Memorias dos semideuses
3 Capitulo 3 - A Historia de Robyns
Notas iniciais
13 anos. Essa foi a idade em que minha vida desandou de vez. Eu me achava um garoto normal. Com uma mãe normal que eu amava. Apesar de ela nunca ter me contado antes quem era meu pai, ela se desdobrava para cumprir os dois papéis, e ela era simplesmente perfeita nisso. Eu nunca cheguei a ficar realmente bravo com ela, nem pelo fato de eu não saber quem era meu pai. Simplesmente não conseguia, eu tentava, mas ela sempre me alegrava falando algo engraçado ou simplesmente deixando míseros 30 segundos se passarem até que eu estava alegre, brincando com ela de novo. Mesmo nossa vida não sendo a das mais fáceis, ela nunca se abateu. Foi um mês após eu completar 13 anos que as coisas começaram a ficar realmente loucas. Quer dizer, eu já via coisas estranhas antes, mas as ignorava. A partir daí, dos 13 anos, ficou impossível ignorar. Eu nunca fui bem na escola. Empenhava-me ao máximo e não conseguia notas boas. Minha mãe não me culpava por isso. Hoje eu sei por quê. Numa manhã de primavera, minha mãe me levou à escola, como sempre, em nosso carro meio antigo cedido pelo meu avô, apesar de minha casa não ser muito longe da escola. Ela sempre me deixava uma quadra antes da escola para que eu fosse andando a pé com meu amigo, o único que eu me relacionava bem na verdade, e depois voltava para me pegar naquele mesmo ponto. Neste dia, a rotina se repetiu... Até a saída da escola. Era meio de tarde, eu e meu amigo já estávamos ultrapassando o portão da escola quando a Srta. Posae(carinhosamente chamada por mim de a esquisita manca) nos alcançou com um olhar sério e intimidador. Srta. Posae era a nossa professora de Artes. Geralmente os alunos achavam-na bonita, mas tinha um defeito: Era manca. Ela disse que eu precisava acompanha-la e que era sério. Tomou-me pelo braço e praticamente me arrastou até seu carro enquanto eu protestava. Colocou-me no banco do carona, entrou no carro, trancou as portas e acelerou enquanto eu gritava pro meu amigo me ajudar. Em vão, ao invés de me ajudar, aquele filho de Hera saiu correndo, provavelmente molhando a calça. A Srta. Posae continuou acelerando até uma casa que precisava de urgentes reformas. Ela saltou do carro, abriu a porta do banco do carona e me arrastou de dentro. Eu me agarrei à porta para não ir, mas ela soltou um som parecido com um silvo e cravou as unhas no meu braço e puxou bruscamente. Soltei a porta e fui arrastado até a casa. No quintal, um cachorro marrom grande, latia incansavelmente. Latidos roucos e estridentes que ecoavam em minha cabeça. Fui conduzido até dentro da casa. Na sala, mobílias velhas e empoeiradas dava um aspecto assustador ao ambiente. Havia uma tevê antiga colocada em cima de um rack corroído por cupins. Dois sofás de couro preto decoravam a sala, cheio de furos e com o estofado a mostra. Ela me jogou de qualquer jeito no sofá, parou na minha frente e disse:
– Então, Garoto, por três meses eu tenho tentado capturar você. Sabe, não foi uma missão agradável com aquele seu imprestável amigo sátiro sempre por perto. Até que eu perdi a paciência e resolvi fazer isso do modo difícil. — Ela soltou um risinho de contentamento. — Bem, eu espero que seu sangue tenha um gosto bom. Sabe, tanto tempo pra não ser recompensada com pelo menos isso, vai me deixar muito frustrada.
A essa altura eu estava totalmente assustado em cima do sofá. O modo como ela falava não era normal. Era horripilante.
– Ah! O que foi, Meu Pequeno Semideus?- Disse ela com um tom sarcástico. — Não vai me dizer que está com medo, está? Sabe, acho melhor assim, você não me parece que iria ter algum futuro brilhante pela frente na carreira semideusa. Então, é melhor terminar com isso logo cedo. Não é, querido?- Disse ela imitando o tom gentil que ela sempre usava comigo na classe.
– Eu não sei o que você quer. Por favor, me deixe em paz. — Consegui dizer um pouco amedrontado. -
– Ah! Sempre assim. ‘’ Por favor, me deixe em paz. ’’ – Imitou ela com voz fina- Argh! Vocês nunca me surpreendem. Sempre a mesma baboseira por anos e anos. — Disse ela entediada. — Bem, vamos logo com isso.
Srta. Posae afastou-se um pouco. Soltou outro silvo e começou a transformar-se em outra coisa. Uma coisa assustadora para um garoto de 13 anos. A criatura começou a mudar-se. No lugar das unhas vermelhas bem pintadas, surgiram garras afiadas e descarnadas que eu aposto que traria muita dor se usadas em alguém. O rosto meio jovem começou a tornar-se mais grotesco. A pele pálida deu lugar à outra pele que não parecia estar viva. Os olhos, que antes eram esverdeados, ficaram escuros e dilatados. Os dentes começaram a ficar amarelados e no lugar de caninos normais, prolongaram-se presas afiadas e destrutivas. As pernas começaram a se transformar. Uma perna tinha aspecto robótico... Bronze. Sim! Uma das pernas parecia feita de bronze. A outra começou a criar pelos escuros e ficar parecidas com a de equinos... Burro (Não é você. Relaxa!). A outra perna era semelhante a uma perna de burro. Os cabelos lisos e pretos ondulados romperam-se em chamas vívidas.
– Ahhh. Bem melhor assim. – Disse soltando um suspiro de alívio. — Então, aonde paramos? Ah, sim! Eu te mato e bebo seu sangue. — Srta. Posae inclinou-se para mim e atacou com um golpe frontal em meu peito com suas garras. Eu rolei para o lado, em um momento de total reflexo. Um de seus dedos atingiu meu ombro levando parte da camiseta e um pedaço da minha pele junto. A mão dela atingiu o sofá e ficou presa em alguma coisa. Uma mola! A mão dela ficou presa em uma das molas expostas do sofá. Eu aproveitei este momento de sorte. Corri para a cozinha, ofegante e assustado. Comecei a mexer na gaveta de talheres, afobado. Não sabia o que era aquilo, mas sabia muito bem que eu devia arranjar um meio de me proteger. Minhas mãos encontraram a parte dos garfos. A esta altura, Srta. Posae já havia se livrado de seu empecilho e vinha caminhando até mim. Peguei um dos garfos e taquei contra ela. O talher ricocheteou sem nenhum efeito.
– Quanta estupidez! Já comi semideuses bem melhores que você. – Zombou ela. – Peguei mais um garfo e taquei na altura do pescoço da metade burro metade robô. Ela parou o objeto com a mão no meio do caminho. Continuei a procurar coisas para me defender. Até que encontrei uma faca. Empunhei-a de um jeito ameaçador contra Srta. Posae.
– Não se aproxime ou eu te mato! – Reuni meu tom mais intimidador que tinha naquele momento. –
– Bravo! O semideus está mostrando a que veio. – Ela bateu palmas zombando. – Olha aqui, seu inútil! É melhor se entregar e ter uma morte rápida. – Mal acabara de falar, Srta Posae avançou contra mim outra vez. No susto, eu consegui acertar uma facada na altura do abdômen dela. Ela recuou com a mão no abdômen. Xingou-me ( Hoje eu tenho certeza que foi xingamento) numa língua estranha. Aproveitei e tentei golpeá-la na altura do rosto. Ela tentou se esquivar, mas a faca atingiu acima de sua sobrancelha e fez escorrer um sangue de cor esquisita pra dentro de seus olhos. Larguei a faca e procurei uma saída. Temporariamente, ela estava só com um olho bom. Essa era minha chance. Abri uma porta que havia na cozinha. Minha esperança era que ela desse para o lado de fora. Mas eu estava enganado. A porta dava em um dispensa de diversos itens. Tarde demais pra voltar. A criatura já estava andando, arrastando as pernas de bronze e burro atrás de mim. Minha única alternativa era me trancar na dispensa. Foi isso que eu fiz. Entrei dentro do cômodo e bati a porta com força atrás de mim. Chaveei a porta, mas eu sabia que não ia aguentar muito tempo. Eu tinha que agir rapidamente. Eu estava sozinho, trancado numa dispensa e ouvindo à morte batendo na porta, literalmente. Corri os olhos pelo compartimento. Algumas ferramentas dividiam espaço com itens de limpeza. Na parede, logo acima, havia uma janelinha de vidro. Mas eu sabia que não ia conseguir passar por ali. Srta. Posae já tinha conseguido abrir um buraco na porta com as garras (Que arrombador o que. Se quiser invadir uma casa, chame uma Empousa). Olhei vagamente para as coisas nas prateleiras. Meu destino me parecia irreversível. Ainda bem que só parecia. Espere! Um pensamento repentino me ocorreu. Há uns dois meses atrás, minha mãe me ensinara a fazer alguns artefatos explosivos com coisas que se pode encontrar em casa. Eu me diverti muito neste dia e agora os ensinamentos dela poderiam salvar minha vida, ou somente adiar minha morte. Rapidamente levei a mão até uma embalagem de desinfetante. Corri rapidamente os olhos atrás do outro ingrediente para minha invenção: Uma garrafa de vidro vazia. Achei uma ao lado de um martelo. Estava com um pouco de água, mas rapidamente joguei fora. Agora só me faltava o último item da lista. Meu tempo estava se esgotando. A essa altura o buraco já tinha crescido na porta e Srta. Posae já conseguia colocar o braço. ‘’ Vamos. Vamos, por favor, só falta isso. ’’ – Pensei comigo. — Do outro lado, no terceiro vão da prateleira estava o que eu queria: Papel alumínio. Peguei-o rapidamente. Rasguei alguns pedaços e coloquei dentro da garrafa. Destampei a embalagem de desinfetante e joguei o máximo de conteúdo dentro da garrafa de vidro. Tampei a garrafa de vidro rapidamente. Peguei um pano que estava caído ao meu lado, envolvi na garrafa e empurrei-a pelo buraco da porta. — 5... 4...3...2...1...ZERO.- Um estrondo alto sucedeu. Abri a porta e encontrei Srta. Posae caída no chão com destroços do vidro da garrafa perfurando seu corpo. Minha mãe chamava essa bomba de ‘’Limpando Quarteirão’’, por causa do desinfetante na composição. Eu a chamava de Granada da limpeza. Aproveitei o momento e saí correndo. Cruzei a cozinha. Atravessei a sala. Abri a porta e quando eu ia ultrapassando a varanda, correndo, o cachorro que eu vira na chegada estava na minha frente, rosnando pra mim. ‘’ Ah! Ótimo. Saio do fogo e caio na brasa. ’’ – Pensei comigo mesmo. – O cachorro soltou um latido rouco e grave. Eriçou os pelos, abaixou a cabeça e começou a tornar-se outro ser.
– Não pode ser verdade. – Disse baixinho enquanto via a criatura que se projetava na minha frente. – Uma criatura híbrida, horripilante de três cabeças estava a minha frente. Uma cabeça e corpo de leão com mais duas outras cabeças anexadas: Uma de cabra e outra de dragão. O rabo parecia semelhante à de uma serpente. E a julgar pela borca aberta que mirava pra mim neste momento, coisa boa não ia sair dali. A criatura deteve-se. Atrás dela a buzina incessante de um carro conseguiu chamar a atenção da besta. Minha mãe saltou do lado do motorista seguida pelo meu amigo. Ela trazia nas mãos uma chave de fenda e uma espada que eu jurava que era só decorativa que ficava presa ao teto do carro. Meu amigo empunhava uma lâmina curta, mas não parecia ameaçador, parecia mais ameaçado. Esse não foi o único detalhe que notei nele. Da cintura para baixo ele estava com as pernas peludas e cascos no lugar dos pés. Se isso fosse a puberdade, eu não ia querer nunca chegar nessa fase. A criatura voltou a atenção para eles. Grunhiu para eles e baforou uma rajada de fogo que deixou um cheiro desagradável no ar. Eles desviaram para o lado e se esconderam atrás do carro. Passei correndo rapidamente por trás da besta e fui para lá também.
– Mãe, o que é isso? – Perguntei tentando parecer calmo, mas a pergunta saiu quase como um grito. -
– Robyns, lembra-se das histórias que eu te contava sobre mitologia grega? Pois bem, tudo é verdade. Deuses, monstros, titãs. Tudo. E isso daí é uma Quimera. — Aquilo me atingiu em cheio, mas eu não tinha tempo para contestar nada. A criatura continuava soltando fogo contra o carro e avançando. — Toma! –Minha mãe estendeu a chave de fenda pra mim. – Seu pai te deu isso. Ele me disse para te entregar só quando fosse a hora. — — Uma chave de fenda com um cabo vermelho.
– Esse é o presente dele? E como isso vai me ajudar a combater isso. – Disse me referindo a Quimera. Peguei a chave de fenda. Ao tocá-la, o metal começou a transformar-se. O cabo de plástico tornou-se emborrachado e totalmente aderente a minha mão. Uma lamina rompeu o ar e começou a brilhar a luz do sol. — Wow! – Consegui dizer, impressionado.
– Pois é! Agora fique aqui que eu vou deter esse bicho. — Ela nem deu tempo para que eu me postasse contra. Levantou-se e saiu detrás do carro com a espada em mão. Ela era mortal. Isso não ia terminar bem. E não terminou. Eu e meu amigo nos juntamos a minha mãe contra a Quimera. A besta lançou mais uma baforada tóxica contra nós, mas desviamos. Em pé, na entrada da casa, estava Srta. Posae olhava-nos furiosa. Ela começou a caminhar em nossa direção. Seria três para dois. Dividimo-nos, eu me incumbi da Srta. Posae, enquanto minha mãe e o meu amigo lutavam contra a Quimera. Andei na direção da minha antiga professora com espada em mãos. Dei outro golpe na altura do seu abdômen. Ela tentou se esquivar, mas não conseguiu, estava mais lenta devido à explosão. A espada fez outro corte mais espesso, acima do corte da faca. A Empousa grunhiu e contra atacou com as garras fazendo um corte em meu peito. Dei um passo para o lado no momento em que ela ia me acertando no rosto com as garras da outra mão. Aproveitei o momento e bati fortemente com a cabo da espada em sua cabeça. Ela caiu bruscamente no chão. Eu só precisava dar o golpe final.
– Veja se isso te surpreende agora, Srta. Posae. – Disse sarcástico. — Desci a lamina na altura de seu crânio, atravessando-o. O corpo deu lugar a um pó fino que logo foi esparramado pelo vento. Virei-me para a batalha que ocorria atrás de mim e vi minha mãe e meu amigo em sérios apuros. Após me virar, a Quimera lançou outra baforada contra os dois. Meu amigo sátiro conseguiu desviar, mas minha mãe foi atingida em cheio devido à proximidade que ela estava. A cena seguinte do corpo de minha mãe caindo sem vida no chão reproduziu-se em câmera lenta em minha cabeça. A Quimera soltou outra baforada que a atingiu pela segunda vez. Corri contra o monstro bradando a espada, furioso. A besta virou-se para mim e lançou uma rajada de fogo. Aquilo me atingiu em cheio, mas eu não fui totalmente afetado. Meus sentidos continuaram despertos até eu matar aquela coisa. Cravei a minha espada na altura do ombro dianteiro da Quimera. Ela grunhiu e tentou me acertar, mas eu fui mais ágil e desviei-me. A minha espada cravou-se novamente no monstro só que desta vez no carpo. A Quimera soltou um só agudo e caiu sobre as patas. Sem perder tempo, corri para debaixo do monstro e cravei a lamina em seu peito. Sangue de monstro caiu em cima de mim. Rolei para o lado enquanto a Quimera desabava de vez no chão. A criatura soltou mais alguns sons agudos até desfazer-se em pó igual Srta. Posae. Corri até o sátiro que tentava reanimar minha mãe. Em vão. Ela estava morta. A pessoa que eu mais amava acabara de morrer na minha frente e eu assistira impotentemente. Lágrimas irromperam dos meus olhos. A pele dela estava com queimaduras horríveis.
– Temos que sair daqui, Rob. – Disse o sátiro. – Temos que ir pro acampamento. Lá você estará seguro. Logo isso aqui estará cercado de gente. Não podemos ficar aqui. Venha comigo! – Após um tempo em silencio, chorando a morte de minha mãe. Eu assenti. Sabia que não adiantaria nada eu dizer que não. Esse seria o desejo de minha mãe. E eu ia segui-lo. Ajoelhei-me ao lado do corpo dela. Dei um beijo em sua testa e disse:
– Adeus, Mãe. Eu vou ficar bem. Por você! – Coloquei as mãos dela sobre o tórax, levantei-me e segui meu sátiro até o acampamento. Desde então, mantenho minha mãe viva em minha cabeça e no meu jeito de agir. Ela foi e sempre será a minha verdadeira heroína. Se não fosse por ela, eu teria morrido. E agora tento deixa-la orgulhosa me empenhando ao máximo em ser semideus.
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