Memórias

5 Reconhecendo


Notas iniciais
Olá senhoritas, como estão? Espero que bem e ansiosas por este capítulo. Tomara que vocês gostem bastante! Boa leitura!

Oito meses.

Hoje fazia exatamente oito meses desde que abri meus olhos para o desconhecido e que descobri sobre meu acidente.

Faz oito meses que vivo nessa imensa confusão sem saber ao certo quem são as pessoas a minha volta, tendo que acreditar que eu sou quem eles dizem que sou e tendo que me adaptar a uma vida que mesmo que seja minha, me era estranha e diferente. Era como se eu fosse o expectador de um filme com a minha história, mas no fim das contas, eu até que estava me saindo bem em tentar retomar tudo.

Minha família e eu nos damos muito bem e eu estava cada vez mais me sentindo um Cullen de verdade, me dando maravilhosamente bem com todos os outros: meus sobrinhos, meus irmãos e cunhadas, meus pais. Graças às muitas horas de estudo com Tanya, eu sentia que estava dominando novamente o juiz que havia em mim e que em breve poderia voltar a ativa outras vez, bom, pelo menos para tentar pegar o jeito.

Apenas meu casamento não ia assim tão bem.

Tanya era uma mulher carinhosa e a gente se dava bem, mas eu sentia que alguma coisa não estava... certa. Era como se a nossa relação não fosse natural de algum modo. Isso se devia tanto pelo desastre na cama da semana passada quanto por que, apesar de todos os meus esforços, eu ainda não conseguia ver Tanya como a mulher que deveria estar ao meu lado, como uma esposa, uma alma gêmea como ela dizia que éramos.

E sem falar que eu não consegui tirar aquela mulher de minha cabeça.

Oito meses tinham se passado desde que acordei naquele hospital e a vi pela primeira e última vez. Não havia sequer um rastro dela, uma única pista de que aquela nossa conversa realmente existiu.

Em alguns momentos eu cheguei a pensar que apenas sonhei com um anjo ao lado da minha cama que sorria para mim e me chamava de senhor e que tudo não passou disso, um sonho, um sonho que não saia de minha cabeça. Então eu logo me lembrava da conversa que tive com Dr. Black que ele me falava dela. Essa era a única prova de que tudo foi real.

Eu voltei a algumas consultas nesse meio tempo, fiz vários exames e sempre que ia ao hospital eu tinha esperanças de vê-la e poder finalmente acabar com todo o suspense, mas ela nunca estava lá, nunca estava em lugar nenhum. Aproveitei todas as oportunidades que tive e perguntei ao meu médico sobre ela, já que ele era a única pessoa que também a viu, que sabia da existência dela, mas ele nunca teve notícias para mim, o que me deixava profundamente frustrado e cansado de não saber nada sobre ela.

Ela.

Aquela mulher de olhos castanhos ainda dominava meus pensamentos e fazia com que eu sonhasse com ela todos os dias.

Todos os dias.

E a todo o momento ocupando o lugar que deveria ser de minha esposa em minha mente, mas que eu só via ela.

Parei de encarar a mim mesmo no espelho, desistindo de tentar encontrar as respostas que tanto me atormentavam e resolvi ir para a cozinha, a fim pegar tudo o que eu precisava e passei por Tanya na sala lendo um livro distraidamente.

Minha esposa ficou profundamente ofendida com o acontecido na ultima semana. Eu me desculpei e quis conversar com ela, entender seu ponto de vista e colocar o meu, mas ela não quis, apenas mudava de assunto se afastava de mim todas as vezes. Eu tentei reverter essa situação, porem desisti logo quando vi que ela não colaborava por estar muito magoada com o que aconteceu, por isso não me ajudava em nada a nossa aproximação, sem falar na mulher em minha mente que me impedia de insistir.

Era estranho pensar que o sexo que nos uniu quando cheguei em casa estava nos separando agora.

Esse silencio todo estava me fazendo pensar ainda mais sobre todo esse tempo de vida nova. Não era possível que nossa vida sexual se resumisse aquele marasmo todo e que eu fosse feliz com aquilo, afinal, se eu não aguento por oito meses, imagina por anos? Eu não poderia sobreviver a isso tão feliz quanto ela dizia que éramos e por isso, mais uma vez aquela mulher vinha a minha mente.

Pela forma com que ela disse que me conhecia, pelo jeito que mexeu comigo seria possível que teríamos alguma coisa? Eu seria capaz de cometer um adultério?

Eu não sei.

Por mais que parecesse lógico eu procurar fora de casa o que eu não tinha aqui, não sei se teria coragem de fazer isso com uma mulher tão dedicada como Tanya. Por que enganá-la com outra pessoa se seria mais fácil cada um ir para o seu lado?

Sem ter outra alternativa para escapar do clima ruim em minha casa eu passava meus dias com meus pais e o tempo extra que eu tenho estado lá, além dos fins de semana, acabava atrapalhando um pouco a rotina deles. Esme, por que ficava esperando por mim, não ia trabalhar para passar o dia comigo e eu ficava lá, comia e bebia com eles e por mais que ela jurasse que estava tudo bem e que estava muito feliz com minha presença, eu sabia que o dinheiro que ela estava deixando de ganhar, mais uma boca para alimentar constantemente a fariam ter problemas no fim do mês.

Ela não me deixava ajudá-los e então encontrei uma maneira oculta para fazer isso. Todos os dias eu chegava com ingredientes diferentes para que ela cozinhasse algo para mim. Eu falava que vi a receita em algum lugar e queria experimentar e ela o fazia com gosto, feliz em realizar um desejo meu, mas no fundo eu realizava o desejo deles levando coisas que provavelmente eles nunca viram na vida. Meus sobrinhos eram os que mais adoravam, sem falar em Rosalie que já com seus seis meses de gestação pedia tudo o que lhe dava vontade e eu ficava feliz em ajudar.

Sorri pensando na alegria das crianças quando vissem a quantidade de doces que eu estava levando para eles, bem isso se Rose lhes deixasse algum.

Reuni tudo o que precisava e fui ao encontro de Tanya que ainda lia na sala.

–Pode me levar a casa de meus pais? — perguntei a ela. Eu ainda não tinha me atrevido a dirigir depois do acidente, mas estava pensando que já estava mais do que na hora de fazer isso, afinal era terrível ter que depender dela para tudo.

–Vai lá outra vez? — eu assenti enquanto ela colocava o livro de lado e suspirava — Você tem me deixado muito sozinha, Edward. Por que não fica um pouco comigo hoje? Eu sinto a sua falta.

–Eu prometi que iria, eles estão me esperando. Por que você não vem comigo? – perguntei mais uma vez na esperança de melhorar nossa situação e, como sempre, ela fez uma careta antes de responder.

–Eu não sei se essa é uma boa ideia, meu amor.

–Por que não?

–Seus irmãos não gostam de mim, seus pais não querem me ver nem de longe, quanto mais dentro da casa deles...

–Eu quero estar com eles, sabe que eu os amo e não consigo mais ficar longe — ela assentiu de leve — você é minha esposa e se somos felizes juntos — como diz que somos, completei mentalmente — eles têm que entender isso.

–Eu prefiro não criar caso, é melhor que eu só te leve e vá buscar, como sempre.

–Por mim tudo bem, mas eu quero que nós possamos viver em paz, vamos esquecer tudo o que aconteceu, finja que teve amnésia também — ela sorriu visivelmente tentando esconder sua reprovação sobre o assunto, mas sem muito sucesso.

–É muito difícil, amor, só quem consegue esquecer é quem sofreu um acidente como o seu. Tudo o que eu ouvi, tudo o que passamos não foi nada fácil.

–Mas você bem que poderia tentar, não é? Por mim, por nosso casamento?

–Como eu posso negar algo para você quando me pede assim, meu amor? — ela suspirou me olhando — só me dê um tempo, vou tentar.

–Eu não entendo por que você hesita tanto em querer ajeitar tudo.

–Eu disse que é complicado, querido...

–Já me cansei disso, por que não me conta logo o que aconteceu, o porquê desse receio todo em se reconciliar com a minha família?

–É que já estamos estremecidos demais sem isso e eu não sei o que seus irmãos possam ter dito a você. Não quero que isso nos afaste ainda mais.

–Você não está ajudando, Tanya — disse tentando manter minha calma — você disse que faria de tudo para me ajudar a recuperar a memória...

–Sabe que eu faria, que eu daria minha vida para que você se lembrasse de mim outra vez, de nosso amor, mas acredito que esse não é o caminho certo.

–Você sabe o que é para mim, Tanya, o que significa? Eu estou vivendo assim há oito meses e eu não aguento mais!

–Eu sei querido, mas precisava ter paciência, uma hora ou outra tudo vai se ajeitar — respirei fundo cansado de ouvir isso e fui para a porta.

–Você vem? — Ela assentiu fechando o livro e me acompanhou até a garagem em silêncio.

.

.

–Como foi hoje? — Tanya me perguntou carinhosamente quando eu entrei no carro, assim que me despedi de minha família. Ela sorria calmamente como se nada tivesse acontecido mais cedo.

–Foi incrível — respondi passando o cinto — eu adoro estar com eles.

–Que bom querido, esse tempo com sua família tem mesmo feito muito bem a você, apesar de eu ter sentido muito a sua falta — sorri para ela sem querer voltar ao assunto anterior.

–E você, o que ficou fazendo?

–Eu fiz algumas compras, separei algum material para estudarmos mais essa semana, já que faz um tempo que a gente não estuda. O que você acha?

–Por mim tudo bem — dei de ombros e seguimos em silêncio até a nossa casa. Quando entramos eu queria apenas ir para o meu quarto, tomar um bom banho e depois dormir, mas antes que eu pudesse colocar meus planos em prática, Tanya me chamou de volta para me sentar ao lado dela.

–Querido, eu andei pensando que já passou da hora de você voltar para o fórum — franzi o cenho sem conseguir entender de onde isso veio, completamente surpreso e ela ficou apenas esperando a minha resposta.

–Eu... Não sei se estou pronto para isso.

–É claro que está, nós estudamos bastante e como você disse, o homem que é, o juiz que sempre foi está ai dentro de você e precisa apenas de uma oportunidade para voltar a tona.

–Acha mesmo? — perguntei depois de remoer um pouco sobre isso em silêncio.

–Confie em mim, vai te fazer bem, Edward. Eu sei que você não aguenta mais ficar em casa e eu te conheço o suficiente para entender isso. Você é um homem muito ativo, com a mente muito ativa e, talvez, se tiver outra vez uma rotina de sair de manhã e voltar a noite te dê mais animo e faça sua cabeça voltar ao normal — ela se aproximou tocando meu rosto — talvez ajude que você se lembre de mim, do nosso amor.

–Eu não sei.

–Pense um pouco sobre isso, Edward, se você quiser já podemos ir amanhã. Ficarei com você, vai dar tudo certo — eu ia responder, mas ela me impediu tocando meus lábios — pense. Nos falamos amanhã.

Ela me olhou esperançosa antes de beijar minha bochecha e sumir para o nosso quarto.

Eu fiquei ali mais um pouco pensando no assunto, percebendo que isso pode até ser uma boa ideia e resolvi que iria, afinal, eu estava pensando mesmo que já estava na hora.

Nós nos levantamos bem cedo no dia seguinte, depois de mais uma noite dormindo cada um em seu lado sem ao menos encostar um no outro.

Comecei o dia tomando um longo e relaxante banho depois eu fui para o closet pensando em qual terno eu usaria e fiquei muitos minutos assim, sem saber o que vestir.

–Ei... Amor? — olhei para trás e vi Tanya com os braços cruzados olhando para mim com um ar divertido — o que você está fazendo?

–Escolhendo o que vestir.

–Isso quer dizer que vamos para o fórum hoje?

–Assim que eu encontrar algo.

–Eu sabia que você iria. Meu Edward nunca dispensa um desafio — ela me deu um selinho e sorriu — quer alguma ajuda?

–Por favor.

–Você sempre foi muito vaidoso com esses ternos, mas está parecendo uma moça que não sabe o que colocar para um primeiro encontro — ela riu e eu a acompanhei.

–No fundo é isso mesmo que eu sinto.

–Não fique assim, Juiz Cullen, o senhor sabe muito bem o que fazer e todos confiam em você — ela apertou minha mão antes de passar por mim e escolher um terno preto muito elegante e o entregar para mim — vista esse, fica lindo nele — eu agradeci fazendo logo o que ela disse.

Tomamos um café da manhã bem silencioso por eu ainda estar bem nervoso com o que aconteceria em algumas horas e Tanya respeitou isso. Logo saímos de casa e ela foi dirigindo para o centro da cidade, mas no meio do caminho ela parou no acostamento para atender o celular.

–O que foi? — perguntei depois de ouvi-la discutir com alguém.

–Terei que voltar para casa agora, teve um probleminha com um vaso novo que eu comprei e tenho que resolver.

–Mas agora? Estamos na metade do caminho.

–Eu sei querido, mas vai ser apenas por alguns minutos. Eles querem que eu assine e se eu não for agora o devolverão e eu não posso correr esse risco, comprei de presente para a minha melhor amiga, não vai dar tempo de comprar mais nada.

–E o que eu faço?

–Ora, volte comigo.

–Não, eu já estou aqui quero ir em frente agora.

–Por que não faz o seguinte, eu te deixo aqui e você segue para lá. Eu te encontro em alguns minutos.

–Tudo bem — ela me explicou onde era, faltava apenas algumas quadras para chegar e eu já conhecia o prédio pelo lado de fora e então não havia erro.

Eu caminhava rapidamente concentrado apenas em como proceder agora que estava sozinho quando algo que senti me fez parar de repente, quase atropelando algumas pessoas que vinham atras de mim.

Foi uma sensação estranha, como se houvesse algo me chamando, gritando por mim, da mesma forma como foi quando sai do hospital. Era uma sensação muito forte, quase como seu eu fosse um pedaço de metal inútil atraído por um imã poderoso. Então, eu decidi procurar pelo que estava me chamando como eu não fui capaz de fazer na outra ocasião.

Passei pelo fórum sem entrar e parei em frente a uma cafeteria esperando o sinal abrir para que eu pudesse seguir em frente, mas algo me fez olhar para dentro daquele lugar.

Foi então que eu vi o que fez meu coração bater mais forte.

Eu vi, por trás da vitrine, um par de olhos castanhos que olharam para mim por uma fração de segundo e depois baixou a cabeça rumando para o fundo da cafeteria.

Não houve reconhecimento nenhum da parte dela, foi rápido demais para haver, mas eu sabia quem era, afinal aqueles olhos não saiam de minha cabeça nem por um instante, tanto que eu os reconheceria não importa o tempo que eu olhasse para eles, não importa a distancia.

Era ela, o meu anjo. Eu sabia disso.

Sem pensar muito, entrei na cafeteria e segui até onde ela tinha acabado de se sentar com uma xícara enorme de chocolate, alguns biscoitos e um livro. Fiquei alguns minutos parado a porta apenas observando, estasiado por finalmente encontrá-la, por tê-la ali, em minha frente.

Ela estava alheia a tudo com um livro grosso na mão, a imagem da paz, do sossego, da tranquilidade. Sem que eu percebesse o que fazia, hipnotizado por aquele sorriso, fui caminhando em direção a ela e parei bem a sua frente chamando a atenção daquela linda mulher que antes olhava pela janela.

Quando aqueles olhos tão impressionantes olharam para mim, eu senti como se o mundo tivesse voltado a girar normalmente, como se eu tivesse encontrado o interruptor que fosse capaz de iluminar tudo a minha volta, fazendo com que a luz me deixasse ver outra vez.

Foi então que aquela linda senhorita sorriu, fazendo com que eu perdesse o fôlego diante de tamanha beleza.

–Finalmente, senhor — ela disse por fim, depois de longos minutos me encarando.

–Está esperando por alguém? — perguntei quando consegui respirar normalmente.

–Só pelo senhor — suspirei aliviado e me sentei mesmo sem ter sido convidado ainda atordoado pela minha sorte, sem acreditar que finalmente eu estava ali, diante da mulher que esteve presente em meus sonhos desde a primeira vez que eu abri meus olhos.

–Eu não sabia onde te encontrar... Eu... eu estava perdido naquele dia e foi tudo tão rápido, mas você nunca voltou, nunca me deu uma oportunidade para te conhecer...

–Eu estive lá todos os dias, meu senhor, só não pude me aproximar por que sua família estava por perto e não sabia o que dizer se eles reparassem em mim...

–Por que minha família não pode saber sobre você?

–Eu não sei se eles sabem, o senhor nunca me disse nada e eu achei melhor que eles não me vissem. É complicado...

–Você deveria ter me dito onde te encontrar.

–Sabia que não precisava, eu tinha certeza que o senhor iria me encontrar novamente, de um jeito ou de outro.

–Sabia que eu te encontraria aqui? É onde nos encontramos? — eu franzi o cenho pensando no assunto — Nós nos encontramos regularmente?

–Aqui é onde eu espero pelo senhor para o fim de semana...

–Fim de semana?

–Sim senhor, é quando nos encontramos. O senhor escolheu aqui por que é perto do seu trabalho, de minha casa, longe da sua — ela sorriu fazendo com que um sorriso involuntário brotasse em meu rosto — é o lugar ideal.

–Ideal para que?

–Ideal para a gente — aquele sorriso não estava me deixando pensar com clareza e eu me dei conta de que até agora não tinha feito a pergunta mais importante, a que me atormentava há tanto tempo.

–Por favor, me diga, quem é você?

–Eu sou Isabella, senhor, a sua Bella.

–Bella? — perguntei sorrindo. Não sei por que, mas se eu fosse dar um nome a ela seria esse, combina perfeitamente.

–Sim, senhor.

–E o que você é minha?

–Eu sou sua.

–Minha? Como assim?

–Eu sou sua, senhor. Em todos os sentidos — eu não estava conseguindo entender por estar hipnotizado com aquele sorriso tímido, com aqueles olhos tão lindos que me envolviam como se eu estivesse prestes a me afogar naquele mar imenso parecendo ser feito de chocolate.

–Fale mais sobre isso — pedi atordoado.

–O senhor não se lembra?

–Eu ainda não consigo me lembrar de nada.

–Então eu vou lhe contar. Nós nos conhecemos quando eu tinha catorze anos... — eu arregalei os olhos percebendo o quanto ela era jovem.

–E quantos anos tem agora?

–Dezenove — respirei. Pelo menos ela não era menor.

–E como foi que nos conhecemos, Bella?

–Eu eu morava com meu padrasto e minha mãe que se drogavam e bebiam demais. Eles faziam tudo isso na minha frente, me induziam a usar, principalmente quando os fornecedores de drogas iam até a nossa casa...

–Eles fizeram alguma coisa com você?

–Coisas que não vale a pena lembrar — percebi que ela se esforçou para manter o sorriso e suspirou antes de continuar — mas por pura sorte do destino ou por Deus, se preferir, eu fui levada para a vara da família, perante ao juiz Cullen — ela deu um pequeno sorriso olhando para mim — que foi essencial em minha vida, me salvou daquele inferno e cuidou de mim.

–Então eu sou uma espécie de tutor? — perguntei com o cenho franzido me sentindo envergonhado pela onda de decepção ao ouvir isso.

–Acho que sim ou foi um dia — ela sorriu mordendo o lábio inferior me deixando doido para fazer o mesmo.

–Eu fui? Então não sou mais? — ela corou e olhou para baixo me deixando ainda mais frustrado — Garota, me conta logo, estou enlouquecendo aqui.

–Esse não é o lugar para conversarmos sobre isso — enquanto ela falava meu celular tocou e eu o ignorei concentrado apenas em Bella.

–Mas precisamos falar sobre isso. Não sabe o quanto... Eu quase enlouqueci pensando em você esse tempo todo e agora que eu te tenho em minha frente, você diz que a gente não pode conversar?

–Nós precisamos sim, senhor, e conversaremos. Eu só acho que aqui não é um bom lugar.

–Então onde? — perguntei ignorando a nova chamada em meu celular — Diga-me onde é o lugar certo?

–Eu posso fazer um jantar para o senhor em meu apartamento e ai poderemos conversar a vontade. O que acha?

–Seja como for, mas que seja logo.

–Pode ser essa noite, senhor — ela disse depressa — se estiver tudo bem.

–Para mim está. Eu mal posso esperar para entender tudo...

–Tudo o que? — suspirei e observei as mãos de Bella que estavam sobre a mesa com os dedos entrelaçados. Eu tive o impulso de tocar e segurá-las entre as minhas e foi o que eu fiz.

Aquele toque deixou todo o meu corpo estranho, era como se ele a reconhecesse de algum modo como o certo para mim. Eu fiquei extasiado com isso e por finalmente estar na frente dela, olhando em seus olhos, tocando em sua mão, tanto que demorei tempo demais para responder a pergunta.

–Quero entender essa... Essa falta que você fez em minha vida sem eu sequer saber quem você é.

–Eu também senti saudades, meu senhor, o tempo todo. Não sabe a alegria que sinto em ter o senhor de volta, vivo, aqui — eu sorri com ela segurando forte sua mão ainda sem me importar com o celular que gritava em meu bolso.

–Quero todos os seus contatos, você não vai mais sumir da minha vida.

–Eu não sumi senhor — ela sorriu corando — eu estava sempre por perto, mas não conseguia te ver. Mesmo assim eu sempre mandava um recado para o senhor, mas acho que Jacob nunca lhe deu.

–Jacob? O meu médico?

–Sim, senhor. Eu pedi a ele que desse recados meus todos os dias.

–E de onde você o conhece?

–Eu... eu o conheci no hospital, senhor — Bella parecia bem receosa ao confessar, suas mãos ficando frias entre as minhas — desde quando sofreu o acidente eu ia ao hospital para ficar com o senhor, mas sua família estava sempre por perto e eu ficava escondida esperando por uma oportunidade. Ao passo que o tempo foi passando e as visitas foram ficando mais espaçadas por que o senhor estava em um quadro estável e eu finalmente pude me aproximar e ficar ao seu lado.

–E onde Jacob entra nisso?

–Sempre tive medo que alguém pudesse me ver ali e toda vez que ele ia te ver eu me assustava. Ele foi muito gentil comigo e sugeriu que eu sempre usasse branco, assim se alguém me pegasse eu poderia simplesmente fingir que trabalhava ali.

–Você e ele estão juntos?

–Não, senhor, é claro que não.

–Então onde é que se viam todos os dias para que me enviasse os recados que disse?

–Eu descobri, enquanto ainda estava em coma, que nós moramos no mesmo prédio e depois que acordou e eu não pude mais me aproximar, Jacob me dava sempre notícias suas. Ele foi muito bom para mim e se tornou um amigo por ter me deixado ficar perto do senhor. A única coisa ruim é que pelo visto ele não passava meus recados nem os beijos que eu lhe mandei — a timidez que ela disse isso era adorável e me fez esquecer o desconforto de imaginá-la com outro cara.

–Por que me enviaria beijos? — perguntei sorrindo com ela.

–Por que sei que o senhor gosta deles — ela disse sorrindo com o rosto completamente vermelho e eu me senti ainda mais encantado, mais maravilhado com ela me esquecendo do mundo ao meu redor.

–Estou louco para conhecê-la, para saber tudo sobre você...

–Sobre nós? — perguntou sorrindo.

–Sim, sobre nós. Por que não podemos resolver isso agora?

–Por que tem alguém obviamente louco para falar com o senhor — ela disse se referindo ao meu celular que não parava de tocar.

–Não me importo com mais nada. Vamos para a sua casa agora?

–Permita que eu lhe dê uma sugestão, meu senhor?

–Fale.

–Pelo que eu vejo, o senhor estava indo para o trabalho — ela apontou para o meu terno — e obviamente querem muito falar com o senhor. Atenda o telefone, siga o seu dia e me encontre depois. Vamos ter muito tempo para nós.

–Não sei se vai dar certo. Eu não sei se serei capaz de me concentrar em alguma coisa esperando o momento de conversar com você de novo.

–Eu também, senhor. Esperei muito por isso, para estar aqui de volta, para nos encontrarmos de novo, mas o senhor me ensinou que paciência é um dom e se pode ganhar muito em esperar.

–Tudo bem, se eu disse é por que deve ser verdade. Onde e a que horas eu encontro você? — Bella me deu todas as coordenadas para encontrar sua casa, seu telefone e celular — certo. Eu estarei em sua casa ás seis.

–Estarei contando os minutos para isso, meu senhor- essa é claramente uma despedida, mas eu não conseguia ir embora, apenas olhando para ela, tocando em suas mãos tentando acreditar que ela é mesmo real.

–O que foi? — perguntei quando ela riu.

–É que é estranho dizer ao senhor o que fazer, eu nunca pensei que faria isso.

–É só o que está acontecendo ultimamente — desabafei — todo mundo me dizendo o que fazer, como era a minha vida, quem eu era. Eu não aguento mais isso.

–Posso imaginar, meu senhor. Não deve mesmo estar sendo fácil passar por isso. O senhor precisa retomar o controle de sua vida, como sempre teve, assim vai se encontrar novamente.

–Isso não é uma coisa fácil de se fazer...

–É sim. Isso é parte do que o senhor é, sua natureza. Mesmo que não se lembre, isso está dentro do senhor.

–Eu não sei como fazer isso — o sorriso dela aumentou consideravelmente.

–Eu sei de um lugar que pode ajudá-lo.

–Onde?

–Eu lhe direi mais tarde — o telefone em meu bolso não parava de tocar e Bella suspirou — agora eu acho que o senhor tem mais coisas para resolver.

–Tudo bem, mas eu mal posso esperar para vê-la novamente, esta noite.

–Eu também não, meu senhor. Eu também não.

Notas finais
E então? O que acharam? Contem para mim, por favor, por favor! Eu sei que demorei um pouco, mas foi a correria de fim de semestre. Agora eu estou livre e postarei mais rápido, promessa! Bem, eu espero por vocês no próximo capítulo em breve. Mil beijos