Memórias
1 Prólogo Sonhos que Perturbam
Estávamos na sala de Dança novamente, o dia estava normal, não havia sol e nem chuva, ao invés disso as nuvens cobriam o céu, fazendo me pensar que tudo o que eu mais queria era dormir, no entanto, ali estava eu me preparando para começar com todos aqueles exercícios corporais que nem sempre nos fazem feliz.
A nossa sala era grande e espaçosa, e já estavam todos os alunos em posição inicial esperando a professora começar, era uma roda e todos esperavam a música começar, só que dessa vez estava demorando.
A minha frente eu podia ver Alice, era a nossa patricinha tão amada, estava com uma bata branca e calça leggerosa, seus olhos azuis e cabelos loiros longos até a cintura fazia qualquer um parar para olhá-la, do lado dela estava Danilo, o único homem do grupo, ele tinha um corpo bonito e estava sem camisa naquele momento, desviei o olhar. Não queria que ninguém me visse o observando. Por ser o único rapaz do grupo, Danilo era um pouco paquerado e com toda certeza eu não ia ser mais uma, eu e ele éramos amigos e isso seria assim para toda a eternidade. Do lado de Danilo, estava Maria Clara, negra com cabelo estilo Taís Araújo, alta e magra, em seguida eu observei as outras meninas, Larissa, Stefane, Isabel e enfim eu, Morena.
Olhei para a minha frente, e eu pude observar Danilo mexendo os lábios: "Cadê Cecília?", fiz uma pequena careta e dei de ombros demonstrando que não sabia, percebi que Alice também estava interessada, pois nos observava, olhei para ela e pude entender a sua pergunta: "Ela não te avisou?", balancei a cabeça em negativa e Alice obviamente achou estranho, eu e Cecília vivíamos juntas e apesar de todo o grupo de dança ser muito unido, era óbvio que tínhamos uma ligação especial. Só que hoje, eu não a havia visto e ela não atendeu o celular, então não fazia ideia de onde minha amiga estava. Era estranho quando Cecília sumia assim, ela era tão dedicada e presente que todos percebiam.
A música começou a tocar, era uma composição de Bethoven, porém a professora Sandra, olhou em volta, voltou a parar música e perguntou:
– Onde está Cecília, Morena? Estava pensando em fazer coisas novas e ela falta.
Sandra falou, demonstrando na voz, um pouco de sua irritação.
– Não sei, ela não me avisou.
– Tudo bem, vamos refazer os exercícios, ela não é de faltar, então algo deve ter acontecido.
Todo mundo suspirou, refazer os exercícios, Cecília tinha que ter um motivo muito bom para faltar se não ia ser apedrejada depois.
Começamos a fazer algumas coisas e logo a chuva começou a bater no telhado, de repente no meio do do exercício Sandra para e olha para porta, mexendo nos seus longos cabelos cacheados.
– Cecília! Que bom que você chegou!
Todos se viraram para a porta e sorriram, lá estava Cecília, com uma calça jeans e blusa de frio rosa, com certeza aquela roupa não era apropriada para Ballet.
Cecília não disse nada, ao invés disso ficou olhando todos com os olhos perdidos como se nunca tivesse nos visto em toda sua vida. Nos seus olhos eu podia perceber pavor, aquela não era a amiga cheia de vida que eu conhecia, antes mesmo de eu perceber minha voz saiu:
– Cecília? O que você tem?
Suas mãos foram até o bolso da calça enquanto me observava confusa, e Sandra que estava indo até ela, logo recuou ao ver que nas mãos Cecília tinha um revólver. um grito ecoou da minha garganta, eu gritei desesperadamente o nome dela, e seus olhos voltaram a me encarar.
Olhos vazios.
Olhos perdidos.
Olhos de dor.
Ela levou o revólver até a cabeça, e no desespero olhei em volta, todos estavam assustados e recuavam. Sandra, estava com medo, mas resolveu dar um passo a frente.
– Ei, Cecília, o que você está fazendo?
Sua voz tremia, mas ela tentava manter a calma.
– Pare com isso, querida. Solte a arma. As coisas não se resolvem dessa forma.
Meu coração estava acelerado, eu não conseguia entender nada daquela situação. Cecília não tinha motivos para estar naquela cena. Tudo aquilo não se encaixava e não podia ser verdade. Eu nunca senti tanto medo na minha vida.
Não me lembro ao certo quando, mas Cecília disse apenas duas palavras: "não entendo". E sua cabeça explodiu na minha frente, na cena mais horrível que eu vi.
Eu gritei.
Gritei com toda minha alma, o nome dela e cai no chão ainda com a voz ecoando a sala sem querer ver aquilo.
– Está tudo bem, está tudo bem...
Eu senti alguém me abraçando e abri os olhos, tudo estava escuro e minha mãe me enlaçava nos braços. Comecei a chorar.
– Está tudo bem.
Minha mãe voltou a dizer me tranquilizando, mas a imagem da minha melhor amiga explodindo na minha frente não saiu da minha mente. Não estava nada bem, eu me lembrei.
Não tinha sido apenas um pesadelo, tinha acontecido a pelo menos uma semana atrás. E aquelas imagens não paravam de aparecer.
Cecília, minha melhor amiga, a pessoa mais feliz e alegre, daquela forma se matando.
Eu não sabia o que fazer, mas de uma coisa estava certa, Cecília não havia se matado apenas por isso, tinha algo por trás. Eu precisava descobrir.
Não por mim. Por ela.
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