Memórias
8 Epílogo: De volta à Casa Daegu
Notas iniciais
Hoseok estava sonolento. Mesmo assim Michung ainda insistia em acordá-lo.
— Tá bem, querido, já chega.
— Aigoo, só mais um pouquinho!
— O que há com você hoje? São 8:50, sabia?
Hoseok se levantou em um pulo.
— Aish! Por que não me avisou que era tão tarde? Vou me atrasar!
— Eu te chamei umas seis vezes, Jung Hoseok. Você que não quis levantar. Eu vou indo, tá bem? Tenho julgamento agora.
— Vai ficar de plantão justo hoje?
— Não fui eu que escolhi. De qualquer forma, tenho minhas obrigações, e é só pela manhã. Agora corre, amor. Boa sorte.
Michung deixou o quarto e foi direto para a sala de julgamentos. Jungkook, Yumi e Taehyung completariam o plantão.
Hoseok chegou ao auditório todo esbaforido e despenteado. Yanan, Yerin e Géssyca estavam no palco. Yoongi e Sunghee estavam mexendo na aparelhagem. As cadeiras estavam lotadas de crianças, incluindo Namjoon lá no cantinho cuidando de Donghyuk.
— Alguém dormiu mais que a cama hoje — debochou Yoongi, pelo microfone.
— Olha só quem fala, hyung — gritou Hoseok.
— Eu já deixei essa vida irresponsável há muito tempo.
— Eu sei, pessoal, me desculpa, viu? Não sei o que houve.
— Não podemos perder tempo — disse Sunghee. — Vamos começar, crianças!
Era o ensaio geral do espetáculo de 15 anos dos gêmeos que aconteceria mais tarde. Diferente de Sunghee, que crescera se preparando para a guerra, os gêmeos cresceram só no meio da arte. Yanan cantava e atuava, enquanto Yerin, além de cantar, puxara talento para dança do pai.
O ensaio ia rolando, até que chegava um dueto dos dois, acompanhados da orquestra e das crianças que dançavam. A música era muito animada, mas de repente algo parecia errado.
A letra estava diferente.
“Kim Chung Ho e Oh Sehun estão à beira da morte.”
— Espera, para! — gritou Sunghee. — O que foi isso?
— Desculpa, noona, foi o oráculo, não deu para evitar. Parecia importante.
— Tá, mas o que ele disse?
— Eu acho que… — pensava Yerin. — O que foi mesmo? Ah, já sei. Kim Chung Ho e Oh Sehun estão à beira da morte! Espera, esse não é o…
— Eu já volto, crianças! — disse Hoseok, e saiu voando direto para a cozinha.
— Jin Hyung!
— Olha a minha cozinha! Qual foi, Hoseok?
— Seu tio. Precisamos ir.
Os dois voaram na velocidade da luz até a Sala da Eva que já não tinha mais Eva há muito tempo. Hoseok projetou rapidamente.
Era um acidente de carro. Estavam em uma estrada o carro colidiu com outro que vinha em sentido contrário. A colisão foi bem do lado do motorista, Chung Ho, que estava com gravíssimos ferimentos. Sehun estava no carona, com ferimentos moderados, e desesperado.
— Ajussi! Fale comigo, Ajussi!
— Sehun… Obrigado… Por tudo.
Jin até iniciou a cura, mas era tarde demais.
— Não, samchom, não!
— Ajussi! Jebal, não me deixe sozinho! Jebal, Ajussi!
Não houve resposta. Sehun estava chorando desesperadamente. Ele sabia que seu mestre havia partido para o outro lado.
— Que... o Bangtan esteja com você, Ajussi! — disse, em meio a soluços.
Jin usou sua cura no amigo, para curar as feridas mais profundas.
— Gomawo, Jin Hyung.
— Precisamos ir, hyung. Ele já deve estar lá.
Jungkook e Yumi gelaram ao ver Chung Ho. Eles sabiam que, na cabeça dele, ela seria esposa de Jin. Como eles fariam agora?
— Você? Eu conheço você, não?
— Claro, doutor. Eu morava no SNUH, sou a prima de Oh Sehun.
— A menininha com câncer… Michung seu nome, não é?
— Isso mesmo.
— Mas agora, todos vocês me parecem muito familiares. A outra menina, principalmente.
— Eu sou J...Kim Yumi.
— Sabia. Você é quase minha nora! Lembra de mim? Sou tio do seu marido.
— Claro que sim.
Jungkook não conseguia falar nada. Seus olhos azuis deixavam o pânico nítido em sua face.
— Nem posso imaginar quem foi a pessoa maravilhosa que trouxe o senhor para cá — disse Michung.
— Na verdade — disse Abraxas, vindo da sala. — “Eu” até ia tentar adiantar o processo, com uma pitada de compaixão para evitar o sofrimento dos feridos. Mas lembrei-me de uma promessa que fiz a uma amiga há muitos anos. Eu prometi que não faria mais mal à família dela. Não sei se isso inclui o Sr. Kim, mas deveria incluir Oh Sehun.
— Como é que é? O Sehun Oppa?
— Ele estava no carro. Foi um acidente normal, causado por imprudência de um motorista qualquer. Eu não fiz nada, Jung, aliás eu tentei ajudar, mas já era tarde. Pelo menos eu ajudei o Kim a salvar seu primo da morte… De novo.
— Não se preocupe, querida, o Sehun vai ficar bem — assegurou Hoseok, chegando com Jin.
Jin estava apavorado. Não esperava encontrar o tio tão cedo. Agora precisava contar a ele que Yumi não era sua esposa, que Sunghee não era sua filha, que seu amor era Namjoon, e para piorar, que os dois haviam adotado seu filho. Isso tudo no mesmo dia de uma grande festa.
— Samchon… Nós temos muito o que conversar.
Jin chamou Namjoon, que veio com Donghyuk. A conversa foi longa. Chung Ho sentiu um pouco de raiva de Namjoon, por causa da união dos dois. Abraxas não queria interferir, mas foi a própria Michung que usou a empatia para abrir a cabeça e fazê-lo compreender e aceitar tudo que estava acontecendo, e que na Segunda Coreia as coisas eram diferentes.
O caso de Donghyuk era mais complexo. Jin e Namjoon sabiam que essa hora iria chegar, mas Namjoon simplesmente não queria aceitar.
— Porque você teve essa maldita ideia de adotá-lo, hyung? Você sabia que o Chung Ho ia chegar algum dia!
— Calma, Joonie. Nós sempre deixamos isso claro pra ele. Eu sei que ele não é meu filho, é meu primo! E ele também sabe disso! Agora o pai dele finalmente chegou.
— Não, hyung. Ele é meu filho, meu filho!
— Não é, Joonie! Você sabe!
— Eu não quero perdê-lo, hyung…
— Appa… — se pronunciou o pequeno, que tinha uma idade corporal de aproximadamente seis anos. — Vocês dois cuidaram de mim por quinze anos. Eu não vou esquecer isso. Vocês dois também são meus appas, esse tratamento não vai mudar. Não importa o quão longe eu estiver, eu nunca esquecerei de vocês.
Os três se abraçaram por um bom tempo.
— Nós te amamos, filho.
— Também amo vocês.
— Deve haver um jeito de eu morar aqui, meninos. Não me parece certo que vocês tenham se afastar do Hyukie. Não há um jeito de eu morar aqui?
— Aqui na Casa, não — disse Namjoon. — É contra as regras.
— Mas não significa que ele não possa ficar na ilha. Na Casa Daegu mesmo!
— Ah tá. O que um neurologista vai fazer em uma Casa que cuida de crianças?
— Pode não parecer, mas… Eu levo jeito com crianças. E eu tenho outras especialidades, posso receitar remédios para as crianças que ficarem doentes ou feridas…
O casal começou a gargalhar imediatamente.
— Qual é a graça?
— A graça é que seu sobrinho tem poderes de cura!
— Como é que é? Isso é verdade, Jinnie?
— Sim, Samchom. Todos os juízes e descendentes dele têm uma habilidade especial. A do Namjoon por exemplo é eletricidade.
— Eletricidade? Por que o poder do Namjoon seria eletricidade?
— Engraçado o senhor perguntar isso… — disse Namjoon. — Mas bem, isso não importa agora, NÉ NÃO, JIN HYUNG?
Jin concordou, e sussurrou um “miane” sutil por tocar no assunto.
— Samchom, eu tenho habilidades curativas, mas confesso que cuidar do Juízo, da cozinha, do jardim, do Donghyuk e das crianças da Casa Daegu é tipo… Cansativo demais. Então, se o senhor quiser, pode ser enfermeiro na Casa Daegu.
— Mas o Yoongi Hyung e a Sunghee precisam aceitar — lembrou Namjoon.
— A Sunghee… Ainda vou demorar para me acostumar que ela não é minha sobrinha neta. Vou demorar para me acostumar com tudo, na verdade.
— A Sunghee ainda tem um parentesco com você. Fraco, mas tem. Afinal, você é o tio do tio dela.
— Você é tio dela, Jinnie? Que história é essa?
— A Yumi pode não ser o amor da minha vida, mas temos uma ligação forte. Ela é minha irmã gêmea de morte, porque nós morremos juntos.
Jin preferiu não mencionar a linha passada.
— Interessante.
Os três conversaram mais um pouco, até que Michung levou Chung Ho para conhecer as duas Casas, e Hyukie foi junto. Namjoon ainda estava muito triste.
— Ei, olha pra mim.
Namjoon atendeu ao pedido do marido.
— A Casa Daegu é cheia de crianças. Eu sei pelo menos alguma delas já deve ter pais mortos que seguiram outros caminhos. Alguma delas deve ficar sem pais pra sempre. Podemos adotar outra criança, meu amor. O que você acha disso?
— Eu queria o Hyukie. Mas ele não é nosso. Podemos tentar, então.
— Ótimo, querido. Amanhã a gente pede aos gêmeos para nos ajudarem com isso. Aigoo… Os gêmeos… A comida, Joonie! Aigoo, eu nunca vou conseguir terminar a tempo!
— Eu te ajudo, bae.
— Não precisa, Joonie…
— Precisa sim, e mesmo se não precisasse, eu quero ficar perto de você. Eu preciso. Eu só tenho você agora.
— Isso não é verdade. Mas eu entendi o que quer dizer. Vamos logo, então.
O casal foi correndo para a cozinha, mas chegando lá, se depararam com outro casal tentando fazer massa de alguma coisa.
— Posso saber quem foi que autorizou os senhores a entrar na minha cozinha?
— A minha intuição de irmã. Achei que fosse precisar de ajuda, então estou adiantando a massa dos canapés, que é algo que sei fazer. E trouxe o Jungkook Oppa para ajudar.
— Ai Yumi, você não tem preço! Vocês dois.
— E não esqueçam que nós três entramos bem no comecinho! — disse Jungkook. — Bora adiantar essa parada aí!
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