Memórias Póstumas
30 Calor
Near vasculhava as estações de rádio as pulando uma a uma freneticamente, os dedos suados se moviam rapidamente, sem dar muita atenção ao que fazia, e obviamente, sem sequer ouvir o que se passava na rádio, seu olhar anseava em buscar algo mais, algo que estava necessariamente ao seu lado, mas seu lado racional o repreendia e o impedia de olhar pra ela.
- Tem certeza mesmo de que não tem nada mais importante a fazer? Eu posso chamar Geremy e...
- Eu me ofereci, isso já é um bom sinal de que eu não tenho nada mais importante a fazer — Near esboça um sorriso trêmulo, e logo passas as mãos suadas ao volante, olhando restritamente para a estrada e fazendo o Mercedes Guardian de Gevanni ronronar feito uma pantera.
Ela sorriu, puxando o cinto de segurança.
\"Ótimo! Vamos morrer de novo!\" Matt murmura com o cigarro na boca.
O silêncio parcial era atordoante, ambos cogitavam e planejavam conversas em suas mentes, mas não as exerciam, somente um arranjo suave de piano invadia o espaço do carro.
- É Claude Debussy? — Susan perguntou depois de alguns segundos hesitante.
Near piscou algumas vezes, torcendo a sobrancelha debaixo da franja branca.
- Sim, Claire de Lune.
- É inconfundível — ela se afunda sobre o acento, absorvendo a canção com mais atenção.
Near pára o carro em frente a um apartamento, olhando por milésimos de segundo Susan, que agora tinha os olhos fechados, o vento que vinha da janela, brincava com alguns fios de seus cabelos castanhos.
Até que enfim ela abre os olhos, pegando Near desprevenido, que abaixa o olhar rapidamente.
- É aqui? — ele pergunta depois de um pigarro.
Ela pisca e olha para fora da janela.
- Sim, é aqui mesmo.
Ela solta o cinto de segurança, soltando um suspiro falho e depois erguendo os olhos pra encarar Near.
- Err, gostaria de entrar? — ela convidou hesitante.
- Talvez um outro dia — ele disse suando frio, fitando as mãos pálidas apertando o volante.
Ela sorriu, puxando uma mecha de cabelo pra trás do ombro.
- Então está bem, eu vou esperar sua visita.
\"Hunpf! Frouxo!\" Near ouviu seguido de uma fumaça imaginária que fora soltada em frente ao seu rosto, o que o fez trincar os dentes secretamente.
- Isso é bom.
- Até mais — ela sussurra, aproximando os lábios das bochechas de Near, que ficou tenso e imóvel, seu coração disparou em uma velocidade exacerbada ao sentir o toque macios do lábios quentes dela em seu rosto.
Suas mãos se tocaram brevemente, ele então fechou os olhos com força, ao sentir que ela estava se afastando, ela a puxou de volta pelos ombros, tocando delicadamente seus lábios nos dela.
\"Hoho, Uau!\" dizia a platéia de um escandaloso e fumante, mas Near não se importava, ele provou hesitante e aos poucos do momento e do sabor que os lábios dela ofereciam, algo doce e que lhe provocava arrepios.
Ele foi abrindo os lábios aos poucos se movimentando junto a ela, até que o momento foi cortado por um espasmo repentino de Susan.
- Eu... Eu... Preciso... Ir — ela murmurou com a cabeça baixa, apoiando as costas no banco do passageiro.
Ambos estavam corados e ofegantes, a respiração acelerada, uma adrenalina que os tomava por completo, Near piscou algumas vezes e balançou a cabeça, tentando se livrar do êxtase e do devaneio.
- Está tudo bem então — ele franziu a testa, olhando para o volante novamente — Nos vemos amanhã.
Ela assentiu, fazendo que sim com a cabeça.
- Sim, nos vemos amanhã.
Near ainda não acreditava no que fizera, mas era inevitável não pensar no ocorrido.
O relógio de cabeceira tomava conta do quarto com seu barulhinho irritante de \"toc toc\".
\"O que você vai fazer?\" Mello perguntou.
- Vou para Alachua, agora.
Ele estreitou os olhos, encarando Near, Matt abria o colete pra examinar as próprias feridas que ainda sangravam, Near estremeceu com a visão, virando o rosto enojado.
\"Nós iremos com você \" Mello decretou.
- O que? Pra que? Você não tem necessidade alguma de ir comigo.
\"Mas eu vou!\"
\"HEEI\" Matt ralhou, fechando o colete novamente, encaixando os furos do coletes nas feridas abertas, sem se importar muito com dor, e se levantando, entrando na frente de Near e Mello.
- Por que você é tão teimoso?
\"Eu? Olhe quem fala! Não sou eu que estou teimando em querer acabar com a própria raça!\"
- É claro, você não tem mais raça pra acabar, eu tenho certeza que estivesse em meu lugar faria a mesma coisa, e pior, ainda mais inconsequente.
Mello trinca os dentes e ergue Near pelo colarinho, o fazendo debater os pés no ar.
\"Não seja estúpido!\"
Near mantia uma postura irredutível e fria, encarando Mello sem alguma expressão, mesmo num estado crítico de enforcamento.
- Parece que eu atingi seu ego, não foi?
Mello franze os lábios em uma linha reta, soltando Near no chão com força, a respiração acelerada, tanto que fazia com que uma franja longa e loira se movesse junto com sua respiração, ora saindo da frente da testa, ora voltando ao lugar, quando a franja se deslocava, mostrava as feridas incuráveis formadas pelo acidente.
\"Você não disse que ia para Alachua?\"
Near estalou o ombro e se levantou, apoiando-se na cadeira ao seu lado.
- Sim, eu vou, você conseguiu me atrasar, parabéns.
Mello sorriu maliciosamente.
\"Seus frouxos! E eu aqui, esperando uma briga!\" Matt choramingou.
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