mais aliviada.
Hermione sorriu, afirmando, e o silêncio entre eles se tornou desconfortável. Ambos não sabiam como continuar aquela conversa, não tinham certeza se esta acabava naquele ponto ou continuariam e arriscariam colocar a tênue linha “recém reconstruída” de amizade em cheque.
Encarou a rua pela janela percebendo que uma tempestade inconveniente começava a se formar no céu. Mecanicamente, tomou um gole do café já frio e fez uma careta. Detestava café frio.
– Conte-me sobre sua família. – O encarou, sentindo-se um pouco deprimida diante de toda aquela situação, era inevitável que não parecessem dois estranhos. – Como está Ginny?
Harry sorriu feliz por entrar em território conhecido. Apesar de tudo, ainda o conhecia o suficiente para saber que ele ficava desconfortável ao falar de assuntos que não gostava.
– Ela está nos últimos meses de gestação, uma menina dessa vez. James e Albus tem 7 e 4 anos, respectivamente.
– Será completamente mimada pelos homens da casa, tenho certeza. – Disse Hermione imaginando uma garotinha ruiva, muito parecida com Ginny, mas que tivesse herdado os olhos de Harry. Ele sorriu meneando a cabeça, parecendo já ter pensado na possibilidade.
– Ginny sentiu sua falta. – Declarou ele, com a voz rouca. – Foi muita pressão sobre nós após o término da Guerra, acho que... Ela precisava de alguém para lhe fazer companhia.
– Também senti falta dela. De todos vocês, Harry, acredite. – Ela mordeu os lábios. – Aliás, já falou com eles?
– Ron... Você sabe, ele é mais difícil de convencer, mas Ginny e a família Weasley querem vê-la o mais rápido possível.
Hermione sorriu, com saudade de toda a movimentação característica dos Weasley, sempre tão animados e unidos, gostaria que ainda fossem exatamente do modo como se lembrava.
Harry levantou-se, deixando alguns trocados sob a mesa enquanto enfatizava que já haviam demorado muito tempo ali. Ambos precisavam se arrumar e ele ainda tinha de revisar todo o plano estratégico feito pelos Aurores visando, especialmente, sua segurança individual.
Fez questão de despedir-se pessoalmente de Mr. House antes de saírem e encaminharem-se até o beco mais próximo na intenção de aparatar perto da casa de Draco. Estava feliz que haviam tido uma conversa franca e que as coisas tivessem sido esclarecidas, pelo menos entre eles. Torcia para que Ron fosse um pouco mais compreensivo do que se lembrava, principalmente após o alerta, ele certamente estaria ressentido.
O auror McCarthy parecia saber que chegariam àquela hora, pois assim que adentraram o hall de entrada da casa de Draco o mesmo praticamente caiu em cima do Chefe recitando eficientemente todas as informações que possuía sobre o local, os aurores designados e as dificuldades de montar um sistema de segurança driblando os obstáculos dos organizadores da festa, que possuíam seus próprios seguranças.
Visto que fora ignorada, seguiu para o quarto de Draco. O vestido que ganhara do perseguidor estava pendurado no closet, destacando-se em meio aos objetos tipicamente masculinos de Draco. A Sra. Jo insistira em separar uma parte do closet dele para guardar suas coisas – completamente amarrotadas dentro da mala –, mas Hermione percebeu que seria demais para ambos. Nunca tinham falado em compromisso, suas peças de roupas espalhadas pelo aposento pareciam gritar uma intimidade que não possuíam. Era exatamente por isso que Harry a acompanharia na festa; além do fator óbvio de sua segurança, todos pensariam que eram um casal e as perguntas ficariam ainda mais difíceis de se responder.
Livrando-se de suas roupas, tomou um banho rápido lamentando que não tivesse tempo para usar a banheira e sentou-se no chão do closet, munida de sua maleta de maquiagem, apreciando a maciez do tapete. Usando aparelhos trouxas, Hermione fez cachos perfeitos em seu cabelo e prendeu um coque simples, porém, elegante. Estava finalizando a maquiagem escura quando Malfoy apareceu, desabotoando a camisa apressadamente.
– Uma reunião me prendeu no escritório. – Ele entrou no banheiro e continuou falando de lá. – Alguns investidores querem uma fábrica na Rússia, mas não oferecem nenhum incentivo fiscal. Custo completamente nosso, dá pra acreditar?
Ouvindo o barulho do chuveiro ligado, Hermione levantou-se e despiu-se, enfiando-se no vestido vermelho. Olhando no espelho, percebeu que o mesmo ficara largo, era um pouco mais magra do que na adolescência. Mordendo os lábios, buscou a varinha e mentalizou um feitiço antigo e provavelmente em desuso para encolhê-lo ao redor de seu corpo, fazendo com que o caimento do mesmo ficasse perfeito. Nott tinha mesmo razão, o invasor possuía bom gosto.
Após borrifar em seu pescoço e colo o perfume, juntou suas coisas do chão no mesmo instante em que ele saía do banheiro, de cueca e ainda um pouco molhado. A conhecida pontada em seu baixo ventre se fez presente e Hermione precisou balançar a cabeça negativamente para voltar a se concentrar no que devia fazer e desviar a atenção do volume dentro da cueca negra que adorava e das costas pelas quais possuía um tesão especial. Gostava de observá-lo dormir apenas para ver os músculos de suas costas contraídos, como imaginava que ficavam quando transavam.
– Russos são os piores tipos de negociantes, não tente fazê-lo. – Hermione sorriu e sentou-se para abotoar sua sandália enquanto ele enfiava a camisa branca dentro da calça social, encarando o próprio reflexo no espelho. – Como foram as coisas com Potter?
Ela parou ao lado dele passando o batom nude cuidadosamente – observando o contraste elegante com a maquiagem negra e o vestido vermelho. Analisou seu próprio reflexo percebendo que se esquecera dos brincos como já era de seu costume, não por estar nervosa, mas se tratar de um vício de memória desnecessário.
– Ele foi mais compreensivo do que imaginei que seria, mas... Nunca voltaremos a ser tão unidos quanto antes, ou tão confidentes, ou tão... Amigos. – Virou-se de costas com a desculpa de colocar os brincos usando um pequeno espelho embutido na parede do closet. A verdade é que tal fato estava martelando em sua cabeça desde sua conversa com Harry: podia tentar consertar tudo que fizera, mas jamais voltariam a ser amigos, no sentido mais efetivo da palavra, e isso doía como um inferno. — Sempre soube que seria assim, acho que não queria encarar a verdade. Eu não poderia esperar que me recebessem de braços abertos, ignorando que eu os abandonei e pensando apenas no agora e no fato de que estou de volta... Nenhum deles faria isso. Só queria que as coisas fossem mais... Simples.
Como esperava, Malfoy não disse nada. Ele não era do tipo que dizia palavras bonitas ou reconfortantes com a intenção de consolar alguém, isso estava cravado em sua personalidade. Draco, porém, fez com que se virasse e, em completo silêncio, o viu abotoar um bracelete fino e dourado ao redor de seu pulso. Olhando melhor, pode perceber que era incrustado de pequenas e discretas safiras vermelhas, o que deixava seu braço ainda mais delicado.
– Rabastan lhe mandou de presente. – Ele comunicou e Hermione levantou uma sobrancelha, confusa. Por que Rabastan lhe mandaria algo de presente? – Ele parece gostar de você.
– Não vejo motivo para isso.
Seguiu o olhar de Draco, encarando o reflexo de ambos no grande espelho ao final do closet. Tinha de admitir, formavam um quadro bonito. Estava completamente pronta para a cerimônia dos 10 anos do fim da Guerra Bruxa, enquanto ele ainda precisava vestir o terno e pentear os cabelos, mas parecia completamente atraente daquela maneira. Se acostumaria facilmente a vê-lo assim todos os dias.
– Parece mesmo o sexto ano. – Disse ele, escondendo as mãos no bolso. – Eu a vi na festa de Slughorn, estava ainda mais bonita que no Baile de Inverno.
– Aquele baile foi um fiasco.
– Acho que tem razão. – Seus olhos se encontraram no reflexo. – Não acompanhei a garota mais bonita da festa. E não o farei novamente.
– Draco...
Virou-se para o mesmo, mantendo o contato visual a centímetros um do outro. Encará-lo sempre a tirava dos eixos, os olhos dele faziam com que perdesse a linha de pensamento muito facilmente e isso raramente acontecia. As feições do loiro eram tranquilas e Hermione invejou sua capacidade de continuar indiferente em certas ocasiões.
– Você está linda. – Ela suspirou meneando a cabeça, sem saber realmente o que dizer. Queria abraçá-lo, queria sentir seu perfume pós-banho, queria ficar ali, mas não queria “estar linda” para ir àquela festa e isso apenas fez com que odiasse ainda mais o maldito invasor.
– Me deseje sorte.
– É a bruxa mais inteligente de seu tempo... Você não precisa de sorte. – Concordou mesmo ainda insegura sobre isso. Ele aproximou-se, calmamente colando-a a seu corpo, o nariz percorrendo a curva de seu pescoço, arrepiando-a, sentindo o aroma do perfume que criara especialmente para ela. – Venha direto para cá após a festa.
– Por quê?
Suas testas se uniram e as respirações se misturaram, obrigando-a a fechar os olhos para esperar o beijo que não veio. Draco parecia estar apenas apreciando o contato, a proximidade, mesmo que sua voz estivesse completamente rouca de desejo.
– Pra eu ter certeza de que está bem.
Hermione murmurou em concordância querendo prolongar ainda mais o momento, mas ele afastou-se para terminar de se arrumar, deixando apenas o perfume masculino e tentador no ar. Respirando fundo, arrumou o vestido e encaminhou-se para a saída deparando-se com um Michael pálido a abatido em frente à porta do quarto, pronto para bater e anunciar sua presença.
– O que aconteceu?
– Por favor, diga que conseguirá algo essa noite.
– Farei o possível. – Sentiu, porém, que deveria enfatizar. – Eu prometo.
– Seu amigo Potter está esperando na sala.
Com um olhar beirando o agradecido, Michael seguiu pelo corredor em direção ao quarto de hóspedes em que estava hospedado. Mais do que nunca, Hermione percebeu que deveria se esforçar para consertar as coisas e não apenas no que se referia a Harry.
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