Se tudo desse certo, o que Luísa esperava que desse, aquela seria a última vez que pisaria na ElectronicCase.

Quando caiu naquela história do folheto, semanas antes, não esperava que fosse uma situação que perdurasse por tanto tempo. Tantas consultas desconfortáveis e invasivas, situações e perguntas sem pé nem cabeça, que ela não conseguia ver como que ajudariam os cientistas a resolverem o enigma que era a sua mente.

Talvez fosse apenas para dar a sensação de que estavam fazendo algo.

O que não esperava era que Maria estivesse lá também.

— Sente-se — o cientista pediu, assim que viu-a parada à porta, sem compreender o que estava acontecendo.

Ela estava atrasada, Maria estava no horário.

Certo, mudanças estavam começando a ser feitas.

Era surreal que uma fosse a solução para o problema da outra, e que agora estavam bem perto de encerrarem aquele longo episódio de suas vidas.

— Certo... — o homem limpou a garganta, antes de começar a falar — Nós vamos fazer um tipo de cirurgia em vocês duas.

Luísa ficou confusa. Não era para ser apenas um comprimido?

— Não será nada demais, nós apenas iremos transferir uns tubos através da massa encefálica... — ele começou a explicar.

— Vocês vão enfiar uns tubos no meu cérebro, e dar choque? — Maria interrompeu-o.

O doutor hesitou diante das palavras diretas, mas não retrucou.

— E como isso irá nos ajudar? — perguntou Luísa, sem entender.

— Iremos verificar a área do cérebro de vocês que está dando esses problemas — ele voltou a explicar, agradecido pela pergunta dela — Iremos programá-la, e pronto. Arrumar um modo de neutralizar o que está liberando as memórias em excesso, e o que está impedindo-as de vir ao consciente.

Ela deveria saber que não seria tão simples quanto uns comprimidos, mas bem que poderia ser. A ciência estava bem evoluída, ela esperava que estivesse o suficiente para aquilo, mas, pelo visto, não. Superestimou demais aquilo que não tinha conhecimento.

— Quando? — ela perguntou, depois de absorver o que tudo aquilo significava.

— Daqui a uma semana, estará tudo pronto.

Maria não parecia muito segura sobre isso, e ela esperou que elas não tivessem que precisar uma da outra para isso, ou teria problemas.

— Há riscos, não é? Sempre há! — a loira manifestou-se, depois de alguns minutos de silêncio.

— Nunca fizemos isso antes, não temos como calcular os riscos que isso poderia trazer... — o especialista respondeu, sem olhar para elas.

— Bem, isso significa, então, que eu posso acabar desenvolvendo esclerose múltipla, e não há nada que vocês podem fazer para impedir isso? — Maria perguntou, já irritando-se.

— Vocês são as primeiras pessoas que aparecem aqui com esses problemas...

— Bem, vocês disseram que resolveriam, e que fariam com que outras pessoas tivessem uma solução.

— Por enquanto, é apenas isso o que podemos fazer.

Eram muitos riscos, mas o que elas poderiam fazer?

Era a vida delas que estava em jogo.

Luísa já não aguentava mais saber de tudo, isso mudava completamente a perspectiva da vida, além de que uma pessoa não aguenta todo esse peso metafísico em si.

Enquanto que Maria já não aguentava as dificuldades que a sua memória pregava nela.

Não tinham muita escolha.