Notas iniciais
Demorei mas atualizei HUSADUSH
Enjoy :)

A ordem dos superiores naquela manhã ensolarada era de ataque. Havia suspeitas de inimigos escondidos nas casas de civis o que nos obrigava a ter que tirar a história a limpo. Antes das 10 horas da manhã chegávamos à cidadela suspeita. As casas confundiam-se umas ás outras, todas de mesmo tamanho, feitas com o mesmo material pobre, abrigando famílias numerosas. Qualquer um poderia se esconder ali sem dificuldades. Crianças brincavam na rua com a bola murcha – furada por uma bala, mulheres lavavam roupa com água barrenta algumas cantarolavam canções.

Era preciso um planejamento, não podíamos nos aproximar com os uniformes e pedir informações sem mais nem menos. Tínhamos que ser cautelosos e tentar chamar o mínimo de atenção. Por ter os traços parecidos com os civis, Sebastian um dos soldados foi escolhido para ser o infiltrado. Conseguimos roubar algumas roupas que estavam secando e tudo que ele tinha a fazer era se vestir e misturar-se a multidão enquanto os demais soldados estariam á espreita dando cobertura.

Sebastian deu início ao plano, se infiltrando sem problemas. Brincou com as crianças, trocou palavras com alguns homens. Eu estava entre os soldados, somente uma cruz branca diferenciada no capacete – que me denunciava como médico. Senti uma mão pequena e insistente puxar a minha roupa.

- Ajuda minha mãe

Era um menino, falava minha língua de um jeito embolado e parecia assustado. Olhei ao redor, os demais soldados concentrados em vigiar Sebastian nem notaram a presença do garoto. Fiquei entre a cruz e a espada. Não podia confiar no menino, mas também seria desumano se realmente houvesse uma mulher precisando de ajuda médica.

- Ajuda minha mãe – repetiu. Uma outra criança se aproximou correndo, disse algumas palavras agitadas ao garoto, agarrou-o no braço e o arrastou para longe dali.

- Esperem!

Os dois pararam, fiz um sinal que me esperassem. Consegui mais algumas roupas dos varais e me troquei seguindo as crianças até uma casa.

Entrei na casa em que estavam mais três garotos, todos eles em volta da cama onde a mulher gritava, dando a luz a mais uma criança. Me aproximei rapidamente, recebi um tapa vindo da mãe mas logo um garoto acalmou-a com algumas palavras, talvez explicando que eu era um médico. Eu não tinha experiência com partos, mas sabia o suficiente pra entender o que havia de errado. Muito sangue na cama, algumas manchas estavam até mesmo secas o que indicava que a mãe devia estar á horas tentando expulsar o bebê.

Era preciso agir rápido, em parte por já ter passado da hora do nascimento e em outra parte por não poder largar minha equipe lá fora. Com um pequeno bisturi e dosagem de anestésicos dei inicio a uma cesariana de emergência.

Era uma menina. A primeira da casa.

Berrava com todos os seus pulmões — se enchendo de ar pela primeira vez. Segurei-a com minhas mãos sujas de guerra e depois de checar que tudo estava bem entreguei para os braços da mãe cansada. Me retirei da casa o quanto antes deixando pra trás uma família que sorria em meio aquela cidade tão triste.

Voltei a tempo de ver Mike – um novato que havia se tornado meu assistente em cuidados médicos – entregando o telefone ao comandante da ação. Pisquei os olhos e no outro instante toda a cena de calmaria se transformou num intenso tiroteio. As crianças corriam até os braços das mães que gritavam, os inimigos estavam em meio á multidão, usando toda aquela gente como escudo humano. O comandante foi atingido no braço e deu as ordens entre os dentes: Abrir fogo. Quando me aproximei com as gases e medicações, afastou a minha mão e me entregou uma arma.

- Eu não preciso de um médico eu preciso de um soldado pra derrubar todos aqueles homens! – quando eu pensei em hesitar ele se adiantou- É uma ordem, aqui não é somente médico é também um de nós e se quiser sobreviver é melhor atirar.

Assenti com a cabeça e senti o peso maior do que a arma em minhas mãos. Era o peso dos corpos de todos os inocentes que matei aquele dia, todos os sonhos das crianças que brincavam sonhando com dias melhores por vir, toda a dor que causei a quem assistia seus parentes e amigos morrerem. Eu apertava o gatilho sentindo a mesma dor da bala de volta em meio peito. Acabei com um pente de balas pedindo desculpas a Deus por cada uma que saia de minha arma. Voltei ao acampamento mais pesado, mais velho e mais certo de que aquele não era o meu lugar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.