Memórias de um Imortal
5 Capítulo V
Durante as horas que se seguiram permaneci sentado na cama, tentando assimilar tudo o que aconteceu. Assalto, ferimento à bala, hospital, cirurgia, regeneração… Imortalidade.
Tudo ao mesmo tempo e eu não sabia o que fazer, até que olhei no relógio, era hora de ir trabalhar.
Foi quando tive minha primeira ideia.
Tomei um banho, escovei os dentes e coloquei uma roupa limpa. Peguei o cartão do ônibus, única coisa que não haviam me roubado, e segui para o ponto de ônibus.
Quando cheguei perto, parei no caminho e fiquei observando o ponto de longe, com um certo receio já que, por duas vezes, havia sido assaltado enquanto esperava o ônibus.
Não importa que você seja imortal, estar na mira de uma arma não é algo agradável.
Respirei fundo e segui para lá. Desta vez nada de mal aconteceu e consegui pegar o ônibus, lotado, como sempre.
Desci no ponto, que fica em frente ao supermercado e entrei pela porta da frente.
Ao me ver, o gerente veio em minha direção, bufando como um touro.
— Você não cansa de fazer merda, não é? — me disse, com os olhos esbugalhados, em um tom extremamente hostil. — Primeiro quebra mercadorias dos clientes e agora simplesmente falta ao serviço sem dar satisfações? É bom que tenha trazido um atestado ou eu vou enfiar tão fundo o meu pé no seu rabo que você nunca mais vai sentar, seu merdinha.
Os funcionários que viam a cena seguravam o riso e eu podia ver o movimento labial, enquanto diziam: “se fudeu”.
Abaixei os olhos em um movimento natural de submissão, minhas mãos tremiam pela raiva da humilhação.
Sem responder, desviei do gerente e caminhei em linha reta. Ele pareceu não entender.
— Onde você pensa que vai? Eu estou falando, então fique aqui até terminar de levar a mijada.
“Levar uma mijada” é um termo que usamos quando levamos uma bronca e agradeço por ele ter dito aquelas palavras, pois não precisei pensar muito para saber o que eu tinha que fazer.
Entrei na sala do gerente, tendo o cuidado de deixar a porta aberta, então subi de pé em cima da mesa dele.
Todos os funcionários mudaram suas expressões para a de surpresos e alguns se espremiam para enxergar o que estava acontecendo.
— HEI! HEI! QUE MERDA TÁ FAZENDO? — perguntou o gerente, enquanto corria até a sala atrás de mim.
Então calmamente abri o zíper da calça e agradeci por não ter ido ao banheiro ainda, naquela manhã.
Quando o gerente alcançou a porta da sala, comecei a urinar de cima da mesa nos documentos, cadernos de anotações, tapete e até no casaco do gerente, que estava pendurado em sua cadeira.
Ele não acreditou no que viu e o susto o deixou sem palavras.
Torci para que ele se aproximasse mais, aí teria uma desculpa para mijar na cara dele também, mas não aconteceu.
Terminei o serviço, fechei o zíper e desci da mesa, encarando-o enquanto passava pela porta.
— SEGURANÇA! — ele gritou e em seguida eles estavam em cima de mim, cada um me segurando por um braço.
— Ah não, isso não vai ficar assim. Você vai pagar pelo estrago.
— Pode deduzir do meu salário. — respondi, ironicamente. Era bem óbvio que eu já não teria mais emprego depois daquilo. — Alias, pode pegar o meu salário e esse emprego e enfiar no meio da sua bunda.
— TIREM ESSE MERDA DA MINHA FRENTE! — esbravejou o gerente, com uma veia saltando na testa.
Os dois seguranças me escoltaram e claramente estavam tentando segurar o riso.
Um deles se abaixou, com a boca próxima ao meu ouvido e sussurrou:
— Essa foi muito boa!
Acho que ninguém gostava muito daquele cara mesmo. Eles me levaram até a rua, sem violência e me despedi daquele lugar maldito. mas o que eu faria em seguida? Se eu era imortal eu precisaria comer? Pois sem emprego eu não teria como comprar nada.
Decidi fazer o teste.
Retornei para casa e a dona Camélia aceitou que eu cuidasse novamente de seu pátio.
O valor era pouco, mas agora eu só precisava pagar algumas contas.
Foi quando decidi colocar à prova minha imortalidade.
Iria ficar sem comer ou beber o máximo de tempo que eu conseguisse, pois tudo indicava que eu não fosse mais precisar fazer nada disso, afinal eu não podia morrer e o cubo disse que eu manteria a mesma forma que tinha no momento em que fizesse o contrato.
Terminei meus afazeres e fiquei um pouco mais, contra a minha vontade, ouvindo as intermináveis histórias da dona Camélia, sentado em uma cadeira de balanço, quando vi um sujeito suspeito rondando a casa.
Eu conhecia ele de vista e sabia que não era confiável. Pela expressão no rosto, alguma coisa ele estava armando.
Ele já foi pego algumas vezes roubando e não acharia estranho que tenha sido ele o cara encapuzado que me assaltou da primeira vez.
Tive um certo medo, mas nessas horas eu repetia para mim: “Eu sou imortal, eu sou imortal, eu sou imortal…”
É instinto natural do ser humano temer aquilo que coloca em risco sua vida, mas não havia nada no mundo que pudesse me matar. Em outras palavras, eu não precisava temer mais nada.
De qualquer forma era mais fácil falar do que fazer. Como eu disse, o instinto…
Assim que o sujeito se afastou eu decidi ir para casa, basicamente saindo pelo portão da dona Camélia, dando cinco passos e então passando pelo meu portão, afinal éramos vizinhos.
Continuei com meu teste e não comi nem bebi nada o restante do dia e, pasmem, não senti fome alguma e muito menos sede.
Deitei na cama, olhando para o teto novamente, colocando os pensamentos em ordem.
Como parte do teste, decidi que também não iria mais dormir, o que pareceu extremamente fácil, pois eu não me sentia cansado mesmo depois de trabalhar duro no pátio da dona Camélia.
As horas passaram enquanto eu ficava imóvel, alheio ao tempo, apenas aguardando.
O dia seguinte logo chegou, Julia estaria ali dentro de algumas horas.
Arrumei a casa, fiz compras no mercado com os trocados que ganhei com meu trabalho no pátio da vizinha e então fiz o almoço.
Eu não poderia dizer à ela que não iria comer ou que já havia comido antes dela chegar, seria chato da minha parte, então decidi que iria adiar o teste por aquele dia. Promessas nunca foram o meu forte mesmo.
Ainda estava terminando de cozinhar quando ouvi as batidas na porta e então fui de encontro à ela.
Ao abrir, a primeira coisa que senti foi seu perfume, então vi seus olhos brilhantes e aquele sorriso encantador. Ela deixou o cabelo crescer até um pouco abaixo da altura dos ombros, estava linda.
Terminamos de cozinhar juntos e então jogamos conversa fora, enquanto almoçávamos.
A comida não ficou lá essas coisas, mas nada que fosse nos matar. Felizmente ela trouxe a sobremesa e foi o que nos salvou.
Conversamos por mais um tempo e então fomos para o quarto. Foi quando descobri mais uma vantagem de ser imortal: meu fôlego parecia não acabar mais.
Depois ficamos deitados, para que ela pudesse descansar um pouco e aproveitamos para falar sobre o futuro.
Foi quando me toquei: o futuro? O que seria do meu futuro?
Olhei para ela e pensei comigo como eu poderia fazer aquilo dar certo, sendo que ela envelheceria e morreria, mas eu não.
Ela se levantou e começou a vestir-se, enquanto eu fiquei apenas admirando suas curvas. Decidi então deixar para o futuro a preocupação sobre o futuro, não havia motivos para me preocupar com algo que estava ainda tão longe de acontecer.
Ela caminhou pelo quarto ainda sem ter se vestido completamente e aproximou-se de uma cadeira, onde estava pendurado o meu casaco.
— O que é isso? — ela perguntou assustada, enquanto segurava meu casaco, atravessando seu dedo por um buraco que havia nele. — Porque seu casaco está furado?
— Ah, isso? — claro, os tiros, eu não contei à ela sobre isso. Também, como eu poderia? Não tinha como eu simplesmente dizer que fui baleado e agora estou regenerado dois dias depois. Ninguém acreditaria nisso. — Quando me assaltaram, um dos caras atirou na minha direção, mas por sorte pegou só no casaco.
— E quando é que você ia me contar isso? Você podia ter morrido.
— Eu não queria preocupar você.
Ela saltou em minha direção e me abraçou com força.
Eu precisava contar à ela, mas como eu faria isso?
Pensei em cortar fora um dedo ou atravessar minha mão com uma faca, mas o tempo de cura é demorado, até que terminasse de me regenerar ela ia me achar um maluco. Sem falar que ainda não testei minha imortalidade por completo. E se eu amputasse um dedo e ficasse assim para sempre? Eu poderia confiar no que aquele cubo disse?
Decidi deixar as coisas como estavam, por enquanto.
Obviamente também não contei à ela que fui demitido, preferi apenas aproveitar o dia em sua companhia.
Fomos ao parque, comemos algodão doce, empurrei ela em um balanço e, no final do dia, acabamos tendo que ouvir algumas histórias da dona Camélia.
Foi um dia tranquilo.
Ao voltar do ponto de ônibus, onde a Julia pegou sua condução, senti medo novamente por caminhar por aquelas ruas, sozinho. Um medo irracional e muito confuso.
Em casa, caminhei até o banheiro e encarei meu rosto no espelho, como se esperasse alguma resposta do meu reflexo.
Pensar sobre o futuro me fez perceber que eu deveria utilizar minha imortalidade de alguma forma. Devia ter alguma forma de ganhar dinheiro com isso, eu queria dar uma vida boa para a Julia e, naquele momento, eu não tinha nada a oferecer.
Coloquei a mão no espelho e foi quando percebi algo.
O curativo daquela estocada que dei em minha própria mão ainda estava lá
Retirei o curativo e a ferida continuava da mesma forma.
Continuava aberta, mas não sangrava nem doía.
Fui um estúpido ao tentar aquilo tão cedo. O cubo provavelmente estava “carregando” ou algo assim, como um software de computador que demora para abrir.
Acho que terei de conviver com isso para o resto da eternidade, mas ora bolas, é um preço pequeno a se pagar pela vida eterna.
Por hora, meu objetivo era encontrar a forma mais efetiva de usar minha imortalidade ao meu favor.
Novamente não dormi naquela noite, eu tinha um enigma à solucionar.
Algumas ideias brotaram em minha cabeça naquela semana que se seguia, afinal, eu tive bastante tempo livre, agora desempregado.
Cedo pela manhã decidi fazer mais um teste. Coloquei uma roupa leve e fiz um cooper pela cidade.
Após dez minutos achei que deveria aumentar o grau de dificuldade e então comecei a correr.
Mais dez minutos mantendo a velocidade e sequer fiquei ofegante, era a hora de testar meus limites. Corri ao máximo da velocidade que consegui, como se o próprio diabo estivesse atrás de mim e assim continuei por cerca de quarenta minutos, quando cheguei em uma academia de boxe, onde era meu objetivo.
Nenhuma gota de suor. Meu fôlego, aparentemente, era infinito e acho que eu poderia correr para sempre sem nunca cansar.
Me senti como um super herói.
Entrei no local e procurei o professor, pronto para fazer um desafio.
Logo na entrada ouvia os sons dos golpes que davam nos sacos de pancada, mas um especial parecia especialmente alto. Um cara enorme e muito forte castigava um dos sacos de pancada, que era erguido alto com os golpes.
Foi uma cena assustadora, mas eu repetia para mim: “Eu sou imortal, eu sou imortal, eu sou imortal…”
Daria minhas últimas economias, que levei comigo, para aquele que conseguisse me nocautear no ringue.
Quando propus o acordo com o professor, o cara enorme, que fazia o saco de pancadas voar pelos ares, parou de bater e veio em nossa direção.
— Eu ouvi bem? — disse o gigante. — Vai dar dinheiro para quem conseguir te nocautear no ringue?
— Isso mesmo! — respondi, tentando parecer calmo, mas engolindo seco.
— Tem de ser da mesma categoria sua?
— Não, pode ser você mesmo. — tentando mostrar um ar de superioridade.
— Ótimo! — ele sorriu. — Pega umas luvas e se prepara. Grana fácil.
Era uma academia fundo de quintal e a escolhi propositalmente, pois uma academia séria jamais aceitaria um desafio desses, poderia receber uma multa, processo ou sei lá o que.
Me emprestaram um par de luvas e subi no ringue.
Tinha uma leve noção de boxe, pois já tinha praticado por alguns meses no passado, mas nunca havia entrado em uma luta de verdade.
O professor também entrou no ringue, seria o juíz.
Eu e meu desafiante nos aproximamos do centro, enquanto o professor explicava as regras padrão.
Sabe aquela sensação que você teve a primeira vez que foi em uma montanha russa e o carrinho se aproximava da primeira descida? Lembra do arrependimento que sentiu? Foi basicamente o mesmo para mim, naquela situação.
Quando ficamos cara a cara, percebi o quão grande era aquele cara. O braço dele devia ter quase a largura do meu tórax.
Explicadas as regras, fomos para nossos devidos corners e o gongo soou, sinalizando o início da luta.
Avancei rápido para o centro do ringue, na intenção de evitar ser pego nas cordas ou no corner, mas ele também avançou rápido.
Ele mediu a distância com um jab de esquerda, que atingiu minha guarda.
Quando me atingiu, senti aquele simples jab como se tivesse recebido uma pedrada, foi então que veio o direto de direita.
Me fechei em minha guarda, esperando o impacto e foi como ser atropelado por um carro.
Cambaleei para trás, atordoado apesar de ter defendido o soco, e ele continuou indo para cima de mim.
Atingiu minha guarda novamente com a esquerda e então, com a mesma mão, golpeou meu fígado, fazendo com que eu me curvasse para o lado, devido à dor.
Quando me curvei, acabei abaixando a guarda e então a direita veio novamente, dessa vez me acertando em cheio na têmpora e apaguei.
Um soco daqueles apagaria uma pessoa normal por algumas horas, talvez um dia inteiro, mas sendo imortal, acordei dois minutos depois. Tempo suficiente para eu ter perdido a luta.
Percebi que aquele não era o caminho, então saí de lá sem o dinheiro de minhas economias, ridicularizado, com um inchaço no lado esquerdo do rosto e sem ideias para ganhar dinheiro.
Não adiantava eu tentar lutar apenas por ser imortal, mesmo que não fosse nocauteado, eu seria um saco de pancadas ambulante e acabaria perdendo por pontos.
Decaí de super herói à fracasso total em poucos minutos, então percorri o caminho de volta para casa, desta vez caminhando, enquanto pensava no que fazer.
O caminho era longo e já era de tarde quando cheguei em casa.
O inchaço no rosto praticamente já havia sumido.
Avistei a dona Camélia, sentada em sua cadeira de balanço no pátio, então me abaixei e caminhei sem fazer barulho até meu portão, tentando não ser notado. Não queria ter de ouvir novamente suas histórias.
Foi quando percebi um sujeito que estava escorado em sua grade e olhava para ela o tempo todo, com cara de poucos amigos. O mesmo sujeito do outro dia.
Decidi parar em meu portão e o encarei, até que ele percebeu minha presença e decidiu ir embora.
Felizmente a dona Camélia não percebeu nada e consegui entrar em casa.
Sentei-me na cama por alguns minutos e então, por um impulso, corri até a cozinha e peguei uma faca grande de carne, segurando-a com a mão direita enquanto encarava minha mão esquerda.
Meu cabelo e minha barba realmente não cresceram além do esperado, como dito pelo cubo, me regenerei dos tiros e meu fôlego parecia infinito, apesar de eu nunca ter mencionado nada sobre isso com ele.
Mas eu queria ter certeza da regeneração, então, sem pensar muito, coloquei minha mão esquerda sobre a mesa e, em um único golpe da faca, com força, amputei a ponta do meu dedo indicador.
Me curvei de dor e dava socos na mesa com a mão direita.
A ponta do dedo rolou até o chão e o sangue ensopou a mesa.
Tremendo um pouco e me esforçando para aguentar a dor, ergui e mão esquerda, encarando a amputação.
— Que merda eu acabei de fazer?
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