Melodies
1 Melodies (one-shot)
Notas iniciais
Estava com receio de postar, mas, a tentação falou mais alto.
Espero que gostem.
* Os textos em itálico e entre aspas, são os pensamentos dos personagens.
Boa leitura.
– Até amanhã, Orihime-chan.
– Faça uma boa caminhada.
Ela acenou energeticamente, para a garota que se afastava e, girando nos calcanhares, Inoue dirigiu seus passos no sentido contrário daquela mesma avenida.
Seu turno na companhia telefônica havia terminado.
Fazia menos de seis meses que começara a trabalhar na mesma empresa que seu irmão, um dia, ocupara o cargo de gerente. Sempre soube desdobrar-se na vida, e o fato de viver sozinha nunca havia constituído um problema até momento, já que as economias deixadas por Sora, começavam a esgotar. E tinha também o fator universidade. Afinal, não tencionava parar com os estudos sem antes receber o título de médica.
Após passar por várias experiências estranhas, achou melhor optar pela medicina, — até porque possuía um “certo dom” para essa especialidade — desejando com isso ser de máxima prestatividade possível, sob qualquer circunstância e independentemente de quem fosse precisar da sua ajuda.
Estando ao pé do semáforo, teve o seu interior fortemente tremido, quando seus olhos, arregalados, avistaram a silhueta do jovem que caminhava distraído do outro lado da rua. Ansiosa, Orihime agitou os dedos dos pés nas sandálias, apertando forte a alça da sua bolsa, desesperando-se frente à corrida de carros que parecia não ter fim.
Tentou chamá-lo; mas a sua voz foi abafada pelo ruído do tráfego agitado do final de expediente e, mesmo impaciente, não teve alternativa se não esperar pela sua vez, enquanto assistia com o olhar angustiado, aquele que se afastava.
Entretanto, mal o sinal verde apareceu no painel, à jovem atravessou a faixa a correr, na intenção de alcançá-lo. Inúmeras pessoas cruzavam o seu caminho, tornando lento o seu acesso à outra margem, e isso para não falar do ciclista que quase a atropelou, fazendo-a derrubar as coisas que levava dentro da bolsa, no chão. Amontoou-as como pode, levantando-se de imediato para seguir o seu caminho.
Se a única forma que tinha de chegar até ele era correndo, então ela o faria. Usou dos passos mais rápidos que podia, esbarrou em várias pessoas sem nem parar ou olhar o rosto dos que pediu desculpas ao longo do trajeto, e a dada altura, fez novamente o uso da sua voz para detê-lo.
– Kuro… saki-kun... — Sua voz se esvaiu no meio da respiração ofegante, e lentamente, ela baixou o braço que usara para acenar, vendo-o pelas costas ele desaparecer no desvio.
Comprimiu os lábios entristecida, por não conseguir alcançá-lo… mais uma vez.
Suspirando consternada, voltou a descer a rua, e em mais alguns passos, achou-se frente à entrada da sua casa. Empurrou o portão, arrastando-se até o interior da residência. Passara horas, planejando o que faria naquele dia, quando, enfim, estivesse liberada do trabalho. Mas, só de o ver, nenhum outro objetivo subsistiu, senão o simples desejo de querer estar com ele. Nem que fosse somente para cumprimentá-lo ou para falar sobre qualquer bobagem, uma vez que deixaram de ser colegas de classe. Somente a sensação de ter olhar dele na sua direção, a sua voz melodiosa pronunciando o seu nome seria o bastante para deixá-la feliz pelo resto da semana.
Podia parecer muito pouco aos olhos dos olhos. Mas para ela, que sempre soube se contentar com o que ele lhe dava, aquele pouco era o suficiente. E um momento somente dela.
Pôs as chaves por cima do armário, enquanto descalçava as sandálias. E fitando com o olhar murcho o silêncio ao seu redor, ela suspirou.
“Isso pode vir a soar leviano, mas… sinto falta do tempo em que eu era prisioneira, no eco mundo.
Em nenhuma outra época usufrui da sua atenção, tão terna, como naqueles dias em que eu pisava céu e inferno ao mesmo tempo.
Mesmo diante de situações de verdadeiro assombro, ainda assim, eu me sentia segura. Ele era tão presente… o Kurosaki-kun estava ali para mim. Sempre.
Eu vi com tamanha admiração ele superar cada batalha em meu benefício, e mesmo sob qualquer circunstância, o seu olhar nunca me faltou. Não hesitou em passar a espada, nem em magoar o seu próprio corpo para me proteger, sendo que, em toda a minha vida, nunca presenciei maior demonstração de amor, do que aquela que o Kurosaki, incansavelmente, mostrava ao enfrentar e derrotar inimigos muito mais poderosos do que ele.
Seu pensamento estava centralizado em mim… e pela primeira vez, eu me convenci de que, afinal, era possível ele não pensar na Kuchiki.
Como eu me enganei.
Mesmo fazendo tudo aquilo por mim, ele ainda não me amava como eu queria que ele me amasse…
Eu pude ver isso no seu olhar. Um olhar que eu desconhecia, por ser totalmente diferente dos que eu havia testemunhado… Ele era carregado de múltiplos significados enão pude decifrá-lo ao todo.
E esse olhar tão devoto e plangente, eu só passei a conhecer na hora em que a Kuchiki se esvaia diante do seu adeus. ”
Sentada frente à mesa, Orihime deitou a cabeça sobre os braços estendidos na madeira fria…
E mais um suspiro se fez ouvir, no silêncio da sala.
*
*
*
O som dos ponteiros do relógio ecoava no silêncio do seu quarto.
Não existia Kon, nem suas irmãs ou o seu pai para calar a voz vazia da solidão. E ainda bem que não os tinha por perto.
Afinal, seriam dias como este que preencheriam o seu novo quotidiano. Tinha que aprender a conviver com eles, sem ajuda externa.
Pensou em voltar a sair. Porém, lembrou-se que a bem pouco retornara a casa. E mesmo que o fizesse; nada iria mudar. Não era vagueando pelas ruas que acharia aquilo que procurava.
Geralmente, a fonte da sua alegria vinha ao seu encontro. E se assim não acontecesse e a tivesse que procurar, teria de serdentroe não fora de si. Por esta razão, deixou-se estar quieto em sua cama, onde sentara com as costas viradas para a janela, o olhar entre as mechas alaranjadas fixo num canto qualquer, enquanto a sua mente era absorvida pelo toque crônico da marcação do tempo.
“Eu não entendo.
Levaram-me a balancear a minha vida e a de Karakura, como se na realidade eu tivesse opção de escolha.
Eu estava ciente das conseqüências que acarretaria em percorrer aquele caminho. Só não contava cair no âmago de uma orfandade tão profunda e corrosiva.
Hoje me pergunto se realmente não existia outra forma de salvaguardar a cidade, senão com o meu sacrifício.
Com certeza existia.
Contudo, na hora do desespero, todos nós tendemo jogar com as peças mais fácies de se manejar; das quais se garantem respostas imediatas.
Puro desatino. E só agora, eu percebi isso.
Meu peito dói, sempre que vejo felicidade estampada no rosto alheio. Não que eles não a mereçam, ou que eu quisesse ganhar algum prestígio ou agradecimento. Nada disso. Tudo o que fiz foi sem pretensão alguma. Pelo menos, não nesse sentido.
O que realmente me entristece, é o simples fato de que agora, todos podem ser felizes… exceto eu.
As minhas palavras não foram vãs, quando respondi ao keigo que nunca almejei viver uma vida cheia de tensões, como a que experimentei no tempo em que eu era um shinigami. Entretanto, se hoje me perguntassem se valia à pena ter esta vida calma… certamente diria que não!
Agora, nada mais faz sentido. Existir somente pelas minhas irmãs, pelo velho, pelos meus amigos, ou ainda pelo mundo, tornara-se muito pouco. O muito que falta me foi tirado, quando deixei de enxergar.
Virei um completo cego, agora que posso ver tudo como sempre quis… menos ela.
É engraçado como, há três anos nada disso fazia a mínima diferença. Eu até era feliz com os ciclos contínuos que compunham a minha vida...
Foi por coincidência que os nossos caminhos se cruzaram. Um mero acaso, ela ser a shinigami responsável por karakura. Ou pelo menos assim eu acreditava. Não faço à mínima idéia do quanto o Aizen possa estar envolvido no nosso encontro; quais eram os seus planos além de obter o hougyokû. Contudo, nada mudaria o fato de eu não ter sido capaz de ignorá-la, depois do dia em que a vi se prejudicar para salvar a minha vida e a da minha família.
Talvez, tivesse sido afetado pela sua determinação, ou pela sua insolência. Sinceramente, aquela baixinha sabia como me provocar. E sem que eu percebesse, sempre me via jogando o jogo dela.
Até agora, não havia me apercebido do quanto eu gostava dos seus insultos, do quanto eu queria ser manipulado por ela. Eu só queria tê-la presente, mesmo que tivesse que suportar as suas comparações irritantes, relacionadas ao Byakuya...
O meu armário continua vazio.
Tornou-se, uma tarefa fácil e ao mesmo tempo complexa, mensurar a influência dela sobre mim. Desde que a vi partir, cada mísera célula do meu corpo, o vasto território da minha mente e tudo o que me constitui, só sabe protestar, incessantemente, pela sua ausência.”
Ichigo suspirou baixo, empurrando para trás as mechas que caiam no rosto, e então se virou em direção à janela, a tempo de assistir o espetáculo do encerramento de mais um dia.
O sol, que desaparecia na linha do horizonte, maculava o céu com a sombra da sua luz, tingindo-o com uma cor que lembrava saudade. E com o olhar ainda erguido, o antigo substituto de shinigami, forçou uma respiração mais profunda, quando o seu peito, por si só, se apertou. Era algo que crescia agitado no seu íntimo e que doía numa dor seca e premente, crispando com o palpitar forte e descompassado do seu coração.
A incerteza era cruel, e a saudade a apoiava com tudo o tinha de pior. E unidas num mesmo propósito, geravam uma tormentosa ansiedade, que o fazia resfolegar, obrigando-o a buscar o ar pela boca… um ar escasso numa respiração sôfrega.
Mas nada disso era comparado à dor da sua penitência. E seus olhos, sabiam bem como refleti-la.
“Será que, ao menos você tem olhado para mim ao longo desse tempo todo?!...
… Rukia.”
*
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Sentada no átrio da residência Kuchiki, a jovem levantou o olhar do papel que antes rabiscava, fixando os orbes violetas no pôr-do-sol, permitindo que os últimos raios refletissem na sua pele.
Um sorriso brotou em seus lábios, ao mirar a cor alaranjada que desbotava no firmamento. Aquela mesma cor que carregava tantos significados, mas que no final, ela ainda podia resumi-la em um único nome.
Voltou a olhar para o seu colo; e nesse momento, seus olhos brilharam num misto de alegria e nostalgia, ao contemplar a imagem esboçada na folha do seu caderno de desenhos.
Reconhecia que evoluíra muito, ao longo desses últimos meses. Sendo que, desta vez, optara por não usar o seu famoso modelochappy. Seus traços estavam mais cultos e delicados, tornando a figura dele, muito mais próxima da realidade, embora estivesse ainda inacabada. Porém, não teve como evitar a sensação de calor que inundou o seu peito, ao ter os feixes de luz alaranjados, incididos no seu desenho.
Era como se a sombra da tarde tornasse viva a imagem dele. E de forma sagaz e desprevenida, ela se viu envolvida por tantos sentimentos, por tantas sensações…
Piscando os olhos, Rukia tateou lentamente o rosto de sorriso tênue estampado na folha de papel, contornando os seus olhos — que os lembrava tão intensos — descendo os dedos pelas faces, lábios, até parar no seu peito, coberto com o uniforme shinigami.
Por algum tempo, fechou os olhos tentando buscar na memória pela sua voz. E ao abri-los novamente, ela sorriu mais uma vez.
“Em breve, eu te mostrarei o quanto a minha arte se aperfeiçoou…
… Ichigo.”
Fim!
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