Lá estava eu, em posse de minhas faculdades mentais, conversando com um cubo brilhante do tamanho de um dado, que tirei de dentro da cabeça de um peixe, frito pela Dona Camélia.

Ele falava de um contrato. Mas não um contrato qualquer. Eu hesitaria em assinar qualquer tipo de contrato, que dirá um com o título de “Contrato da Vida Eterna”.

— Preciso que seja mais específico. — pedi ao cubo.

Para me libertar, você deverá aceitar o contrato da vida eterna. — respondeu ele. Enfatizando o que já havia dito. — Tendo aceito, você não mais morrerá.

Respirei fundo, esfreguei os olhos e cutuquei os ouvidos.

Estaria eu enxergando e ouvindo coisas?

Viver para sempre pareceu uma proposta tentadora, mas precisava de mais informações. Milhares de coisas vieram a minha mente naquele instante.

— Quem ou o que é você? — perguntei.

Sou um cubo. — respondeu ele, de forma direta.

— Isso é muito vago. Preciso saber quem é você, de onde veio, o motivo de querer fazer esse contrato. Preciso saber se posso confiar em você, entende?

Estas informações são irrelevantes.

Me pareceram respostas de uma máquina, programada para dizer apenas o necessário. Tinha cara de ser uma pegadinha.

— Me dê uma prova de que posso confiar em você. — o coloquei contra a parede. Não queria fazer papel de idiota para um bando de pivetes me passando um trote.

Como que para calar a minha boca, o cubo brilhou mais forte e então levitou alguns centímetros da minha mão.

Se prefere rejeitar o contrato, devo ir embora. — agora era ele me colocando contra a parede. Se fosse uma pegadinha era muito bem feita. Se não fosse, eu seria um idiota de perder aquela oportunidade.

— Não! — agarrei o cubo com força. — Eu não estou rejeitando, só quero ter certeza de que não vou me arrepender. Preciso responder agora ou posso pensar um pouco?

Faça no seu tempo. — respondeu, me causando um certo alívio.

— Não me leve a mal, mas eu preciso realmente saber tudo sobre esse contrato. Você entende que é algo que não tenho como voltar atrás, certo? Então preciso pensar muito bem.

Correto! Uma vez aceitado o contrato, você não mais morrerá e o processo é irreversível.

— Por isso que eu disse que preciso pensar bem antes de aceitar. Que tipo de imortalidade é? Eu vou continuar jovem para sempre ou vou ser imortal mas continuar envelhecendo?

Irá ficar com a mesma aparência do momento em que aceitou o contrato.

— Hum, interessante! Mas e se cortarem meu braço, vou ficar cotoco pra sempre?

Irá crescer outro braço no lugar. Um exatamente igual ao que tinha no momento em que aceitou o contrato.

— Ah, agora achei interessante! Posso ficar doente?

Seu organismo será vulnerável como qualquer outro, mas por seu alto poder de regeneração seu organismo será extremamente eficiente no combate à corpos estranhos.

— O que você quer dizer é que meu sistema imunológico vai eliminar fácil qualquer vírus ou bactéria que me atacar, certo?

Será mais eficiente que nos demais humanos, mas dentro das possibilidades do seu organismo.

— Entendi!

Por quarenta minutos meditei sobre o assunto.

Estava prestes a aceitar, quando passei pela frente do espelho e percebi que eu estava em um estado lamentável.

Magro mas com uma barriga de cerveja. Não queria passar o resto da eternidade com aquele corpo.

— Cubo, eu posso deixar você guardado por um ano e só então aceitar o contrato?

Afirmativo!

Ótimo, aquilo me daria tempo para melhorar meu físico em uma academia. Além do mais, teria bastante tempo para tirar dúvidas sobre a imortalidade e o contrato.

O primeiro objetivo era arranjar dinheiro.

Não! Antes disso eu deveria me certificar de não ser demitido do supermercado. Sem aquele salário miserável eu não teria dinheiro para comer, que dirá entrar em uma academia.

Guardei o cubo dentro de um pote e enterrei no quintal, debaixo da casa.

Naquela noite não consegui pregar os olhos de ansiedade.

Antes do despertador tocar, corri até debaixo da casa e desenterrei o pote.

O cubo não tinha ido à lugar algum.

— Você está aí? — perguntei, com medo de que a voz tivesse sumido, deixando apenas o dado escurecido.

Afirmativo! — ele respondeu.

Ótimo! Enterrei o pote novamente e segui com meus afazeres diários.

No caminho para o supermercado ficava repetindo aquela situação em minha cabeça e parecia tão surreal.

A possibilidade de me tornar imortal.

Um cubo misterioso falante, que achei dentro da cabeça de um peixe, frito pela Dona Camélia e que quase joguei fora.

Era bizarro demais. Não podia ser real.

Chegando no serviço tive de me desculpar… Não, a palavra certa era “humilhar”... Tive de me humilhar para o gerente, implorando para não perder o emprego.

Eu precisava dele, pelo menos até fazer o contrato.

Depois de ouvir muitos xingamentos e ameaças, de um cara que sequer tinha poder real dentro da empresa, voltei aos meus afazeres.

Toda aquela história de imortalidade parecia distante, como se tivesse sido apenas um sonho maluco que tive após uma noite mal dormida depois de um dia de merda.

De qualquer forma eu formulava a estratégia para o contrato. Se eu iria ficar com a mesma aparência do momento em que aceitasse, eu deveria estar na minha melhor forma possível.

Também teria que estar saudável, não queria arriscar ter anemia por toda a eternidade.

Saindo do supermercado decidi que deveria arranjar um segundo emprego, ou não teria como fazer as coisas da forma como eu queria.

Seria temporário. Apenas um ano seria o suficiente, pelas minhas contas.

Já na volta para casa Dona Camélia veio com suas histórias novamente, então sugeri se ela não gostaria que eu cortasse sua grama e cuidasse do quintal, por uma certa quantia é claro.

Ela poderia contar suas histórias durante o dia inteiro e eu ainda cuidaria do quintal, já que ela mal conseguia varrer por conta da artrite. Todos sairíamos ganhando.

Ela aceitou e comecei de imediato.

Não sei dizer o que foi mais difícil, cortar aquele mato todo do enorme pátio da anciã ou ficar ouvindo ela falar durante o tempo todo em que estive lá.

Me contou pela enésima vez sobre o colar de ouro em forma de coração, que seu marido lhe deu e que ela usava até então. Mesmo com a artrite ela dispensava horas de seu dia para polir aquele maldito colar.

Parecia ser mais importante pela lembrança em si do que por ser de ouro.

Dona Camélia ainda me convidou para jantar e após isso fui para casa.

No final do dia eu estava acabado. Tomei meu banho gelado e apaguei por uma hora, até que um grito animalesco me acordou, com o coração na garganta.

Era o casal vizinho, brigando novamente.

Toda vez era isso, um escândalo. Quebravam tudo dentro de casa e berravam como o próprio diabo.

A polícia já havia sido chamada diversas vezes, pois realmente parecia que alguém ia sair morto de lá, mas no fim das contas todos os vizinhos acabaram acostumando e ninguém mais dava bola.

Não que não incomodasse, pelo contrário, era um inferno. Impossível dormir com aquilo, mas os dois eram bem violentos e ninguém tinha coragem de ir até lá falar alguma coisa.

Perfeito para encerrar o meu dia.

Mesmo com a gritaria, estava tão cansado que acabei por pegar no sono depois de duas horas tentando dormir.

Acordei um pouco antes do despertador, novamente acordado por um berro.

Ainda estavam brigando? Aquela gente tinha uma disposição para brigar.

Comi algo, me arrumei e peguei o dinheiro que consegui com a Dona Camélia, por cuidar do seu jardim. Iria pagar parte da minha dívida no bar, ou eu não poderia aparecer mais por lá.

Caminhei até o ponto de ônibus e, para variar, ele estava passando e perdi minha condução.

Ainda estava escuro e eu estava sozinho, até que um homem de capuz chegou.

Ele ficou bem próximo de mim, olhou para os lados e então senti o cano gelado da arma, encostada em minhas costas.

Seria possível? Exatamente no único dia em que eu tinha dinheiro seria assaltado?

Será que esses caras sentem o cheiro das cédulas?

Entreguei o dinheiro e o celular. Ele pareceu incomodado por eu ter tão pouco e meu celular ser uma porcaria, então decidiu que devia me dar uma coronhada na cabeça, antes de ir embora.

Felizmente ele não levou o cartão do ônibus, cheguei no supermercado com a cabeça sangrando e fui motivo de chacota dos colegas, que não pareceram muito preocupados com o ocorrido.

Mas no meio de tanta merda, eis que algo dá certo.

No final do expediente, enquanto empurrava os carrinhos, ouço uma voz conhecida.

— Arthur?! — disse a voz feminina.

Quando me virei, me deparei com aquele par de olhos brilhantes. Seu cabelo agora estava alisado, e continuava linda.

— Julia? — surpreso e envergonhado por ver a garota do bar ali, no meu ambiente de trabalho.

— Te liguei o dia inteiro hoje, mas só caia na caixa postal.

Automaticamente levei a mão ao bolso, quando lembrei do ocorrido no ponto de ônibus.

— Ah sim, fui assaltado hoje de manhã e levaram meu celular.

— Que horror!

— Não contente o cara ainda me fez isso. — abaixando a cabeça, mostrando o corte que recebi da coronhada.

— Coitadinho! — ela disse, passando a mão em minha cabeça. — Quer ir ao bar comigo hoje? Minhas amigas não vão poder ir. Eu pago.

Finalmente algo de bom, naquela semana de merda.

No bar, contei sobre o assalto ao Mãozinha e ele foi mais compreensivo do que imaginei. Pareceu compadecido com minha história, diferente dos meus colegas do supermercado.

Julia e eu bebemos e conversamos durante horas. Descobri que ela trabalhava em um restaurante, era do signo de aquário, gostava de motos, filmes românticos, música sertaneja, batata frita e animais (apesar de ser alérgica à pelos de gatos), odiava azeitonas, humor americano, rock e pessoas egocêntricas.

Não combinávamos em tudo, mas era o suficiente para nos darmos bem. Dali fomos até o ponto de ônibus, esperei o dela passar para então pegar meu, pois aquela cidade estava muito perigosa para deixá-la sozinha.

Apesar de tudo foi um dia agradável.

Esqueci que tinha que cuidar do quintal da Dona Camélia, então fui pedir desculpas à ela, que aceitou numa boa, me enchendo de mais histórias do passado.

Corri para baixo da casa, desenterrei o pote e então dei um olá para o cubo, e ele respondeu.

Ele ainda estava lá. Era real.

Os dias foram passando, Julia e eu começamos a namorar. Ela me levava marmitas do restaurante em que trabalhava e eu lhe dava alguns mimos do supermercado… Roubados, é claro, mas ela não precisava saber.

Com meu segundo emprego, cuidando do pátio da Dona Camélia, fiz inscrição em uma academia… Não me julgue, se era para viver pela eternidade, queria estar em um corpo “saradão”.

A rotina de dois empregos, namorada e academia, sem falar nos dias mal dormidos por causa dos escândalos do casal vizinho, estavam me matando, mas era temporário.

Com o passar do tempo algumas dúvidas sobre o contrato de imortalidade surgiam em minha cabeça e eu anotava para perguntar ao cubo, no final do dia.

Minha vida de merda continuava, mas agora eu tinha um pouco mais de dinheiro e uma namorada.

Consegui quitar minha dívida com o Mãozinha.

Tive de mudar o esconderijo do pote do cubo depois que um cachorro escavou o buraco e saiu com o pote na boca, balançando por aí.

Depois desse susto decidi guardar dentro de um pacote de plástico bem fechado, dentro da caixa do vaso sanitário. Não consegui achar outro lugar seguro dentro da minha casa.

Passado um ano e eu não cheguei nem perto do meu objetivo. Já estava “fortinho”, mas nem perto do que eu queria.

Decidi esperar mais um ano… Na verdade teria esperado, se não tivesse ocorrido aquele incidente.

Estava voltando de um encontro com a Julia, ela havia se mudado e agora não pegávamos mais o ônibus no mesmo ponto.

Duas quadras separavam o local de embarque de nossas conduções e eu estava esperando com ela, aguardando chegar o seu.

Como se fossemos dois adolescentes, nos beijávamos loucamente até o último minuto, não nos importando com os olhares de reprovação das pessoas ao redor.

— Mal posso esperar o final de semana. — disse à ela, entre um beijo e outro. — Na sua casa não dá pra fazer muita coisa, com seus pais do outro lado da parede.

— Nesse caso temos que aproveitar bem. Estava pensando em fazer uma coisa. — ela disse, com uma carinha de pervertida.

Ela aproximou a boca do meu ouvido e disse… Algo que não vêm ao caso, mas me deixou ainda mais ansioso pela chegada do fim de semana.

— Sua safadinha! — falei, enquanto a beijava novamente.

Foi quando sua condução chegou e ela subiu no ônibus, me mandando um beijo pela janela.

Fui embora, já fantasiando com o que iria acontecer. Já fazia algum tempo que não conseguíamos ficar à sós.

Atravessei a primeira rua e caminhei pela calçada. Meu pensamento estava longe.

Quando cheguei na segunda rua, ouvi uma buzina e, instintivamente, saltei de volta para a calçada.

Um carro, muito acima da velocidade permitida naquela via, passou a centímetros de mim, de forma que senti o vento balançar meus cabelos.

O homem ainda colocou a cabeça para fora do carro e me xingou, mostrando o dedo do meio.

Aquilo causaria medo em qualquer um e em qualquer situação, mas meu primeiro pensamento foi de que eu iria acabar morrendo antes de aceitar a porcaria do contrato.

Seria um desperdício sem tamanho eu ter encontrado aquele cubo e então colocar tudo à perder daquela forma.

Naquele momento decidi que era a hora.

Iria me tornar imortal naquela semana.

Notas finais
Observações e críticas construtivas serão bem vindas!