Melissa Cooper e o Guardião do Tártaro.

2 Sou uma semideusa, mas os deuses querem me matar.


Notas iniciais
Melissa descobre que é metade humana, metade deusa. Mas isso não faz com que ninguém goste mais dela.

Acordei em um salto.

Eu não estava no oceano, Diego não estava lá, não havia nenhum menino que soltava choques e nenhum ciclope gigante assassino.

Mas eu também não estava no navio, nem em meu quarto. Já teríamos chegado no hotel? Quem me levara pra lá?

Dúvidas a parte, estava com uma dor insuportável no rosto, na coxa e na costela. E faminta, o que era muito pior, considerando que eu sou um monstro quando estou com fome. Para minha sorte, havia um pote de mingau e uma caneca com chocolate quente numa cadeira ao meu lado. Sem pensar em prováveis riscos, ataquei a comida, um pouco hesitante pelos gostos nada parecidos com mingau e chocolate quente, mas, depois de todas as coisas estranhas que aconteceram comigo, eu é que não daria muita importância a "culinária exótica". Quando acabei, comecei a avaliar o ambiente, afim de descobrir onde estava.

Teto de madeira, um tapete antigo no chão, uma cômoda com um toca discos antigo, um quadro de cavalos e uma cadeira de balanço. Eu provavelmente estava em uma casa de férias. Mas saber isso fazia tudo parecer ainda menos exclarecido.

Antes mesmo de conseguir fazer qualquer outra anotação mental, uma menina de no máximo 16 anos entrou no quarto. Estava segurando uma bandeja e parecia distraída, mas quando me viu, parou. O cabelo loiro preso em um rabo de cavalo quase se soltou quando ela correu em minha direção.

– Pelos deuses, o que aconteceu com você?! — disse com espanto, depois de derrubar a bandeja no chão.

– Ahn... eu não sei muito bem... — Murmurei. Logo começou um check-up. Apertou as minhas bochechas que arderam, e então passou um creme que aliviou a dor. Depois levantou minha blusa e eu percebi espantada que havia uma enorme mancha preta do lado esquerdo da minha barriga. Depois de me dizer que aquilo ia doer pra caramba, voltou-se para minha perna e com um "Crec" e uma dor insuportável colocou minha perna no lugar, ela parecia um pouco menos... torta. — Ei... Quem é você?

– Ah, como eu sou distraída! — Disse, sem parar de espalhar outro creme, agora na mancha preta na minha barriga, desanimando quando o creme pareceu sumir — Meu nome é Lucy, mas o pessoal do acampamento me chama de Luz. Filha de Apolo, sabe como é, né? Estranho ninguém ter me chamado pra cuidar de você. Como é seu nome, querida? Nunca te vi por aqui antes. Não que eu saia muito da casa grande, parece que todos se machucam toda hora, mas...

Interrompi, antes que ela começasse a disparar mais palavras:

– Melissa! — Disse quase gritando — Meu nome é Melissa... Escuta, onde estamos? E... Quem é Apolo?

– Ah, nós estamos no acampamento, obviamente e Apolo é meu pai o deus... — Ela hesitou, erguendo os olhos da ferida e me encarando com uma expressão de medo — Você... Você não sabe quem é Apolo?

Discordei com a cabeça.

– E... Por acaso, você sabe o que é o acampamento meio-sangue? — Discordei novamente. — Você é a garota nova? — Ela disse, agora se afastando aos poucos.

– Sim, eu sou. Olha, eu não sou perigosa, eu não quero machucar ninguém, eu nem posso fazer isso, olha — Disparei as palavras antes que ela saísse correndo e ergui a mão para um jarro num pedestal. Ela fitou a direção em que fingi soltar algum... sei lá, hadouken e começou a tremer, alternando a visão entre mim e o jarro.

Assim que ela saiu do quarto, murmurando algo como "Apolo que me guarde" me virei para o jarro. Pulei para fora da cama quando vi o que estava acontecendo. O jarro começou a apodrecer e chamuscar completamente, derretendo até virar uma poça negra e borbulhante de pura meleca.

Meu coração disparou. "Mas que merda é essa?" pensei "pausa pra pensar". Levantei e comecei a andar de um lado para o outro, como Diego faz quando diz que precisa pensar melhor "O.k., eu tenho super poderes" comecei a lista de coisas absurdas que agora eu percebia que não eram apenas sonhos "Apolo? Apolo é... algum deus... Egípcio? GREGO! Isso! Eu fui atacada por um monstro gigante, estou em um... Acampamento Meio-sangue. Isso é... Isso deve ser tipo um... um instituto Xavier, isso! Pessoas super poderosas. E... Meu Deus, eu não posso estar achando que isso é sério." Saí do quarto, pronta para procurar ajuda. Quando dei a volta na casa, ouvi uma voz familiar. Era Diego! Resisti ao impulso de correr até lá, pois ouvi também outras vozes. Uma discussão. Parei para escutar. Talvez Diego também estivesse confuso e isso me fazia sentir péssima.

Mas eu tinha que admitir, que estava aliviada por Diego estar ali.

– Ela. Não. Fez. De. Propósito. Não podem expulsá-la! Ela vai perder a alma, vai morrer, como os outros! ELA TEM DE FICAR... — Ele gritou, depois abaixou a voz como se fosse um erro ter gritado — senhor.

– Olha seu sátiro insolente, se não fosse esse novo juramento que nos impede de matar semideuses poderosos, eu mesmo me encarregaria de fazer isso — A voz não parecia muito interessada no assunto. Decidi dar uma espiada no cara que estava conversando com meu amigo, mas não havia só ele na sala ampla — Como sou um cara legal, eu só estou expulsando, então eu tenho certeza de que você deveria estar agradecido. E mais uma coisa, você não decide o que eu posso ou não fazer.

– Quíron. Ela vai morrer! — Meu amigo estava de pé ao lado de um cara gorducho, cabelos pretos e enrolados, camiseta havaiana, olhos grandes e nariz vermelho. Era estranho, porque ele tinha bochechas gorduchas como as de um bebê. Mas se ele realmente fosse um bebê, seria um bebê bêbado, que joga pôquer e passa metade do dia em um fliperama. Algo comum do tipo. Agora, Diego estava falando com o mesmo senhor que falou com ele por aquela névoa antes da viagem, a única diferença, era que o senhor usava um suéter azul marinho. — Diga a ele que não pode fazer isso! Por favor...

Em volta da mesa redonda, também estava sentada uma menina ruiva, com um coque bagunçado, de costas para mim. Uma mão flutuante segurava algumas cartas em frente a ela, o que não é muito normal, mas tentei continuar focada na conversa. Diego estava de pé, com calças jeans surradas e... graças a Deus, pés!

– Isso é ridículo. — Uma voz masculina soou de um lado da sala que eu não conseguia ver — Ela vai me... — Ele gaguejou e então reformulou a frase — NOS trazer problemas! É melhor que morra mesmo!

– VOCÊ ESTÁ DOIDO? — Diego estourou. Nunca havia ouvido sua voz alta daquele jeito. — ELA NÃO PODE MORRER, VOCÊ SÓ ESTÁ PENSANDO EM VOCÊ!

– Pensando em mim? — De repente, vi o cara que tinha me dado um choque aparecer no meu campo de visão, ele encarava Diego com uma expressão assassina — Semideuses estão morrendo ou simplesmente sumindo por toda parte e é óbvio que sendo a última filha de Hades — o chão deu uma leve balançada, mas ninguém pareceu notar — ela é a culpada!

– VOCÊ SÓ ESTÁ COM MEDO! — Diego gritou, agora um pouco mais firme e nervoso — ESTÁ COM MEDO PORQUE ELA É MAIS PODEROSA QUE VOCÊ, NICOLAS!

Dessa vez, os olhos do menino começaram a ficar de um tom prateado. As mãos começaram a faiscar e uma cicatriz no braço também reluzia.

– NINGUÉM ALÉM DOS DEUSES É MAIS PODEROSO QUE EU! — gritou ele, dessa vez saindo do controle. A sala voltou a tremer, mas dessa vez, o cara da cadeira de rodas e a menina ruiva ficaram apreensivos. A mão flutuante havia sumido e o gorducho parecia ainda mais focado no jogo.

– Ah, sim — Diego abaixou o olhar como se o que fosse falar, fosse algo terrível — Você é tão poderoso que não foi capaz de salvar a própria família de si mesmo.

Eu quase não acreditei no que vi, quando o garoto ergueu a mão um cilindro prateado como seus olhos começou a se formar disparando pequenos rainhos brancos para todos os lados. A menina ruiva pulou na direção dele e BUM, uma enorme explosão e uma luz insuportável encheu a sala com o desespero de todos e desencadeou uma discussão. Diego havia se abaixado, a menina ruiva segurava desesperadamente um dos braços do garoto dos raios e o homem da cadeira de rodas havia sido arremessado contra a parede. O gorducho parecia intocado.

– SR. D, PELO AMOR DOS DEUSES, FAÇA ALGUMA COISA!

Ele jogou as cartas na mesa, satisfeito com o que via e então, voltou a atenção para a cena. Outro raio começava a surgir na mão do garoto, quando o gorducho fez um gesto e sussurrou algumas palavras. Todos, exceto o velho da cadeira de rodas, se apoiaram em alguma coisa e reclamaram de tontura. O suposto Nicolas, ou carinha dos raios — como você preferir — caiu no chão e começou a se debater como um louco. O gordinho se levantou, desamassou a blusa e falou em tom baixo e ameaçador:

– Eu espero, que na próxima que EU esteja ganhando desse velho centauro num jogo emocionante como esse, nenhum de vocês esteja por perto para me atrapalhar, se não farei com que se joguem do alto da Casa Grande. — Ele virou para Puglielli. — A decisão está tomada Sátiro, ela tem UMA semana para conseguir uma missão, caso contrário, será expulsa! — Depois, voltou-se para o garoto que se debatia — E você, senhor "só-não-sou-mais-poderoso-que-os-deuses", nunca mais lance raios na mesma sala que eu!

Depois disso, ele saiu pela porta, me ignorando completamente. Continuei parada, completamente em choque com a situação.

– Rachel — a voz do senhor da cadeira de rodas soou tranquila, mas sua expressão de nervosismo era clara — leve a nossa convidada para conhecer o acampamento e depois para seu devido chalé. Vou conversar com o Sr. D e ver se consigo a liberação de mais algumas semanas para a jovem. — Ele olhou para Nicolas que se debatia ainda mais, parecendo completamente descontrolado. — E pelo amor dos deuses, chame um filho de Apolo para Nicolas, eu definitivamente odeio quando Dionísio faz isso.

A menina me abriu um sorriso acolhedor e me apontou a direção. Chamamos alguém para ajudar o garoto dos raios, que correu desesperado para atendê-lo. Assim que saímos da casa, eu pude apreciar a beleza da paisagem. Com certeza, era o lugar mais lindo que já havia visto. Colinas verdejantes cercavam uma área ampla a céu aberto. Por todo lado, haviam construções antigas. Um pátio, um refeitório a céu aberto, uma arena, uma pista de corrida. Além disso, também havia um bosque e um riacho reluzente. Algumas construções mais distantes me chamaram atenção, pois eram grandes, tinham cores intensas e variadas e um tipo de brilho próprio. Muitos adolescentes e pessoas metade bode metade... pessoa, andavam por aí, lendo, conversando, jogando, entre outras coisas. Algumas pessoas me olhavam e apontavam e isso me fez querer morrer. Me perguntava se alguém achava que eu era culpada por tudo aquilo.

– Não se preocupe, todos sabem que foi Nicolas que causou a explosão — disse a menina ruiva como se lesse meus pensamentos — A propósito, meu nome é Rachel.

– Como eles sabem quem fez... aquilo?

– Bom, ultimamente Nicolas vem tendo esses ataques de nervosismo e seu sátiro passou da linha falando da família dele. Nicolas odeia isso.

A palavra sátiro me fez relembrar os acontecimentos passados. Eu precisava fazer perguntas.

– Sátiros, ciclopes, explosões... Porque essas coisas estão acontecendo agora? E porque comigo? — Disse, ansiosa para ouvir as respostas.

Ela deu uma risada alta e parou, me olhando nos olhos com um ar de deboche.

– Sério mesmo? Você ainda não sacou?

Discordei com a cabeça.

– Você é uma semideusa, Melissa! E se você acha isso estranho e perigoso — ela apontou para a fumaça que saía do buraco da parede da Casa Grande — Nem vai conseguir dormir quando descobrir as coisas realmente poderosas que querem te matar.

Notas finais
Espero que gostem.