Memories
14 Capítulo 13
Notas iniciais
Raiva.
Raiva. Muita raiva.
Só isso que inundava minha mente, enchendo todas as lacunas.
Quer dizer, ele pensava que era assim, fingiria que morreu. Claro, minha mãe sofreria, eu sofreria e todos continuariam sofrendo pela sua perda. E magicamente vários anos depois, apareceria na porta da casa da minha prima como se nada nunca tivesse acontecido.
Ainda olhava para ele, que sabe se lá por que, minha prima tinha o deixado entrar e sentar no sofá para conversar. Claro, conversar, por que não.
O problema em questão é que eu estava sofrendo mais do que nos anos em que ele estava morto. Não por ele realmente ter mentido, mas por ter se ausentado, simples assim, e me deixando aqui.
— Kimberlly, filha você está tão linda, sempre soube que seria tão linda quanto sua mãe...
— Não ouse me chamar de filha. Eu não sou sua filha; você não é meu pai.
Sua expreção era chocada, olhando para mim enquanto eu o fitava furiosa, olhando em seus olhos. Pela primeira vez na minha vida desejei não ter os olhos iguais os seus, eram meu ponto fraco. Sempre fui fascinada pela cor dos olhos dele. E os meus, ocasionalmente.
— Mas, afinal, do que você está falando? Eu sou seu pai...
— Não, não é. — Parecia que ele absorvia tudo o que eu dizia, como uma esponja em contato com uma substância líquida. — Meu pai nunca fingiria que morreu. Meu pai nunca teria feito minha mãe sofrer. Meu pai nunca teria me feito sofrer. Então você não é meu pai.
Parei um estante e olhei pra cima, tentando não deixar escorrer as lágrimas insistentes. Depois olhei em seus olhos novamente, tentei ser o mais cruel possível.
— Sabe quanto tempo eu sofri? Sabe quanto tempo eu me isolei das pessoas, por que a única pessoa que eu queria ver era você? Não você não sabe. Nunca soube de nada. Nunca soube que a mamãe passou meses me desprezando simplesmente por que eu me pareço muito com você? Não você não sabe. Não sabe que eu tive que ampará-la, mesmo pequena, quando ela entrou em uma depreção profunda. Quando eu a ouvia ir dormir chorando e quando acordava assustada no meio da noite por que quando eu tinha pesadelos ia pra cama dela, e ela pensava que era você ali com ela. Não você nunca soube disso, certo, pai? Faça-me um favor, nunca mais me chame de filha. Eu não sou sua filha. Chame-me pelo meu nome. Como todos fazem, por que eu nunca mais vou te chamar de pai.
— Por que está me falando isso Kimberlly? Mesmo que tudo isso que você diz aconteceu mesmo... mesmo assim, ainda sou seu pai. Isso nunca vai mudar. E você sabe disso.
— Cale a boca e sente-se ai por que você não sabe a vontade que eu tenho de... te bater... agora mesmo. Talvez eu até te matasse se eu não tivesse educação suficiente para isso...
— Kimberlly, sua prima me ligou e disse que você estava aqui e... Ah, eu estou interrompendo alguma coisa?
Luke havia irrompido pela porta e olhava fixamente para a pessoa que deveria estar morta, em pé na minha frente. Pude jurar que Luke estava sussurrando para si mesmo se aquele não era quem ele deveria ser.
— Luke — Sorri para meu amigo, que desviou o olhar para retribuir meu sorriso. — Esse é Peter Mitchell.
— Pai da Kimberlly. Luke, certo?
Os dois trocaram um aperto de mãos, que pelos braços do Luke mostraram, foi mais forte do que o necessário.
— Certo.
— Parece que você não entendeu o que eu disse sobre não falar que eu sou sua filha. Eu não sou sua filha. Meu pai morreu quando eu tinha três anos de idade.
— E você sabe que isso não é verdade.
Estávamos da mesma altura e ele me olhava nos olhos a o que eu deduzi visualmente que fossem meros dois centímetros. Ele estava me desafiando. Certo, vamos responder então.
— Eu sei de muita coisa que você não sabe. Mas isso eu não sei e me recuso a absorver essa informação.
Giovanna apareceu rápida como um raio e colocou as mãos em nós dois, nos separando. E tudo o que eu queria naquele momento era ir embora.
— Vocês são parentes, afinal.
Olhei com cara feia pra ela, mas logo me recompus pensando que não era a ela que eu estava furiosa.
— Luke, eu poderia ficar na sua casa hoje? Provavelmente essa noite eu não terei sossego e prefiro evitar um homicío.
— Claro Kim, você sabe que...
— Se você me deixasse explicar, não teria de evitar um homicío.
— Não, obrigada. — Virei-me para minha prima. — A gente se fala amanhã. E você — Apontei para meu suposto pai enquanto ficava do mesmo jeito que estávamos alguns minutos antes. Olhei em seus olhos e pronunciei devagar, quase como uma ameaça. — Fique longe da minha casa e da minha mãe. Será que pode entender isso? Eu espero sim. Por que eu vou passar lá, pegar minhas coisas e ir pra casa do Luke. Se eu sequer ver a sua sombra na porta da minha casa, ai sim vamos ter um funeral.
— Kimberlly. Vamos.
Deixei-o ali, olhando para mim como se eu tivesse falado uma língua que ele não entendesse ou simplesmente eu fosse um ser de outro planeta.
Algumas pessoas simplesmente não entendem que não estamos em uma história de conto de fadas. Ou quem sabe, uma história comum. Um romance é claro.
Ou simplesmente, não entendem quando dizem para não fazer alguma coisa. Tantas e tantas pessoas falam não e mesmo assim as outras em questão fazem. Não. Não e não.
Peter estava sentado a sete cadeiras de distância de mim. E eu agradeci mentalmente por isso. Estávamos no hospital.
É claro que ele não me ouviu. É obvio que ele me seguiu até a minha casa, e claro que ele entrou sem ser convidado. Minha mãe estava sentada no sofá da sala, provavelmente procurando alguma coisa para ver na televisão por que trocava de canal a cada seis segundos; quando ela desviou sua atenção para a porta e viu Peter ao meu lado, sorrindo, com os braços estendidos, olhando-a, ela se levantou, deu três passos e desmaiou. Não é certeza, mas pude jurar que ela bateu a cabeça.
— Viu por que eu disse pra não vir atrás de mim? Eu sabia que isso aconteceria. Está feliz agora? — Disse a Peter enquanto seu olhar murchava e Luke passou por mim, pegando o celular e ligando para a ambulância.
Faziam-se quase vinte minutos que eu estava sentada ali, na sala de espera… Luke se sentou ao meu lado para tentar acalmar o enxame de olhares assassinos que eu direcionava ao meu pai. Esqueci-me da cadeira do Luke, então estávamos a oito cadeiras de distância.
Um homem de estatura baixa, meio rechonchudo, com vários e vários cabelos grisalhos espalhados pela cabeça e um bigode ao estilo daqueles mafiosos que se viam em filmes e um jaleco branco, saiu de uma sala e veio andando até parar a alguns passos de Luke. Sua voz parecia de um locutor de rádio. E me peguei pensando se ele nunca pensou em ser radialista em vez de médico. Mandei tal pensando pro fundo de minha mente enquanto me levantava.
— Vocês são parentes da… — Ele olhou em seu prontuário. — Grace Jones?
— Sim, eu sou. Ela vai ficar bem?
Peter não se levantou, o médico olhou de mim para Luke e de volta para mim quando começou a falar novamente.
— Claro, já dei a alta para ela. Podem esperá-la aqui.
Quando terminou, sorriu brevemente e foi falar com uma enfermeira do outro lado do balcão á alguns metros a frente.
— Tudo bem. — Murmurei.
Por um instante fiquei preocupada por Luke não ter dito nada. Então, resolvi perguntar.
— Luke... — Ele me olhou. Ele parecia confuso ou apenas ansioso. — Está tudo bem? Você não falou nada desde que saímos da minha casa…
— Tudo bem. Não precisa se preocupar; só estou pensando. E antes que pergunte, pensando em tudo, mas principalmente em que você mentiu para mim.
— Não menti pra você. Eu fui pega de surpresa, também. Minha prima quase teve um ataque do coração quando o viu parado na porta da casa dela. Eu sabia que ele tinha morrido. Teve o funeral, o enterro; não me lembro muito bem por que era muito pequena mais eu sei que houve. Eu não faço a menor idéia se é ele mesmo, o que vai acontecer… de nada.
— Quando a gente conversou você falou que sentia a falta dele. Essa é a sua chance.
— Não; não é. Eu sinto falta do meu antigo pai. Não desse mentiroso, ele fingiu que morreu e a família inteira sofreu com isso. Provavelmente era um boneco que enterraram, porque eu sei que no velório o caixão estava fechado por causa da minha mãe. Ela foi a que mais sofreu. Logo ele aparece na minha casa e esperava o que? Que ela jogasse o controle remoto da televisão pelos ares, corresse até ele e pulasse em seu pescoço? Ele é muito tolo.
Olhei a frente, mais sentia o olhar de Peter me queimando.
— Estava me perguntando o que sua mãe vai fazer.
— Eu pensei nisso quando percebi que ele estava vivo. Foi por isso que eu discuti com ele, para proteger ela. Tenho feito isso há anos, entretanto, ele pensa que seria fácil aparecer do nada. Seria capaz até de ele ter pensado que até eu iria me ajoelhar aos seus pés e os beijasse. Pensou errado. Não é porque senti sua falta, que me jogaria até ele. Eu não sou assim.
Vi minha mãe cambalear até nós, parecia estar bêbada; levantei de prontidão e agarrei-lhe o braço. Logo Peter estava ao nosso lado lhe enchendo de perguntas.
— Se você não percebeu Peter, ela desmaiou, por sua causa. Então, se você pudesse me deixar levar a minha mãe pra casa, eu ficaria muito agradecida.
— Pega leve Kim.
Minha mãe parecia ter visto um fantasma, estava mais branca que Edward Cullen do filme Crepúsculo. Mas também olhava meu pai como uma criança que vê um doce gigante e é forçada a recusá-lo.
E foi naquele momento que eu soube que aquele além de ser um longo dia, seria o dia mais confuso da minha vida. Também tudo que eu queria era que tudo voltasse ao normal. Como tinha sido no dia anterior.
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