Notas iniciais
Boa leitura, mores!

36º Lembranças

[Regina]

― Regina? ― Escuto uma voz sussurrada me chamar e me chacoalhar devagar. ― Meu amor, já passa do meio dia. Você dormiu demais. ― Abro os olhos e dou de cara com o meu pai, sorrindo para mim. Olho ao redor, vendo que estou em meu quarto e me pergunto quando e como eu cheguei aqui, pois eu não me lembro.

― Onde está a Zelena? ― Reviro-me na cama e me sento com facilidade. A fisioterapia estava mesmo fazendo efeito. Vejo meu pai com um olhar preocupado sobre mim e franzo o cenho, sem entender. ― O que foi?

― Você quer que eu chame a Dra. Swan? ― Seu tom é hesitante. Ele se senta pertinho de mim na cama e toca em minha mão. ― É domingo, mas ela não se importa de vir.

― Dra. Swan? ― Pergunto confusa e meu pai assente, me fazendo ter uma ideia do que possa estar acontecendo. Olho ao redor rapidamente, percebendo que o quarto em que estou, embora conhecido para mim, está diferente de como eu me lembro, e que em vez de ter uma cadeira de rodas ao lado da minha cama, há duas muletas, e tenho a certeza do que está acontecendo. ― Zelena e minha mãe... ― Interrompi-me, incapaz de continuar aquela pergunta e meu pai assentiu, dando-me o que faltava para eu ter a completa certeza de que tinha acontecido de novo. Eu havia mudado de realidade. Depois de tantos dias sem acontecer, tantos dias de progresso, tantos dias de lembranças resgatadas, a confusão voltou a acontecer. ― Isso não pode ser verdade... ― Balancei a cabeça negativamente e tapei o meu rosto, totalmente desacreditada que estava acontecendo de verdade. Não podia ser real! ― Essa não é a minha realidade verdadeira, pai. ― Murmurei já com a voz embargada e meus olhos estavam marejados, querendo transbordar a minha dor. ― A Zelena e a mamãe não estão mortas de verdade. ― Se essa era a minha verdade, eu não queria aceitar.

― Regina...

― Não! ― Gritei, sentindo a raiva percorrer o meu corpo. Levantei minha cabeça rapidamente e vi meu pai encolhido e assustado. Droga! ― Desculpa, pai! ― Estiquei-me um pouco e agarrei o seu braço, puxando-o para mais perto, e beijei a sua bochecha. Meu pai não tinha culpa do que estava me acontecendo. Fechei os olhos por alguns segundos, tentando me acalmar, e uma ideia passou pela minha mente. ― Já sei... ― Soltei animada. Meu pai me olhou curioso. Enxuguei as lágrimas e deitei-me na cama novamente. ― É só eu voltar a dormir que volto para a outra realidade. ― Expliquei e fechei os olhos com força. ― Pai, o senhor pode apagar a luz, por favor?

Ao não obter uma resposta positiva do meu pai, abri os olhos e o vi com os seus fechados e cabeça abaixada. Parecia triste.

― Pai? ― Ele abre os olhos e, relutante, apaga o abajur da mesa de cabeceira. ― Obrigada! ― Volto a fechar os olhos e tento pegar no sono.

Os minutos vão se passando e eu não consigo desligar a minha mente. Não consigo me concentrar em ficar sem pensar nada e deixar que o sono me leve. Sinto quando meu pai se levanta da cama e abre a porta, fechando-a logo em seguida. Viro-me de um lado para o outro, mas qualquer barulho que escuto no quarto, chama a minha atenção. Então eu desisto de tentar. Enfio a minha cabeça no travesseiro e dou um grito, extravasando toda a raiva que estou sentindo. Agradeço por estar sozinha nesse momento, senão meu pai me acharia mais louca do que ele deve achar que sou.

•§•

― A Emma está aqui... ― Escutei a voz de Zelena falar bem pertinho do meu ouvido. Meu coração saltou no peito por ouvir a sua voz e eu abri os olhos rapidamente, vendo-a sentada na ponta da cama. O quarto estava um pouco escuro, mas eu podia ver bem o seu rosto. Ela sorria para mim. Não tive dúvidas em me levantar, o que fiz com dificuldade, e lhe abraçar apertado.

― O que...

― Shhh... ― Pedi, abraçando-a mais forte. Se minha ruiva estava aqui, só podia significar uma coisa. De alguma forma que eu não sabia como, eu havia conseguido voltar.

Olhei de relance pelo quarto e vi minha cadeira de rodas ao lado da minha cama, confirmando ainda mais que eu realmente tinha voltado. Apertei um pouco mais a minha ruiva, escutando-a gemer e dei uma gargalhada, segurando a minha vontade louca de gritar.

― Você está bem, Regina? ― Pergunta-me, claramente estranhando a minha atitude.

― Sim, eu só estava com saudades... ― Respondi como desculpa aproveitando que estávamos um pouco afastadas desde a conversa na volta da consulta com Martin. Não queria ter que lhe dizer de novo que a confusão com as realidades tinha acontecido.

Zelena murmura um “ok” desconfiado e eu acho estranho. Por que ela não acreditou em minha resposta?

― E eu tenho uma coisa para te dizer. ― Volta a falar, interrompendo minhas divagações e eu decido ignorar esse episódio. Afasta-se um pouco e eu vejo o seu rosto radiante, mesmo estando na escuridão. ― Eu vou terminar tudo com o Graham... ― Sussurrou, como se fosse um segredo e eu franzi o cenho, totalmente perdida. Terminar tudo com o Graham? Será que... ― Ele está voltando de viagem hoje à noite... ― Volta a dizer, interrompendo os meus pensamentos.

― Você ainda está noiva dele? ― Perguntei só para disfarçar e também confirmar minhas suspeitas.

― É só até hoje, Rê... ― Olha para baixo, parecendo envergonhada. ― Agora, chega de conversa. ― Dá uma tapinha em minha perna e minha respiração falha por eu não ter sentido o seu toque. Definitivamente, eu não estava de volta. ― A Emma está te esperando lá embaixo... ― Dou um sorrisinho forçado, tentando disfarçar o meu desespero e Zelena se levanta, puxa-me para a ponta da cama e me coloca em cima da cadeira. Em seguida, empurra-me em direção ao banheiro.

Enquanto minha irmã tirava minha roupa, eu me forçava a fingir que tudo estava normal e me segurava para não derramar as lágrimas que estavam queimando para serem libertas. Eu já não sabia mais o que estava acontecendo comigo. Em uma hora eu acordo na realidade em que Emma é minha psicóloga e de repente, de uma forma que eu não faço ideia, eu acordo novamente na realidade em que eu e Emma já tivemos um relacionamento e nos separamos porque ela tomou uma decisão e não me disse nada.

No começo, eu até pensei que só tinha acontecido mais uma vez, o que já me vinha acontecendo desde que eu acordei do coma. Mudança de realidade. E como eu bem já sabia que era só eu fechar os olhos e dormir, que tudo voltava ao normal, como aconteceu na maioria das vezes, eu não pensei duas vezes em tentar. Porém, ao não conseguir, e de repente, sem motivo algum, eu despertar aqui, eu já não entendi mais o que estava se passando comigo. Já não sabia mais o que pensar, o que fazer, como agir. Era como se minha mente tivesse se descontrolado de vez ou como se alguém a tivesse desconfigurado. Ela precisava de um reset urgente, senão iria acabar se autodestruindo e me destruindo no processo.

Por mais que eu não tivesse certeza total de que a outra realidade que eu estava vivendo era a verdadeira, era graças a ela que eu estava tendo progresso com as lembranças e estava me ajudando a entender as coisas. Era para ela que eu queria voltar.

•§•

― REGINA? ― Escuto a voz de Emma me chamar desesperada e me levanto no susto, vendo-a me olhar assustada, com os olhos arregalados. ― Aconteceu de novo? ― Seu tom é preocupado e eu assinto com pesar. Desde que eu escorreguei no banheiro, meses atrás, e bati com a cabeça no chão, tenho tido esses sonhos estranhos de ter sofrido um acidente, ter ficado anos em coma e depois de acordar, ficar trocando de realidades, algumas vezes começando tudo de novo, desde o acordar do coma, ou dando continuidade à alguma outra já vivida, confundindo a minha cabeça e me fazendo ficar na dúvida de qual era a verdadeira. O mais interessante é que parecia ser muito real, pois em uma das realidades, eu acordava procurando pela Emma, lembrava-me da minha vida de verdade e acreditava ser a certa, e ainda dizia que iria fazer uma viagem a trabalho para a Alemanha. A parte da viagem realmente aconteceu. Inclusive, tudo começou nesse dia. Mais cedo eu havia caído no banheiro, após beber vinho demais, e me neguei a deixar a Emma me levar para o hospital alegando estar bem. Mais tarde, depois de ter arrumado a minha mala, caí no sono e desde então, venho tendo essas espécies de sonhos estranhos, confusos, estressantes em algumas vezes. No começo, eu até ignorei e achei que fosse só sonhos ou pesadelos, mas depois de tantas vezes, começamos a suspeitar desse pequeno acidente, e desde então, não só eu, mas a Emma também, estávamos muito preocupadas.

― Você acha que eu devo ir no neuro? ― Viro-me totalmente para ela, ficando deitada de lado.

― Na primeira vez que aconteceu, eu até achei engraçado, sabe? Quando ouvi sua história eu pensei: Caramba! Que mente brilhante. Mas agora eu já estou muito preocupada, meu amor. ― Ela toca em minha testa e a acaricia. ― Eu acho sim, que você tem que ir. ― Aproxima-se e beija meus cabelos ternamente.

― Em uma das realidades a Kristin e a Lilith eram minhas fisioterapeutas. ― Contei num sussurro. Decidimos juntas, desde quando tudo aconteceu ainda quando não namorávamos, que falar dessas mulheres era proibido.

― Acho que o lugar em que estamos, contribuiu para isso, você não acha? ― Minha loira pergunta e eu dou de ombros. Estávamos já há alguns dias em Miami, em uma viagem para comemorar mais um ano juntas, e como o que nos acontece foi aqui, a explicação de Emma poderia fazer sentido para explicar por que Kristin e Lilith apareceram nesses sonhos também.

― Talvez sim... ― Respondo pensativa. ― Quando voltarmos para Orlando eu vou procurar um neuro. ― Digo decidida e Emma assente. ― Agora, vamos voltar a dormir que eu estou morrendo de sono, meu amor. ― Abro os braços, chamando-a, e minha loira se joga entre eles, beijando meus lábios e se aninhando logo em seguida.

•§•

― Regina, você precisa descansar um pouco ou o estresse vai te matar. ― Dr. Wallace me diz. ― Tire umas férias. Viaje! ― Seu tom é animado e eu sorrio um pouco para não deixa-lo de graça. Eu não pretendia seguir as duas ordens em relação a férias. ― Isso não pode mais acontecer. ― Ele levanta o pequeno tufo de cabelo que eu trouxe para lhe mostrar na consulta.

•

― Que tal irmos para Miami? ― Zelena sugere, toda animada, levantando-se da poltrona. ― Faz muito tempo que fomos para lá. Eu nem me recordo da última vez.

― Eu não vou tirar férias, Zelena, muito menos ir para Miami. Fim de história! ― Balancei a cabeça negativamente, deixando claro o quanto eu achava aquilo um absurdo. ― Será que podemos voltar ao trabalho? ― Apontei para a minha mesa cheia de papéis.

― Vamos fazer uma aposta? ― Revirei os olhos e suspirei pesadamente. Zelena não desistia enquanto não conseguisse o que queria. ― Se você ganhar, eu prometo que não te importuno mais e você pode se matar de estresse tranquilamente. ― Semicerrei os olhos e ela sorriu travessa.

― Ok! ― Resolvo ceder. Ou eu fazia isso, ou Zelena não me deixaria em paz. ― O que você quer?

― Uma partida de Xadrez. ― Esfrega uma mão na outra, como se tramasse um plano, e dá um sorrisinho vitorioso, enquanto eu penso se aceito a proposta e acabo logo com isso, ou se nego e tento atura-la por, sabe-se lá quanto, me irritando com essa viagem.

•

― A cerveja está mais barata aqui. ― Minha irmã comenta, parando de andar e olhando atentamente para o banner do quiosque. ― Eu vou aproveitar para comprar para nós. ― Diz, já abrindo a carteira e procurando por dinheiro. ― Me espera um pouco... ― Ela aponta para um banco mais na frente e eu caminho até ele, logo me sentando.

Impaciente com a demora de Zelena, minutos depois, resolvo apreciar a vista do mar e me levanto do banco, passo para a parte de areia e começo a andar lentamente em sua direção. Meus olhos capitam uma loira mais na frente, parada em frente ao mar e sozinha. Usava um vestido branco, segurava as sandálias atrás do corpo e tinha uma garrafa de vinho vazia ao seu lado. Não pensei duas vezes em me aproximar dela.

•

― Você já viu uma pérola de perto? ― Pergunto de repente e Emma franze o cenho, confusa com a mudança brusca de assunto, já que estávamos falando de comida. ― É que eu sou apaixonada por essas pedras e seus significados, sabe? Embora eu não me lembre de nenhum decorado... ― Dou uma risadinha e Emma balança a cabeça negativamente, mas rindo também. ― São cada uma mais linda que a outra. Não sei nem escolher minha preferida. ― Emma assente, mas sua expressão deixa claro que ainda não entendeu por que eu toquei no assunto. Agora é minha vez de balançar a cabeça negativamente, sorrindo. ― É que eu vi o colar da personagem... ― Apontei para a TV no exato momento em que a professora Erin Gruwell aparece guardando com cuidado o seu colar de pérolas. Emma abre a boca, mostrando que entendeu e eu, num gesto bem infantil, dou um empurrãozinho em sua testa. Ela agarra minha mão e me puxa para o seu colo.

― Bem, eu nunca vi uma pérola pessoalmente, mas já vi um diamante. Tenho um amigo que coleciona pedras preciosas. ― Agora é minha vez de abrir a boca, porém de surpresa.

― Que legal! ― Exclamo entusiasmada e Swan assente, me beijando logo em seguida. ― Qual a sua preferida?

― Eu gosto muito de Esmeralda e Rubi.

•

― Eu já pensei em ser psicóloga um dia, sabia? ― Emma pergunta, mudando de assunto, e eu nego, curiosa para saber mais sobre ela. ― Eu fiquei muito dividida entre psicologia e estudar para ser policial e subir para a categoria de detetive, mas no fim, acabei por ter que estudar administração para um dia ficar no lugar dos meus pais na empresa deles. ― Diz em um tom desanimador.

― Ei, administração não é ruim... ― Dou-lhe um empurrão, demonstrando o meu desagrado, e ela gargalha. ― Principalmente as vertentes da área financeira, recursos humanos e comércio exterior. ― Digo em meio a suspiros, sem medo de errar. Não era só porque eu tinha feito esse curso, mas administração era tão fascinante quanto outras áreas de estudo.

― Eu até comecei a estudar psicologia... ― Emma continua, obtendo minha atenção novamente. ― Mas os meus pais têm uma lábia muito boa, logo eu já estava mudando de curso.

― Você vai ficar extremamente sexy usando roupas sociais, Emma. ― Pisco um olho e dou o meu melhor sorriso safado. ― Principalmente nos terninhos... ― Sussurro de forma sensual, puxando-a para mim e juntando nossos lábios em um beijo quente.

•

Emma e eu trocavam carícias, sentadas em uma mesa de um barzinho qualquer de Miami, que escolhemos de última hora enquanto caminhávamos sem rumo, quando duas mulheres se aproximam de nós, fazendo-nos parar, e sem serem convidadas, juntam-se a nós, sentando-se nas cadeiras vazias.

― Kristin! ― A mais velha se apresenta e estende a mão para mim e para Emma, que mesmo confusas aceitamos o cumprimento. Não queríamos ser grossas e deixa-la de graça. ― Essa é Lilith. ― Apresenta a mais nova ao seu lado, que lhe imita, estendendo a mão para nós.

― Prazer! Emma e Regina! ― Swan nos apresenta.

― Prazer! ― Kristin responde, pegando um copo, o meu copo, e entornando o líquido de uma vez.

•

Havíamos tido uma das melhores transas até o momento e agora Emma dormia tranquilamente ao meu lado, e eu velava o seu sono, incapaz de conseguir fazer o mesmo. Algo estava impedindo a minha mente de descansar.

Enquanto a loira dormia, com tranquilidade eu pude observar atentamente, cada detalhe do seu rosto. Os seus olhos, mesmo estando fechados, sua boca, seu nariz e seus longos cabelos, sem correr o risco de ser pega. Emma Swan era linda. Era o ser mais lindo que eu já tinha visto na face da terra. Um anjo, definitivamente.

Mas sua beleza não parava por aí. Além de ser linda por fora, Emma Swan era gentil, adorável, amável, afável, alegre, carinhosa, atenciosa, doce e divertida. Era o tipo de mulher que eu gostaria de ter ao meu lado até os últimos dias da minha vida, e constatar tudo isso, me fez perceber que algo que eu tentei tanto evitar, tinha acontecido.

Eu havia me apaixonado por Emma Swan.

•

― Esse quadro é lindo! ― Comento, pegando um quadro de uma pintura de Miami, observando fascinada, a delicadeza dos traços e o colorido que há. ― É o mais bonito de todos.

― É seu. ― Emma diz, empurrando-o para mim.

― Não! Eles estão aqui para serem vendidos e não dados.

― Regina...

― Não, Emma... ― Interrompo-a, colocando o quadro de volta no lugar. Vejo algumas pessoas passando pela porta de vidro e aproveito a deixa para me afastar e evitar ceder ao seu pedido de levar o quadro comigo. ― Olha, chegou mais compradores...

•

― Você vai entrar, vai observar atentamente o quadro, fingir que está pensando se leva, e depois diz que o quer, combinando? ― O rapaz assente. Entrego-lhe o valor integral do quadro, que havia baixado por ter sido rejeitado nos outros dois dias e ser o último, e ele entra logo em seguida. Escondo-me para que ninguém me veja e saiba que sou eu quem estou levando e espero ansiosa a sua volta.

Trinta minutos depois, o rapaz volta com um embrulho nas mãos e eu sorrio, satisfeita.

― É ele? ― Pergunto ansiosa, mesmo sabendo que só havia ele para ser vendido, e já vou logo abrindo o papel, confirmando que sim, era o quadro que eu queria. O quadro mais lindo que Emma já tinha pintado, em minha opinião. ― Muito obrigada por me ajudar. ― Agradeço satisfeita. Estendo a mão e ele a aperta.

― Esse quadro é muito bonito. ― O rapaz comenta, parando ao meu lado e observando-o comigo. ― Eu não sabia que estavam vendendo quadros aqui. Se eu soubesse antes, com certeza tinha levado, sem pensar duas vezes.

Lembro que estamos em uma zona de perigo e alguém poderia nos ver a qualquer momento, e olho ao redor, procurando por um rosto conhecido. Eu precisava voltar para o hotel e guardar o quadro antes de Emma sair do salão, ou antes de me ligar e pedir para me encontrar.

― Bem, eu preciso ir. ― Anuncio, enfiando-o de volta no papel madeira. ― Obrigada mais uma vez. ― O rapaz assente e se afasta, seguindo seu caminho, e eu corro para pegar um táxi.

•

― Eu sei que foi só férias e você trabalha, mas tem certeza que não pode ficar mais um pouco? ― Emma me pergunta pela terceira vez desde que eu lhe disse que estava indo embora. Sua voz era triste e seus olhos estavam marejados. Aquilo estava acabando comigo.

― Eu gostaria muito de poder ficar mais um pouco com você, mas eu não posso. Eu preciso voltar. ― Digo com o coração dolorido. Eu não queria deixa-la, não queria ir embora, não queria acabar com o nosso pequeno romance de verão, mas era isso que era, apenas um romance de verão. Não podíamos ficar juntas. Nossas vidas eram muito diferentes. Ela não podia ir para Orlando e eu não podia ficar em Miami. Minha vida toda estava lá e a vida toda dela estava aqui. Eu era uma mulher muito ocupada e não tinha espaço para romances em minha vida. Sem falar que eu não sabia o que Emma realmente sentia por mim. Eu não queria arriscar tudo por estar apaixonada por ela e depois descobrir que ela não estava por mim também.

― Será que algum dia você vai voltar? ― Pega em minha mão e enlaça nossos dedos. Observei aquele contato e me segurei para não chorar. Swan estava tornando muito difícil aquela despedida, que eu pensei que seria tão fácil. Pelo jeito, eu estava enganada.

― Talvez eu volte nas próximas férias. ― Não, eu não voltaria nas próximas férias, se é que eu teria mais alguma, mas ela não precisava saber disso. Eu não podia alimentar o que estava sentindo por Emma, se eu não tinha a intenção e nem podia ficar aqui e viver esse sentimento. Então eu não podia mais vê-la. Eu precisava esquece-la.

Para acabar com aquele momento, eu me jogo em seus braços e lhe beijo ternamente, dando início a nossa despedida.

Eu estava dando adeus para Emma, e não um simples até logo. Era certo que nunca mais a veria.

•

― Você está trabalhando demais. De novo! ― Zelena entra em minha sala feito um furacão, interrompendo um cálculo gigantesco que eu fazia. Bufei irritada. ― Desde que você voltou está assim, pior que antes. ― Joga-se na poltrona em minha frente e pega o meu copo de café.

― Obrigada por me atrapalhar e tirar a minha concentração. ― Murmuro em um tom baixo, mas muito irritada, fechando o excel e abrindo novamente.

― Acho que deveríamos tirar mais férias. Você tem bônus, pode sair quando quiser. ― Fala, claramente ignorando o que eu acabei de dizer.

― Zelena, eu não vou tirar mais férias. ― Levanto-me e caminho até a porta. Minha irmã continua em seu lugar, imóvel. Inacreditável! ― Agora, eu tenho muito trabalho a fazer, por favor... ― Aponto para a saída.

― Está me expulsando? ― Seu tom é incrédulo e eu reviro os olhos.

― Você não tem contratos para ganhar para nós, não?

― Você está muito chata, Regina! Meu Deus! ― Balança a cabeça negativamente e se levanta, vindo em minha direção.

― Obrigada pelo elogio. ― Digo irônica assim que ela passa, e fecho a porta, voltando imediatamente para a minha mesa.

•

Já passava das oito horas da noite e eu ainda não tinha saído do quarto, nem mesmo para tomar o café da manhã, almoçar ou jantar. Eu não estava com fome, mesmo fazendo quase 24 horas que eu não botava nada na boca. Minha irmã já tinha vindo me chamar cinco vezes para irmos para um show em Clearwater, mas eu não estava com ânimo algum para sair de casa. Eu só queria ficar no meu cantinho, quieta, chorando por Emma Swan e relembrando os nossos momentos.

As coisas não aconteceram como eu esperava. Eu não consegui esquecer Emma Swan, mesmo não tendo mais contato, mesmo não mais a vendo. Eu não consegui acabar com os sentimentos que eu sentia por ela. Pelo contrário, a cada dia que passava, eu estava ainda mais apaixonada que antes. Já estava ficando fora de controle.

De repente, várias batidas fortes em minha porta me assustam. Era Zelena fazendo escândalo. Guardei com cuidado todas as coisas que me faziam lembrar de Emma em uma caixa em meu guarda-roupa e abri a porta.

― Puta que pariu, Regina! Finalmente! Pensei que tivesse morrido ai dentro. ― Reviro os olhos com o seu drama. ― Você não acha que já passou dos limites? ― Franzo o cenho, realmente sem entender do que ela estava falando. ― Ninguém aguenta mais você e sua chatice, sua reclusão, seu isolamento. ― Explica e eu cruzo os braços, já perdendo a paciência. ― Já faz quase 24 horas que está trancada nesse quarto. Mamãe e Papai estão mortos de preocupação. Você não pensa neles?

― Zelena, vai viver a sua vida e me deixa em paz, tá bom? ― Entrei novamente no quarto, mas ela segurou a porta. ― Você pode me dar licença? ― Pedi irritada, me segurando para não fazer uma besteira. ― Para de me encher o saco! ― Grito, batendo o pé no chão, mas ela nem se mexe. ― Que droga, Zelena!

― Você não vai mais entrar nessa porra de quarto, Regina! Chega! ― Grita de volta, mas eu não me assusto. ― Estamos todos preocupados com você. Isso tudo é por causa da Emma? Por que você não pega a porra do telefone e liga para ela, hein? Por que você tem que ser tão cabeça-dura desse jeito?

― Isso não é da sua conta! ― Falo um pouco mais baixo. Tocar no nome de Emma me abala um pouco.

― Se você não resolver essa porra, eu vou ligar para ela e contar tudo que está acontecendo. Vou pedir para ela vir aqui dar um jeito em você. Ninguém está te aguentando mais.

― Você não seria capaz de...

― Então pague para ver. ― Interrompe-me. Solta a minha porta e sai do meu quarto. Eu a sigo, temendo o que fará. Zelena entra em seu quarto e pega o seu celular. Meu coração bate acelerado.

― ZELENA! ― Avanço sobre ela e tento pegar o aparelho, mas além dela ser mais alta, é mais forte, e obviamente eu não consigo. ― EU ODEIO VOCÊ. ODEIO. ― Ela para de tentar me afastar e se senta na cama. Seus olhos marejam e eu sinto o peso daquelas palavras. Eu não a odeio de verdade. Eu a amo, e amo muito. Zelena não é só a minha irmã, é a minha melhor amiga também. Mas eu estava irritada com toda a sua intromissão.

― Eu só estou preocupada com você, e você diz que me odeia? ― Seu tom é incrédulo. Eu queria poder lhe dizer que não era verdade, que eu só estava com raiva, mas eu não conseguia dizer nada. Era como se minha garganta estivesse travada. ― Deus! Eu perdi a minha irmã porque ela não consegue aceitar que se apaixonou por alguém... Eu não reconheço mais você. ― Ela balança a cabeça negativamente. ― Pois saiba que eu também odeio essa Regina de agora, que está em minha frente. ― Olha fundo em meus olhos e eu vejo a mágoa estampada nos azuis. ― Essa não é a minha irmã. A minha gentil, doce, amável e alegre Regina, a minha irmã de verdade, ficou em Miami com a Emma e não voltou comigo. ― Diz com raiva, ficando vermelha. ― Desde que você terminou todo o envolvimento com ela e voltou para cá, fechou-se em seu mundinho e tem tratado todos mal à sua volta, como se alguém aqui tivesse culpa de você ser uma cabeça-dura que não aceita o que sente. Essa não é a Regina que eu conheço e nem a que a Emma conhece, com certeza.

Não aguentando mais ouvir suas palavras, saio rapidamente do seu quarto e sigo para o meu.

― Não adianta correr, Regina! ― Escuto-a gritar. ― A verdade dói, não é?

Pego a chave do meu carro e saio feito um furacão, passando pela escada e vendo-a parada na porta do seu quarto.

― Para onde você vai? Ficou louca? ― Ignorei-a completamente e continuei o meu caminho, escutando-a vindo atrás de mim. Passei pelos meus pais na sala, que também me perguntaram para onde eu estava indo e também os ignorei, abrindo a porta da frente e fechando-a em seguida, com bastante força. Eu precisava esfriar a cabeça.

•

Sentada na mesa de um bar qualquer, o primeiro que eu vi, repassando toda a conversa que tive com a minha irmã, vejo um homem sorrindo para mim e me encarando descaradamente. Ignoro o seu claro flerte, mas meus olhos me traem e eu resolvo retribuir o seu olhar, percebendo logo em seguida que cometi um erro, quando ele se levanta e vem até mim.

― Boa noite, senhorita! ― É educado. O sorriso que dá é charmoso. Se eu gostasse de homem, ele seria uma ótima opção para passar a noite e esquecer os problemas por um momento. ― Graham. ― Apresenta-se e arqueia a sobrancelha, provavelmente esperando uma resposta. Mas como não tenho intenção alguma, continuo calada. Ele dá um sorrisinho. ― Aceita uma bebida?

― Obrigada! ― Rejeito a sua oferta forçando um jeito mais educado possível. ― Eu preciso ir. ― Levanto-me rapidamente, deixando-o sozinho na mesa e saio do bar. Entro no carro e volto a dirigir sem destino pela cidade.

•

Meu telefone toca pela terceira vez e eu o jogo no banco do carona, torcendo para que ele caia e quebre. Só assim Zelena pararia de me encher o saco. Desde que eu cheguei no bar que ela não parava de me ligar e mandar mensagens. Enxugo as lágrimas que insistem em cair e me atento ao trânsito, tentando ignorar o toque.

Minutos depois, o telefone volta a tocar e eu bato com força no volante, irritada. Zelena não iria desistir enquanto não falasse comigo. Pego o aparelho e atendo, querendo acabar logo com isso.

― O que você quer, Zelena?

― Para de palhaçada, Regina! Vem para casa. Você quer enfartar os nossos pais?

De repente, vejo uma loira do outro lado da rua, conversando com uma morena de mechas ruivas, e apuro meus olhos para ter certeza que estou vendo certo.

― Emma? ― Digo, totalmente desacreditada que pudesse ser ela.

Encerro a ligação com Zelena, desligando na sua cara, e jogo o celular novamente no banco do carona. Acelero o carro, intencionando ir até lá para ter 100% de certeza, mas uma buzina alta seguida de um grande farol do meu lado, tiram minha atenção e eu só sinto o choque forte contra o corpo. Tudo fica escuro.

•

Meu corpo todo dói e eu não sinto as minhas pernas. Estou com a cabeça apoiada nos braços do homem do bar, que me lança um olhar desesperado. As pessoas ao redor não estão tão diferente dele.

― Foi você quem bateu em mim? É por isso que está aqui, prestando socorro? ― Acuso-o, tendo certeza que ele me seguiu porque não ficou satisfeito com o fora que lhe dei. ― Você me seguiu... ― Tento me levantar, mas ele me impede.

― Você não pode se mexer, ou vai piorar sua situação... ― Ele adverte, segurando-me e me mantendo deitada.

― Solte-me, seu idiota. Você me seguiu e bateu em mim. Eu vou te denunciar para a polícia! ― Tento bater em seus braços, mas eles estão doloridos demais para isso.

― Fique quieta, por favor. Você está perdendo muito sangue.

― Desgraçado!

Comecei a xingá-lo sem dó, mas ele parecia não me ouvir, estava preocupado demais em não me deixar mexer. De repente, senti uma sonolência tomar conta de mim e não pude evitar de fechar os olhos e dormir um pouco.

•

Abro os olhos na escuridão do meu quarto, sentindo o suor descer pelo meu rosto, o sangue gelado nas veias e o coração acelerado no peito.

Dessa vez não tinha sido um sonho. Eu havia me lembrado de tudo.

Notas finais
Não tenho muito o que falar. O capítulo já fala por si só. Em breve, teremos mais explicações. Até o próximo! :=