Memento

1 Capítulo único


Notas iniciais
Recentemente, o patch em inglês de Lamento foi lançado, o que me fez ter uma vontade imensa de jogar de novo. Como da primeira vez havia jogado com ATLAS+AGTH, não havia percebido alguns pontos importantes da história, pois ler de um tradutor tão impreciso acabou tornando Lamento um jogo cansativo para mim. Minha segunda experiência com o jogo foi simplesmente maravilhosa. Não consegui me ver cansada de ler em nenhum momento. E apesar de saber (quase) todos os spoilers do jogo, fui capaz de aproveitar todo o desenvolvimento do jogo, e passar novamente por todas as emoções que senti ao jogar pela primeira vez. Rir, xingar, e chorar incessantemente durante o flashback do passado de Leaks e Shui. Movida pelo desejo de ver os dois juntos de uma maneira diferente, resolvi escrever esta fic. Espero que gostem.

Num dia de inverno, quando até as plantas congelam,

As luas anseiam uma pela outra, e caem em prantos.

Suas lágrimas derretem sobre o mundo, e depois de chorar,

Tornam-se uma, como um olho inflamado; vermelho.

Leaks repetiu a antiga canção das luas em sua cabeça, enquanto observava o estranho objeto que um dia achou em uma ruína dos Two Canes. Uma esfera feita do tão raro vidro, preenchida por algum líquido transparente, no qual estava suspenso algo que julgou ser um aglomerado de pequenas sementes brancas, que quando perturbadas, imitavam a dança da neve. No centro, a retratação de uma estranha criatura que tinha seu corpo formado por três esferas também brancas, empilhadas da maior para a menor. Na esfera do topo, pequenas sementes pretas e um estranho graveto laranja estavam incrustados. Seria algum tipo de monstro contemporâneo aos Two Canes? Seja lá o que aquilo fosse, Leaks achava o objeto, como um todo, fascinante. Ele podia apreciar ao cair da neve em qualquer época do ano, e também distrair-se um pouco de suas tão incessantes pesquisas.

Olhou para a janela; a Lua da Luz já estava se escondendo atrás das montanhas. Logo cairia a noite. Soltou um breve suspiro, enquanto a imagem de um gato de longos cabelos avermelhados vinha à sua cabeça. Desde quando Shui havia se tornado um pensamento tão frequente?

Estranhou o fato de já estar acabando o dia, e Shui não tinha vindo atormentá-lo, como fazia todos os dias. A solidão e o silêncio de sua casa, com os quais já achou estar acostumado há muito tempo, começaram a incomodá-lo. Leaks recusava-se a acreditar que ansiava pela visita de Shui.

— ...

Relutante, Leaks ergueu-se de sua cadeira, e dirigiu-se à entrada de casa. Timidamente, pôs apenas a cabeça para fora e observou os arredores. Seus olhos varreram a floresta.

Nenhum sinal do gato.

— Shui... — Leaks sequer percebeu que o nome dele havia escapado de seus lábios, em forma de sussurro.

Com um pouco de insegurança, pôs um dos pés para fora de casa. O outro, logo em seguida. Ele, que raramente saía de casa sem um objetivo concreto, já se distanciava um pouco de sua árvore. O farfalhar da grama acompanhava seus passos. Um. Dois. Três... Quatro... ... Cinco. Girou em torno de seu próprio eixo, olhando a floresta por todas as direções. Nada.

Com um suspiro, suas orelhas murcharam, e seu semblante tornou-se discretamente melancólico. Desistindo, deu meia-volta e dirigiu-se de volta para casa. Já pusera o primeiro pé dentro de sua árvore quando ouviu a grama chacoalhar. Suas orelhas involuntariamente empinaram.

— Leaks! Leaks! – Ao longe, uma voz conhecida gritava, euforicamente.

— ...!

A figura de roupas pomposas emergiu da mata, e vinha correndo na direção de Leaks. Quando percebeu que era Shui, o feiticeiro sorriu, e uma sensação de leveza preencheu sua alma.

— Leaks!

O corpo do poeta chocou-se contra o do bruxo, envolvendo-o num caloroso abraço, e sua cauda balançando amplamente.

— Shui...! – Balbuciou seu nome, tentando esconder o entusiasmo em sua voz. O que não teve muito sucesso, já que sua cauda involuntariamente oscilava.

— Leaks! Vem comigo! Você precisa ver isso! – Soltando do abraço, Shui segurou firme em uma das mãos de Leaks, puxando-o para que o acompanhasse.

— M-Mas... Onde? – Inseguro, Leaks não pode deixar de perguntar.

— Não pergunte. Só venha!

Shui apressou o passo, iniciando uma corrida juntamente com Leaks, cuja mão segurava firmemente, sem pensar em soltar.

Tamanha era a pressa do poeta que ele sequer se dava ao trabalho de desviar de pequenos obstáculos. Frequentemente, um galho ou outro arranhava seu rosto ou seu braço, mas Shui não parecia se importar.

Leaks, que até então seguia calado, começou a perceber para onde a trilha os levava.

Ransen.

— !!

Um arrepio correu seu corpo, fazendo os pelos de sua cauda negra se erguerem um pouco, e seu coração palpitou acelerado. Leaks imediatamente parou o seu passo, rosnando com as presas à mostra.

— ... Leaks?

— Pare, Shui. Você sabe que eu não posso entrar na cidade. Eu não quero entrar na cidade. – Disse, com um tom amedrontado.

O poeta riu brevemente, e direcionou um enorme sorriso a Leaks.

— Não tema, Leaks. Apenas confie em mim.

— ...!

O feiticeiro sentiu seu peito doer, e seu rosto esquentar um pouco. Suas mãos estavam trêmulas. Leaks nunca imaginou que estaria tão apavorado pela ideia de simplesmente pisar naquela cidade.

— Você não precisa mais ter medo de mostrar a todos quem você realmente é. Eu estou com você, meu amigo.

Shui levou uma das mãos ao rosto de Leaks, acariciando tenuamente sua face, desfazendo aos poucos seu semblante amedrontado, sua arritmia gradativamente se acalmando. Depois de alguns instantes de silêncio, Leaks, em resposta, encostou sua testa no ombro do poeta, ruçando sutilmente.

— ... Então, já que é assim, leve-me com você. Mas não o perdoarei se for uma armadilha.

— Se for, não me importarei de ser morto por você.

O sorriso do poeta não parecia querer se desfazer. Leaks sentiu-se secretamente confortado por aquele sorriso, apesar do pensamento de ter Shui morto por suas mãos ser assustador.

Shui entrelaçou seus dedos com os de Leaks, que involuntariamente fez o mesmo. E então, os dois seguiram caminho, desta vez, calmamente.

Quando chegaram a Ransen, ainda de mãos dadas, as primeiras estrelas já começavam a aparecer, apesar da Lua da Escuridão ainda não ter se erguido. Leaks estava inevitavelmente nervoso, e seu peito batia forte a ponto de ecoar em seus tímpanos. Uma quantidade considerável de gatos os acompanhava com olhares afiados como adagas, enquanto faziam comentários entre si. A balbúrdia incomodava o feiticeiro, que imediatamente pensou em correr de volta para a floresta.

— ... Calem-se... — Sussurrou Leaks, rosnando baixo.

— Acalme-se, Leaks. Ignore-os. Não o farão mal.

O feiticeiro cessou seu rosnar, mas ainda olhava desconfiado para os gatos ao seu redor. Entre os Ribika, desviar o olhar significaria submissão. E ele jamais admitiria isso.

Depois de caminhar mais um pouco, chegaram a uma casa simplória. Shui soltou a mão de Leaks ao abrir a porta de seu lar, que mal tinha três ou quatro cômodos.

— Shui? Já chegou? – Uma voz feminina veio de dentro da casa.

— Estou de volta, querida. – Shui respondeu, com sua voz serena, adentrando a porta.

Segurou a porta para Leaks e gesticulou para que entrasse, já que estava hesitante. Com passos tímidos, o feiticeiro acompanhou o comando de Shui, que fechou a porta logo após sua passagem.

— Vem, Leaks. – Disse, baixinho.

Os dois seguiram até um singelo quarto, composto de uma cama de casal e outra para visitantes. Na cama de casal, estava deitada uma bela moça, de aparência fragilizada e um pouco cansada, mas ainda assim, sorridente. Em seus braços, com o rostinho escondido entre seus seios desnudos, um gatinho com alguns poucos fios de cabelo vermelhos, e um rabinho que mal tinha pelos, com a pontinha torta, que balançava tenuamente. Leaks não encontrou palavras para descrever o que sentiu ao ver a cena.

Logo, a moça quebrou o silêncio.

— Ora, esse é o amigo de quem você tanto fala? – Perguntou, com uma voz doce e um sorriso no rosto.

— Sim. Esse é Leaks, ele vive na floresta.

Leaks grunhiu ao ouvir Shui mencionar a floresta. Logo a fêmea faria a associação.

— Ah, então ele existe mesmo... O feiticeiro dos rumores...

Leaks dirigiu um olhar frio à esposa de Shui, que logo se desfez para o que ouviria a seguir.

— Que bom que veio. Meu marido sempre fala tão bem de você... Estou feliz.

Perplexo, Leaks, que não havia falado nada desde que chegou, permaneceu sem dar uma palavra diante da reação totalmente inesperada. Shui sorriu para ele, e dirigiu-se para a cama, sentando-se à beira, e convidando Leaks para que também se aproximasse. No entanto, o feiticeiro, inseguro, manteve-se imóvel.

— Chegue mais perto, Leaks. – A moça convidou.

Ainda tímido, Leaks avançou cautelosamente, sentando-se ao lado de Shui.

— Este é o meu filho, nasceu hoje mais cedo. – Disse Shui.

— Segure-o. – Propôs a esposa.

Os olhos de Leaks se arregalaram diante da proposta da moça, e o sangue subiu ao seu rosto. Leaks não conseguia se sentir completamente à vontade com ninguém além de Shui. E após mais alguns longos segundos de silêncio, Leaks balançou a cabeça positivamente enquanto a moça estendia seus finos braços a Leaks, entregando a criança recém-nascida nos braços do feiticeiro.

— Tenha cuidado.

Leaks aceitou o bebê em seus braços, ficando visivelmente nervoso ao sentir o toque da pele úmida em suas mãos. Apesar do medo constante de acabar derrubando-o, Leaks pôde sentir o calor emanar do pequenino, gerando um aconchego que ele jamais havia sentido. Olhou em seus olhinhos que ainda não tinham se aberto e observou como respirava serenamente. Não parecia se incomodar de estar nos braços de outra pessoa além da mãe. Gatos recém-nascidos nunca foram bonitos, mas de certa forma, aquela criaturinha feia parecia uma das visões mais belas do mundo.

— ... Como ele se chama...? – Finalmente, Leaks conseguiu falar.

— Konoe.

... Konoe...

O nome ecoou na mente do feiticeiro, como uma bela melodia.

— ... Konoe... – Pronunciou. – ... É um belo nome.

Shui e sua esposa sorriram com ternura. O poeta tocou gentilmente em seu ombro.

Leaks foi contaminado por um sentimento que ele pensou que estava se extinguindo de Sisa. Depois de toda a sua vida sozinho naquela floresta, sem nenhuma memória de seus progenitores, pela primeira vez, Leaks se sentiu o amor de uma família; como uma chama em seu peito, aquecendo gentilmente seu coração gélido. Juntamente, outra sensação desconhecida aflorava no feiticeiro: lágrimas incessantes trilhavam os contornos de sua face, e caiam sobre o pequenino.

Outra sensação aconchegante envolvia seu corpo. Shui e sua esposa levaram seus braços ao feiticeiro, envolvendo-o num abraço aquecido. Leaks esqueceu-se momentaneamente da floresta. Da magia. De suas pesquisas. De sua solidão. O silêncio não parecia mais tão ruim, pois estava preenchido por sentimentos maravilhosos.

— Você não está mais só, Leaks. – Murmurou Shui, carinhosamente. – Esta também pode ser a sua casa.

Leaks balançou a cabeça assertivamente, com lágrimas silenciosas ainda caindo. Logo depois, devolveu a criança à mãe, que o envolveu cuidadosamente em seus braços. Shui ergueu-se cautelosamente da cama.

— Por ora, vamos deixá-la descansar. Venha comigo. – Convidou Shui, estendendo a mão ao feiticeiro.

O bruxo alcançou a mão do poeta, erguendo-se, também da cama. Então, os dois seguiram para fora da casa. Ao lado da residência do poeta, uma árvore se situava. Shui a escalou, e gesticulou para que Leaks o acompanhasse, e então passou para o telhado de sua casa, onde passava algumas noites compondo suas canções. Sentou-se sobre as telhas, e logo Leaks cuidadosamente sentou-se ao seu lado. Os dois mantiveram-se em silêncio por longos segundos, observando as brilhantes estrelas da noite que já havia caído. Shui serenamente escorou sua cabeça sobre o ombro de Leaks, olhando para o céu. Leaks sorriu, e então, com um suspiro, violou o silêncio.

— Obrigado por ter me encontrado, Shui.

Shui sorriu, e discretamente tocou a ponta de sua cauda à cauda de Leaks, gentilmente entrelaçando-as aos poucos. Entre os Ribika, aquele gesto era um do mais puro afeto. O feiticeiro sentiu o sangue correr à sua face e seu coração palpitar mais forte.

— Leaks...

— ... Hm? – A voz serena de Shui parecia hipnotizá-lo.

— Olhe para mim.

Leaks timidamente virou o seu rosto, de encontro ao do poeta. Seus olhos de esmeralda o pareciam dragá-lo como a ressaca do mar. Shui pôs sua mão mais próxima a Leaks sobre a dele.

— Não conte à minha esposa.

Shui, então, inclinou o rosto, e seus lábios, frios e macios como a própria neve, pousaram sobre os do feiticeiro.

E então, Leaks ouviu o som de vidro despedaçando. Uma forte luz branca invadiu sua visão, e Leaks sentiu seu corpo cair de joelhos ao chão. O Fim dos Tempos acabou. O vermelho do céu gradativamente se esvaía, conforme as duas luas sobrepostas voltavam a se afastar.

Pela última vez, Leaks ouviu a voz do seu falecido, amado poeta em sua mente.

“O caminho que você escolheu estava cheio de erros, e este é o resultado. Ainda assim, eu sempre quis que estas palavras o alcançassem. Porque… Mesmo se o mundo o matasse, eu jamais… esqueceria de você.”

Lágrimas escaldantes ardiam, caindo incessantemente de seu rosto.

— Shui... O que eu fiz?

Notas finais
Por sinal, há alguns pontos que gostaria de mencionar.1) Não consegui adaptar direito o termo "Two Canes" (os humanos, ancestrais dos Ribika) para o português, portanto deixei conforme a adaptação para o inglês, utilizada no patch.2) "Memento", significa algo como "Memória" em Latim. Escolhi porque se trata de uma falsa memória de Leaks antes de sua morte. Eu tenho um headcanon, que explica porque grande parte da trilha sonora de Lamento é em latim. Latim seria a representação da língua dos Two Canes, e todos os documentos sobre esses ancestrais estariam escritos em Latim, idioma que os gatos nunca conseguiram ler ou decifrar.3) No próprio decorrer da história de Lamento, Rai menciona (em palavras abstratas) que os Two Canes dominavam a eletricidade, e que já haviam lâmpadas elétricas antes da extinção dos Two Canes. Portanto, assumi que globos de neve também existiram um dia.4) Konoe tem cabelinho vermelho nessa história, sim. Porque afinal, neste sonho, Leaks nunca amaldiçoou Konoe, portanto, Konoe teria um rosto e identidade próprios, que não os de Leaks.5) Podem me xingar à vontade, sei que peguei pesado na história :vMuito obrigada por terem lido até aqui! Espero que eu possa ter paciência e criatividade para continuar escrevendo fanfics dos jogos da N+C. Deixem suas reviews, eu adoro. ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!