Memories

12 Capítulo 11


Não tinha consciência se era um sonho ou não. Mas a dor existente naquele momento era atordoante. Revirava meu estômago, me cortava, me rasgava.

Não sabia quem havia pronunciado aquelas palavras, mas soaram como uma granada explodindo, não hesitou.

Queria gritar para que me matassem, queria morrer, queria fazer aquilo parar.

E eu iria.

A dor em minha barriga, antes dolorosa, agora se comparada ao — do que eu achava ser meu coração; era pequena demais, poderia ser ignorada facilmente.

Ainda olhava a garota a minha frente, provavelmente a que havia me dito palavras tão afiadas e cortantes. Não pelas palavras em si, mas, no que elas significavam. No que elas destruíram. E nesse caso, se refiro a mim.

Levantei-me sem hesitar, ignorando-a completamente e caminhei, em passos lentos, passando dum corredor, até onde eu sabia que estaria a porta de entrada.

Estava se aproximando do pôr do sol, havia aqui e ali, aqueles tons indescritíveis, mas também tão bonitos.

Havia vegetação a minha volta, não me importei em estar descalça e com o que parecia uma camisola antiga, grande e larga. Caminhei para meu fim.

Depois de alguns quilômetros, cheguei ao meu destino. O sol estava se pondo; finalmente e a visão dali era magnífica; enchia meus olhos de cores vivas, tentando passar minhas brechas, tentando dar cor a minha vida a muito feliz. Agora, nem sequer podia confirmar se estou viva.

Olhei as fendas de pedras pontudas espalhadas pelo cenário a minha frente, que com as cores a cima, coloriam-nas de tons de laranja escuro e dourado. Dei dois passos, para ficar na beirada; a divisória entre mim e a morte. Não olhei para baixo.

Em vez disso, olhei para cima, para o sol. E o vazio em meu interior tentava puxar algo a que se agarrar, inutilmente. É claro.

Se ele havia morrido, não havia razão para viver.

Ele era meu ar. Literalmente, já que minha vida miserável e sem graça era ele quem a enchia de cor. Como um pintor com pinceladas fortes e grandes com tintas em cores vibrantes e cheias de vida em uma tela branca, como algodão.

O contrário de agora. Não havia mais vida. Não havia mais ar. Não havia mais chão. Ele não existia mais. Eu também não existiria.

Fechei os olhos e tentei tirar minha mente da imagem das fendas profundas e pontiagudas das pedras de quase quinze metros de altura do fundo até meus pés; que há alguns instantes se tornaria bem próximo.

Em vez disso, pensei nele. Em sua risada contagiante, em seu olhar que me expressava mais do que qualquer outro. Em seu rosto que parecia ter sido esculpido por anjos de Deus. Em seu coração batendo em baixo da palma de minha mão quando ficávamos abraçados em baixo daquela árvore. No nosso refúgio. Meu refúgio feliz.

Fixei uma imagem dele em minha mente. A imagem mais linda do meu mundo. Ou simplesmente o meu mundo.

— Eu te amo...

Sussurrei antes de me atirar nas pedras cortantes.

A última coisa que ouvi foi alguém gritando meu nome.

A escuridão me engoliu.

— Kimberlly! Kimberlly! Acorde, vamos acorde!

Calor, calor e calor só isso que me vinha a mente naquele momento.

Droga.

Abri os olhos e vi Luke. Estava suada, sentia gotas de suor escorrendo pela minha testa e deixando meu cabelo grudado aqui e ali na nuca e em áreas da testa. Não parecia que estava dormindo, estava exausta, parecia que tinha acabado de correr uma maratona.

— Você estava tendo um pesadelo, não estava? Chorou dormindo, e ficou de debatendo e se remexendo na cama, fiquei com medo e te acordei.

— Que horas são? — Minha voz saiu em um sussurro e falhou em algumas sílabas, mas ele ouviu e olhou brevemente no visor de seu celular que estava ao lado de seu travesseiro.

— Quase quatro horas da manhã. Quer conversar sobre seu pesadelo... acho que posso ajudar...

— Eu não me lembro... Ai! — Uma fisgada na cabeça me fez ficar confusa, e perdi a linha de raciocínio quando tentei levantar meu tronco, tombei de encontro ao seu ombro de novo.

— Aposto que não vai conseguir dormir mais, pelo menos, comigo é assim... melhor você não ir a escola amanhã, sei que não vai conseguir se concentrar.

Incapaz de falar qualquer coisa, me arrumei de encontro ao seu corpo quente, que estava sentado com costas encostadas.

— A pergunta que você me fez hoje, esqueci-me de responder. E respondendo-a é claro que eu a ajudaria. Não te deixaria sozinha numa hora dessas. Nem nunca vou deixar, em momento nenhum.

— Vai ter que me deixar sozinha para eu tomar banho — Ele riu baixinho, mas soou alto por meu ouvido estar encostado perto de seu pescoço.

— Claro; exceto quando tomar banho. Posso perguntar uma coisa?

— Claro. — Luke pegou o cobertor e puxou minhas pernas até quase encostar-se a suas costelas. Sentia-me uma criança, sendo embalada pela mãe.

— Desde quando você vem... você vem tendo de ser forte? Digo, há quantos anos?

— Desde que me dei conta de que meu pai não voltaria para casa, do por que minha mãe me ignorava tanto, do porque dela sempre estar pelos cantos chorando baixo o suficiente para não me alarmar.

— Quantos anos você tinha?

— Cinco anos.

Senti seu corpo estremecer e seus braços me apertarem mais forte, protetores. Pode parecer egoísta, mas gostaria de ter conhecido Luke anos atrás — pensei.

Eu sinto muito.

— Não sinta. — Minha mão voou para seu braço que envolvia minha cintura e fiquei repetidamente passando o dedo em movimentos vai e vem, ou fazendo desenhos invisíveis.

— Vocês eram muito apegados?

Não fiquei aborrecida por sua curiosidade, não senti nada, ou tudo o que me veio foi o torpor.

— Ele era quase meu melhor amigo. Fazíamos tudo juntos, às vezes minha mãe ficava com ciúmes por eu preferir fazer coisas com meu pai à com ela.

— Você sente a falta dele. — Não era uma pergunta.

— Sim.

— Do que mais sente falta?

— Dos dias em que nevava. Ele me acordava bem cedo, depois fazíamos uma competição de quem faz o melhor boneco de neve. Ele sempre me deixava vencer. E depois quando minha mãe vinha nos chamar pro almoço, fazíamos guerra de bolas de neve.

Fechei os olhos enquanto falava e parecia que tinha voltado no tempo; nos melhores tempos de minha infância.

— Ele parecia ser um cara legal.

— E ele era.

— Tente pelo menos cochilar, se precisar de mim estarei aqui.

Com aquelas palavras, escorreguei de seu colo voltando ao colchão. Quando minha cabeça se acomodou no travesseiro macio, ele parecia quente demais, não estava confortável. Levantei-me, mesmo ainda estando meio tonta e liguei o ar condicionado do quarto no máximo, passando pela cama, fechei a janela e a cortina novamente e deitei-me.

Virei-me de costas para Luke, não propositalmente, mas por dormir melhor virada daquele lado e fechei os olhos. Pude sentir o ar condicionado fazendo efeito, ficou frio o bastante para quase se precisar de outro cobertor. Senti dedos traçando desenhos em minhas costas que inconscientemente me fizeram me arrepiar da cabeça aos pés.

— Kim...

— Hmm — Murmurei

— Dorme bem.

— Você também — Falei sonolenta sentindo seu queixo no alto de minha cabeça deslizando levemente até sentir seu hálito na parte de trás, em meu cabelo.

Sabia que demoraria a dormir; a dor ainda me cortava. Sentia meu corpo dormente e meu coração bem ativo, batendo tão rápido e forte que o sentia sem sequer tocar meu próprio corpo.

Sabia que aquilo não havia tido um sonho, nem pesadelo. Era real demais, colorido demais.

As palavras garota, agora eu sabia quais eram. E desejei ser eu no lugar dele. Queria-me ter morrido em seu lugar, ou que tivéssemos pelo menos juntos naquele momento. Queria ter lhe dito que o amava.

Senti-me uma idiota por acreditar que estava tendo memórias flashes de uma vida passada.

A última coisa que tive consciência foi de sentir seu braço sendo passado pela minha cintura quente demais e pegando em minha mão, recomeçando a fazer os desenhos invisíveis.

Sem sonhos. Essa fora minha noite.

O sol adentrava o quarto, anunciando um novo dia. Não abri os olhos, fiquei desfrutando da sensação de me sentir embriagada, parecia que tinham me batido, estava dolorida.

Quando abri os olhos, os fechos novamente pela claridade terem os ofuscado.

Luke provavelmente havia ido para sua casa, a cama estava vazia. Uma parte de mim agradeceu por isso. Minha mente já fazia planos de ver minha prima hoje, queria conversar com ela. Queria que alguém me dissesse que não estou ficando louca.

Apenas passei a escova de cabelos rapidamente, e desci as escadas. Minha mãe ainda estava em casa. Quando lhe perguntei sobre o trabalho, ela disse que estava de férias, a partir daquele dia.

— Ok, ah.. mãe, eu vou subir, te vejo na hora do almoço.

— Tudo bem, ah o Luke me contou que você teve um pesadelo, você está bem? Quer conversar sobre isso?...

— Não, não. Tudo bem. Até mais tarde.

Subi as escadas quase correndo, me enfiei no quarto e bati a porta com um pouco de força.

Sentei-me na cama, fitando meu notebook ao longe.

Mas o que eu irei perder fazendo isso, afinal?

Levantei-me e o peguei, abri e o coloquei pra ligar. Enquanto carregava, andei até o banheiro e escovei os dentes duas vezes. Lavei o rosto e voltei ao quarto, abri uma das portas do guardarroupa e peguei uma blusa aleatoriamente e a vesti rapidamente.

Revirei os olhos para a minha ansiedade.

Sentei-me novamente na cama, colocando o computador no colo. Abri a página da internet que carregou rapidamente e pesquisei vidas passadas.

Uma lista de resultados se abriu para mim, nenhum me interessou. Mas uma das formas de sugestão para pesquisa me interessou. Na verdade duas. Cliquei na primeira.

Lendas de vidas passadas

O primeiro resultado foi o que mais me interessou. Cliquei.

Logo que o título atingiu meus olhos, senti-me curiosa e comecei a ler mentalmente.

Há muito temo atrás, corria uma lenda em uma cidade que não vale a pela citar o nome de que havia um casal de almas gêmeas.

A garota era de classe alta, o garoto da classe mais baixa. Mas se amavam como se não houvesse amanhã, e realmente, depois de uma noite juntos, não houve amanhã para o garoto.

Nunca foi citado o nome do casal, mas os familiares dos mesmos, diziam que era o casal mais lindo de se ver. Algumas pessoas diziam que realmente poderiam ser almas gêmeas. Outros afirmavam que esperavam que se encontrasse em outras vidas.

O fim dum romance tão puro e dramático foi causado pelo pai da moça. Era um homem de respeito, e não queria sua filha envolta com um rapaz de tão baixo poder. Assim, mandou homens matá-lo. Dizem que a garota confidencializou com a irmã que conversou com o pai; disse-lhe que se matasse seu amado, teria de lhe matar juntamente. O homem se recusou a fazer tal ato.

Não há registros da última noite do casal juntos, alguns dizem que eles juraram se encontrar em outra vida, mas a certeza era de que o rapaz mandou a amada para longe de si, ele a salvou para que não a matassem e também o filho que ela carregava no ventre.

Também não se falam muito sobre como o rapaz morreu, alguns moradores locais dizem que homens o mataram esfaqueado, outros dizem que atearam fogo em sua casa enquanto ele dormia.

A moça, assim que soube da morte de seu amado, perdeu o bebê. Entrou em um estado irrecuperável de depreção momentânea; momentânea por que logo após saber disso, se matou.

Com isso, que acredito não ser apenas uma lenda, visitei o local onde há um memorial ao casal. Usaram o local onde eles se encontravam e construíram duas estátuas. A do rapaz, sentado com as costas apoiadas na árvore atrás de si e a garota, encolhida em seus braços, olhando para o rapaz sorridente. O local é basicamente quase do tamanho dum estádio de futebol americano, com toda sua extensão com folhes que os moradores ainda cultivam, de rosas que dizem que já estavam lá quando o casal namorava ali e mais algumas flores brancas; junto com tudo isso está apenas a mais majestosa e gigante árvore que já vi, onde ficam amparadas as estátuas do casal em seu momento feliz.”

Logo abaixo disso havia apenas o nome do autor do texto.

Meus olhos se arregalaram, minha mente conectava os fios a muito desconectados.

Sussurrei palavras sem sequer raciocinar com o que estava dizendo.

— Será que...

Notas finais
Nos vemos no próximo capitulo