Memories
1 Capítulo Único- Memories
Notas iniciais
A dor é sufocante.
É como se uma adaga estivesse em meu peito e a cada vez que eu respiro ela se mexe dentro de mim e perfura ainda mais meu coração. A dor é sufocante. O ar que entra dentro de mim queima, deixando os lugares por onde ele passa em carne viva.
Pisco algumas vezes, relembrando de coisas ruins que aconteceram tempos atrás.
Engraçado, não? Como coisas ruins acontecem o tempo todo? Pois é... O problema... É que comigo acontecem a todo o momento.
As lembranças são como pinturas desfocadas, que precisamos fazer um esforço enorme para deixa-las nítidas e mergulhar novamente nelas.
Ah... Na minha galeria de memórias, só tem coisas ruins... É como um lugar em que os masoquistas adorariam estar, para sofrer, e que os sádicos adorariam assistir, pois lhes causa prazer.
No meu caso, não sou nenhum dos dois. Não gosto de sentir aquilo, embora tenha sentido, e muito menos de ver algo tão deplorável. Embora essas coisas tenham acontecido comigo.
Aquelas lembranças tão dolorosas...
Continuo caminhando pela minha galeria particular da dor, observando memórias pausadas e desfocadas.
De repente, uma chama minha atenção. Ela era um tanto quanto acinzentada, mas parecia tão dolorosa...
Caminhei até ela, meus passos ecoando pela galeria escura e negra, só sendo iluminada pelas memórias pausadas. Fui chegando perto, chegando perto... Ouvindo baixinho o enredo daquela lembrança e meu peito foi se enchendo de uma sensação já conhecida.
Ah, minha velha amiga dor. Aquela que assolava meu peito e esmagava meu coração a cada batida que ele dava, fazendo-o ficar pequenininho.
Quando fiquei frente a frente com a imagem, e estava quase a tocando-a, ouvi risadas.
Oras, mas que lembrança poderia ter risadas? Deveria ser algo da minha cabeça. Meu psicológico criando uma ilusão para desviar atenção da dor que eu sentia tão viva dentro de mim.
Balancei a cabeça algumas vezes, tentando tirar aquele som da minha cabeça e me concentrando novamente na imagem desfocada a minha frente. Estendi a mão e respirei
“Vem comigo, vai ser divertido... Vem!”
Parei de respirar no mesmo momento. A voz parecia feliz, e ria muito, ecoando pela minha galeria de memórias.
Olhei para os lados e procurei de onde vinha o som. Um corredor que até então eu não tinha notado, um corredor escuro que estava a minha direita. De lá ecoava a voz. De lá saia as vozes alegres.
Me distanciei da lembrança que tinha escolhido e comecei a seguir a voz, pelo corredor escuro. A cada passo as frases ecoavam menos e o sentimento devastador em meu peito ia se afrouxando e se tornando menos agonizante. Pude até perceber um calor agradável quando cheguei na sala com imagens coloridas e aparentemente felizes.
Não sabia que eu tinha memórias assim. E o mais estranho é que... Não sabia que eu tinha tantas memórias assim.
**
E foi assim que passei muito tempo naquela sala, assistindo todas aquelas lembranças e rindo até minha barriga doer. Os amigos, os jantares em família que sempre tinha algo que dava errado e no final todos nós acabávamos rindo, os natais reunidos.
Eu poderia dizer que nem sabia o que era sentir dor, naquele momento.
Eu poderia dizer que nunca fui triste.
E de fato, não somos. É impossível sermos só preto e branco, ter uma vida acinzentada. Deveríamos saber que não importa o quão ruim esteja, e o quão grande for a nossa galeria acinzentada...
...Sempre vai ter um corredorzinho colorido, para lembrar-nos que a vida sem cor...
Simplesmente não é vivida.
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