Era um dia frio, ao entardecer. Eu estava andando pela cidade, observando as árvores, o céu e as pessoas ao redor daquele local. Em meio às pessoas que estavam ali, algo me chamou atenção. Era um senhor, provavelmente um idoso pelo pouco que se notava de sua aparência. Ele usava um casaco escuro, óculos e um chapéu discreto, apenas lá sentado, observando as outras pessoas, assim como eu, mas com uma postura triste.

Eu nunca fui um cara que gostava de se enturmar nem conversar com as pessoas, mas resolvi sentar ao lado daquele homem, para tentar entender o porquê de ele estar ali. Sentei ao lado dele, e fiquei por algum tempo ali esperando que ele começasse a conversar, alguns minutos se foram, e o homem nada disse. Eu já estava inquieto, então quebrei aquele silêncio e logo perguntei o que ele estava fazendo ali, e porque estava daquele jeito, cabisbaixo e pensativo.

Logo ele começou a falar. E não só falar, ele simplesmente começou a contar sua vida de forma ininterrupta, ali pra mim, um simples jovem desconhecido.

Contou como o mundo era triste, como as pessoas o decepcionaram e como ele decepcionou as pessoas. Contou como chegara ali, como chegara aquele momento, aquela idade e aquele dia. Contou como sua vida foi frustrante, como foi tratado e como tratou as pessoas. Contou como errou e se arrependeu, e também como aprendeu a aceitar os erros e os arrependimentos. Contou como perdeu suas crenças, fé e esperanças. Contou como a humanidade era burra e ignorante, sempre tentando construir seu futuro em sua base de um passado corrompido. Disse que nunca havia sentido nada por ninguém, e que nunca aprendeu a amar. Disse que quanto mais tentava se aproximar das pessoas, mais as machucava e mais teria que se afastar. Contou o quanto foi descriminado por suas opções, crenças ou descrenças como preferia dizer, e pelo seu modo de pensar. Disse que se sentira mal por toda a vida, por nunca ter sido aceito, que se sentira mal por nunca ninguém ter se importado com ele, e por ele nunca ter se importado consigo mesmo.

Neste ponto comecei a achar estranho, comecei a sentir que conhecia aquilo, mas deixei de pensar nisso e continuei a ouvir o que o homem dizia.

E continuou, a contar seus gostos, musicais, gastronômicos, artísticos e científicos. Disse que preferiu viver sua vida sozinho, que para ele isto era mais confortante do que ver todos à sua volta sofrer.

Por um momento ele parou de falar, olhou para baixo e respirou profundamente. O silêncio tomou conta do ambiente por um momento, mas ele o quebrou novamente.

Disse que vivera sua vida em vão. Contou que ele passou a vida adquirindo conhecimento, mais do que qualquer um poderia ter, na esperança de um dia poder ajudar, e poder passar seu conhecimento adiante. Disse que falhara. Disse que toda sua vida, naquele momento, não fez e nem fazia sentido. Disse que em toda sua vida, pensou que nunca havia sido feliz, mas que percebeu, que na verdade a felicidade estava nos pequenos momentos, os quais ele sempre ignorou. Disse que desejara ter estes momentos de volta uma última vez.

Olhou novamente para baixo, e uma lágrima escorreu por baixo dos óculos velhos.

Novamente um breve silêncio que não demorou a ser interrompido por ele. Olhou pra mim e pediu desculpas por ter falado tudo aquilo, e disse que tudo o que falou, nunca havia falado para ninguém.

Disse que precisava ir, pois já era hora de partir. Levantou-se do banco e me deu dois conselhos que havia aprendido em sua juventude em programas que costumava assistir e que acabou tomando para si próprio.

- Nesta vida garoto, é viver junto e morrer sozinho. Você pode rir para sempre, mas nunca terminará feliz.

Virou-se, e enquanto andava disse adeus. Nunca mais o vi.

Mais tarde naquela noite, comecei a pensar em tudo o que o homem havia dito, e por um momento começou a fazer sentido. Lembrei-me de sua face, quando olhou pra mim e percebi…

…que aquele homem…

...era apenas eu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.