Memórias juvenis de um ato de violência
1 Depoimento do acusado
Estranho. Decididamente, Pedro era um garoto estranho. Dane-se o politicamente correto com o seu papo de criança especial. Pedro era um garoto de nove anos esquisito mesmo. Ponto final. Naqueles tempos não era preciso muita coisa para se ganhar a qualidade de estranho e desajustado social. Uma cidade pequena como a nossa não aceita muito bem um garoto com cabelos compridos e gosto por musicas consideradas transgressoras.
Sempre quieto, nunca participava das aulas quando chamado pela professora, apenas respondendo com resmungos ou respostas curtas que sempre lhe rendiam punições com a palmatória. Na hora do recreio era comum vê-lo segurando o lanche com a mão esquerda enquanto vergões vermelhos latejavam na direita. Seus cabelos loiros seriam considerados longos até mesmo para uma menina, sendo um dos motivos mais corriqueiros para as chacotas dos outros meninos. Seus pais eram constantemente chamados pela direção da escola por essas e outras questões de problemas curriculares, mas essas visitas estavam longe de solucionar o problema.
Descobrimos que ele não tinha pai. Sua certidão de nascimento trazia apenas um traço negro no campo que lhe seria correspondente. Sua mãe, mesmo com natureza pacifica e humilde, era motivo de falatório pelo fato de ser aquilo que seria a maior vergonha que uma mulher poderia passar na época. Mãe solteira. Sem marido. Não viúva, não traída. Mãe solteira e sem marido.
Acho que não deveria me alongar em explicações, mas não posso deixar de lembrar o dia que descobrimos onde ele morava. Como sempre, saiamos correndo após o final das aulas para aproveitarmos o restante do dia para brincar. As meninas costumavam ficar na praça ou na sorveteria brincando de casinha com suas bonecas de pano e, tendo uma irmã mais nova, volta e meia eu era obrigado a acompanha-la nessas brincadeiras. Naquele dia eu deveria ter ido brincar com ela, mas ela tinha pegado sarampo na semana anterior e minha mãe me mandou manter distância dela para não correr o risco de pegar também e acabar perdendo aulas.
Mal cheguei em casa e já saí correndo com minha nova bola de capotão embaixo do braço. Junto com alguns colegas de sala, fomos em direção ao campo nos fundos da prefeitura, mas ele já estava sendo usado por alguns garotos mais velhos. Então resolvemos seguir a rua em direção ao riacho que corta a cidade, cruzando o estacionamento da fabrica de tecidos para chegarmos a um descampado na área dos conjuntos habitacionais. Muitos pais proibiam os filhos de irem tão longe do centro da cidade, mas quando se tem nove anos e tempo ocioso demais a maior parte das proibições são simplesmente ignoradas ou esquecidas.
Hoje em dia essa área está ocupada com prédios populares responsáveis pelo crescimento populacional dos últimos anos, mas naqueles tempos haviam apenas algumas casas desconjuntadas com alicerces tortos. Pouco mais de uma dúzia delas divididas entre os dois lados da única rua calçada com paralelepípedos de pedra calcária. O resto era um descampado forrado com ervas daninhas e pequenas fazendas arrendadas. Ouvíamos o som fraco e ritmado do maquinário da fabrica, com seus silvos e apitos constantes que eram meros sussurros trazidos pelo vento. As casas estavam em completo silencio, estávamos totalmente sozinhos. Ou, pelo menos, achávamos isso.
Ouvimos o arrastar de sapatos subindo a rua. Vimos e reconhecemos a longa cabeleira loira parando em frente a uma das primeiras casas da rua próxima ao descampado onde estávamos. Foi atendido por uma velha senhora, que julgamos ser sua avó, e logo entrou em casa, aparentemente sem lhe prestar qualquer cumprimento que seria esperado de uma criança para alguém mais velho. Por algum motivo que nenhum de nós saberia dizer, paramos de jogar e começamos a prestar atenção na humilde casa de madeira com pintura rosa clara rachada e trincada, como se a fachada da casa tivesse diversas cicatrizes.
Nos agrupamos na cerca lateral feita com troncos torcidos e irregulares, oito garotos observando e esperando conseguir mais algum motivo para caçoar daquele menino estranho. Tivemos sorte, pois logo ele abriu uma das janelas laterais da casa e, se nos viu agachados no meio do mato, nos ignorou completamente. Pudemos ver que seu quarto contrastava totalmente com a aparência simplória do lado de fora. Havia um toca discos ao lado de uma grande pilha de LP’s com capas psicodélicas e cores berrantes, alguns livros numa prateleira acima da escrivaninha e uma pequena televisão em frente a cama. E posters. Muitos posters cobrindo as paredes nuas feitas com ripas de madeira de baixa qualidade e empenadas.
Pegou um LP qualquer da pilha e colocou para tocar enquanto fazia suas lições. Os acordes distorcidos feriram nossos ouvidos desacostumados com esse tipo de musica. Enquanto os outros garotos cochichavam entre si, a musica me enchia de inveja. Meus pais, ambos bons trabalhadores, gastavam suas economias para manter a casa com uma aparência agradável e compatível com o restante do bairro em detrimento de comodidades e luxos para encher seu interior. Enquanto isso, uma mãe solteira, mesmo que ajudada pelos pais, mantinha uma casa com aparência externa deplorável nesse lugar ermo, mas com posses que nem poderia sonhar. Isso não me parecia certo. Camuflei minha inveja com a certeza que algo de errado e desonesto era a resposta para isso.
Eu era apenas um garoto e não em orgulho desse pensamento idiota que me ocorreu. Mas isso me leva aos acontecimentos que me fizeram vir aqui hoje para prestar depoimento, mesmo passado tantos anos e que ninguém realmente acredite na real natureza dos fatos.
Continuamos comentando sobre o que vimos durante mais algumas semanas até que, tal qual uma histeria coletiva, sentimos necessidade de puni-lo. Seu silencio e isolamento não nos parecia mais simples timidez, mas sim soberba e prepotência. Naquela manhã, o Fernando disse que estava com um dos canivetes do seu pai, então achamos que seria a ocasião perfeita para lhe pregarmos um susto.
Depois da aula, conseguimos arrasta-lo para o pátio dos fundos da escola. Uma faixa estreita de cimento cercado por mato alto nos pareceu o lugar ideal. Ele não mostrou nenhuma resistência nem tentou escapar enquanto o empurrávamos e puxávamos seus cabelos. Estávamos em cinco, pois os outros três haviam se acovardado e ido embora mais cedo. Entre eles estava seu pai, oficial Gomes. E nem adianta olhar para mim assim. Pergunte para ele como ele se livrou de tudo isso. Talvez pudesse ser ele aqui no meu lugar.
Nenhum de nos tínhamos feito tal coisa antes então não sabíamos o que esperar, mas queríamos que ele sentisse medo. Nem mesmo a visão da lamina da faca ― aquilo era maior que qualquer canivete que vi na minha vida ― pulando de sua bainha ao toque de um botão pareceu impressiona-lo.
Eu já estava pronto para me desculpar e ir embora quando Fernando, que até agora estava tremendo ao segurar a faca, resolveu usa-la. Não tínhamos combinado nada disso, então ficamos sem reação ao vê-lo avançar e aplicar um golpe contra Pedro. Logo o sangue começou a descer pelo corte aberto em sua bochecha e pingar no pavimento rachado. Todos estavámos apavorados com aquilo, afinal não éramos tão corajosos quanto queríamos ser. Fernando soltou a faca, que se fechou com a queda, e já estava implorando para Pedro não nos dedurar, quando percebi que algo estava terrivelmente errado.
Finalmente conseguimos fazer Pedro esboçar alguma reação. Estava rindo como nunca se viu, apesar dos olhos continuarem gélidos como sempre. Passado o choque inicial começamos a ouvir passos se aproximando pelo caminho junto a lateral da escola. Pensei que pudesse ser um professor ou o zelador, mas antes que pudesse avisar a todos para fugirmos senti o ar se esquentar subitamente. Vi que todos meus amigos sentiam o mesmo, grossas gotas de suor escorrendo pelos rostos de todos. O calor parecia aumentar à medida que os passos se aproximavam e tive a certeza que o ambiente ficaria insuportável assim que víssemos o autor daqueles passos. Pedro continuava rindo, impassível a tudo, e começou a andar em direção ao caminho lateral. Fiquei alarmado que ele encontrasse a fonte de todo aquele calor e gritei para que voltasse, mas fui completamente ignorado.
Finalmente o dono dos passos alcançou o canto e foi de encontro ao Pedro. Assim que o estranho se tornou visível o calor ficou insuportável, mas nenhum de nos conseguíamos fugir de lá. Lutando contra meu medo, reuni todas as minhas forças para encarar o estranho e, apesar de achar que tinha esquecido ele durante esses anos, agora sei que é uma grossa mentira. Um homem alto com cabelos loiros escorridos na altura dos ombros. Isso já me bastava para determinar que ele era o pai desconhecido do Pedro. O traço negro tomou forma e vestia um terno esporte cinza chumbo. Era como ver o futuro do Pedro encarando seu passado. A única diferença significativa eram seus olhos: enquanto os de Pedro continuavam como sempre, os do adulto recém-chegado brilhavam e emanavam um brilho alaranjado.
Minhas observações foram feitas durante pouco mais de quarenta segundos que me pareceram horas, mas o desfecho desse fatídico encontro passou rápido demais para que pudesse entender tudo que aconteceu.
Pedro sussurrou no ouvido do pai. Ele acenava com a cabeça, concordando com o que estava ouvindo. Depois de receber as instruções o homem alto nos olhou com uma expressão de surpresa, como se só agora tomasse conhecimento da presença daqueles garotos estarrecidos de medo, e contentamento. Ele gostou do pedido do filho e estava realmente disposto a executa-lo.
O primeiro foi o Fernando. A faca fechada ainda estava caída aos seus pés, ao lado de uma poça de xixi cada vez maior. Tinha perdido o controle sobre sua bexiga, o xixi molhava a frente do seu short e escorria por sua perna, mas ele não esboçava a melhor reação de nojo ou constrangimento. Mantinha os olhos fixos no estranho que se aproximava a passos lentos, mas vigorosos. Bastou que colocasse a mão sobre a cabeça do Fernando para que tudo acontecesse. Foi como se todo seu corpo tivesse entrado em combustão instantaneamente. Mas esse instante se estendeu como se transformasse em horas e pude ver cada detalhe daquela barbárie.
Num instante, seus cabelos estralaram e se incendiaram, como quando colocamos fogo em uma palha de aço. O fogo lambeu suas faces e seus olhos estouraram. No meio daquele pátio eu só conseguia sentir o cheiro adocicado da sua carne queimando e ouvir o som da pele estourando e craqueando, como se fosse uma porção de pururuca feita pela minha mãe. Pedaços de pele negra e gordura começaram a cair no chão e, logo, Fernando nada mais era do que uma bola de fogo encolhida no chão, incapaz de gritar ou esboçar qualquer reação. Qualquer pessoa com acesso a internet sabe que uma pessoa que esteja pegando fogo morre rapidamente, caso não seja feito nada para extinguir o incêndio, mas tenho certeza que, tanto o Fernando como meus outros amigos, estavam vivos e conscientes até não serem nada mais que pilhas de cinzas espalhadas pelo chão.
Não tive tempo de ficar triste por eles, pois sabia que aquele também seria o meu destino. Por algum motivo fui deixado por ultimo, mas sabia que não escaparia daquilo. Mas, estando eu diante dos senhores aqui hoje, é claro que consegui escapar daquilo de alguma forma. Nunca soube o motivo de ter minha vida poupada naquele dia. Pelo menos não até o inicio desse ano.
Lá estava eu, apenas um garoto de nove anos que acabara de ver seus amigos mais íntimos serem reduzidos a cinzas por uma espécie de demônio. Não me evacuei todo como Fernando havia feito só por não ter comido nada naquele dia. A figura de terno se aproximou de mim da mesma forma que fez com os outros, lentamente e emanando um calor e cheiro de enxofre insuportáveis. Consegui ver com o canto de olho que Pedro chutava as cinzas e as espalhava pelo chão, como uma criança que está realmente entediada. O ar estava pesado, sem a menor brisa, então as cinzas não iam muito longe.
Ele se colocou na minha frente. Se me perguntarem, diria que agora podia ver sua verdadeira face, mas acho que não passava de uma alucinação causada pelo medo. Chifres negros, como galhos secos, despontavam da sua franja loira. Olhos sem pupila ou íris, apenas buracos fundos com chamas queimando incessantes me encarando. As costuras do terno deixavam escapar um brilho alaranjado como se seja lá o que for que estivesse confinado naquele corpo lutasse para sair. Já podia sentir sua mão ossuda e com unhas longas como garras formar uma sombra sobre meu rosto quando Pedro veio correndo e pediu que seu pai se abaixasse para poder sussurrar novamente em seu ouvido. Parecia extremamente alegre, como nunca vi antes, contando algo realmente divertido ao pai, totalmente alheios ao meu sofrimento encarando aquela sombra que me cobria os olhos.
Ele se levantou novamente. Parecia satisfeito com o que tinha ouvido e, fosse o que fosse, parecia ser uma ideia melhor que a minha morte imediata. Eles ainda acertavam mais alguns detalhes, mas Pedro parecia radiante com a certeza que conseguiria exatamente o que queria. Isso, senhores, era um maldito garoto de nove anos comandando um demônio. Após se despedir, seu pai sumiu numa bola de fogo, mas Pedro não assumiu seu semblante de sempre. Estava alegre quando me disse “nos vemos por aí” e me deu um soco na cara. Não doeu, em situações normais eu acabaria com ele, mas senti como se todos os ossos do meu rosto tivessem se quebrado e caí apagado no chão. Estava sozinho.
Acordei em um leito de hospital. Tinha curativos no rosto e outras escoriações pelo corpo, mas nada que coincidisse com o que eu tinha sofrido. A única coisa que me alarmava era minha perna. Elevada, enfaixada e com pelo menos doze pinos, mais tarde descobriria que eram quinzes, dispostos aleatoriamente em espiral indicavam que algo a mais havia me acontecido além dos acontecimentos no pátio atrás da escola. As perguntas dos policiais, mesmo que fossem esquivos em responder as minhas próprias perguntas, serviram para afirmar que algo que desconhecia realmente havia acontecido. Para vocês, homens de farda, não houve a tocaia de cinco estudantes contra um garoto estranho nem tampouco os montes de cinzas sendo chutados por um garoto entediado enquanto assistia seu pai demônio executando seus carrascos. As perguntas eram direcionadas a algo mais simples e muito mais banal.
Perguntavam como eu e meus amigos podíamos ter sido tão inconsequentes e desobedientes ao ponto de resolvermos brincar numa área condenada e de acesso restrito. Disse a eles que não fazia ideia do que eles estavam falando, que lembrava apenas de seguir em direção aos conjuntos habitacionais para jogarmos bola. Mesmo essa resposta vaga pareceu satisfazê-los, pois aquele interrogatório era mera formalidade. Tudo não passava de uma fatalidade ocorrida pela inconsequência de cinco garotos que desobedeceram aos pais. Não me deram mais detalhes, se limitaram a dizem que eu tinha muita sorte por estar vivo.
Por anos, eu realmente acreditei nisso. Tudo que soube sobre meus amigos se resume a uma manchete de um jornal esquecido pelas enfermeiras no meu quarto. Tragédia causa morte de quatro crianças. Vitimas se afogaram enquanto brincavam na margem do córrego próximo a tecelegam. Não quis ler mais do que isso, nem ao menos sei se a matéria se referia a mim também. Naquela época os jornalistas ainda tinham um pouco de ética e talvez tenham poupado o sobrevivente de ter sua vida exposta.
A vida seguiu. As poucas vezes que tentei falar para alguém sobre o que realmente tinha acontecido recebi apenas o silêncio e olhar de reprovação e descredito como respostas. Exatamente como vocês estão me olhando agora. Sei que é difícil acreditar. Depois de um tempo, eu mesmo deixei de acreditar nas palavras que saiam da minha boca e admiti que o que todas as pessoas diziam era a verdade. Nos cinco fomos irresponsáveis e pagamos pelos nossos erros. Eu teria ficado louco pela dor da perda e o sentimento de culpa. Naquela época ninguém ia para terapeutas ou psicólogos, seria admitir que havia algo errado e meus pais, para manter as aparências de uma família perfeita, nunca me levariam a tal lugar. Eu não os culpo, pelo menos não mais. Sei que tudo isso está muito acima das capacidades de qualquer pessoa que cobraria os olhos da cara só para falar que eu tinha um problema.
Tentei evitar ao máximo me aproximar do Pedro novamente, apesar dele não aparentar se lembrar do ocorrido nas vezes que fomos obrigados a fazer trabalhos escolares juntos. Ele sumiu pouco tempo depois, junto com toda sua família e logo sua antiga casa estava num estado deplorável, como se não fosse habitada a vários anos.
Os anos se passaram e me tornei motorista de entregas da tecelagem. Tudo mudou nesses últimos anos. O pátio nos fundos da escola foi demolido e transformado no estacionamento do novo centro comercial. O córrego onde meus amigos caíram foi canalizado e uma rua residencial passa sobre ele. Com certeza isso não importa para os senhores, mas sempre evitei esses locais. Acho que inconscientemente eu parava o carro na rua lateral e andava para fazer minhas compras e dava a volta na avenida principal para chegar na empresa, mesmo que isso me custasse até dez minutos a mais.
Sei que os senhores já estão ficando impacientes, sem razão nenhuma, mas garanto que isso é importante para elucidar os fatos do dia em questão. Estava chovendo e, por algum motivo resolvi cortar caminho pela rua que sempre evitava por algo que nem ao menos lembrava. Parte de mim negava os acontecimentos daquele verão. Ao menos, os que me falavam que não tinham acontecido. Descia a rua com os limpadores no máximo quando, tenho certeza de estar passando no local exato do antigo córrego, fui acometido por uma visão daquilo que os policiais se negaram a dizer em meu leito de hospital. Só tive tempo de estacionar o caminhão antes que minha visão ficasse turva com a verdade.
A cerca branca quebrada. Minhas mãos espalmadas empurram o Fernando, que cambaleia de costas até que seus pés encontram o vazio da queda. Seu corpo descreve uma parábola e nossos olhares se encontram. O dele cheio de pânico e incompreensão enquanto no meu apenas uma expressão desinteressada. O choque do seu corpo contra as pedras ecoa pelo terreno baldio e logo ele se junta aos restos mortais dos meus companheiros. Pernas e braços quebrados formando ângulos impossíveis. Antônio havia caído com o rosto dentro do córrego e percebi que ainda soltava pequenas bolhas de ar na agua barrenta. Podia tê-lo deixado morrer afogado ou até mesmo tentado socorre-lo, mas assim que comecei a descer a encosta já sabia que não faria nenhuma das duas opções. Encontrei uma pedra de bom tamanho, quase pesada demais para que pudesse levanta-lá. Me posicionei na encosta, um pouco acima do corpo de Antônio, aparentemente já tinha se afogado, e soltei a pedra assim que a levantei o máximo que pude. Passou rente ao meu rosto, ao ponto de arranha-lo e caiu sobre seu alvo com um estrondo abafado. Logo o sangue começou a escorrer pelo couro cabeludo aberto e seus olhos saltaram das orbitas pela pressão da pedra esmagando o crânio, mas não fiquei tempo suficiente para ver nada disso. Comecei a subir a encosta, mas não com o mesmo cuidado que tive ao descer. Bastou um passo em falso para que perdesse o equilíbrio e caísse.
Os ferimentos no rosto e minha perna quebrada são resultados dessa queda. Antes de desmaiar, consegui ver Pedro e seu pai na beirada do barranco verificando se tudo tinha saído como planejaram. Logo foram embora e me deixaram lá para ser encontrado horas depois. Como vitima de uma brincadeira inconsequente, não como causador de tudo aquilo.
Os senhores devem imaginar o que eu fiz depois que eu recobrei a consciência e encontrei os dois do outro lado da rua. Mesmo passados tantos anos, continuavam com a mesma aparência. Pedro ainda era uma criança de nove anos com cabelos compridos e seu pai continuava com o terno cinzento com as costuras deixando vazar o brilho maléfico que emanava dele. Continuavam do mesmo jeito enquanto o tempo havia me trazido a ruina, cobrado seus direitos sobre meu corpo e tomado minha juventude. Estavam rindo, com certeza vendo que seus planos para mim continuavam funcionando. Desde aquele dia fui o bichinho de estimação deles e a volta das lembranças, primeiro do pátio no fundo da escola depois do acontecido no córrego, servia para me lembrarem disso. E isso continuaria enquanto eles quisessem, continuariam parados no tempo me observando definhar tentando pagar uma divida que nunca seria totalmente paga.
Não foi preciso que ninguém me falasse sobre isso. Me bastou a visão dos dois naquela esquina, parados sem se importar com a chuva como se fossem apenas dois pedestres esperando para atravessar a rua. Tenho pleno conhecimento dos meus pecados, mas aqueles dois, senhores oficiais da lei, eram os verdadeiros culpados e pecadores. Contra tudo que nos é natural e moral. Já estava fazendo o que fiz, antes mesmo de raciocinar a respeito. Compreendam que aqueles dois foram responsáveis pela minha ruina, sempre vigiando e garantindo que fracassaria em qualquer aspecto da minha vida.
Arranquei com o caminhão bruscamente e cruzei a avenida. As buzinas nervosas dos outros carros chegavam a mim como se vindas de muito longe, em outra dimensão. Agora estava no campo deles e resolveria a questão do único jeito que entenderiam. Estava incrivelmente rápido quando as rodas do caminhão acertaram a guia e subiram na calçada. Dessa vez não tiveram como fugir ou me manipular. Mesmo um caminhão leve daria conta de fazer um belo estrago naqueles dois. E eu fiz tudo direitinho. Como que por milagre o Pedro, aquele filho de demônio, não morreu na hora. Talvez tenha conseguido se esquivar no ultimo momento, mas mesmo assim tinha a lateral do corpo encharcada de sangue e deixava um rastro vermelho pela calçada enquanto se arrastava. Peguei uma chave de roda do jogo de ferramentas do caminhão e saí da cabine, assim como quando era apenas um garoto na beira do córrego, certo do que deveria fazer.
O caminhão não sofreu grandes danos. Apenas um pequeno ralado e o espelho retrovisor quebrado pelo poste na calçada e o parachoque arrebentado onde o corpo do pai-demônio ficou preso. Estava morto sem duvida, pedaços de seu crânio e cérebro estavam espalhados pelo chão, mas confesso aos senhores que tive a impressão que seu terno cinzento havia se transformado num vestido florido e sua concepção física me pareceu bem mais frágil do que me lembrava. Nem entro na questão da morte dele não ter sido tão impressionante quanto eu imaginaria. Mas não tinha tempo de me preocupar com isso, dessa vez haviam testemunhas e sabia que logo seria incomodado por alguém. Não que restasse muito a ser feito. Pedro mal tinha alcançado a esquina quando me pus acima dele e comecei a aplicar os golpes com a chave de roda. Ao menos uma dúzia e todos certeiros, pouco acima da nuca. Já ouvia as sirenes se aproximando, numa cidade pequena como a nossa até os lugares mais distantes são perto uns dos outros, mas antes que chegassem arranquei um tufo de cabelos da sua cabeça recém aberta por mim.
Sei que os senhores não acreditariam nas minhas palavras e essa seria a prova de quem ele realmente era. Um demônio loiro que garantiu que sua loucura me dominasse. Mesmo que me digam que esses cabelos são castanhos, eu sei o que vejo. Não são de uma menina, muito menos são castanhos. Mesmo sujos de sangue e com aparência asquerosa ainda são os cabelos loiros que eram motivo de chacota entre todos. Os cabelos daquele que teve minha vida nas mãos durante todo esse tempo, mas já a recuperei.
É só isso que tenho a dizer.
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