- Rápido Anthony! Tire logo o capuz dele! — Halle ordenou impaciente.

Anthony adentrou a escuridão, empurrando o tal encapuzado para um foco mais claro, onde era iluminado por uma fresta da madeira.

- Mas o que? — Anthony indagou a si próprio depois de empurrá-lo contra o chão, se aproximou e puxou seu capuz, hesitante.

- O QUE? — Sarah exalou indignada — Ele... é uma criança!

Todos arfaram juntos.

- So-so-so-so-so-Soichiro...? — Susan sussurrou, ainda incrédula.

O pequeno Soichiro estava de joelhos no chão, sorrindo pelo canto dos lábios.

- Eu não posso acreditar, Near tinha razão.

Sarah tremia, olhando com repulsa e indignação a criança endemoniada que estava à sua frente.

- Soichiro, por que?

Ele franzia os lábios, sem levantar o rosto, apertando os punhos contra a madeira do chão, a arranhando com as unhas.

Susan larga a arma no chão, colocando as mãos livres cobrindo a boca, os olhos ficando molhados em instantes.

- Eu não acredito nisso, como você pôde?? — ela gritou indignada — Você matou Near!

Gevanni engoliu em seco, assistindo Soichiro se levantar aos poucos, se arrumando dentro da imensa capa marrom com capuz que lembrava uma batina de padre.

- Como você pode defender um assassino? — ele sussurrou, a cabeça ainda baixa.

- O que?

- De que você está falando Soichiro? — Gevanni perguntou pacientemente.

- ELE MATOU MEU TIO! MERECIA PAGAR POR TUDO O QUE FEZ! — ele gritou desolado, deixando transparecer agora a inocência por trás dos olhos castanhos molhados por lágrimas, que antes não pareciam em nada com olhos infantís.

- Soi, não diga isso.

- Susan, não o defenda!

Ele agora abaixou a cabeça, voltando as feições de adulto e parecendo possuída por uma personalidade incomum, num sorriso perverso.

- Eu queria continuar o legado de meu tio, queria continuar à fazer justiça, queria limpar esse mundo assim como ele o fez, matar Near só foi uma sobremesa.

- Gevanni? Você não vai fazer nada? — Halle sussurrou, se aproximando de Gevanni que estava imóvel, em choque. Ele abaixou o olhar, as narinas tremiam, se inflando.

- Você está presa — Anthony murmurou, colocando as mãos de Sarah em suas costas e as prendendo com uma algema.

- Ele....é...Uma criança, uma criança, uma criança — ela sussurrava pra si própria em ato de insanidade, enquanto Anthony prendia seus braços.

- Mas agora eu consegui, vinguei meu tio — ele sussurrava orgulhoso da façanha — Vocês não podem reverter isso.

- Eu acho que você está errado! — uma voz conhecida surgiu em meio à escuridão, vinda dentro do depósito de ferramentas.

- Hã? O que? — Susan perguntou, olhando para todo o lugar, procurando de onde vinha a tal voz.

Gevanni abaixou a cabeça, relaxando os braços e soltando o revólver no chão.

Halle estreitou os olhos.

- Você não o vingou, Soichiro, porque eu ainda estou vivo.

A voz foi se aproximando, passos preguiçosos, lentos, ecoavam pelo salão.

- MALDITO!!! VOCÊ ESTÁ MORTO! — Sarah gritou ao ver quem se aproximava, arregalando os olhos em desespero, assim como Soichiro.

- O.....O que? O QUEEEE????? — Soichiro olhou enfurecido para Sarah.

- Mestre...Eu o matei, ele está morto! Eu fiz tudo o que você me pediu — ela tentava se explicar, quase que suplicante.

Near e Soichiro se encaravam, um atrito de olhares que era capaz de moer uma partícula de ar.

- Desgraçado! Você ainda não venceu — Soichiro sussurrou entredentes.

- Lester! Pegue a bolsa dela e me traga aqui.

Soichiro fuzilou Anthony, enquanto ele pegava a bolsa de Sarah.

- Está aqui, Near — ele a entregou.

Near usava um moletom largo cinza, uma roupa emprestada e que o disfarça quase que com perfeição.

- O que? — Geremy murmurou confuso — Como vocês podem agir com tanta naturalidade? Ele morreu! Vocês o viram no caixão, ele estava morto!

Todos ignoraram a voz de Geremy no salão, exceto Susan.

- Você sabia, não sabia Gevanni? Você o ajudou nisso tudo! — ela murmurava engolindo as lágrimas, a voz entrecortada.

Near mordeu o lábio, se sentindo culpado por alguns instantes ... Retirando o caderno da bolsa de Sarah.

- Sim, Susan, eu...Sabia — Gevanni sussurrou em voz e cabeça baixa — Assim como Lester e Lidner.

Susan e Geremy arfaram.

- Seus idiotas! Vocês não confiaram em nós e...

- Geremy — Susan sussurrou, a voz ainda entrecortada — Por favor, fique quieto...

- Olá, senhor shinigami — Near repetiu a frase que havia dito anos atrás, para o enorme monstro que estava atrás de Soichiro, ele tinha o rosto formado por uma caveira sorridente, os cabelos pareciam palha e eram arrepiados com uma cor levemente caramelizada.

- Você sentiu minha falta? — o shinigami murmurou, seguido por uma gargalhada.

- Como? Eu... O conheço?

O shinigami avançou um passo, a caveira não mudava as feições, o que o tornava ainda mais sinistro e asqueroso.

- Eu já fui um humano, assim como você, Soichiro, Susan, Geremy, e os outros aqui presentes, já tive ambições, já tive medos, e já tive desejos, há mais de dez anos atrás, eu não passava de um jovem exímio estudante, disciplinado, com filho, bom irmão, mas somente isso não me satisfazia, somente essa rotina me fez cair em completo MARASMO...

- Ahh meu Deus — Gevanni sussurrou, colocando os punhos contra as têmporas — Ele é...

O shinigami tossiu outra gargalhada.

- Nada mais justo que eu voltar e guiar meu sobrinho não acha?

- AHHHH! — todos gritaram em uníssono, exceto Near, que permanecia irredutível.

- É um prazer revê-lo, Raito Yagami.

- Acredite, o prazer é todo meu

Soichiro se vira, abraçando o abdômen do esqueleto, fechando os olhos e deixando escorrer as lágrimas.

- Me desculpe tio, eu não, consegui te vingar!

O shinigami afastou as mãos pequenas de Soichiro do seu abdômen.

- Não adianta mais se desculpar.

- Então, NEAR — Geremy cuspiu as palavras com repulsa e grosseria — Pode nos explicar como diabos você ainda está vivo?

Near buscou uma mecha de cabelo a enrolando, sem tirar os olhos de Soichiro. - Assim que soube que Sarah era um segundo Killer, que matava para o primeiro, resolvi usar algo que eu não tinha usado antes, ou pelo menos não totalmente.

- O que? — Geremy perguntou.

- Pedi à Gevanni que trocasse o caderno original, por um falso, perfeitamente falsificado, com a ortografia idêntica à de Sarah e de Harper, antigo usuário desse caderno, da mesma forma que fizemos anos atrás com o outro assassino, Teru Mikami.

Um rugido altíssimo resvalou pela garganta do shinigami, ele se torceu colocando os imensos punhos contra a cabeça.

- O que houve com ele?

- Parece que algumas memórias são fortes demais pra ele — Gevanni sussurrou.

- Bem, então, com os cadernos trocados, fui fazer uma visita à Sarah, e foi então que tirei a conclusão que além de ter mesmo um caderno, ela também tinha um acordo pelos olhos de shinigami — Near sussurrou, estreitando os olhos para o shinigami.

- Mas como você forjou sua morte? Haviam médicos especialistas no local, te avaliaram, oficializaram sua morte — Geremy ainda estava indignado.

- Pedi para Gevanni buscar uma erva raríssima, que produz os mesmo efeitos de um ataque cardíaco, o tempo do efeito era de mais ou menos uma à duas horas, por isso deveríamos agir rápido, mesmo sendo uma morte forjada, haviam riscos.

Gevanni estremeceu, torcendo as sobrancelhas.

- Haviam alguns casos de usos da erva, que eram irrevogáveis, e que levavam a morte mesmo, se isso acontecesse, iria estar tudo acabado — Near sussurrou, olhando para os próprios pés.

Soichiro franzia os lábios trêmulos.

- Agora me diga você, como foi que teve capacidade ir tão longe? — Near perguntou.

Soichiro virou de costas, abraçando a si próprio.

- Eu sabia quem você era desde o princípio, mesmo antes de você me dizer que era o L — ele começou, ainda virado de costas — Eu estava maravilhado com o poder do caderno, e de ainda ter a companhia do meu tio, eu não podia deixar que ninguém estragasse isso, ninguém! Então eu soube que você estava vindo pra Orlando...