Memórias: uma não tão longa jornada acadêmica

3 O corre-corre da cidade grande / Tanta gente passa, estou só...


Olá querido leitor!

Olha eu aqui de novo, a Morgana. Vocês com certeza teriam visto esta parte da minha ida antes se eu tivesse feito backup, mas ao invés disso eu perdi o texto e tive de reescrever tudo outra vez. No capítulo anterior vocês viram um pouco do meu primeiro dia de aula de História do Teatro com o professor Bertrand, então acho justo que desta vez eu vos traga a conhecer outro professor. Um legítimo paulista do interior (e dono das panturrilhas mais maravilhosas que tive o prazer de ver).

Este novo professor era literalmente novo. Roxton Hader… O sobrenome era de origem alemã e tínhamos dificuldade em falar com a pronúncia correta ou precisávamos de uma colinha pra escrever em todo trabalho escrito dele, logo, vocês demorarão pra saber o real sobrenome dele.

O professor mais giro¹ de todos era também o mais chatinho no início. Mas olhando pra trás dá para entender o lado dele. O cara de 31 anos (com doutorado nas costas) sai da sua terra natal do outro lado do país lá no interior de São Paulo e vem parar em Natal, uma terra com uma cultura um bocado diferente da sua, longe de tudo e principalmente da família. Fico imaginando ele se sentindo sozinho, querendo provar a todos e a si mesmo todos os dias que era capaz de estar ali ocupando aquele espaço de professor efetivo em uma universidade federal.

E o que melhor para começar (nesse caso encerrar a semana) com uma turma cheia de calouros. Páginas em branco esperando para serem preenchidas! Provavelmente seria o que o professor Dumbledore dos livros da J. K. Rowling diria.

Os primeiros dias de aula foram o suficiente para colocar um pouco de óleo nas ferrugens do corpo. Chegar ou não todo quebrado em casa não era uma opção. O aquecimento das aulas era simples. Alongamento e uma corrida básica por uns 10 minutos no ritmo que o professor definia ao bater um bastão com ritmicidade no chão. E acreditem, ele batia bem rápido.

Lembro como se fosse hoje da nossa primeira aula. Ele explicou sobre o conceito de jogo a partir da percepção corporal e da “escuta” coletiva segundo Pierre-Aimé Touchard, Yoshi Oida e Augusto Boal. Na altura o Yoshi Oida havia se tornado o meu escritor japonês favorito. Ele dizia que “A arte japonesa tenta eliminar tudo o que não é necessário para a comunicação, esforçando-se para que esta se realize no nível do instinto.” E no fim das contas todo o processo pelo qual passamos naquele primeiro semestre de curso era mais ou menos isso: deixar os vícios corporais de lado e deixar entrar em cena apenas aquilo que era necessário fazendo com que o personagem aparecesse em cena ao invés de nós mesmos.

Bem, aquele primeiro dia de aula foi um bocado exaustivo e se mostrou bem interessante, afinal o nome da disciplina era Jogo e Cena 1. Então, tudo o que tínhamos de fazer era: JOGAR!

Eram três jogos. O primeiro era um sobre ritmo e espaço e tudo o que tínhamos de fazer era nos movimentar “dentro de um platô (prato) invisível” sem deixar espaços vazios, porquê isso faria o platô cair. Nem preciso dizer que os grupos de platô não duraram muito tempo, porquê bastava um lado dos pratos gigantes invisíveis nos quais andávamos em cima ficaram com um lado sem gente e logo ecoava aquela voz do professor Roxton gritanto: “Caiu! Próximo grupo!”

O segundo jogo era em duplas. Algo bem simples, alguém se movimentava, dançava ou fazia careta enquanto o outro é o espelho fazendo exatamente tudo igual era realizado pelo parceiro. Esse foi engraçado, porquê nisso ajudava a quebrar o gelo e acabávamos por fazer amigos no intervalo das aulas. Nosso intervalo durava pouquinho, só 15 minutos e logo estávamos outra vez na sala de aula. Desda vez para o jogo mais destruidor de todos. E não meus amigos leitores, não estou falando de UNO… O jogo era… Pular corda.

Pode parecer besteira dizer que era destruidor, mas era. Porquê alguém que não sabe e não tem ritmo nenhum pra pular corda ter que entrar e sair com ela em movimento, meus amigos… Minhas pernas saíram todas lapeadas dessa aula. No sábado eu estava o que o pessoal daqui de Natal chama de entrevada. Me levantar no dia seguinte parecia algo impossível, mas eu superei. O que eu não sabia era que aquela corda perseguiria a gente por todo o semestre.

Notas finais
¹ Giro, mesmo que lindo em português de Portugal.