Memórias
29 Ouvindo
Notas iniciais
Entrei em meu quarto carregando uma Bella praticamente apagada. Era domingo à noite e minha senhorita tinha suas forças esgotadas pelo fim de semana intenso e delicioso que tivemos no quarto de jogos. Acredito que por esse motivo minha senhorita sorria abraçada a mim, mesmo parecendo exausta, eu sabia que estava se sentindo muito bem comida, mas acima de tudo feliz. Na verdade, nós dois estávamos muito, muito felizes.
O final de semana foi recheado de jogos de prazer. Ter o controle de seu corpo ao vê-la se excitar sob meu toque, se contorcer de desejo e só gozar ao meu comando, a minha vontade, caso eu desejasse enquanto ouvia seus doces gemidos – quando eu permitia – me faziam sentir o que eu realmente era: o senhor de seu corpo e de seu prazer. As marcas que ficavam em seu corpo eram provas concretas do meu poder sobre ela, da impetuosidade de nosso sexo, do tesão desenfreado que sentíamos. Cada um desses itens só fazia tudo aquilo ser mais prazeroso e excitante a tal ponto que parávamos para comer e descansar apenas o necessário para repor nossas forças.
Mais do que nunca, enquanto eu levava Bella de volta para o nosso quarto depois de encerrarmos nossas atividades do fim de semana e pensava em tudo o que tínhamos compartilhado naqueles dias, eu sabia que aquele era meu lugar e por mais que eu sempre tenha estado fascinado pelo quarto de jogos pelo prazer que ele me proporciona, o que eu mais gostava era os extremos. Da mesma maneira que eu a transformava em meu objeto de prazer, eu tinha um extinto de carinho e proteção que tomava conta de mim por completo quando eu a via ajoelhada a minha frente.
Eu me sentia pronto para me entregar por completo, como ela fazia.
Estava claro para mim que o quarto de jogos não mexia apenas com o meu tesão, mas mexia muito com meus sentimentos também, sempre, desde a primeira vez que pisei lá e me senti tão ou mais entregue que minha submissa, exposto como ela com os meus sentimentos a flor da pele, meu coração tão desnudo quanto ela sempre ficava naquele lugar, tanto que era nessas horas que eu podia entender o que sentia por ela.
Meu coração acelerou consideravelmente enquanto eu me recordava de alguns pensamentos que tive ao olhar para a minha submissa adormecida durante o fim de semana e assim que aqueles lindos olhos cor de chocolate pousaram nos meus, senti que a cada momento esses pensamentos pareciam se transformar em algo físico, sentimentos concretos que estavam cravados em mim.
Respirei fundo e sorri para Bella enquanto eu entrava no banho com ela. Nós sorriamos um para o outro e mesmo sem palavras nós conversávamos, como foi durante todo o fim de semana. Naquele banho naquela banheira nos acariciávamos incapazes de nos separar e ali, mais uma vez eu me sentia seu dono, provendo suas necessidades, cuidando dela que mal se aguentava acordada. Sendo assim, não demorei mais que o necessário e tão logo estávamos na cama, Bella adormeceu com o corpo enroscado no meu.
O lindo rosto adormecido de minha Bella foi a última coisa que eu vi antes de adormecer e a primeira coisa que vi quando abri meus olhos no dia seguinte. Mais uma vez imaginei estar sob a vigia de um anjo que dormiu em serviço, o meu anjo que estava em minha vida para me trazer a felicidade, pra me ensinar a amar.
Eu me senti novamente como me senti naquela época, arrebatado pela beleza daquela moça, sentindo meu coração disparar, cheio de admiração e de amor, tanto que não resisti e lhe beijei nos lábios uma vez, depois outra e outra até finalmente ver seus olhos abertos.
—Bom dia – sorri depois de beijar seus lábios mais uma vez – eu adoro acordar ao seu lado sabia? Ver esse sorriso lindo de manhã é a melhor maneira de começar o dia – toquei seu lindo sorriso, maravilhado como sempre ficava.
—Não mais do que eu. Eu adoro te ter ao meu lado sempre, meu senhor...
—Ei... o fim de semana acabou, somos só você e eu agora, Edward e Bella... – sorri com os lábios nos dela – o casal apaixonado.
—Nós sempre somos o casal apaixonado, Edward.
—Até no quarto de jogos? – perguntei no mesmo tom baixinho que ela usou e a vi assentir com os olhos fechados adorando saber que ela sentia o mesmo que eu.
—Sim. Nós somos porque mesmo com toda a intensidade do nosso sexo selvagem e cheio de parafernálias, mesmo com as ordens que você tanto se preocupa que nos afasta e deixa frio nosso relacionamento, mesmo com tudo isso, a gente sempre, sempre faz amor – continuei olhando para Bella sentindo meu coração disparar com suas palavras sussurradas e quando não respondi, ela abriu os olhos para olhar para mim – não é?
—A gente faz amor até quando não estamos na cama, fazemos amor até quando não há sexo envolvido – respondi assentindo e acariciei seu rosto, olhando com carinho para seus olhos – é assim que você se sente?
—É exatamente o que eu sinto. Imagino que isso tenha a ver com a forma com que somos ligados...
—Talvez... – gaguejei – talvez não seja apenas como dominador e submissa como você disse naquele dia, nossa ligação tem mais a ver com almas gêmeas, como meu coração disse no dia em que acordei, como eu tive certeza depois de estar com você pela primeira vez – eu brincava com o anel em seu dedo enquanto olhava para seus olhos que me encaravam fixamente, me fazendo desejar poder saber o que se passava em sua mente – é o que eu sinto de todo o meu coração.
—Eu também, Edward. Eu sempre me senti assim.
—Verdade? – perguntei baixinho, quase sem folego vendo-a assentir – e por que... por que me disse que só me via como seu dominador?
—Para mim não existe diferença entre a ligação entre dom e sub com a de almas gêmeas, pelo menos não em nosso caso. O que nós temos é muito, muito especial...
—Especial o suficiente para ser para sempre? – percebi que minha senhorita prendeu a respiração e eu me aproximei ainda mais me enroscando ao seu corpo nu esperando por sua resposta.
—Não vejo como isso possa ter um fim – sussurrou de volta sem desviar os olhos dos meus e seu sorriso me fez lembrar da maneira como ela falou sobre nosso futuro com o Charlie há alguns dias.
—Então o que disse ao seu tio sobre se casar e ter filhos em breve é verdade, é mesmo o que quer para nós? – ela sorriu mordendo o lábio por um instante antes de responder.
—Há algum tempo, eu nunca tinha pensado em nós dois desse jeito, mas agora não consigo imaginar um futuro diferente e... tudo o que eu mais quero é que ele se realize, o mais breve possível.
Tomei os lábios de minha senhorita em um beijo cheio de paixão. Depois dessa pequena conversa, ficou completamente claro tudo aquilo que esteve em minha mente no fim de semana. O que eu sentia por ela não era uma simples paixão, uma profunda admiração, forte encantamento ou apenas um desejo avassalador. Era muito mais forte, mais concreto e se tornava... cada dia mais.
O que eu sentia por Bella era amor. O mais puro e verdadeiro amor que eu poderia sentir por alguém.
Abraçado ao seu corpo nu, sentindo seu coração bater tão forte e rápido quanto o meu, tudo o que eu desejava era contar a ela sobre o que eu estava sentindo, mas eu achei que poderia ser cedo demais. Bella acabou de perceber que eu poderia ser mais que seu dominador e então eu não poderia despejar tudo isso em cima dela, não de uma só vez, não assim tão de repente.
Eu precisava fazer diferente e antes de dizer qualquer coisa, eu estava disposto a mostrar a Bella o quanto eu a amo, a faze-la perceber que eu a amava antes de dizer e assim fazer com que ela me amasse de volta. Eu queria conquista-la, como ela disse ao seu tio que eu tinha feito, mas queria que fosse de verdade, queria fazer do jeito certo dessa vez e muito mais do que conquistar seu corpo, seu desejo, eu queria conquistar seu coração. Queria que dessa vez fosse para sempre.
Estava disposto a começar a mostrar meu amor a ela naquele exato momento, mas meus olhos encontraram com o relógio e eu percebi que não teria tempo essa manhã e que precisava me apressar se não quisesse me atrasar para meu primeiro julgamento.
—Não queria me afastar de você nunca, hoje principalmente, mas eu preciso ir.
—Se você ficar, não vai se arrepender – falou baixinho e beijando meu peito enquanto sua mão se movia em direção ao meu pau me fazendo respirar fundo e segurar sua mão atrevida.
—Sei que não, eu nunca me arrependi de ficar com você... mas eu preciso trabalhar. Hoje é o meu primeiro julgamento e estou ansioso para isso. Venha, vamos tomar um banho.
Tomamos banho e depois café da manhã juntos cheios de uma nova cumplicidade que foi fortalecida pelo quarto de jogos e ainda mais deliciosa para mim depois de entender o que sinto por ela. Nós conversamos bastante durante o tempo todo, uma vez que era a primeira oportunidade de conversarmos sobre a visita de seu tio. Bella sorriu o tempo todo enquanto me contava o quanto ficou emocionada em reencontra-lo depois de tanto tempo e em como estava ansiosa para vê-lo novamente, para que Charlie fizesse parte de sua vida, de nossa vida.
O assunto rendeu até que chegamos em frente as casas de minha família. O sorriso de Bella sempre presente, seus olhos brilhantes de alegria, tão diferente da menina que conheci quando acordei, mas ao mesmo tempo, tão parecida, tão minha, tanto que quando paramos em frente à casa de Emmett eu desci do carro puxando Bella para um abraço.
—Esse fim de semana passou tão depressa. Não sei se estou pronto para me separar de você.
—Tem razão, foi tudo tão intenso, tão gostoso. Não queria que acabasse – ela me puxou pela gravata e me beijou com urgência me deixando ainda mais resistente em deixa-la.
—Ah... ai estão vocês – interrompemos nosso beijo ao ouvirmos meu irmão. Emmett apareceu na porta de sua casa com a enorme Rosalie ao seu lado – eu pensei que você tinha debandado outra vez.
—E por que pensou isso? – perguntei sem me afastar um milímetro sequer de minha senhorita.
—Vocês dois desapareceram! As crianças perguntaram pela Bella o tempo todo e a mãe ficou esperando por você. O que foi que aconteceu?
—Bella e eu quisemos ter um fim de semana mais tranquilo – dei de ombros fazendo meu irmão rir.
—Eu sei bem o que isso quer dizer, nosso último fim de semana tranquilo está bem aqui – tocou a barriga da esposa, me fazendo rir também.
—Bons tempos – Rose colocou a mão sobre a de seu marido e suspirou antes de sorrir – só que eles têm muito dinheiro e não apareceram aqui na sexta-feira, Emm. Devem ter feito uma viagem ou algo desse tipo e mesmo se aproveitassem como nós dois fazemos, acha que um fim de semana renderia tanto?
—Tem toda a razão, meu doce. Ninguém aproveita os fins de semana como nós fazemos, muito menos esses dois – Emmett riu para nós com desdém me fazendo bufar e entrar na deles enquanto beijava minha namorada na bochecha sempre vermelha.
—Com certeza não aproveitamos como vocês, até por que não estamos concentrados em povoar o mundo sozinhos... nós só queremos estar juntos. Só amando – sorri para Bella olhando em seus olhos intensamente deixando-a ainda mais corada antes de voltar para o casal que nos observava – e só para vocês saberem, nosso fim de semana começou na quinta.
—Ah tá... – meu irmão zombou com uma risada estrondosa – então o seu trabalho é tão cansativo que você pode se dar ao luxo de não ir quando bem quiser?
—Na verdade eu fui trabalhar. Bella não veio para cá por que não conseguiu nem se mexer na manhã seguinte – Emmett gargalhou antes de se render e se aproximar estendendo a mão para tocar na minha.
—Dando uma canseira na menininha. Esse é o meu irmãozinho!
—Vão trabalhar vocês dois – Rosalie bufou enquanto fazíamos um toque elaborado comemorando – já chega de ficarem se gabando.
—Enquanto era você estava tudo bem não é? O que foi? – provoquei ainda comemorando com Emmett – Está grande demais para um pouco de diversão e está com inveja?
—Ninguém com um marido como o meu consegue ter inveja de outras pessoas que têm um pouco de sexo – Emmett riu batendo em minha mão novamente comemorando e Rosalie reclamou – é melhor vocês dois irem embora antes que eu perca a paciência.
—Tudo bem – me aproximei novamente de minha Bella e a puxei para meus braços trazendo seu corpo para junto do meu e a beijei cheio de paixão falando com a boca ainda na dela – mal posso esperar para voltar para você no fim do dia.
—Eu também não, já estou com saudades – eu a beijei outra vez antes de me afastar de minha senhorita e me despedir de meu irmão e cunhada para entrar no carro.
A sensação de felicidade e bem estar se esvaía ao passo em que eu me afastava de Bella e da paz que ela me trazia, era impressionante como em um fim de semana ao seu lado conseguiu afastar minha mente de todo o mal que me rodeava e agora, ao me dirigir para o fórum, eu me sentia tudo voltar com força total.
Eu me sentia um pouco nervoso e não era por estar prestes a estar à frente do primeiro julgamento desde que acordei do coma, não era porque eu não tinha estudado o suficiente do caso, pelo contrário, eu estava até bastante confiante sobre isso. O meu nervosismo se devia ao fato de não saber como agir ao estar frente a frente com meus colegas de trabalho, não depois de tudo o que soube.
Por mais que eu devesse agir como se não desconfiasse de nada, pelo menos não até que Charlie tivesse mais respostas ou alguma prova, eu não sabia se conseguiria fazer isso. A minha vontade era de confronta-los e questionar seus motivos, mas eu não faria isso, não poderia dar a chance de se defenderem ou escaparem. Eu queria acua-los, pega-los de surpresa nem que para isso eu tivesse que ter muita paciência.
Mesmo pensando dessa forma, sem a menor vontade de olhar para qualquer um deles, assim que cheguei ao fórum, eu me dirigi a sala de Quill Atera. Eu precisava desatar o nó em minha garganta e mostrar a ele meu desprezo ao menos em relação a sua atuação no julgamento em que assisti e lhe dizer que estava prestes a reabrir o caso a fim de fazer a justiça que ele não foi capaz. Entrei no fórum pensando em como ele reagiria a essa atitude e que talvez eu pudesse tirar mais conclusões sobre seu caráter.
Quando me aproximei da porta entreaberta, pronto para bater, escuto uma voz feminina familiar. Não tinha muita certeza, mas aquela me parecia ser a voz de Tanya. Charlie me disse que ela esteve aqui há alguns dias e por isso resolvo prestar a atenção para tentar ouvir o que estava se passando ali, principalmente depois de ouvir meu nome sendo dito.
—Pense bem no que eu te disse, Tanya – Quill disse a ela, me fazendo ter a certeza que era ela que estava ali. Com a voz macia, como se tivesse tentando convencê-la de algo, ele insistiu – é a nossa única chance.
—Não... eu não posso fazer isso, Quill, eu o amo!
—Mas Edward não ama você. Se amasse, não teria te dado as costas, não teria te abandonado...
—Você não o entende! – se exaltou parecendo chorar – Meu marido está sem memória, confuso, com medo do futuro. Ele só precisa de um tempo, só precisa entender o que está acontecendo.
—É ai que está o problema. Se ele entende o que está acontecendo aqui, ele só vai sossegar quando conseguir acabar conosco e nos transformar em nada.
—Não se eu o ajudar e mostrar só o que for necessário – eu ouvi Quill dar um longo suspiro.
—A quem você quer enganar, hein? Nem depois de perder a memória Edward te escuta ou dá valor ao que você fez por ele esse tempo todo, a tudo o que você aturou por ele, todos esses anos.
—Meu marido só precisa de um tempo, logo vai dar valor a tudo isso... eu sei que vai.
—Enquanto fica nos braços de outra mulher? – eu não podia vê-los, a porta não estava aberta o suficiente para isso, mas eu pude ouvir os inconfundíveis ruídos de beijos por incontáveis minutos, até que o ouvi falar novamente, bem mais baixo dessa vez – deve dar ouvidos a quem te dá valor, a quem te quer de verdade. Deve escutar a mim que sempre estive ao seu lado.
—Mas eu também preciso compreende-lo, Quill. Edward tem suas necessidades, eu preciso entender isso. Além do mais, ela é só uma maneira dele se satisfazer e quando estiver satisfeito, sei que vai voltar para mim.
—Não se iluda, Tanya, isso não faz bem nenhum para você – Quill se manteve paciente, como se a consolasse entre beijos – Você mesma disse que ele está apaixonado pela garota. Não vê que não temos outra saída? Edward está no meu caminho outra vez, da mesma maneira que tornou a abandonar você para ficar com ela...
—Quill, não diga isso...
—Sabe que essa é a verdade, por mais que isso te machuque. É crucial que demos continuidade ao nosso plano, ainda mais agora que Charlie tem o caso nas mãos.
—Eles podem não ter nos pegado uma vez, mas se fizermos de novo...
—Está com medo? – o juiz perguntou parecendo incrédulo e riu baixo antes de continuar – deveria estar com medo de Edward descobrir o que aconteceu, o que fizemos a ele. Sinceramente, eu prefiro lidar com a justiça, ficar preso por algum tempo se for preciso, consigo lidar com qualquer coisa mais do que com a fúria dele.
Eles ficaram em silencio por algum tempo, imagino que estavam se agarrando ou enquanto Tanya pensava no assunto e eu aproveitei para olhar em volta a procura de alguém que pudesse estar olhando para mim que estava praticamente colado a porta de minha maior inimizade, mas por sorte não havia ninguém por ainda ser muito cedo e mais tranquilo, eu pude voltar a ouvir Tanya soluçando copiosamente.
—O que você está esperando? – Quill não parecia tão paciente agora me fazendo imaginar que perdi alguma parte da conversa – Que Edward recupere a memória e acabe com todos nós?
—Não precisa ser assim... não temos que fazer mal a ele.
—Eu não vou tolerar aquele babaca no meu caminho novamente, Tanya, não vou – Quill pareceu bem irritado e deu um soco forte na mesa – antes que isso aconteça, temos que colocar nosso plano em prática. Sabe que ele não deveria nem ter acordado, a gente deu sorte que ele não tem memória! Já imaginou o que ele poderia fazer conosco se soubesse? E agora que ele não mora mais com você e não podemos mais garantir que Edward continue sem memória nós... não podemos mais esperar precisamos fazer, temos que fazer agora!
—Quill... Sabe que ele não vai recuperar a memória, pelo menos não enquanto...
—Doutor Cullen? – não pude mais ouvir o que Tanya estava dizendo quando Gianna me chama e eu olho para ela. A moça tinha acabado de aparecer no corredor e eu consegui me afastar da porta antes que ela notasse que eu estava ali para ouvir o que acontecia na sala.
—O que você quer? – perguntei de mau humor por ter sido interrompido e ela parecia constrangida.
—Hm... pode me acompanhar, por favor?
—Para onde?
—Eleazar quer falar com o senhor sobre o julgamento de logo mais. Sempre fazem uma reunião antes de começar e parece que ele esqueceu de lhe avisar na última vez que se viram por isso pediu para que eu o buscasse quando estivesse aqui.
—Claro – respondi relutante olhando para a porta que me revelaria tanta coisa e segui a moça – vamos lá.
Faltavam duas horas para o horário marcado para o início do julgamento quando me reuni com Eleazar e tentei não pensar no que tinha acabado de ouvir para me concentrar em meu trabalho. Minha tática funcionou e por sorte, eu consegui transformar minha raiva por aqueles dois e minha frustração por não ter ouvido tudo o que podia daquela conversa em foco e me entregar de cabeça naquele julgamento para que eu pudesse cuidar de meus problemas com calma mais tarde.
Nossa reunião foi muito proveitosa, me deixando ainda mais inteirado do caso e pronto para cumprir meu papel. Quando terminamos, segui para a minha sala a fim seguir com a cabeça dentro do caso prestes a ser julgado e fora dos meus problemas pessoais, mas quando eu me aproximava vi que não seria assim tão fácil ao me deparar com Tanya me esperando a porta.
—Edward – ela veio parecendo muito tocada ao me ver, encenando como sempre, a mão no peito e os olhos marejados – meu amor, estou tão feliz em ver você! – enquanto falava, minha ex se aproximava com as mãos estendidas, pronta para me tocar e eu dei um passo atrás afim de não perder a razão.
—O que você quer aqui? – rosnei – por que não me deixa em paz?
—Eu só quero falar com você, por favor – estava pronto para gritar com ela e manda-la a merda, mas o local estava cheio de pessoas que já assistiam a cena com curiosidade. Sem querer dar um show ali e por curiosidade de saber o que ela tinha para me dizer, principalmente depois de tudo o que ouvi eu respirei fundo fazendo um gesto para ela me seguir.
—Eu tenho um julgamento daqui a pouco por isso, seja breve – pedi quando estávamos em minha sala – diga logo o que quer e vá embora.
—Quero você, meu amor – ela veio em minha direção, sem se abalar com a maneira com que falei com ela e se sentou em minha mesa de frente para mim – quero você de volta para mim.
—Tanya...
—Você já ficou longe demais de mim... de nossa casa. Eu sinto tanta a sua falta, da sua voz, do seu cheiro, do seu toque, de você... por inteiro. Volta para mim, vamos continuar de onde paramos.
—E onde foi que paramos? – respirei fundo tentando controlar a raiva que sentia desse teatro maldito, mas mesmo assim, minha voz saiu repleta de ódio quando cuspi as palavras para ela – quer dar continuidade a farsa que sempre vivemos?
—Como pode dizer isso? Você nem sequer se lembra de como éramos.
—Mas eu posso sentir, nunca significou nada para mim desde que te vi pela primeira vez, nenhum beijo, nenhum toque, nada! – Tanya parecia em choque deixando que algumas lágrimas caíssem e fungou antes de implorar.
—Por favor, não fala isso eu... eu te amo tanto, tanto!
—Eu não amo você, sabe disso, eu mesmo te disse no outro dia que estava apaixonado por Bella... – ela assentiu chegando mais perto.
—Sim, eu lembro disso e vim aqui na esperança que você dissesse o contrário, que viu em sua submissa o objeto que ela sempre foi, que já está pronto para voltar para mim.
—Ela não é um objeto para mim – eu ri – para ser sincero você parece ter esse papel em minha vida e eu não quero mais isso. Cansei.
—Você é meu marido, somos uma família – eu ri da cara de pau dela e resolvi entrar em seu jogo sendo tão dissimulado quanto ela estava sendo.
—Não seja por isso. Quero pedir o divórcio e acabar com tudo isso de uma vez.
—Não... não, Edward – ela parecia assustada – você não pode fazer isso!
—E por que não? – perguntei olhando para seus olhos cheios de pavor – não sinto nada por você e, como já disse, estou apaixonado, perdida e completamente apaixonado por Bella. Não faz o menor sentido continuar casado com você, não acha?
—Edward, não faça isso. Você... você está maravilhado com o que encontrou ao lado dela, está realizado com suas necessidades satisfeitas depois de tanto tempo, não vai demorar para perceber que não é só disso que um homem precisa.
—Eu sei do que eu preciso e não é de você – eu ainda falava quando Tanya se jogou em meus braços me apertando com força.
—Lembra de quando você acordou e foi para casa? Nós estávamos tão felizes, nos amávamos todos os dias. Eu era tudo o que você precisava, em todos os sentidos. Podemos continuar assim, se você voltar para mim. É o melhor para você, o melhor para mim, acredite, por favor – aquele pedido me fez lembrar da maneira com que Tanya implorava para Quill desistir de seu plano contra mim, seja lá qual fosse. Suas lágrimas não me tocaram como aconteceu um dia, por mais que eu não soubesse exatamente os planos dele, àquela altura eu já tinha certeza que o primeiro acidente foi planejado e executado por eles e, a mulher que chorava em meus braços tinha grande culpa pela merda que minha vida tinha se transformado.
—Isso não vai acontecer, Tanya – com força eu segurei seus braços os afastando de mim – Agora, se você já terminou com essa ceninha patética pode ir embora que eu tenho muito o que fazer e eu já disse que se tiver ao menos um pouco de amor próprio não vai mais me procurar, ao contrário, vai aguardar meu contato sobre o nosso divórcio – Tanya parecia estar chocada. Sua expressão mudou da tristeza profunda para uma exasperação beirando a raiva.
—Tem certeza do que quer, Edward?
—Você ainda duvida? Mesmo sabendo que estou apaixonado por outra mulher? Mesmo depois de eu dizer várias e várias vezes que não sinto nada por você? Eu não confio em você, Tanya, não suporto pensar em estar na mesma casa, não consigo pensar em dividir minha vida com você novamente – eu ri – se é que realmente fizemos isso algum dia.
—Vai se arrepender, Edward – ela disse se levantando – vai se arrepender de verdade.
Observei minha ex-mulher se afastar enxugando as lágrimas e imagino que nervosa, uma vez que ao sair bateu a porta com força. Eu sabia que com a minha atitude eu estaria colocando minha vida em risco novamente. Não sou nenhum idiota e entendi claramente o que estava acontecendo na sala de Quill.
Eles queriam me matar, fazer o que não conseguiram da primeira vez. Estavam planejando uma nova maneira de acabar com minha vida e a única coisa que impedia Quill era a hesitação de Tanya por acreditar que conseguiria me reconquistar. Eu tinha certeza que àquela hora estariam juntos planejando como me atingiriam e por que provoquei tudo isso com a minha atitude com Tanya, não poderia ficar de braços cruzados. Então, peguei o telefone e liguei para a delegacia.
—Charlie? – chamei quando ele atendeu a minha chamada com sua voz calorosa – eu preciso muito falar com você.
—Eu também — foi direto ao assunto, provavelmente depois de ouvir a seriedade em minha voz — Estou com os laudos do seu acidente e tive uma conversa séria com os peritos, tenho muita coisa para te passar. Está muito ocupado agora?
—Na verdade eu estou prestes a entrar em julgamento – olhei para o relógio vendo que tinha pouquíssimos minutos para me apresentar no tribunal – liguei mesmo para saber se posso passar ai quando terminar.
—Claro que sim, vou esperar você.
—Tudo bem... – concordei respirando fundo. Por mais que eu quisesse ser frio e prático desejando apenas o fim desse pesadelo, era impossível não me deixar abater ao menos por um instante deixando o meu desanimo a mostra e Charlie deve ter percebido.
—O que houve? Você não parece muito bem.
—E não estou. Eu acabo de ouvir uma conversa entre Quill e Tanya e... eu tenho uma ideia do que poderá acontecer no futuro comigo.
—Do que está falando? — meu amigo pareceu nervoso – o que está acontecendo?
—Infelizmente eu não tenho tempo para conversar com você agora, eu realmente preciso ir...
—Certo, mas antes escute: eu sei que é muita merda sendo despejada em sua cabeça o tempo todo e que aguentar firme é foda, mas é o que você precisa no momento. Sinto que tudo isso está no fim.
—Eu... não aguento mais – desabafei com outro suspiro.
—Tem certeza que está bem para trabalhar agora?
—É um caso relativamente calmo e eu já discuti bastante com o promotor sobre o assunto, posso seguir em frente, tenho certeza.
—Eu sei que sim— meu amigo riu do outro lado do telefone – sempre que estava chateado ou com raiva era que fazia suas maiores atuações. Eu tenho até um pouco de pena desse réu — eu sorri também – faça seu trabalho e depois venha para cá. Vamos desvendar tudo isso.
—Obrigado, Charlie. Foi muito bom falar com você.
—Tudo pelo meu sobrinho favorito— eu ri com gosto antes de me despedir. Eu realmente tinha sorte em tê-lo em minha família.
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Como imaginei, o julgamento foi muito tranquilo. As provas apresentadas não deixavam margem para erro, o traficante além de repassar toneladas de drogas na região tinha muitas mortes sobre as costas e foi condenado, depois de duas horas de julgamento.
Conversei com o júri e depois com o promotor – que eu estava descobrindo um amigo, alguém que eu poderia confiar nesse ninho de cobra – antes de partir para a delegacia. Dirigi o mais rápido que pude na estrada chuvosa, ansioso para descobrir o que Charlie tinha a me dizer e desabafar toda a merda que eu ouvi mais cedo. Assim que cheguei a delegacia, eu fui conduzido a sala do delegado que já me esperava.
—Como vai, Charlie? – estiquei minha mão para ele.
—Ao que parece muito melhor do que você e louco para que em conte logo tudo o que ouviu – nos encaramos por alguns momentos antes de ele continuar – Estava ansioso para a sua chegada, fiquei muito preocupado com seu telefonema.
—Pois é, o que eu escutei realmente me deixou preocupado.
—E o que foi?
—Quill estava tentando convencer Tanya a seguir com um plano para me tirar do caminho...
—Como é que é?
—Basicamente era como se tudo o que eles planejaram saísse do controle e de repente eu não estava mais agindo como eles esperavam que eu agisse, abandonei o lar, voltei para o fórum e para o meu posto, estou de volta no caminho de Quill para atrapalha-lo...
—Vão tentar de novo? Querem provocar outro acidente, é isso?
—Não ficou muito claro. Eles só diziam em um plano que precisava ser posto em pratica, ou melhor, Quill não parava de repetir isso.
—Eles querem atacar você de novo. Você estava certo em sentir o peso dessa informação em suas costas, saber disso realmente pesa, realmente derruba qualquer um.
—Mas eu não vou cair, pelo menos não de verdade, não definitivamente.
—É claro que não, mesmo se fosse fácil, eu estou aqui, não vou deixar – assenti confiando nele depois de sorrir levemente sob o enorme bigode meu amigo se fez sério novamente – Eu sei disso, mas o que você acha que eles farão agora?
—Duvido muito que tentem o mesmo método que utilizaram no passado, todo mundo sabe que meu carro foi sabotado e não cometeriam o mesmo erro.
—Ou eles podem imaginar que é nisso que apostamos e fazerem exatamente a mesma coisa. Isso é mesmo bem provável, uma vez que os cortes que fizeram no tubo de freio foram de muito profissionalismo. A perícia demorou a chegar à conclusão de que foi realizado por mãos humanas.
—É isso o que dizem os papéis que você tem na mão?
—Pois é. Eles só cogitaram essa hipótese depois de analisarem o histórico do velocímetro e perceberem o quanto você gosta de meter o pé na estrada – sem que eu percebesse eu estava com as mãos mergulhadas em meus cabelos enquanto tentava colocar meus pensamentos em ordem diante de tanta coisa.
—Tem uma coisa que eu não entendi – Charlie pediu me tirando de meus pensamentos – por que Quill insistia em repetir para que o plano fosse colocado em prática?
—É que Tanya estava relutante em aceitar ou não estava dando sua permissão para que o plano fosse colocado em pratica, mas isso foi antes da ceninha patética que ela fez em minha sala – eu ri mesmo sem humor nenhum – agora eu tenho certeza que ela não só apoiou a ideia quanto está louca para colocá-la em pratica.
—O que aconteceu?
—O de sempre – dei de ombros – ela tentou me convencer a voltar para casa, que nos amávamos e que nosso casamento sempre foi perfeito para que assim pudéssemos continuar de onde paramos.
—E você disse a ela que sabia sobre o divórcio? – neguei com a cabeça.
—Achei melhor não mostrar o que eu sabia, acho que isso nos deixa em vantagem de algum jeito.
—Você fez bem – ele concordou comigo – estamos em campo inimigo todo o cuidado é pouco. Mas tem uma coisa que eu não entendi por que Tanya não queria que o plano fosse a diante? Quer dizer, ela não pode ser tão burra para realmente acreditar que você voltaria para ela.
—Pelo que eu entendi ela achava que de uma forma ou de outra conseguiria me manter sem memória.
—Como assim?
—Não sei, foi ai que eu parei de ouvir – passei as mãos por meus cabelos em um gesto instintivo – Quill disse que a ela que era difícil me manter sem memória agora que não estamos mais morando na mesma casa, ela ia rebater, mas foi ai que eu tive que me afastar e agora eu não tenho a menor ideia do que ela quis dizer com isso.
—Eu tenho uma ideia do que pode ser... – Charlie falou baixinho depois de muitos minutos me encarando e eu praticamente podia ouvir sua mente trabalhar.
—Então me diga – pedi exasperado – como ela poderia ter me mantido sem memória? O que ela pode ter a ver com o meu estado? Com o trauma no meu cérebro?
—Edward... – Charlie hesitou e eu bufei.
—Por favor, não esconda nada de mim...
—Sabe que eu não tenho certeza de nada.
—Então compartilhe suas suspeitas comigo. Não consigo pensar em nada que não seja completamente repugnante, não consigo imaginar...
—Tudo bem – meu amigo suspirou me olhando – vou te falar o que estou pensando, mas isso é suposição ainda. É só o que eu estou pensando – assenti ansioso, mas antes que ele começasse meu celular tocou – atenda – Charlie pediu parecendo feliz por protelar um pouco mais – pode ser a Bella.
Mais do que depressa eu atendi a chamada, mas não era a minha senhorita.
—Cullen, sou eu – uma voz grossa e séria me chamou assim que atendi – Pode falar?
—Dr. Black, é claro – respondi surpreso ao reconhecer a voz – Tem alguma coisa para mim?
—É um peixe bem grande, do tipo que não dá para passar pelo telefone.
—Eu posso passar ai...
—Pode vir agora? – atordoado com sua seriedade e respostas rápidas, respondi que estava a caminho antes que ele prosseguisse – ótimo. Vou ligar para o delegado, acho que ele também precisa estar aqui.
—É tão grave assim? – ele não respondeu e eu suspirei – bem, por um acaso eu estou com o delegado Swan bem na minha frente – Charlie assentiu pegando seu casaco quando me viu ficar de pé – chegaremos ai em breve.
—O que o médico quer conosco? – Charlie perguntou enquanto me seguia para fora depois que finalizei a chamada.
—Ele não disse, mas imagino o que seja.
—Eu também. Parece que hoje é o dia de respostas ou meias respostas e eu espero que ao menos elas nos mostrem o caminho para chegarmos ao fim dessa empreitada – assenti sem poder concordar mais com isso enquanto íamos para o meu carro.
O clima estava muito pesado e, acredito eu, para aliviar um pouco a tensão, Charlie começou a falar sobre Bella e funcionou. Falar sobre minha senhorita sempre melhorava meu humor e lembrar do clima gostoso do nosso fim de semana, do nosso despertar essa manhã realmente ajudou a aliviar um pouco as tensões, mas não permitiu que eu chegasse tranquilo ao consultório médico e nem que eu estivesse mais calmo ao me sentar de frente com o Black.
—Doutor – disse depois dos cumprimentos de praxe e que nos acomodamos ali – por que estamos aqui? O que tem para nós?
—Eu mandei analisar os remédios que Alistair passou para você e estou com os resultados bem aqui – O médico abriu os papéis suspirando antes de continuar – e eu receio que as notícias não sejam nada boas.
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