Memória

10 Hey, Mello...


Notas iniciais
Demorando ou não, consegui responder todos os reviews *O* Gente, desculpa, a preguiça dominou aqui...

Quando eu acordei, instintivamente olhei para o lado e encontrei Matt ainda dormindo profundamente. E como no dia anterior, eu me peguei reparando nele; em seu rosto adormecido, no cabelo bagunçado caindo sobre os olhos, na forma como seu peito movia-se pacificamente seguindo o ritmo de sua respiração, nos seus lábios entreabertos...

...

Por quê?!

Há anos que eu o conheço! Não é a primeira, nem a segunda vez que eu acordo antes dele, não é como se eu nunca tivesse visto seu corpo antes. Então por quê? Por que a visão dele de ontem no chuveiro tem que ficar voltando à minha mente? Por que eu não consigo bloquear a angústia que sempre me invade quando recordo que ele não lembra de mim? Por que me sinto tão bem agora, apenas vendo-o dormir?

Ele se moveu.

Grunhiu alguma coisa e virou para o outro lado, me deixando encarando suas costas então.

...

Ah, mas que droga! Eu tenho que parar com isso, seja lá o que for! Dane-se, se for preciso eu me forço a deixar esses pensamentos e sensações que eu não entendo, de lado. Tudo o que estão fazendo é me deixar confuso, então que fiquem guardados e escondidos em algum canto obscuro do meu ser!

...

Fui profundo agora, não fui?

Com essa decisão em mente, levantei e fui caçar alguma roupa para colocar no lugar da camisa e calça velhas que usava para dormir. Não que alguém ligasse, muitos andavam pelo lugar de pijama mesmo à essa hora, mas eu me trocava mesmo assim, algum problema?

Claro que não esqueci daquilo. Peguei o crucifixo que repousava em cima da minha cômoda e o coloquei onde ficaria durante o resto do dia. No meu pescoço.

Iria tomar café e poderia até trazer alguma coisa para Matt. Não queria acordá-lo agora, e se demorasse demais, tudo seria recolhido, e então, só restaria o almoço horas mais tarde. Pois é, uma das exigências que realmente faziam questão de cumprir na Wammy’s era a pontualidade. Havia um horário para cada refeição, e quem não estivesse no salão se servindo dentre esse período de tempo, ficava sem comer. E por incrível que pareça, eu até que dava algum valor à essa regra.

~x~

— Mello, como Matt está? Ele já se lembrou de alguma coisa? – um garoto, um dos que faziam parte do meu time de futebol de dias atrás, aproximou-se de mim na mesa onde eu comia sozinho, e perguntou.

Ele era o sexto a perguntar e.x.a.t.a.m.e.n.t.e a mesma coisa.

Que merda, será que ninguém entende o recado de eu sentar na mesa mais isolada de todas, longe de qualquer um, sem falar com ninguém pelo caminho, e comer em absoluto silêncio?! “Eu. Não. Quero. Ninguém. Enchendo. O. Saco”. É difícil demais de entender?!

Respirei fundo. Tentei ficar repetindo para mim mesmo que Matt era razoavelmente popular no orfanato, e que era normal que muitos ficassem perguntando como ele estava e tudo o mais, como das outras vezes.

Milagrosamente, funcionou. De novo.

Só não sei até quando isso vai continuar acontecendo antes de eu perder o controle...

— Não, ainda não – respondi seco. Não era bem verdade, já que ele tinha sim lembrado de alguma coisa ontem, mas negar era mais fácil. Precisava falar bem menos.

O garoto soltou uma exclamação de lamento e se afastou. Posso ficar orgulhoso de mim mesmo, não posso?

Só espero que não venha mais ninguém por enquanto, para eu poder terminar de comer em paz e...

— Mello, como...

— Termine a frase e vai parar no jardim. Pela janela – falei ameaçadoramente para o infeliz que tinha acabado de vir para o meu lado. Estreitei os olhos, esperando ele ter coragem de continuar. Não continuou.

Eu desisto!

Assim que ele se afastou todo amedrontado, larguei a torrada que eu tentava comer e levantei com o prato quase cheio. Ingenuidade minha, não é mesmo? O que me fez pensar que me deixariam tomar um mísero café-da-manhã sossegado?! E mais, o que me fez pensar que eu aguentaria mais do que seis pessoas repetindo exatamentes as mesmas palavras, como se esse fosse o objetivo do dia de hoje?! Por acaso o Google tinha feito uma homenagem ao “Dia de Tentar Parecer Solidário” hoje?!

Peguei outra bandeja e preenchi com algumas coisas – entre elas torradas e cereal – antes de sair do salão a passadas largas e pesadas. Desafiava com o olhar, qualquer um a se aproximar e perguntar “Hey, Mello, como Matt está? Ele já lembrou de alguma coisa?”. Ahhh, que um deles se atreva...

~x~

Com certa dificuldade — já que estava com aquela bandeja em mãos — eu abri a porta do quarto e entrei. Esperava ver Matt jogando – era o costume, fazer o quê – ou então mexendo nas suas coisas, para ver se algo lhe parecia familiar, mas não dormindo. Achei que ele já teria acordado a essa hora.

Ah, mas qual o problema em deixá-lo dormir mais um pouco?

Depositei a comida em cima da escrivaninha e peguei um livro de lá, deitando-me de bruços na minha cama em seguida. Faltava apenas alguns poucos capítulos para terminá-lo, agora.

Não deu muito tempo, porém, e um baixo gemido me fez levantar os olhos da trama policial e virar para o lado.

Notas finais
Tá, eu sei, ficou curtinho, mas... Próximo é narração do Matt, não dava mais pra prolongar essa parte ~