Memories
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Estudar em um colégio interno nunca esteve nos meus planos. Ah, não, com certeza não. Mas acho que estou aqui por algum motivo. Porque eu acho isso? Digamos que a minha escola não é nem de longe barata. E o mais estranho é que eu sou órfão. Fui mandado para cá pelo orfanato que eu costumava morar. Bom, o que me intriga muito é como um orfanato simples, sem nada, nadinha de sofisticação, consegue pagar a mensalidade de um colégio como Lansford.
No primeirodia de aula, achei que nunca iria me adaptar aquela mansão. Aquele conjunto de edifícios do século sei lá quanto conseguia me apavorar. Por fora, era até bonito de se ver. As janelas se pareciam mais com portas, e por fora eram cheias de pequenos detalhes esculpidos. Os tijolos que a sustentava eram vermelhos, mas por serem antiguidades, estavam todos bem encardidos, de modo que quando vi pela primeira vez tive a impressão de que eram pretos. Nunca frequentei uma escola antes, tudo que sei aprendi no orfanato. Sempre quis estudar em alguma escola, e então fazer amigos da minha idade para discutir assuntos de garotos de 15 anos. No orfanato, eu sempre fui o mais velho dos órfãos, por isso nunca tive contato com alguém da minha idade. Sempre me distraía tomando conta de crianças. Eu estava de certo modo animado com a ideia de frequentar uma escola, mas Lansford não é o tipo de colégio em que os alunos novatos recebem uma boa recepção. Eu mesmo descobri do pior modo. Quando cheguei, fui conduzido por um sujeito mal-humorado até meu dormitório. Haviam duas camas de solteiro, por isso perguntei a ele se eu teria alguma companhia. Enquando perguntava, ele me empurrou para dentro do quarto, jogou em cima da cama uma chave com o número “104” gravado e em seguida bateu a porta, me fechando lá dentro. Incrédulo, ouvi seus passos se afastando casa vez mais da porta. Uma maravilhosa repecpção.
Mas esse foi só o começo. Pior mesmo foi ter de conhecer a professora de Francês. Imagine uma mulher idosa de mau-humor e pressão alta. Certo, agora imagine isso cem vezes pior. Esta é a sra. Bends. Sua aula era composta por gritos e xingamentos, e às vezes (não muito raro), era possível notar pedaços de giz branco voando sobre a cabeça dos alunos que abriam a boca para falar ou até mesmo para bocejar.
Acada dia que passava em Lansford, mais eu descobria que aquele não era meu lugar. Tentei contatar várias vezes o orfanato, para implorar a eles que me tirassem de lá. Eles não atenderam as minhas ligações nem uma única vez.
Um dia,na aula da sra. Bends, sobre conjugações de verbos em francês, eu dormi. Ah, puxa, juro que não foi minha culpa. A aula era monótona, e isso era da responsabilidade da professora. Se você já se arrependeu muito de algo que já fez, então entende como eu fiquei arrependido de ter me apagado durante a aula de francês. Acredito que, se ainda fosse permitido, ela me daria mil tapas com a palmatória. Mas, felizmente, aquilo era proibido, por isso, o máximo que ela pôde fazer foi me levar a sala da diretora, gritando palavrões em francês enquanto passava pelos longos corredores escuros.
A diretora era uma senhora aparentemente mais nova que a professora de francês, mas parecia tão mau quanto. Ela tinha o cabelo loiro preso com um coque no alto da cabeça, e seus olhos verdes eram assustadores.
- Com licença, diretora, mas vim trazer este verme para visitar a senhora. – Falou a sra. Bends, visivelmente irritada.
Ela lançou um olhar frio sobre mim, por cima de seus óculos.
Congelei.
-Diretora, este garoto estava dormindo no meio da minha aula! – Enquanto falava, a sra. Bends me balançava, puxando pela gola do meu uniforme.
-Não se preocupe, Bette. Trouxe ele ao lugar certo. Tenho também alguns assuntos a tratar com o garoto. Pode retornar a sua classe. – Era a primeira vez que eu ouvia alguém chamar a sra. Bends pelo primeiro nome.
-Com licença, então, senhora diretora. – Disse Bette Bends, já se virando para sair da sala.
Houve um silêncio mortal. A diretora olhava para mim, com um olhar ameaçador. Procurei virar a cabeça para não ter que encará-la nos olhos, que eram semelhantes aos de uma cobra.
-Não se preocupe, jovem Canton, eu não mordo. A não ser que seja preciso. – Disse ela, gargalhando. Eu, pessoalmente, não achei muita graça. – Sente-se.
Sentei-me em uma das cadeiras nem um pouco confortáveis, que estavam disponíveis na sala. Foi nesse momento que notei um aluno do outro lado da sala. Fiquei mais tranquilo ao ver que não estava sozinho com a diretora.
-Tem telefonado ultimamente para seus amigos? – Perguntou ela, com um sorriso macabro estampado no rosto.
Notei que ela sabia de alguma coisa. Reuni toda a coragem disponível no momento, e quando eu estava pronto para lhe falar alguma coisa, um homem grande e robusto entrou correndo na sala, e disse:
- Diretora, temos um problema! Poderia me acompanhar, por gentileza? – Disse ele, ofegante.
-Quem se machucou dessa vez? – Perguntou ela, revirando os olhos e se dirigindo a porta.– Vocês dois, não se movam até eu voltar. – Disse ela, olhando para mim e para o outro aluno. Observei calado a diretora sair da sala, e mesmo quando a porta da sala se fechou, continuei em silêncio.
Passados alguns longos minutos em silêncio absoluto, corri meus olhos discretamente para o outro garoto na sala. Seu cabelo era muito escuro, e seus olhos eram de um azul bem claro. O contraste era evidente, mesmo vendo de longe. Vi que próximo a ele havia uma mala preta ainda fechada. Seria um aluno novo?
Então ele quebrou o silêncio:
-Ei, você não tem um cigarro? – Perguntou.
\\t\\t Então ele fumava? Foi um grande choque ouvir isso, eu confesso. Já vi pessoas mais velhas fumando, apenas maiores de 30 anos. Ele não tinha nem 18.
-Eu...não. Deveria ter? – As palavras saltaram da minha boca, sem pensar.
-Hahaha! Eu estava apenas brincando. Achou mesmo que eu fumava? – Ele gargalhou escandalosamente, olhando para mim com uma cara de deboche.
-Não sei. Talvez. – Respondi secamente.
-Então você é um aluno novo... O que está achando daqui? – Perguntou ele, se recuperando do ataque de risos.
-Como sabe que eu sou novo aqui? – Perguntei.
-É bem óbvio. Tenho anos de experiência aqui, e sei exatamente quando se trata de um aluno novo. Fique sabendo, garoto, que ninguém tragaria um cigarro aqui dentro. Há sensores de fumaça espalhados por todos os cantos que você pode imaginar. – Ele deu uma pausa dramática. — Parte do edifício teve que ser reformado há dez anos atrás, devido a um incêndio causado por um dos professores. Ele deixou por acidente um cigarro cair em algum canto da biblioteca, e o fogo se espalhou por boa parte de Lansford. Apenas alunos novatos não sabem disso. – Ele piscou para mim, ainda rindo.
-Bom, já completou uma semana desde que as aulas começaram. Você parece ter acabado de chegar de viagem. – Comentei, olhando para a mala ao seu lado.
-Ah, essa é uma longa história...você não iria querer saber dela. Me conte sobre o que você achou daqui.
-Aqui é... diferente. Não sei se essa é a palavra adequada para esse lugar. Porque todo mundo aqui é tão estranho? – Tentei ao máximo não revelar no meu tom de voz um certo tipo de ódio daquele lugar.
-Talvez você seja o único estranho por aqui. Vejo todos como pessoas perfeitamente normais.
\\t\\t Aquilo me fez refletir. Talvez ele estivesse com a razão. Eu era um dos poucos alunos novos, por isso pensava que todos eram estranhos. Mas na verdade, eu era o único diferente.
\\t\\t Eu estava sem uma boa resposta para aquilo. Pensei em inventar qualquer desculpa quando ouvi passos da diretora se aproximando. Olhei para o garoto, que fez um gesto para que eu ficasse em silêncio. Pelo visto, era proibido se comunicar também dentro da escola.
-...mas não me chame mais por esse motivo tão estúpido! – Gritou a voz rouca da diretora, antes que ela abrisse a porta de sua sala.
-Tudo bem, vamos direto ao ponto, porque eu tenho coisas mais importantes para resolver. – Disse ela, entrando na sala e indo em direção a sua cadeira. –Zayne Darell, a partir de hoje você passará a dividir o dormitório com Peter Canton. Agora voltem logo para suas respectivas tarefas e não apareçam por aqui tão cedo.
Fale com o autor