Memories of the Past
17 Capítulo 17
Hermione estava em frente a sua casa, segurando sua bolsinha enfeitiçada com força. Há anos, ela era sua companheira inseparável. Olhou para os lados, percebendo como o tempo estava fechado, era visível que uma tempestade estava se formando a leste e que teria de entrar em casa o mais depressa possível.
Esteve adiando este momento nos últimos cinco minutos e algum vizinho provavelmente deveria estar se perguntando o que uma moça de cabelos desgrenhados e completamente encharcada, como se tivesse acabado de sair de um temporal, estava fazendo ali. Eles provavelmente chamariam a polícia, pois não a reconheceriam de qualquer maneira. Havia cuidado para que fosse desse jeito. Respirou fundo e abriu a porta com um feitiço simples, a varinha tremia em sua mão. Lá dentro estava escuro e frio, como se ninguém tivesse ido lá nos últimos meses, o que era a pura verdade. Seus pais adotivos (essa palavra nunca soaria bem em sua mente), mesmo depois de sua vã tentativa de protegê-los mandando-os para a Austrália, haviam sido mortos enquanto ainda estava procurando as horcruxes de Voldemort com seus amigos. Fora Lupin quem dera a notícia, quando estavam hospedados na Mansão Black. Harry e Ron ainda sugeriram que ela pudesse voltar e dar um enterro digno aos Granger, mas não havia mais nada a se fazer e Hermione decidiu que continuaria lutando contra os que tinham cometido àquela atrocidade. Eles eram indefesos, trouxas comuns, apenas... As pessoas que aceitaram criar um bebê também indefeso. Não tinham culpa de nada, sequer possuíam um traço mágico no sangue! No entanto, haviam sido mortos exatamente pela causa mesquinha de Voldemort envolvendo sangue e nascidos-trouxa. Os móveis da casa estavam cobertos com tecidos brancos e ela agradecia mentalmente a quem quer que fosse que tenha se dado ao trabalho de fazê-lo. Provavelmente algum vizinho que gostava de seus pais, eles eram bastante sociáveis. Trancou a porta de maneira trouxa e respirou fundo, começaria uma nova vida. Seria Hermione Granger, a garota que comprara a casa para viver num bairro tranquilo de Londres. Entretanto, assim que pisou em seu quarto, risadas altas e estridentes começaram a ecoar em sua mente, como um toca-fitas quebrado, sem nunca cessar. Compreendia, estava pensando em Bellatrix mais do que devia, mas ainda tentava digerir o fato de que havia saído da barriga de uma mulher tão cruel quanto ela. Estiveram ligadas por nove meses e eram diferentes em absolutamente tudo. – Pare! — As risadas continuaram. Era como se estivesse no Ministério, novamente com 15 anos, quando Bellatrix ria histericamente enquanto comemorava o fato de ter matado Sirius Black, seu próprio primo. — Já chega! "Você é minha filha". A voz da Sra. Lestrange sussurrava ecoante em seu ouvido. "O sangue que corre em suas veias é o mesmo sangue puro que o meu, aceite!" Hermione ajoelhou-se à beira da cama, tapando os ouvidos e fechando os olhos, embora não tenha tido sucesso em fazer parar a irritante voz. No fundo, sabia que estava tudo em sua mente, mas era aterrorizante ter a própria Bellatrix lhe sussurando sua maior vergonha em seu ouvido, lhe deixando louca como ela. Chegou a pensar na possiblidade de a mulher estar manipulando sua mente, seus sonhos ou algo do tipo, mas seria impossível considerando que ninguém sabia onde estava. Harry e Ron nunca haviam estado em sua casa, então eles não saberiam nem por onde começar a procurá-la. "O sangue que corre em você é nosso motivo de maior orgulho." Mais uma onda de risadas e murmúrios ininteligíveis. "Fique comigo, Hermione. Fique comigo e lhe ensinarei o que é ser uma Lestrange. Fique, Hermione. Fique e você saberá como um Lestrange deve agir. Fique..." – Já chega! — Lágrimas já saltavam de seus olhos apertados. — Eu não quero saber, não quero! Por favor, não quero ser uma Lestrange... As risadas e sussurros foram interrompidos pelo tocar da campainha e Hermione, tentando se recompor, levantou-se e olhou pela janela enquanto enxugava as lágrimas que escorreram sem permissão por seu rosto. Ainda encostara o rosto na janela por alguns segundos antes de tomar coragem para descer e encarar os receptivos vizinhos. Era a hora de saber se seu feitiço de memória havia funcionado. Hermione sentou-se na cama, ofegante e só percebeu que havia lágrimas em seu rosto quando passou a mão pelo mesmo para tentar situar-se. Ainda estava na casa de Malfoy, em seu quarto de hóspedes e percebeu, pela claridade que entrava numa pequena fresta da cortina, que já havia amanhecido. Fechou os olhos, ainda ouvindo o eco da voz de Bellatrix em sua cabeça. Seus coração martelava contra o peito e a vontade de chorar só aumentava. Deus, estava começando a aceitar a ideia de que estava mentalmente descontrolada com toda a história do invasor. Aquele havia sido um de seus sonhos mais aterrorizantes dos últimos anos!
Engoliu em seco e olhou ao redor, tentando se acalmar, mas sua linha de raciocínio mudou ao ver uma bandeja de café da manhã arrumada sob a mesinha de chá. Hermione demorou alguns segundos para entender, mas, depois de uma olhada no relógio sobre o criado mudo ao lado da cama, constatou que estava atrasada para o almoço com o contato de Malfoy. Resignada, jogou as cobertas para o lado e quase correu para o banheiro. Tomou um banho rápido, observando a banheira com hidromassagem enquanto lamentava que não teria tempo de usar, e colocou uma roupa apropriadamente quente, com direito a toca e luvas. Pegou a bolsa e desceu as escadas sem nem tocar no café da manhã que certamente fora a Sra. Jo que levara. Deveria ser um pouco mais educada com a mulher, já que percebera que a governanta de Malfoy só esperava um deslize para sutilmente criticá-la. Ela parecia ser a melhor nesse tipo de coisa. Malfoy encontrava-se sentado tranquilamente no sofá lendo uma revista qualquer sobre arte. Ele parecia gostar mesmo desse ramo. Não que Hermione não gostasse, até achava algumas coisas interessantes, mas obras abstratas que não lhe faziam nenhum sentido não era o tipo de coisa que lhe chamava a atenção, ao contrário do loiro, pelo que parecia. – Oh, finalmente amanheceu em seu quarto, Granger. — Hermione apenas sorriu, ironica, para ele. — Já estamos atrasados para o almoço. Malfoy estava mais bonito do que nunca, constatou depois que ele se levantou olhando em seu relógio de pulso enquanto a criticava. Criticas eram mesmo o ponto forte das pessoas daquela casa. Draco não usava terno, como no dia a dia, mas uma camiseta de lã com mangas compridas e uma calça social, ambas negras. Ela supôs que o motivo fosse o fato de simplesmente ser domingo. – Aonde vamos, afinal? Ela o seguiu na descida das escadas, vendo que não tinha reparado que Malfoy usava um cordão de prata ao redor do pescoço, escondido logo que ele colocou o casaco grosso e o cachecol. Não gostaria de parecer curiosa, mas gostaria muito de saber qual formato tinha o pingente que pendia do cordão. – Sra. Jo, não voltaremos para o almoço, tire a tarde de folga. Malfoy abriu a porta e lhe deu passagem. Elijah já esperava ao lado do carro de Malfoy e, quando os viu, abriu a porta para que pudessem entrar no banco de trás. Quando o carro finalmente aluiu, Hermione encarou o perfil de Malfoy, totalmente inexpressivo, e foi então que começou a ficar desconfiada. Por que ele estava evitando a pergunta? Cruzou os braços e continuou a encará-lo até que se sentisse incomodado o suficiente para lhe dar atenção. Nunca soube o por que, mas as pessoas evitavam ficar sob a mira de seu olhar por mais tempo do que o necessário. Ele remexeu-se no banco, impertigado, e se virou para ela, suspirando vencido. – Tudo bem, o que foi?– Para onde estamos indo? – Você irá saber quando chegarmos lá. – E você me conhece o bastante para saber que eu não me contento com essa resposta. Malfoy revirou os olhos, encarando a janela por alguns segundos antes de voltar-se para ela. – Caldeirão Furado. — Ela arregalou os olhos e o encarou, sem poder acreditar no que estava ouvindo. — É para lá que estamos indo encontrar Theodore Nott. Hermione evitou fitá-lo enquanto mil e um pensamentos passavam por sua mente, cada um mais terrível que o outro. O que ele tinha na cabeça quando marcou um encontro no Caldeirão Furado? O bar-hospedaria vivia lotado de bruxos, dia e noite! Tudo bem, sua aparência havia mudado consideravelmente, mas alguém ainda poderia reconhecê-la. Arfou com a possibilidade e pensou em fazer Elijah parar o carro bem ali para que pudesse descer. Aurores adoravam matar o tempo no Caldeirão Furado e o próprio Malfoy havia dito que Harry e Ron nunca haviam deixado de procurá-la. Sem contar que Theodore Nott era a pessoa de confiança de Malfoy! Um Sonserino tão ou mais esnobe que Malfoy nos tempos de escola. Outro filho de um comensal, que, vira nos jornais quando estava procurando pistas sobre o invasor, tivera o pai preso. Outra pessoa que a odiava. Ele, possivelmente, devia culpá-la pela prisão do pai, como Malfoy fizera há muitos anos atrás, por que era assim que eles pensavam e agiam. Sonserinos, puros-sangues, odiavam levar a culpa. Podia sentir o olhar de Malfoy sobre si, avaliando-a, e isso a deixava ainda mais nervosa por que significava que ele já esperava que perdesse o controle. E o pior de tudo é que sabia que não podia mais manter-se calma em relação ao que ele havia falado, principalmente depois da noite mal dormida que tivera. A cada segundo que passava, a raiva que sentia do loiro ao seu lado aumentava substancialmente. Então, quando percebeu já havia partido para cima de Malfoy depositando socos onde conseguia. Ele havia sido pego de surpresa e por alguns poucos segundos se deixou ser batido. Entretanto, Draco era visivelmente mais forte que ela e quando conseguiu imobilizá-la estavam quase deitados no banco traseiro. Não se sentiu constrangida, pois a adrenalina controlava seu corpo e queria apenas se soltar para que pudesse descontar sua raiva em Malfoy e apenas nele.– Granger... — Hermione não queria ouvi-lo por que ele era bom com as palavras e conseguiria manipulá-la facilmente. Deus, só não queria ir direto para uma armadilha! A ideia de encontrar seus amigos e ter de explicar a eles por que fugiu também lhe produzia muitos pesadelos. Nunca acabava bem em seus sonhos. — Hermione, já chega! Ela o encarou, como se tivesse sido despertada de um transe. Estava ofegante e podia sentir a respiração de Malfoy sobre si da mesma maneira. Ele segurava seus pulsos, impedindo-a de se mover para acertá-lo novamente. Encarou os olhos do loiro e pode perceber que pela primeira vez conseguira ler algo do que se passava na mente dele. Malfoy estava confuso, embora Hermione soubesse perfeitamente o que havia acontecido. Sentiu os olhos encherem-se de lágrimas e os fechou, segurando um soluço. Odiava parecer fraca em frente Malfoy e era exatamente isso o que estava acontecendo ali. Estava totalmente vulnerável e impotente perante os acontecimentos de sua própria vida. – Pode me soltar? — Malfoy pareceu um pouco inseguro quanto ao seu pedido. Abriu os olhos e o encarou, firmemente. — Eu... Estou bem. Verdade. Lentamente, ele a soltou e ambos se ajeitaram no banco. Malfoy ainda a olhava como se suspeitasse de algo, embora fosse ela própria quem deveria estar desconfiada dele, mas Hermione sabia o que ele estava achando e não gostaria de entrar no assunto. – Granger... — Dessa vez, não era mais seu primeiro nome saindo da boca dele e sabia que tal coisa demoraria a acontecer novamente em se tratando de Draco Malfoy. Entretanto, pode perceber a cautela velada em seu tom de voz. — O que foi que acabou de acontecer? Hermione apoiou os cotovelos no joelho e escondeu o rosto entre as mãos. Deus, não estava preparada para responder aquela pergunta, não para Malfoy. Não havia pensado na possibilidade de perder o controle daquela maneira e deixar que ele a visse naquele estado. Percebeu seu coração disparado e o tremor em suas mãos, suspirando, e naquele instante desejou que voltasse, imediatamente, a ser a Hermione Granger segura e que nunca se abalava que ele conhecia. Quando se deu conta que Malfoy esperava a resposta há tempo demais, o carro começou a parar e ouviu o suspiro resignado do loiro ao seu lado. Sentia que ele queria respostas, mas também sabia que não estava pronta para dá-las. Viu quando ele lhe estendeu algo e percebeu, pelo tamanho e textura, que se tratava de uma capa de chuva feminina. Em sua mente, apenas aquele pedaço de tecido grosso não seria eficiente para camuflá-la entre os bruxos do Caldeirão Furado. – Obrigada. Ambos desceram do carro e encaminharam-se para a porta do Caldeirão Furado. A rua estava completamente vazia e não muito diferente do que se lembrava. Todos os prédios ainda eram antigos, descascados e de cor cinza. Malfoy abriu a porta, fazendo uma campainha soar, e deu espaço para Hermione passar. Já estava acostumada com o gesto dele. Entretanto, quando tentou colocar o pé dentro do estabelecimento foi impedida por algo invisível que também bateu contra seu rosto, deixando-a sem oxigênio por poucos segundos. Encarou Draco, sem entender o que se passava e ele franziu o cenho, passando para dentro do estabelecimento sem problemas e a olhando com algo parecido com temor em seu rosto.
Aindou tentou passar de novo, mas a barreira ainda a impedia e quando olhou Malfoy novamente, ele desviou o olhar. Foi então que lembrou-se do que já havia lido sobre o Caldeirão Furado e entendeu perfeitamente o que se passava: não existia mais magia em seu sangue.
Notas finais
Volteeei e dessa vez com um capítulo bem grande e legal para vocês, o que acharam hem? Eu adorei escrever e devo dizer algo muito importante: estava ouvindo as músicas novas da Sia enquanto escrevia, então por isso ficou um pouco dramático kkkkkkk
Enfim, eu gostei bastante do resultado final, um dos meus capítulos preferidos. Gostaram dos novos mistérios?! Eu simplesmente amei colocar mais duas novas barreiras para Hermione ultrapassar com a ajuda de Draco. Sem magia no sangue, isso é possível? :O
Gente, novamente, muito obrigada pelos comentários!! O incentivo que vocês dão é ótimo e muito importante e quem escreve sabe, principalmente quando se está passando por problemas pessoais. Entrei nesse impasse de que talvez não conseguiria escrever por um tempo, mas quando eu releio a fic quero saber como será a continuação, como vocês leitoras, então ME RECUSO a desapontá-las kkkkkk
Um bjão e até o próximo, com spoiler pra deixar vocês bem felizes e curiosas:
- Você abandonou a magia, Granger.
...
- Depois de tudo que aconteceu, acha que eu não tenho o direito de ficar um pouquinho perturbada?
...
- Ao contrário do que acha, somos bastante parecidos. Ambos orgulhosos, altruístas e prepotentes, você só precisa se lembrar disso.
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