Memories
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Não saberia o porquê de sorrir tanto em apenas vinte minutos nem mesmo que tivesse um especialista em psicologia me avaliando.
Era quase surreal e imaginário. Quase inventado por uma garotinha de 2 anos, brincando com suas bonecas e inventando histórias fantásticas.
E eu não queria acreditar nisso — nesse propósito incessante. Quase se dava para ouvir uma voz falando bem baixo em minha cabeça; persuadindo-me a voltar a ser que eu sou. Não o meu eu verdadeiro, mas aqueles que todos conhecem.
Mais olhar em seus olhos azuis ou para sua boca enquanto ele pronunciava as palavras; levava-me para outro mundo. Um bem diferente, com cores vivas e pessoas sorrindo — sem a tristeza habitual de cada dia.
Aquela pessoa que estava ali, sentada no sofá de sua própria casa, conversando com um praticamente estranho há quase uma hora, — depois de termos jantado — não era quem eu sou. Era um ser alienígena, ou talvez enquanto nos distraímos com a saída de Zachary e Giovanna, alienígenas tenham raptado a verdadeira Kimberlly e a trocado por uma artificial.
Uma que não se lembre de tudo que aconteceu e ainda acontece em sua vida. Uma Kimberlly que não se lembra da morte de seu pai cedo demais. Uma que nem se quer saiba seu primeiro sobrenome. Uma Kimberlly feliz — porque isso, eu sei que eu não sou.
A garota que estava ali conversando com Luke, era com certeza algum tipo avançado de robô. Um daqueles bem tecnológicos, talvez até do futuro.
Aquela pessoa sorria demais, não tinha controle sobre seu próprio rosto. A cada palavra pronunciada parecia ficar cada vez mais artificial; mais estranho.
E então foi que tudo se acendeu dentro de mim; como ver o sol depois de um ano sem luz no céu. E eu percebi que aquela Kimberlly era a verdadeira.
Não a que eu acho que sou; mais a Kimberlly que era espontânea e sorria o tempo todo — antes dos problemas começarem — e tudo parecer rodeado de dor e sofrimento. Percebi que Luke trouxe — de alguma forma — uma chama de alegria de volta a minha vida. Apesar de pequena como o tamanho de uma chama de um isqueiro; era intensa e deixou uma marca que me fazia querer mais. Senti falta dessa Kim. Essa sim é a Kimmy; não a que hoje todos olham e reconhecem.
Enquanto nossa conversa decorria, parecia que o mundo havia parado, entretanto; o tempo passar mais depressa do que eu gostaria.
— Luke, vamos querido, a Kimberlly deve estar com sono. E vocês têm aula amanhã. — Molly apareceu com minha mãe logo atrás, sorrindo para nós. Observei seu filho se levantar e fiz o mesmo logo em seguida. Ela atravessou a sala em passos largos e me abraçou — Foi um prazer te conhecer; tomara que eu te veja logo. Mas tenho certeza de que isso acontecerá. Em breve.
Ela terminou de falar me olhando sorrindo e pude ver que Luke e ela tinham exatamente o mesmo olhar; tanto no jeito de olhar, na cor e o formato dos olhos. Mais ela não se parecia com Lauren, apesar de serem irmãs. Talvez primas; pois havia uma leve semelhança mais se eu não as conhecesse, nunca diria que são irmãs.
— Digo o mesmo. Veremos-nos em breve, quem sabe não passamos um tempinho juntas conversando? Tenho certeza que temos muito em comum.
Ela apenas assentiu segurando minhas mãos e me observando sorrindo. Eu não sorria espontaneamente há anos; senti falta disso também.
Olhei quando ela e minha mãe caminharam até a porta como se fossem velhas amigas. Apesar de Lauren ser a melhor amiga de minha mãe, ela nunca conheceu Molly. Parecia-me estranho, mais deixei do jeito que estava. Um dia perguntaria isso a Molly; em breve. Como prometido.
— Te vejo amanhã senhorita O’Connor? — Ele sorria me olhando enquanto estávamos quase na rua, olhando um pro rosto do outro. Ele esperava sua mãe terminar o assunto com sua nova amiga.
— Claro, senhor Campbell. — Rimos enquanto atravessava o espaço ente nós com apenas seis passos. E então ele me abraçou.
De repente tudo fez sentido, e a dor me abandonou.
Seus braços a minha volta me apertaram em um abraço sufocantemente acolhedor. E eu pude sentir um pedacinho do meu mundo passando para o garoto que eu abraçava em segundos. Eu soube que ele seria um grande amigo; apesar de termos horas de amizade.
Seu abraço era esmagante, mais também passava uma segurança que apenas meu pai me passava.
Luke era quente, apesar de estar sem um agasalho pelo vento frio que passava ao nosso redor. Quase como se deitar ao lado de uma lareira acesa no natal, e acabar pegando no sono antes de sequer anoitecer. Lembrou-me do ultimo natal antes daquela pessoa morrer e deixar-me com tantas saudades que seria capaz de me afogar, se um dia ela saísse de meu coração.
Uma corrente elétrica percorreu meu corpo quando ele afundou seu rosto na curva de meu pescoço.
Os olhos azuis de meu sonho vieram novamente a minha mente dessa vez seguida por um sorriso. Eram aqueles olhos azuis. Mais eu não via o rosto, apenas os olhos. Que de um jeito muito sincero e esperançoso dizia-me que me amava. Mesmo sem usar palavras pra isso.
Luke me soltou cedo demais, e deixou em mim uma sensação estranha de vazio e frieza. Talvez essa fosse a Kimberlly que todos viam; fria e vazia. Sem motivo aparente para continuar lutando uma luta já perdida com a vida.
Ele sorriu pra mim e se foi. Só percebi que sua mãe havia o acompanhado quando a vi fechar a porta de sua casa.
Virei-me de costas e andei vagarosamente até estar na segurança de casa. Ouvi resmungos de Grace dizendo que sabia que eu e Luke nos daríamos bem. Isso pareceu me despertar.
Subi as escadas correndo e só parei quando cheguei ao banheiro. Despi-me e me enfiei em baixo da água morna. Logo o banheiro estava coberto levemente de uma névoa de vapor. Sentei no chão do banheiro sentindo a água batendo em minhas costas.
Fechei os olhos. Minha alma se silenciou.
Queria entender tudo que vem acontecendo. Queria desabafar com alguém que não fosse olhar para a minha cara e perguntar se eu estava ficando louca ou se eu li isso em algum livro antigo e fútil. Queria de alguma forma fugir até aqueles sonhos; agarrá-los e nunca mais os deixarem ir, para quem sabe, trazer aquela pessoa até a mim.
Meu corpo estava quase imóvel, sentia minha respiração lenta e fraca. E tudo aconteceu de repente; como quando se leva um soco de algum lutador de boxe profissional e empurrarem sua cabeça contra a parede. Foi forte demais; intenso demais.
Imagens invadiram minha mente. E eu não mais era Kimberlly Victoria O’Connor.
Um rosto, masculino, mas não via nada além de seus olhos. Como se isso já não me fosse familiar. Queria que aquilo colocasse raiva em mim, mais o torpor me atordoava a ponto de não saber sequer se estava respirando regularmente. Tudo o que sentia era meu coração batendo forte. Ensurdecendo-me. E o silêncio.
Aqueles olhos.
Um campo de rosas vermelhas; com sua imensidão além de onde eu conseguia olhar, com apenas uma árvore afastada cheia de folhas verdes decorando-a e os tons marrons de seu tronco.
Era muito mais que colorido e muito nebuloso, com uma leve camada de neblina rodeando a árvore, abraçando-a. Como tentar se lembrar de uma fase da sua infância em que quanto mais se esforça para lembrar-se mais dói certa região da cabeça a um ponto de pensar que alguém deu com um pedaço de ferro na mesma. E tudo o que te vem a mente são fleches indistintos e confusos. Um sussurro.
“Eu sinto sua falta”.
Abri meus olhos; estava ofegante. O eco dessas palavras era inevitável, mais também muito real. Pareciam que tinham dito perto de minha orelha, como uma despedida dolorosa. E as imagens daqueles olhos não deixavam minha mente.
Levantei-me, terminei meu banho rapidamente e coloquei uma roupa aleatória.
Entrei no quarto e a primeira coisa que vi foi meu caderno, eu gostava de escrever, era reconfortante. Mais nunca escreveria um livro; a idéia é muito apavorante de alguém não gostar. Peguei-o junto de uma caneta preta e desci a sala.
Abri o caderno assim que me sentei e tentei me concentrar em fazer uma caligrafia digna de ser lida.
“Os sentimentos que eu escondo não são possíveis de ser escritos”. Comecei
“As variações são imprevisíveis.
E os sentimentos profundos, obscuros e puros.
A paixão por pessoas é sempre estranha e às vezes incorrespondida.
Solapando a sua coragem e abrindo o coração para possíveis estilhaços e ser propenso a infecções; tirando sua capacidade de pensar; acelerando a circulação do sangue e quebrando seu coração. Para nunca mais ser reconstruído.”
Fechei o caderno quando ouvi passos vindos de outro cômodo para a sala. Mas Grace apenas se aproximou perguntando se eu já iria dormir. Disse que sim e dei-lhe um beijo de boa noite.
Não senti nada quando entrei; mais algo me chamou a atenção. Meu violão. Peguei-o tirando a camada fina de poeira que havia se formado e dedilhei algumas notas só para sentir aquela velha sensação que sentia quando tocada e compunha minhas músicas que ninguém nunca ouviu. A não ser minha mãe que sempre me pegava no final de alguma música. Uma vez toquei uma de minhas musicas a ela e ainda me arrependo por ter feito tal façanha. Ela ainda me importuna para saber quem é o garoto da musica, e é obvio que eu nunca irei lhe dizer.
Lembrei-me de quando me mudei para Londres, Reino Unido. Quando meu pai ainda estava morando conosco. Meu pai. Estranho, nunca mais pronunciei estas palavras depois... do que aconteceu. Lembro-me como se fosse ontem; em vez de quatorze anos atrás.
— Papai já está chegando? — Perguntei pela milésima vez em vinte minutos, eu sabia que meu pai estava irritado.Pude jurar que ouvi minha mãe resmungar. Ignorei. Eu não via a hora de chegar na casa nova, em uma cidade nova, com pessoas novas e estranhas.A única parte triste era ter que deixar meus amigos lá no Brasil.Eu gostava da cidade que morava lá, era aconchegante. A maior parte do tempo faz calor; mais eu gostava, apesar de gostar mais do frio.
— Já chegamos Kimmy — Sorri largamente quando minha mãe me puxou pra fora do carro e logo me acolheu em seus braços, eu teria de me acostumar com a neve que fazia naquele dia. A casa a minha frente era linda. Nem grande nem pequena; mais linda. Com a fachada em bege e vermelho, com as molduras das janelas em preto.
— Você vai adorar Londres querida, amanhã sua prima vem para te conhecer e vocês vão ficar ótimas amigas, eu sei que vã; não é Peter? — Meu pai sorriu concordando enquanto levava nossas malas para dentro da casa.
A casa era mais linda por dentro do que por fora. Tinha dois andares, pela escada que estava num canto. A sala era o primeiro cômodo, com uma porta que levava à cozinha. Depois de explorar todos os cantos do primeiro andar, meu pai me ajudou a ir até o segundo. Segundo ele, era no segundo andar que estava o banheiro e os três quartos; dele e da mamãe que era o primeiro quarto do corredor, ao lado oposto estava o meu quase de frente ao deles; ao lado de meu quarto ficava o banheiro e depois o quarto de hóspedes.
Logo que abri meu quarto me joguei na cama que ali jazia. Mais tarde, logo depois de jantar. Meu pai me pegou no colo e me levou escada á cima até meu quarto, logo me aconchegando nas cobertas macias e fofinhas que me cobriam.
— Boa noite filha, te amo. — Deu um beijo em minha testa e olhei em seus olhos, mesmo na escuridão que fazia em meu quarto dava-se para enxergar suas esferas verdes claro-azuladas me olhando. Sorri.
— Boa noite papai, também te amo. — Logo ele deixou o quarto e cai em um sono profundo.
Eu não me orgulhava de não querer pronunciar as palavras, mais doía sequer pensar nelas. Logo depois de chegarmos, apenas três meses depois, ele morreu. Acidente de carro. Estava nevando e o carro perdeu o controle, derrapou na pista e capotou; ele morreu na hora. Parte de mim morreu junto com ele. A lembrança do dia em que soube que ele havia morrido ainda me assombra, era difícil; eu tinha apenas três anos de idade. Não é uma coisa que se passa todo dia e pensa ah que legal, de novo isso, vamos ignorar a dor e fingir que ele nunca morreu.
Deixei meu violão num canto do quarto e parei em frente ao espelho de corpo inteiro que havia colado na porta de meu quarto. Encarei meus olhos. A lembrança dele ainda se fazia ali; na cor idêntica aos olhos de meu pai. Segundo minha mãe, que logo depois que ele morreu não suportava sequer olhar para mim, meu olhos eram como um tapa no meio de sua cara; quase esfregando todos os dias que seu marido havia morrido. Eu entendia o que ela passava, eu também não me sentia a mesma, mais ele não iria voltar. E essa acabava sendo a pior parte; ficar se lembrando todos os dias, à noite sozinha em meu quarto enquanto lágrimas de saudade inundavam meus olhos. Naquela época a única coisa que eu queria era ter ele me abraçando protetoramente do mesmo jeito que fazia quando eu tinha algum pesadelo; queria sentir seu perfume amadeirado com um leve toque de baunilha que combinava tão bem com seu jeito espontâneo e engraçado. Ele gostava de fazer todos sorrirem, mais durante três anos eu não sorri. E até hoje evito tal façanha.
Voltei a cama, me deitei com a roupa que estava e fechei os olhos tentando reencontrar a minha paz; para quem sabe trazer meu pai de volta.
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