Memórias Póstumas
35 Lúgubre
O som de Moonlight Sonata, aos poucos ia aumentando o volume, tomando conta do local, a frequência da música batendo furiosamente, acompanhando um coração que era forçado à parar de bater, segundo após segundo, Sarah sorria maliciosamente, assistindo tudo, se deliciando lentamente, aumentando ainda mais o volume do som.
Near tremia, e suava frio, apertando o peito que parecia ser dilacerado, aos poucos indo ao caminho do chão, a vista se escurecendo, e um sorriso breve surgindo, enquanto ele via flashes, de Sarah caminhando pela sala, pegando uma garrafa de conhaque, e tomando um gole demorado direto no bico.
- Por favor!!! — ela gritava pelo corredor — Chamem uma ambulância, ele... ele está passando mal na minha sala.
A recepcionista corre assustada pelo corredor.
- Ande sua estúpida, chame uma ambulância, ele está tendo um mal súbito!
- S-s-sim chefinha — ela murmurava pegando o telefone com as mãos trêmulas, totalmente atrapalhada.
A ambulância demorara menos de minutos pra chegar ao local, e socorrer Near, mas já era tarde, não havia mais nada que se pudesse fazer.
- Levaremos ele para o necrotério, ele era seu parente senhora?
- Não, envie meus pesames à família dele, sim? — Sarah murmurou, olhando o cadáver totalmente pálido.
- Sim, senhora — um dos enfermeiros murmurou, se aproximando do corpo de Near, o puxando e o posicionando em um plástico escuro.
- Você conseguiu o que queria não é, Near — Gevanni disfarçado de enfermeiro sussurrou, ressentido, abanando a cabeça.
- Me desculpe, mas você poderia andar logo com isso? Err, aqui é um centro comercial, nada pessoal, por favor.
Gevanni concordou com a cabeça, olhando o rosto do cadáver conhecido, e finalmente fechando o zíper do saco plástico.
- NÃO! NÃO! ELE SABIA QUE IA CORRER RISCOS!
- Susan, acalme-se por favor — Gevanni a segurava, enquanto ela se debatia contra seu peito.
- Como você pode estar tão frio em uma situação dessas? — ela murmurou, estreitando os olhos vermelhos e irritados pelas lágrimas.
- Voltamos à estaca zero — Geremy exalava revoltado, chutando uma lata no chão e passando as mãos pelos cabelos.
- Vamos ser coerentes, por favor.
- COERENTES?? ELE MORREU! NÓS SEREMOS OS PRÓXIMOS!
Susan tremia, batendo com os punhos contra o peito de Gevanni, tentando se libertar.
- Near não ia se arriscar assim por nada, ele me pediu, pra que se algo o acontecesse, que os ajudassem na investigação, e fosse seu sucessor, juntamente com vocês dois.
Susan limpa as lágrimas na manga da jaqueta.
- Ele me disse algo assim também.
- Viu? Se acalme, vai dar tudo certo.
- Como você sabe? — Susan murmurou desmotivada, os cabelos desgrenhados.
- Alguém traga um calmante pra ela? — Geremy gritou revoltado.
- Eu sei, apenas isso.
\"Eu não vou sair daqui\"
\"Matt, será que você podia calar a sua boca?\"
\"Estou falando sério, cara! Não é porque não somos mais vistos que eu vou sair daqui, eu gosto dessa janela!\"
Gevanny ainda arrumava algumas coisas, colocando alguns pertences de Near em uma bolsa grande.
- Err... Com licença? — Susan tocou a porta já aberta.
- Ahh claro, entre.
- Eu gostaria de ajudá-lo, à arrumar as coisas dele.
\"Cara! Nem depois de morto? Mello sibilou enojado, olhando pra Matt.
\"Ahh, eu não tenho culpa, ela é muito sexy!\"
- Você tem alguma idéia do que faremos agora?
Gevanny abanava a cabeça, em desaprovação consigo mesmo.
- Eu ainda não sei, ou melhor, não tenho muita certeza.
Susan mordia os lábios, enquanto dobrava uma camisa branca, similar a quase todas que ele usava, passando suavemente pela frente do rosto, inalando o cheiro da camisa no ar, o que fez Matt estremecer, e torcer o lábio com nojo.
- Você acha que ele já sabia que ia morrer? — Susan sussurrou.
- Near sempre foi meio que, cauteloso, talvez medroso, como ele mesmo dizia, gostava de analisar bem cada passo antes de dá-lo, pelas suas ações precipitadas, eu julgaria que ele sabia bem onde estava se metendo, ou o que poderia lhe acontecer, caso desse um passo em falso, mas...
Susan olhou confusa para Gevanny.
- Pode parecer ridículo — Gevanny balançou a cabeça, dando um sorriso — Mas com o tempo,eu passei a Ver Near, como um filho, como alguém de minha família, talvez a proximidade com o passar dos anos, nosso grupo de investigação se tornou mais unido, à ponto de aparentar uma família.
Susan sorriu, apertando contra o peito a camisa dobrada em suas mãos.
- Deve estar sendo muito difícil, esse momento pra você.
- Sim, muito.
- Bem, eu vou indo, preciso preencher algumas fichas, trabalho típico da polícia — ela revirou os olhos num tom brincalhão — qualquer coisa me chame.
Gevanny assente e Susan sai do quarto.
- Ah Near, o que eu vou fazer agora?
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