Memórias Póstumas de Um Tremere
1 One-shot
Sombras trêmulas oscilavam em meu quarto; a pequena chama das velas dançava conforme a brisa gélida o invadia. O vento gritava ao esgueirar-se sorrateiramente por dentre as grades da janela.
Pentagramas, crucifixos invertidos, livros de rituais ornavam cada espaço da estante cor de madeira ao lado de uma estatueta marfim, talhada com um demônio.
Era dali que vinha toda esta força?
As quatro paredes me encaravam. Era seco.
O olhar da estatueta continuara inexpressível como sempre.
Mas algo era diferente.
Não era em relação ao sangue, espirrado negligentemente em minha tez; nem mesmo em relação aos símbolos e às escrituras no chão triste e surrado.
Algo realmente parecia diferente.
Levei minha mão rude e gelada à minha língua.
Puxei.
Sentia o gosto do sangue. Podia vê-lo jorrando descontroladamente, manchando de cor escarlate, toda minha bata esbranquiçada e angelical.
Agora combinava comigo.
A língua ainda agonizava. Parecia viva. Parecia sofrer.
Era tão divertido.
Martelo e prego na outra mão. Ambos sujos com o mesmo sangue espirrado por todas as quatro paredes e cortinas meio abertas, nas quais ondulavam tristes com a mesma brisa inquieta.
Sentia um arrepio em toda a espinha.
Medo?
Era como se borboletas voassem em meu estômago. Borboletas negras.
Suas asas roçavam aqui dentro.
Calafrio.
Ansiedade.
Posicionei a língua sobre qualquer lugar da porta. A madeira da qual era feita fora bem trabalhada; talhada até os mínimos detalhes. A fechadura era prata envelhecida. Ao menos era o que parecia.
Levei a ponta do prego sobre o meio da língua. Já não se contorcia mais. Talvez tenha se cansado. Coitada.
Apenas uma martelada. Ecoou seco por todo o quarto; dentre todas as quatro paredes.
A brisa se enfurecia. As sombras dançavam junto com a chama das velas.
Agora não podem mais entrar; pensei.
Não pela porta.
Parecia mais tranquilo agora.
Pelo menos até me virar à janela.
As velas apagavam-se.
Exceto uma. Estática.
Não havia mais brisa.
Medo?
Ele estava ali.
Aquele corpo repleto de pêlos. Repleto de músculos.
Aqueles olhos... Repletos de ódio; limitavam-se a me fitar.
Centenas de livros; centenas de anos dedicados somente ao estudo... Em vão?
Um barulho.
Não ouvi mais nada.
Não senti mais nada.
Não pude ver mais nada.
Era o fim...
Foi o fim.
Notas finais
Obrigado!
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