Notas iniciais
Separei esse capítulo dos demais porque há uma diferença no POV. Aqui nos deparamos com um fragmento do passado da Yabbat e no próximo vamos acompanhar uma conversinha entre ela e Namor.

A Cisne acordou pior do que da primeira vez. Estava zonza e suas pálpebras pesavam. Demorou para que seus pesadelos escorressem de sua cabeça, talvez uma hora inteira. Sonhara com a chave de novo… Mais especificamente, com a última vez que a viu:

Ela já era uma adolescente; esguia por se alimentar com poucos recursos e ainda por cima forçar seus músculos jovens naquela vida de fuga, morte e destruição. Era desprovida de cor e trajava o negro. Suor brotava em sua pele, por medo e porque corria, afinal… Estava de volta ao seu mundo — Aquele que deixou quando criança.Uma das Grande Damas seguia na frente, uma de suas irmãs Cisnes. Ela abateu um Sacerdote Sombrio que observava as chamas da cidade e virou-se para a pequena:

— Pode vir agora, criança.

— Está morto?

— Os Sacerdotes não estão vivos no sentido que você e eu estamos, Yabbat. Eles são mais como coisas programadas para fingir vida. Abominações que enganam a grande roda. Nós podemos destruí-los, todas as coisas podem ser destruídas… — A Cisne mais velha olhou para ela. Sua pele era tão escura quanto um buraco negro no espaço, seus olhos eram duas estrelas. — Mas não é por isso que estamos aqui, é?

— Não.

— A Biblioteca de Mundos existe numa fenda diferente dos mundos para qual se abre. Portanto, mesmo tenha deixado esse lugar há anos… — e ele já tenha deixado de existir — Voltamos para momentos antes que você encontrou seu caminho para nós. Tem certeza de que quer fazer isso?

— É claro.

— Então se apresse, irmã. Vou segurar a porta o máximo que puder.

A jovem correu entre as ruínas ainda em brasa de seu mundo, desviando e se escondendo dos Sacerdotes que ainda rondavam a cidade. A chave dourada balançava em seu pescoço, o único ponto de cor em sua figura.

E então chegou onde queria. Onde seus irmãos e irmãs, familiares queridos estavam. Todos mortos. Para ela, fazia anos… No entanto, seus corpos haviam esfriado há pouco. Um a um, Yabbat usou seu dispositivo parecido com uma agulha — um coletor de DNA. As Cisnes usavam palavras mais místicas para descrevê-lo e, naquela época, ela ainda não associava a cor verde de sua superfície com esperança. Mas era o que tal utensílio representava para a jovem — esperança. Um bálsamo para suas piores cicatrizes. Ao fim, chegou até seu irmão mais velho, o futuro príncipe de seu falecido reino.

— Eu lamento tanto, Dadingra… — Ela se ajoelhou ao seu lado, seus olhos marejados. — Elas me ensinaram que Rabum Alal tem necessidades maiores que as nossas e que todos servimos a roda… Mas existem recompensas para os fiéis.

O utensílio sugou o sangue de seu irmão e ela segurou o vidro esverdeado com carinho.

— Eu serei fiel. Por nós dois.

Dito isso, uma explosão estourou perto de si, lançando-a para o outro lado. Por pouco ela conseguiu salvar seu dispositivo e a chance de trazer todos que amava de volta à vida. Parou metros de onde estava, entendendo claramente o que quis lhe atingir: Um Sacerdote Sombrio. Essas criaturas realmente não pareciam vivas. Tinham mãos, porém não um corpo — apenas um manto escuro e ornado. Suas cabeças eram elmos detalhados de ouro, com chifres nas laterais e quelíceras douradas onde deveria existir uma boca. Sussurravam de um jeito que perturbava cada átomo de Yabbat. E aquele olho — aquele único olho — no centro a encarava com muita atenção.

— O que é isso? — Disse, alongando o sibilar do “s”. — Uma pequena Cisne Negro se perdeu?

— Não, monstro… Eu não estou perdida. — Ela respondeu, enquanto se levantava. Seus olhos se incendiaram com energia acumulada. — Aqui era o meu lar!

Um lampejo vermelho saiu de suas pálpebras e destruiu a criatura. Mesmo com a visão ainda embaçada, a Cisne saiu correndo o mais rápido possível. Ela sabia que para cada Sacerdote derrotado, inúmeros mais viriam em seu lugar. Encontrou a Cisne Negro mais velha e as duas partiram nos portões da Biblioteca.

A chave dourada de Yabbat, no entanto, ficou no chão de seu mundo, esquecida entre cinzas durante o breve combate com o Sacerdote. Caira de seu pescoço na explosão.

Ela nunca mais viu o objeto, bem como o dispositivo verde foi perdido — confiscado— por Reed Richards na outra Terra. Qualquer chance, qualquer dita esperança que ainda tinha, foi engolida pelas circunstâncias. Quando pensava sobre isso, ela se perguntava se existia um razão… E, às vezes, entendia o porquê não havia nada.

No entanto, tinha questões mais urgentes para lidar agora, como o fato de se sentir um tanto fora do lugar. Errada. Ela levantou lentamente da cama onde estava, ciente da coleira elétrica em seu pescoço, e olhou o cômodo ao seu redor. Sem janelas. Porta automática selada. Provavelmente câmeras em algum lugar. Esperava algo pior depois de atacar Namor, mas o local até poderia ser agradável apesar de sua extrema impessoalidade em branco e tons cinzentos. A cama ficava ao fundo, com somente um lençol e um travesseiro, embora Yabbat preferisse dois. De qualquer modo, estava igualmente acostumada com escassez e o mínimo para sobreviver. Até que era uma cela generosa, com uma mesa vidro com meia dúzia de livros para passar o tempo e uma cadeira estofada. Notou também que haviam toalhas e roupas limpas no criado-mudo ao lado da cama, peças pretas. Isso era bom. Poderia se banhar no chuveiro do canto oposto do cômodo, onde jazia um banheiro completo separado por uma parede de vidro. Fez exatamente isso, pouco preocupada se as câmeras flagrariam seu corpo nu. Só desejava parar de se sentir estranha e talvez um banho quente aliviasse a sensação.

Não aliviou.

A coleira era à prova d’água e não lançou uma descarga elétrica nela, mas Yabbat sentia-se ainda zonza ao se enrolar na toalha. Caminhou a passos lentos até o espelho e passou a lateral da mão em sua superfície para desembaça-la e poder assim enxergar seu reflexo. Cabelos brancos e molhados, olhos negros como sempre foram. Ela piscou e então eles se tornaram azuis, cintilantes, e junto a essa cor doente veio um espasmo que a pôs de joelhos. Durou um segundo apenas e não foi exatamente dor que sentiu, mas ainda assim arfava. Se apoiou no vaso sanitário para se levantar depressa, logo encarando de novo sua própria imagem.

Íris negras, como o vazio. Normais.

Seus lábios tremeram. Sabia que deveria ir com mais frieza naquela situação, pois estava ainda de coleira e a IMA parecia uma organização científica um tanto quanto ardilosa. Poderia cooperar o mínimo e esperar o momento certo, assim como fez tantas vezes no passado. No entanto, não entender o que a IMA tinha feito com seu corpo a perturbava. No que haviam mexido? O quanto a violaram? Por que seus olhos cintilaram em azul? Entendia o vermelho. Seus olhos se banhavam dessa cor quando vinha uma Incursão normal, a julgamento justo de Rabum Alal. Azul, não.Yabbat preferia torturas, pois ao menos estava desperta e ciente do que estava acontecendo.

Numa vã tentativa de ter mais controle sobre a questão, lembrou a si mesma que Namor tinha um plano. Esperava que não envolvesse traição, assim como antes, já que ao menos ele parecia sincero quando disse isso… Mas caso não fosse, Yabbat traçaria um caminho para si.

Vestiu-se. Checou os títulos dos livros sobre à mesa, intrigada pelo fato de que maioria já tinha lido na outra Terra, sob a custódia dos Illuminati. Indicações de Reed Richards, seu captor, que havia lhe dado obras como a Ilíada, a Odisseia e a Teogonia. Entre esses e outros mitos que havia lido, Yabbat lembrava-se daquele de Ariadne e o novelo de lã que ajudou o herói sair de um labirinto.

Isso provocou uma sensação estranha de familiaridade, uma suspeita em sua mente. Se aquela Terra fosse tão parecida com a outra, o cientista estaria vivo? E caso a resposta fosse positiva, como esta versão dele enfrentaria o colapso do multiverso? Era uma questão a se considerar e Richards definitivamente era uma pessoa a se preocupar.

Ela sentou-se na cama e se pôs numa posição adequada para uma dose de meditação. Talvez tenha feito isso por horas, numa tentativa também de mostrar aos seus captores que era uma prisioneira mais controlada, até que a porta automática soltou um alarme breve e se abriu, revelando a figura de Namor.

Ele não a cumprimentou e nem ofereceu maiores explicações. Apenas de um passo adentro e disse:

— Venha, Yabbat. Vamos comer.