Melodia Interna
1 O que Eu Procurava
Notas iniciais
Bocejou alto, espreguiçando o corpo enquanto descia as escadas com cuidado para não escorregar e se direcionou à cozinha. O barulho do liquidificador era ensurdecedor, mas o cheiro delicioso do café da manhã compensava o pequeno incômodo.
Aproximou-se de sua mãe e lhe abraçou por trás, recebendo um bom dia em resposta. Afastou-se e pegou uma caneca, enchendo com um pouco do café e sentou à mesa, virando os olhos para as notícias na televisão.
— Estou um pouco nervosa. – Confessou, não desviando os olhos da televisão. Sentiu algo em sua garganta que quase lhe impedia de conversar.
Sua mãe, Kyoko, aproximou, colocando a jarra de vitamina sobre a mesa e lhe tocou os cabelos com carinho, sorrindo. O cabelo preto preso por um prendedor deixava o belo rosto à mostra. As sardas quase brilhavam sob a luz que entrava pela janela acima da pia.
— Vai correr tudo bem, querida. Sei que mudanças são difíceis, mas você vai se sair bem.
Mi suspirou e tomou um gole do café, jogando o cabelo azul sobre um dos ombros para que não interferisse quando fosse comer.
— Vou chamar seu pai e seu irmão. Pode começar a comer já. – Virou-se e saiu da cozinha, subindo os degraus.
Encheu uma tigela com cereais e cortou uma banana sobre os mesmos, enchendo a tigela com leite em seguida e se pôs a comer. Observou as próprias mãos segurando a tigela e a colher; o esmalte rosa fluorescente em evidência. Talvez devesse ter pintado as unhas de algum tom menos chamativo para que não desviasse tanta atenção para si. Suspirou pesadamente. Era tímida, porém havia adquirido o gosto do irmão por coisas brilhantes e coloridas.
Cruzou as pernas sobre o assento e puxou a cadeira um pouco mais para perto da mesa, ouvindo os passos pesados se aproximarem da cozinha, indicando que seu pai estava vindo. Levantou o olhar e sorriu, recebendo um beijo no rosto.
— Bom dia. Bom dia. Seu irmão não quer sair do banheiro, dizendo algo sobre não conseguir achar algum brinco. Eu não sei. Aquele menino sempre perde as coisas.
Seu pai, Miyazaki, com seus quase dois metros de altura e corpo tatuado sempre parecia uma peça à mais na casa, como se não pertencesse à simplicidade do pequeno imóvel.
Os dois sentaram-se à mesa e Miyazaki tomou um longo gole da vitamina, preparando-se para comer. Os olhos negros cansados, quase se fechando pelo sono. Mi sorriu, mas logo sua feição mudou para surpresa.
— Mi está nervosa por que acha que vão pensar que ela é uma delinquente e vão ligar aqui para casa. – Kyoko cobriu a boca, querendo rir.
— Mãe! – Cobriu o rosto com as duas mãos – Eu não falei isso! — Achava difícil falar sobre sua timidez com seu pai e sua mãe sabia disso, mesmo assim sempre lhe provocava. Suspirou exasperadamente e sentiu o olhar de seu pai sobre si, fazendo-a o olhar.
— Querida, eles não vão achar isso. Lembra o que eu disse quando escolheu azul? – A boca cheia de torrada e as sobrancelhas levemente levantadas em espera.
— Azul é sua cor preferida e não devemos ter vergonha do que gostamos. – Recitaram juntos e Miyazaki sorriu, assentindo. Terminou de mastigar e engoliu – Pois é. Azul não é coisa de delinquente. Delinquentes só descolorem o cabelo. E eles também não pintam as unhas de rosa choque.
— Quem não pinta a unha de rosa choque? – Keichii entrara na cozinha com o celular em mãos. O mais novo da casa, cabelos com pontas rosa bebê e brincos de raios amarelos. Aproximou-se e beijou o rosto de sua mãe, sentando-se também à mesa e colocou o aparelho sobre a mesa.
— Mi acha que vão chama-la de delinquente e vão expulsá-la da escola. Tudo hoje! – Kyoko finalmente riu e Mi rolou os olhos, comendo mais do cereal.
— Ah... se uns carinhas de topete vierem até você; foge. São os piores. – O rapaz rolou os olhos e colocou uma mão na testa — Fiquei com um uma vez. – Fez careta — Se arrependimento matasse... – Resmungou e recebeu um tapa no ombro de sua mãe – Ai! O que eu fiz?!
— O que eu disse sobre esse tipo de conversa na mesa? – Keichii desculpou-se, abaixando o olhar para os pães sobre a mesa e Miyazaki riu, voltando a comer.
Terminaram o café da manhã, ouvindo as notícias da manhã e discutindo como o dia de cada um deveria se desenrolar e que horas chegariam em casa. O ambiente confortável de sua casa, as palavras de seus pais e de seu irmão, deixavam Mi um pouco mais à vontade para desbravar a nova escola.
Seus pais ficaram na cozinha, lavando as louças enquanto os dois pegavam as mochilas e iam para a porta da frente. Calçaram os sapatos e se despediram de seus pais, saindo e fechando a porta atrás de si.
Ao fecharem o portão, sua mãe abriu a porta e acenou, pedindo que esperassem. Desceu os dois degraus e foi até o portão, abrindo-o novamente e sorriu.
— Esqueceram meu beijo! – Abriu os braços e os filhos riram, abraçando-a com força e recebendo, cada um, um beijo dela – Pronto. Agora podem ir. – Passou os dedos na franja comprida do cabelo azul de Mi e tocou o queixo de Keichii com carinho – Está levando a blusa de seu amigo, ne? – O viu assentir e sorriu, olhando para Mi – Tomou seus remédios, ne? – A viu acenar com a cabeça e o sorriso abriu-se mais – Então bom dia na escola! Vão! Vão! – Abanou as mãos e viu os dois voltarem a andar. Fechou o portão e entrou.
O caminho para a escola fora calmo. Andaram até a estação de metrô e conseguiram entrar no vagão a tempo. Sentaram-se e conversaram sobre a nova coleção de roupas e acessórios que um dos estilistas indie que gostavam estava lançando.
Mi pôde sentir alguns olhares na direção dos dois, fazendo-a ajeitar a gola alta do uniforme. Talvez não tivesse feito a barba tão bem quanto achou. Passou a mão na franja, jogando-a para o lado e focou a atenção nas botas que Keichii lhe mostrava no celular.
Chegaram à escola em alguns minutos e logo se despediam, indo cada um para sua sala. Mi era dois anos mais velha que Keichii, mas no ano anterior havia pego pneumonia e precisou ficar alguns meses sem ir à escola, reprovando por falta. Seus pais não se afetavam pelo fato e davam todo o apoio necessário que a filha precisasse.
Mi sentou-se em uma das cadeiras do canto, perto da porta e olhou para as próprias mãos. Estava com vergonha de socializar com outras pessoas e sentia seu coração bater forte. Sua mente não pôde evitar de lembrar dos muitos casos que vira em noticiários ou até mesmo retratados em filmes, de meninas que sofriam bullying. Sentiu um aperto forte no peito ao pensar que algo parecido poderia acontecer consigo.
Ajeitou a saia sobre as coxas e olhou para o celular, tentando se distrair até que uma menina parou ao lado de sua carteira e lhe cutucou o ombro.
— Oi! Seu cabelo é muito bonito! – O sorriso nos lábios cheios da outra parecia tímido, porém cegava quem o olhasse. Os dedos finos da menina tocaram uma mecha azul sobre seu ombro e ela inclinou a cabeça – Azul ficou muito bem em você. – Colocou a mesma mão no queixo, afastando-se um pouco.
O coração de Mi quase saltara pela boca pela aproximação repentina e os elogios direcionados a si. O acessório de celular que usava balançou com o movimento brusco que fez para se afastar da outra menina, fazendo Mi olhar para baixo e apertar o aparelho contra o peito, envergonhada.
— Obrigada... – os lábios tremeram. Apertou uma perna contra a outra e levantou o olhar – Sou Mika, mas... mas gosto de Mi. – os olhos da garota arregalaram-se e ela colocou as mãos contra o rosto.
— Sua voz é tão grossa! – Mi pôde sentir o medo subir por sua garganta – Meninas de voz grossa são tão... Ahn! Quero apertar suas bochechas agora! – Riu, juntando as mãos na frente do corpo — Meu nome é Jun! – Jun sorriu largo e estendeu as mãos, dando pulinhos no lugar – Vem! Vou te apresentar às minhas amigas!
Mi a olhou com um misto de surpresa e riu sem graça. O medo, substituído por alívio e um pouco de expectativa por pensar que, talvez, outras meninas também a achariam Ahn.
Abaixou o olhar para suas mãos, mas logo o levantou novamente, observando o rosto de Jun. Os olhos negros como ônix, os lábios grossos e a pele um pouco bronzeada. Sorriu tímida e segurou uma das mãos de Jun, levantando com cuidado. Seu rosto parecia em brasa por estar recebendo a atenção de uma menina tão linda.
Os olhos amendoados de Mi focaram-se nas mãos juntas. Sorriu um pouco mais abertamente e começou a andar no ritmo de Jun, abaixando a mão que segurava o celular e, finalmente, conseguiu acompanhar o ritmo da outra, rindo baixinho.
— Você é bem... espontânea. – Sorriu doce e encolheu os ombros sutilmente – Nenhuma menina me chamou de linda. – Colocou o celular no bolso do moletom. Haviam saído da sala e estavam indo em direção ao refeitório.
— Eu não sou assim, na verdade. – Riu e aproximou-se um pouco de Mi, começando a falar baixo – Mas estou participando de um... Hm... Tipo um evento na internet, sabe. – Moveu a mão levemente – Que chama Fevereiro Positivo e serve para espalharmos amor e carinho e tal, sabe. – Mi pôde notar como Jun estava envergonhada – E hoje a proposta era para elogiar o máximo de pessoas possível!
Mi assentiu com a cabeça ao longo da explicação de Jun e só conseguiu sorrir ao notar que dividia algo em comum com a morena. Também fazia parte de muitos eventos da internet que envolviam tentar se socializar através de boas ações.
— Mas chega de falar de mim, vamos falar de você, Mi! – Os lábios grossos se esticaram em um sorriso novamente e os olhos negros voltaram-se para Mi.
Logo chegavam ao refeitório e Jun começou a olhar em volta, procurando por suas amigas.
— O que quer saber de mim? – Colocou a mão dentro do bolso do moletom, mexendo com o acessório do celular e a olhou. Logo Jun acenava para alguém e a puxava.
— Tipo... você gosta... de CNBLUE? Ou de algum grupo assim? – Mi sorriu e assentiu.
— Comprei... – Respirou fundo e deixou um sorriso largo tomar conta de seus lábios — comprei o álbum deles faz pouco tempo. – Cobriu a boca, escondendo o. Tinha um pouco de vergonha de como sua gengiva aparecia ao sorrir então sempre levava a mão à boca ao sorrir.
Aproximaram-se de outras três meninas que conversavam animadamente e Jun soltou a mão de Mi, levantando os braços e acenando para outras. Logo, os abaixou em volta dos ombros da morena de cabelo curto que segurava um copo plástico de café.
— Jun! – A olhou com expressão de quem já havia passado por aquele tipo de coisa várias vezes. Porém, sua feição mudou quando seu olhar caiu sobre Mi. Tombou o rosto – Oi. – Sorriu doce.
— Essa é a Mi. É da nossa sala! Essa é a Yuzuyu – apontou para a que estava abraçada – a Momoko e a Aikiko! – Apontou para as outras duas meninas.
Momoko tinha um rosto sério, cabelos presos em uma trança e olhos castanho claro gelados. Sorriu sem graça e acenou para ela.
Aikiko possuía uma feição muito mais aberta e acolhedora. O cabelo preso em um coque alto e delineador nas pálpebras, adornando os olhos castanho escuro.
— Eu amei seu cabelo! – Aikiko sorriu e levantou as mãos na altura dos ombros, aproximando um pouco e sentiu um puxar sutil de sua blusa. Olhou para trás e viu a mão de Momoko segurar-lhe a blusa. Olhou Mi novamente e sussurrou – Ciumenta. – Rolou os olhos, mas o sorriso não lhe deixou o rosto.
— É mesmo muito bonito! – Yuzuyu sorriu, tomando mais um gole do café – Já pensei em pintar de rosa, mas mamãe disse que só quanto for mais velha. – Choramingou.
Mi sorriu sutil e tocou as mechas azuis da peruca. Estava com vergonha de dizer que não era seu cabelo de verdade ainda e não queria compartilhar muito de sua intimidade na primeira conversa que tivesse. Então somente sorriu e passou o cabelo para trás das orelhas.
— Ah! A gente tava conversando sobre faculdade. O que você quer fazer, Mi? – Aikiko cruzou os braços, inclinando um pouco o corpo para a direção de Momoko. Mi sentiu-se intimidada pelo olhar de Momoko, mas apenas encheu o peito e deixou o ar escapar aos poucos.
— Quero fazer... Fonoaudiologia. – Colocou uma mão na bochecha e abaixou o olhar. Pôde ouvir as meninas fazendo alguns sons de surpresa ao ouvirem sua voz e desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar.
— Oh! Sua voz é tão fofa! – Aikiko colocou as mãos na frente da boca e Momoko puxou-lhe a blusa novamente, fazendo a morena grunhir em frustração. Yuzuyu tomou outro gole do café e assentiu várias vezes. Seus olhos focaram-se nas mãos de Mi.
— Seu esmalte é lindo! – Segurou-lhe a mão assim que Mi a estendeu – Amei! Sério! Lindo! Combina com sua pele tanto!
E a conversa prosseguiu daquela maneira até o sinal que indicava o início das aulas tocar. Comentaram brevemente sobre o que cada uma queria fazer assim que o ensino médio acabasse e Mi sempre sendo incluída na conversa quando possível.
O medo de ser excluída por parecer diferente não se fazia tão presente quanto quando saíra de casa naquela manhã. O coração palpitando com força, fazendo seu corpo inteiro tremer e um sorriso esconder-se por trás de suas palmas das mãos.
Queria chegar em casa e dizer que havia feito amigas e que, talvez, seu ensino médio decorresse bem.
Podia ouvir uma melodia tocar dentro de sua cabeça. Uma harmonia que fez seus pelos da nuca arrepiarem e o sentimento de pertencer se alastrar por todo seu corpo. Estava feliz.
Notas finais
Como mãe diz: soltar os filhos pro mundo AKJGAHDFGADHFKJGA
Criar um pouco de coragem e postar mais histórias originais e voltar a mexer mais nesse site que me introduziu a tanta coisa boa! ♥
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