Memórias Póstumas
26 Pesadelo
Era dia, mais necessariamente no meio do dia, o Sol estava alto, e eu ainda queria aproveitar o momento.
Nós éramos, indubitavelmente o casal mais apaixonado e mais estranho dali, não nos encaixávamos em nada, mas de certa forma nos completávamos, ela era o meu lado sensível, delicado, um lado que eu não sabia da existência há muito, muito tempo.
Eu me sentia completo, Wammy, ou Watari, nos observava sorrindo, daquele jeito de sempre, o sorriso que marcou minha infância, eu retribui.
Eu sabia que ele ria da minha tentativa de acompanhá-la numa dança, nós esboçávamos uns passos se balançando desengonçados, ela dava gargalhadas e mais gargalhadas, isso era bom, eu a fizera rir.
Ela então olhou para o lado, dando um sorriso acanhado, como se cumprimentasse alguém.
Segui seu olhar, e pude ver, num smoking tradicional, quase igual ao meu, porém muito mais elegante, aquele que era meu maior rival, e que um dia eu considerei um amigo.
Ele se aproximou de nós, andando elegantemente como um gato persa, diferente de mim, que ainda não sabia o que significava a palavra \"coluna ereta\"
Ele se curvou, cortejando a minha dama, e depois pedindo permissão a mim com o olhar, pedindo pra que tivesse a honra de uma dança com ela.
Ela sorriu envergonhada, me olhando com olhinhos suplicantes, e prometendo que voltaria correndo para os meus braços, eu somente assenti.
Ele então a tomou, a embalando numa dança sensual e mil vezes mais elegante do que a que eu oferecia, seus olhos pareciam devorar seu decote brilhante, ele sussurrara algo em seu ouvido.
Meus pés coçavam dentro do sapato apertado, rezando pra poder acertar-lhe o queixo.
Ela olhou pra mim tristonha e incomodada, me preparei, pra caso eu tivesse que defendê-la, ela então sorriu amarelo e depois disfarçou, olhando pra ele novamente.
Eu me sentia feito um pinguim embalado, aquelas roupas, aquela flor no meu paletó, não eram pra mim, não foram feitos pra mim.
Ela então apareceu novamente, sorrindo, caminhando em minha direção, ahh, como estava linda!
Ele caminhou atrás dela, me olhando com a cabeça baixa e o típico sorriso diabólico no canto dos lábios.
A tensão de nossos olhares era capaz de derreter uma pedra se ela entrasse no nosso caminho, era capaz de sair faíscas.
Ele então a puxou pela cintura, eu rosnei, achando aquilo um ultraje.
- Tome, Misa — ele sussurrou, entregando uma pistola com silenciador nas mãos pequenas e claras da minha dama, ela olhou para o objeto horrorizada.
- O que...?
Estreitei meus olhos, senti a tensão de Watari atrás de mim, ele buscava descontroladamente o celular no bolso do paletó, certamente tentando ligar para a polícia.
- Atire Misa! — ele sussurrou envolvente, dando mordiscadas em sua orelha, o hálito sendo jorrado propositalmente, a fazendo ofegar.
- Eu não...posso — ela mordeu os lábios, me olhando com ternura.
- Vamos, será fácil, seja uma menina boazinha — ele apertou ainda mais a cintura dela, eles conversavam como se eu não estivesse ali.
Uma lágrima rolou brilhante no rosto pequeno dela, ela então sussurrou inaudivelmente um: \"Me desculpe\" e esticou o braço, com as duas mãos na arma, tremendo violentamente.
Ela fechou os olhos e apertou o gatilho, dando a sensação que aquilo parecia uma bomba, e ela estava se preparando pra uma explosão iminente.
Mesmo não vendo onde era o alvo, ela acertara diretamente em meu coração, nem um palmo a mais, nem a menos, foi um tiro certeiro, a ultima coisa que ouvi foi o grito ensurdecedor que ela deu que se misturava com a gargalhada dele...
Era dia, mas necessariamente no meio do dia, o Sol estava alto, e eu ainda queria aproveitar o momento...
- Near? — Gevanni gritou.
- AAAHH o que foi?
- Você estava dormindo sentado, isso faz mal pra sua coluna.
- Coluna? Eu tenho isso?
Gevanni apenas revirou os olhos.
Near ficou parado por alguns longos segundos.
- O que foi?
- Raito era principalmente, manipulador...
- O que?
Near tombou a cabeça de lado, sorrindo, e enrolando o cabelo.
- Nada, só estou pensando alto.
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