— Quando e como você conheceu essas pessoas?

— Quais são os nomes destas pessoas?

— Escute esta música somente uma vez. Preste atenção na letra, pois você me dirá a letra depois.

— Qual a página em que é descoberto o inimigo?

— Quantas vezes a palavra “eu” foi mencionada no livro?

Luísa não podia deixar de sentir-se um experimento científico, o motivo pelo qual odiava a ElectronicCase, que mais a estudava do que apresentava soluções.

— Eu não sei — ela respondeu, entredentes — Eu não contei.

Então, o cientista/doutor negaria com a cabeça, aparentando estar decepcionado, e anotaria algo em seu tablet.

— Qual é a lembrança mais antiga que você se lembra?

Porque lembrar uma lembrança era bem difícil.

Os cientistas pareciam mais interessados em estudar a construção das coisas do que a construção das frases que eram proferidas por eles.

— O fato de eu conseguir me lembrar de mais coisas do que uma pessoa normal seria capaz não interfere na minha capacidade de percepção, e tampouco me traz super poderes. Se eu não prestar atenção em algo, eu não posso lembrar de tudo em segundos. Eu posso lembrar-me minuciosamente de cada página de um livro, mas não em segundos. Eu poderia ler o livro novamente só na minha mente, talvez, mas demoraria o mesmo tempo que se eu lesse normalmente.

O seu discurso pareceu constranger ligeiramente o homem, mas ele logo recuperou-se, parecendo satisfeito pela explicação. Seria tão mais simples se tivessem lhe perguntado desde o início, em vez de marcar sessões e mais sessões, como se estivesse em um psicólogo.

Apesar disso, Luísa ainda duvidava que seria capaz de memorizar um livro de 200 páginas só com uma leitura. Sim, ela tinha uma memória extraordinária, mas isso parecia surreal para um ser humano.

Eles eram cientistas. O que queriam com essa pesquisa? Dar a capacidade dos seres humanos memorizarem tudo sem dependerem da tecnologia, a maior fonte de renda do mundo? Duvidava muito disso. Eles seriam capazes de perceber os males que isso fazia a ela, e fariam a qualquer outra pessoa.

A incapacidade de aprender o idioma à perfeição não significava inépcia. Eles precisavam avaliar se um experimento era digno de ser realizado.

Novamente, esta palavra causou-lhe calafrios.

“Experimento”.

A garota nascida de parto normal era um experimento. Mesmo que fosse de cesariana, ou fecundada por inseminação artificial, isso não mudava o sentimento de terem inserido um chip em seu cérebro, que tenham transformado-a em um robô sem que ela fosse capaz de perceber.

— Hora de descansar — disse o cientista/doutor, observando como a hora impressa mudava em seu pulso.

Se existisse um projetor vindo do teto, e ela não tivesse visto esses relógios outras vezes à luz do sol, ela acreditaria que a causa era essa para não haver uma tela e bracelete incrustados ali.

A porta abriu automaticamente, e ela saiu do cubículo chamado de sala. A porta fechando-se automaticamente, assim que ela passou.

Decidiu reservar os minutos seguintes para tomar um pouco de chocolate da máquina no final do corredor.

— Você está atrasada!

— Eu perdi um... Uma coisa.

— Entre logo! Anda!

Luísa não lembrava de ter escutado a recepcionista tão irritada antes, o que significava que nunca tinha visto tal proeza.

Passos apressados passaram pelo corredor, e ela conseguiu evitar por pouco um encontrão com a loira apressada, toda atrapalhada.

— As coisas podiam ser piores... — ela murmurou para si mesma, antes de tomar um gole do copinho de plástico.

Não muito tempo depois, a porta, de onde saiu, abriu-se novamente, e ela foi chamada de volta.

— Luísa, venha!

Eles eram bem informais para cientistas...

Jogou o copinho vazio na lixeira, antes de voltar para a sala.