Mello o olha fixamente, os olhos petrificados e tão intensos que pareciam ser capazes de olhar a alma de Near.
Ele enfim o solta e caminha, perturbado pelo quarto, puxando uma franja longa desfiada e loira, cobrindo a imensa cicatriz timidamente.
- O o que-que, ouve com você? — Near pergunta, ainda intrigado com a aparição repentina.
\"Você pode me explicar, que merda está pensando em fazer?\"
Near se recompõe, esticando os ombros e encarando Mello.
- Isso não é da sua conta...
\"SEU ESTÚPIDO! VOCÊ NÃO TEM IDEIA DA IDIOTICE QUE ESTÁ PRESTES A FAZER! ACORDE!\"
- Cale a boca Mello! Não há pessoa menos apropriada que você pra me impedir de fazer o que vou fazer!
Near bufa, balançando a cabeça.
- Olhe pra você.
Mello se vira de repente, encarando bruscamente Near, os dentes trincando.
\"Por isso mesmo, idiota! Olhe pra mim! Você quer acabar da mesma forma? \"
Ele caminha novamente pelo quarto, se jogando numa poltrona, esticando as pernas e apoiando os cotovelos no assento,
esticando o pescoço e mostrando o rosto deformado do lado direito.
- Você ainda não me disse o qe aconteceu, você não estava assim...
Ele sorri, sombriamente, e sem humor.
\"Você ainda não entendeu? Eu ainda carrego as cicatrizes de como eu morri, como vocÊ pode ver, o acidente foi feio\" Ele solta uma risada de escárnio.
- Mas, L...
\"Hunpf! L não morreu num acidente, você precisa ver Matt, ele parece uma peneira...\"
- Matt? Ele também...?

Ele sorri, esticando os lábios debaixo da franja loira e espigada.
\"Quem você acha que te observava? Geremy só foi uma marionete temporária, até que nós percebemos que ele não era apto o suficiente\"
- Então de repente, vocês decidem parar suas aparições para ele.
Ele sorri, expondo os dentes que ainda preservavam a perfeição.
\"Sim, afinal, nós só aparecemos pra quem queremos, e quando queremos, fique ciente disso\"
Depois de um suspiro longo, Near enfim se senta na cama, apoiando uma das mãos em cima do joelho que estava flexionado, e encarou Mello, passivamente.
- Agora, finalmente você pode me dizer o que veio fazer aqui?
Ele dá uma risada tossida e debochada.
\"Eu vim te perturbar\"
Near estreita os olhos, esboçando um sorriso jocoso no canto dos lábios.
- Isso é interessante, meus dias andam tão tediosos desde que...
Mello bufa, olhando Near de lado.
\"Desde que ele se foi?\"
- Sim — ele admitiu — Desde qu eele se foi.
\"Hunpf! Queria eu ter a mesma sorte que ele\"
- Do que está falando? Não deve ser tão ruim estar morto, você importuna pessoas vivas, aparece quando quer, não tem responabilidades, na verdade, é a vida que todo humano gostaria de ter.
Ele apenas dá de ombros, ouvindo tudo atenciosamente.
\"Dá fora que você diz, tudo parece mais doce e agradável, nada de sombras, escuridão... Ou dor, só não se iluda e não pense que as coisas são mesmo assim, pense bem nisso \"
Ele então se levanta, se esticando, mostrando explicitamente a cicatriz que se estendia pelo pescoço se perdendo na gola da blusa, e então escarra e cospe no chão.
\"Vamos Matt\" ele murmura numa voz sem vida, para a janela, de onde um vulto pulou equilibrando uma ponta de cigarro na boca, esticando as pernas e sumindo dentre a cortina esvoaçante, assim como Mello.

- Você trouxe o que eu pedi? — Near se balançava sobre os calcanhares, ansioso.
- Sim, está aqui — Gevanni disse, estendendo um pequeno vidro de coloração esverdeada e escuro — O homem quase me cobrou os olhos da cara.
Near pegou o pequeno frasco, maravilhado, sorrindo involuntariamente.
- Não retruque, o valor é alto mesmo, esse produto é raríssimo.
Gevanni se senta na poltrona, que parecia ser a preferida de todas as \"visitas\" de Near, todas elas.
- Já conseguiu descobrir quem é a próxima marionete de Killer?
Near sorri, sentando em uma cadeira com rodas e a deslizando pelo quarto, parando em frente ao notebook.
- Ainda não, mas já tenho uma base de quem será sua nova vítima.
- O que? Já tem?
Near se acomoda na cadeira, enrolando a ponta dos cabelos brancos.
- Sim, já tenho, Killer não nos decepcionou e foi rápido em conseguir uma outra pessoa pra matar criminosos com ele, e essa pessoa é metódica, e possui uma linha inabalável de assassinatos.
- Quer dizer que essa pessoa é ainda mais metódica que Harper?
- Harper não era metódico, e sim obsessivo, todo aquele ritual de deixar rosas, é muito piegas.
Gevanni sorriu.
- É, você tem razão, e aonde as suas bases te levam?
Near digitou algo rapidamente, em silêncio.
- Se essa pessoa continuar seguindo essas mesmas regras, das quais eu creio que ela siga, a próxima morte será em Alachua, aqui mesmo na Florida.
- Se você estiver certo?
- Se eu estiver certo... Então finalmente, finalmente, podemos dar inicio ao meu plano.
Ambos se entreolharam, o contraste de satisfação no olhar de Near dava total diferença entre o olhar de pavor e insegurança de Gevanni, que se afundou na poltrona.
- Que assim seja.

- Eu estarei esperando aqui — Geremy murmurava no telefone, Near o olhava fixamente, feito um psicopata, fazendo Geremy se encolher, se virando e tirando sua atenção do olhar frenético do \"companheiro de investigação\" de cabelos brancos e olhos penetrantes.
- Não, não é isso — ele respondeu ao telefone — Ele não está pensando nada ao seu respeito, por favor, venha não o deixe esperando.
Near ouviu pelo telefone, algo parecido com \"Tudo bem, estou chegando\"
- Não ligue para a minha parceira, ela é um pouco insegura.
- Susan não me parece insegura, pelo contrário, ela só não quer se expôr.
Geremy arregalou os olhos.
- Eu já lhe disse o nome dela?
- Não, mas eu sei.
- Eu estou impressionado L, eu devo e sou obrigado a admitir, você realmente merece o título que lhe é dado.
Gevanni sorri sutilmente, enquanto fechava uma maleta.
- Obrigado, é justamente por isso que não gosto de receber elogios, eles me deixam gabola.
Geremy gargalhou.
- Então, quer dizer que a próxima morte é prevista pra que aconteça em Alachua, aqui mesmo?
- Exato.
- Quer que nos manifestemos desde já?
Near pega um copo d\'água, o saboreando lentamente, os olhos fixos no chão em algum lugar.
- Ainda não — ele murmura por fim — Preciso ter exatidão, ter certeza de que a minha linha de raciocínio está exata, se a morte nesse local for concretizada, e minhas suspeitas se transformarem em certeza, aí sim, poderemos agir.
- Como quiser.
A porta do escritório de Geremy se abre suavemente, rangendo um pouco, e por fim a silhueta magra e pequena surge, exibindo um rosto familiar que parecia envergonhado.
- Susan, estava na hora.
Near esboçou um sorriso, Susan retribuiu timidamente.

- Sente-se aqui, já começamos a discutir algumas coisas antes de você chegar — Geremy se adiantou, Susan ainda tinha sua atenção presa nos olhos de Near, que a analisavam friamente.
- Ahh sim, claro, eu entendo.
Ela se sentou numa cadeira ao lado de Gevanni, que ficou entre ela e Near.
- L nos disse que depois de Harper, Killer encontraria outro manipulado pra matar criminosos por ele, parece que você estava certa até então.
Susan dá um meio sorriso.
- Eu supus isso assim que soube da morte de Harper.
Near olha instintivamente para Susan, que se encolhe e brinca com os dedos da mão.
- L calculou ...
- Err... aqui, entre o pessoal da investigação, por favor, me chamem de Brandon.
Susan sorriu.
- Err... sim, como preferir, Brandon calculou uma linha inabalável de assassinatos do Killer, ou X-Killer, como L,... err Brandon, prefere chamar, e em base nisso, Brandon diz que a próxima morte será em Alachua, estou certo?
- Sim, está certo, e continuando, eu peço pra que não se manifestem ainda, preciso ter certeza do local definido, se a morte for mesmo concretizada, então poderemos enfim capturá-lo.
- Isso não me agrada, será mais uma vida desperdiçada, mas farei como achar necessário.
\"Eu senti um certo sentimento diferente em relação à ela? \"
Near dá uma estremecida, fitando a imagem que se formara ao seu lado, olhando desesperadamente para Geremy, que permanecia na mesma posição.
\"Não se preocupe, ele não pode me ver mais\" dizia a imagem de Mello, enquanto coçava a nuca espalhando o cabelo louro, olhando Geremy com desdém.
\"Mello, seu desgraçado, vai acabar chamando atenção e acabando com tudo!\"
\" Não se preocupe quanto a chamar atenção, acreditando não eu sou discreto, eu só vim até aqui para assistir\" Ele deu uma gargalhada gutural, agredindo os ouvidos \"mentais\" de Near.

Near apenas revirou os olhos e balançou a cabeça, tentando ignorar a presença ao seu lado.
- Então já temos algo planejado, se sua teoria estiver certa.
- Sim, já temos.
- Então esta reunião está encerrada por hoje — disse Geremy se levantando e ajeitando o paletó.
- Sim, planejaremos melhor outro dia, agora o que temos a fazer é somente observar, por isso, não cometa nenhuma bobagem — alertou Near.
Geremy deu uma gargalhada, saindo da sala.
- Err, Susan?
Ela se virou, torcendo uma sobrancelha.
- O que houve com você? Quase nem falou hoje?
Ela tombou a cabeça de lado e esboçou um sorriso mimoso.
- Falta de argumentos, e algumas ideias ainda não estão totalmente claras.
- Humm sim — Near mordeu os lábios, olhando para o chão, sem perceber a presença peculiar que se formara ao seu lado, um anjo ou demônio, com cabelos castanhos lisos e desgrenhados ao mesmo tempo, fumando um cigarro long, e o rosto com marcas de sangue seco por toda parte.
Near estremece e ofega, ao ver Matt, ao seu lado, sorrindo e olhando com aprovação e luxúria o corpo de Susan.
- O que foi? — ela perguntou intrigada.
Near balança a cabeça, olhando Matt, confuso, impressionado e ao mesmo tempo furioso.
- Err, nada, só um mosquito.
Susan sorri.
- Bem, você quer, tomar um café comigo?
Matt esreita os olhos, tirando o cigarro da boca e soltando a fumaça pelas narinas.
\"Aceite o convite seu idiota!\"
Near estreitou os olhos pra Matt, e olhou pra Susan, que esperava uma resposta.
- Sim, claro, vamos.