Memória
2 Vidro quebrado
Notas iniciais
Duas semanas atrás...
— Mello! — passaram a bola para mim e eu chutei direto para o gol. Um glorioso gol que tirou o jogo do empate e deu uma deliciosa vitória para o meu time.
Ou pelo menos teria sido isso que teria acontecido se aquele moleque cego tivesse passado a bola para mim ao invés de para a árvore.
É isso mesmo, ele fez a proeza de chutar a bola direto para uma das árvores que rodeavam o nosso campo improvisado de futebol, fazendo ela ficar presa em um dos galhos altos. Eu estava bem do lado do cara e ainda assim ele conseguiu jogar na árvore. Profissional é outra coisa, viu.
— Como você pode ser tão cego?! — gritei com ele — Agora vai lá buscar, bonzão!
O garoto saiu correndo para pegar a bola de volta, parecendo bem assustado com a minha cara e com os meus gritos. E enquanto eu, e os outros que estavam jogando, observávamos a tentativa dele de subir na árvore (e cair em seguida), senti uma mão repousar em meu ombro.
Olhei para o lado, mais por reflexo do que por curiosidade, afinal, eu sabia quem era. Matt era o único que se aproximava assim de mim quando eu estava irritado. Na verdade, ele era o único que ficava em um raio de dez metros de onde eu estava, sem tremer nem nada assim. Será que eu deveria aprender a controlar o meu temperamento?
— Mello, é só um jogo. Não precisa se estressar — ele falou, sorrindo meio de lado.
— Como se você, justo você, pudesse dizer isso para alguém — retruquei.
Ele riu baixo em resposta.
— Mello! Roger está te chamando! — Linda gritou de uma janela aberta do primeiro andar. Seu cabelo castanho-claro, solto, como raramente ela deixava, balançava com o vento que batia, e ela não parava de gritar a mesma coisa.
— Eu já ouvi, caramba!! — gritei de volta. Eu não sou surdo, tá legal?!
— Só para garantir — ouvi ela retrucando em voz alta, mantendo um enorme sorriso no rosto.
Olhei para trás, para o garoto que ainda tentava a todo custo pegar a bendita bola de futebol da árvore.
— Podem jogar sem mim — resmunguei para Matt. Algo me diz que eu não vou estar com humor para jogar bola depois de ouvir... Qualquer coisa que Roger tenha para me dizer.
... Não, mentira. Não era intuição coisa nenhuma. Era experiência mesmo.
Fui sem pressa alguma para a sala de Roger, repassando mentalmente tudo o que eu tinha feito nos últimos dias. Forcei a memória, mas não consegui me lembrar de nada que fizesse Roger me chamar. Eu não bati em ninguém, não xinguei a assistente de cozinha por causa de chocolate, não quebrei nada e... Bom, importunar o Near é um caso a parte, certo? Eu estive surpreendentemente "calmo" nos últimos dias, mas aí já seria querer demais!
— Mello, sente-se, por favor — Roger falou assim que eu entrei no escritório, indicando uma das cadeiras defrontes à sua escrivaninha.
E para minha surpresa, assim que eu me sentei, desconfiado, Roger sentou-se também. Mas não foi isso que me surpreendeu. Não, foi o fato de que ele não se sentou em sua confortável cadeira de espaldar alto, e sim justamente na cadeira ao meu lado, virando-a para ficar de frente para mim.
Isso queria dizer que eu não estava encrencado?
— Eu gostaria de começar dizendo que estou muito orgulhos de você, Mello. Seu comportamente tem sido bem satisfatório, e eu me alegro muito por isso — ele finalizou com um sorriso.
Eu estava surpreso. Muito. Era a primeria vez que Roger dizia estar orgulhoso do meu comportamento, e isso era um pouco... Estranho. Será que tinha algo no chocolate de mais cedo?
— Então eu vou aproveitar agora para... — ele prosseguiu, pegando uma caixa bonita, toda enfeitada, de cima de sua mesa — Entregar isso. L mandou isso como seu presente de aniversário, e eu planejava lhe entregar somente no dia certo, mas você fez por merecer.
Um presente... Do L?
...
Não sei por que, mas eu me senti como um daqueles cachorrinhos que ganham um prêmio pelo bom comportamento. Mas deixemos isso de lado.
Cobicei a caixa com os olhos, mas antes que eu pudesse pegá-la das mãos de Roger, um barulho enorme de vidro sendo quebrado invadiu todo o amplo escritório. Mais precisamente, o barulho da janela atrás da mesa sendo feita em pedaços.
Por sorte nehum caco chegou até nós, mas o choque já foi grande o bastante sem isso.
Mas que merda tinha acontecido?!
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