Estirada no chão frio de pedra, o sangue escorrendo pela lateral do rosto junto com o suor e as lágrimas, Cho Chang sonhou.
Foi um sonho claro, que se parecia tanto com a vida real que por um instante Cho pensou que estivesse acordada. Mas então se lembrou do que deixou para trás: A dor, a guerra, o caos, os contrastes perfeitos daquela ilha onde ela se encontrava deitada.
O mar se estendia majestoso até o infinito a sua frente, tomando toda a sua visão. O sol beijava seu corpo de forma suave, aquecendo seu sufocar. Cho fechou as mãos, deixando os dedos enterrar na fina areia branca. Nunca antes se sentiu tão... em paz.
-Seu tempo aqui é pouco. – disse uma voz.
Cho se virou e avistou ao longe uma menina, não mais velha que ela. Seus longos cabelos pendiam numa trança frouxa, com mechas que se soltavam e caiam sobre seus olhos tristes. Ela vestia um vestido preto, de luto e caminhava descalça na direção de Cho.
-O que quer dizer? – perguntou Cho curiosa.
— Você está sem tempo. – respondeu a outra, sentando-se em cima dos calcanhares ao lado de Cho na areia. Seu olhar era cheio de pena e de uma dor que não era dela. – Isso é só uma passagem.
Cho desceu o olhar para seus dedos finos, que se entrelaçavam de forma nervosa. Sua mão estava intacta, sem os cortes e as cicatrizes de antes. Ela virou a palma para baixo e percebeu que a cicatriz “não devo contar mentiras” havia desaparecido.
Ela voltou a encarar o mar.
-Eu morri, não foi? – perguntou, sua voz desprovida de qualquer sentimento – Na batalha. Em Hogwarts. Eu morri...
A menina não respondeu, se limitando a acenar com a cabeça.
-Meu nome é Calipso, Cho Chang. – disse ela baixinho – E eu te chamei para minha ilha, pois precisava te conhecer antes que você se fosse.
Cai a primeira lágrima. Silenciosa, fúnebre, ela some na areia.
-Somos tão parecidas – continuou Calipso no mesmo tom triste e comedido de antes – apaixonadas pelos heróis que não podem ser nossos... Destinadas a amar aquele que parte. Você morreu lutando, Cho. Lutando por aquele que amava. Harry... Harry ganhará a guerra. E ele se lembrará de você. Você, assim como eu, será o seu maior “e se”.
A segunda lágrima segue a outra, perdendo-se no meio da imensidão de grãos de areia branca.
-Mas você lutou. – a voz de Calipso não passava de uma lamúria sussurrada – Eu nunca poderei lutar. Nunca poderei ir atrás de meu amado. E... Eu só quero saber como é? Ser capaz de ser algo para eles...
As palavras se perderam em meio aos soluços, e as vagas reticências transformaram-se, ao mesmo tempo em um ponto final e um de exclamação.
-Eu não sei... – hesitou Cho. Ela virou-se para a menina, fungando melancolicamente ao seu lado. Sentiu o impulso de abraça-la e consola-la, mas no momento, Cho sentia-se tão amorfa, tão inconsistente que não sabia se podia toca-la. Com um suspiro, ela tentou formar uma resposta.
— É gratificante, acho. Saber que morri pelo bem maior, que morri por ele. Mas no momento eu me sinto... Perdida. Você diz que ele se lembrará de mim, mas talvez eu não passe de mais um peso em seu ombro, mais um trágico caso de amor interrompido. Eu só queria que ele se lembrasse de mim...
Sua voz minguou. A imagem de Cho começou a tremeluzir e lentamente desaparecer.
-Nosso tempo acabou, Cho. – murmurou Calipso, a imagem da tristeza – Lembre-se que você morreu como uma heroína e agora descansa entre os seus: os grandes, os heróis. Você salvou vidas e pagou a morte com a sua, e aqueles que receberam uma segunda chance se lembrarão de você. Eu mesma farei que eles se lembrem. Agora, durma. Em algum lugar, está tarde. – Calipso deitou a névoa insubstancial que era tudo o que restava da menina na areia e acariciou os longos cabelos escuros, embalando-a com uma canção que soava como uma antiga canção de ninar.
“Dorme, menina
E não se preocupe em acordar
Enquanto reina em seus sonhos
O tempo não ousa passar”
-Eu estarei com Cedrico. – foi sua última frase.
Um último suspiro.
Uma última lágrima, ainda silenciosa, ainda fúnebre.

***
Em um pequeno cemitério em Wiltshire, Harry encarava uma lápide que não esperava encontrar. Seus dedos acariciaram os entalhes floreados, demorando-se em cima do nome e da frase.
Cho Chang
Morta na Batalha de Hogwarts, junto e por aqueles que amava.
Sentiu seus olhos encherem-se de lágrimas enquanto deixava a mão escorregar pela pedra fria. Lembrou-se da sensação formigante que tomava conta dele quando ele passava aquela mesma mão pelos cabelos sedosos da menina, ou quando acariciava seu rosto sem defeito, o qual nunca mais tocaria. Piscou e limpou as lágrimas que escorregaram pelo rosto. Uma delas, no entanto, o escapou e pousou no chão abaixo da lápide.
Surpreso, Harry viu crescer daquela lágrima uma pequena taça de cristal. Com cuidado, ele a retirou do chão. Ao fazer isso, o lugar onde antes se encontrava a taça começou a criar flores, mais especificamente rosas negras e vermelhas. Elas tomaram conta de todo o chão em volta da lápide, só parando de crescer a um metro de distância da pedra.
Harry girou a taça, observando-a. Era adornada com desenhos graciosos de cisnes que nadavam num lago raso, ou voavam majestosamente num céu sem nuvens. Ao virar a taça, um pedaço de papel caiu no colo dele, e ele o resgatou. Desamassou a folha, e leu a mensagem escrita com letras tortas:
“Lembre-se dela, pois em sua memória ela descansará Harry Potter”
Uma memória turva e brilhante o invadiu. Uma lembrança de anos antes, na Sala Precisa... O teto iluminado pela imagem de um cisne que voava. Cho rindo enquanto acariciava as penas da sua felicidade viva. Harry admirando a capacidade da menina de sorrir em meio a tudo que estava acontecendo...
E, de repente, todas as memórias que envolviam a menina pareciam mais claras e vivas, como se tivessem acabado de ocorrer. Cada sorriso, cada gesto, cada palavra, cada troca de olhares, tudo era novo e reluzente, como se gravado a ferro nas paredes da mente de Harry. Cho estava ali, viva dentro dele, enchendo sua mente de pensamentos sorridentes e delicados, como ela.
A risada dela, suave como o som de um pequeno sino, ecoou em sua cabeça.
E esse som, assim como todos os momentos que um dia ele viveu com Cho, Harry nunca se esqueceu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.