– Bem, esse é o acampamento meio-sangue.

O lugar era lindo. Enquanto caminhávamos, a ruiva me explicou sobre os deuses de todos os tipos, monstros, Olimpo, Submundo. Hades. Ninguém sabia se ele realmente era meu pai. Mas até então eu ficaria em seu chalé. Passamos por uma série deles, todos um tanto exóticos e de todas as formas. Alguns com grandes colunas gregas, outros com arame farpado no teto, alguns com flores por todas as janelas e finalmente, o que Rachel indicou como o meu chalé.

O lugar se tratava de um pequeno edifício preto, com chamas verdes em cima de pedestais negros. Algumas janelas, cobertas por cortinas na parte de dentro. Era bonito, mas não o que eu chamaria de "convidativo". Sons de briga soavam lá de dentro e a garota ruiva parecia saber o porquê.

– De novo não... — Ela murmurou.

Quando abrimos a porta, a briga parou. Um menino de pele pálida e olheiras profundas, cabelos pretos e compridos e olhos escuros estava parado com um travesseiro nas mãos, parecendo sufocar alguém. A menina embaixo do travesseiro, tinha uma aparência semelhante, a não ser pela pele mais escura e os olhos verdes e segurava algum tipo de flor de prata. Ambos ficaram em posição militar, como se Rachel fosse alguém que eles devessem temer.

– Esses são seus irmãos: Nico e Julie. Pessoas, essa é sua nova irmã Melissa.

"Nico?" pensei "Ótimo, Nico e Nicolas, espero que ele também não seja um mané". Ninguém teve nenhuma reação. Os dois continuaram parados, agora apenas com a boca entre aberta. Seus olhos ficaram um tanto mais arregalados e a flor prateada caiu no chão, fazendo o garoto parecer acordar de um tipo de transe. Ele se abaixou e pegou a flor no chão, parecendo sério.

– Is-Isso é ridículo... — Gaguejou, antipático.

Julie continuava parada, mas agora sua expressão havia mudado: era de puro ódio.

– Não pode ser — ela murmurou, olhando pra Rachel.- Não pode ser! — gritou — Eu sou a última filha de Hades! Ela é uma impostora. — Dessa vez, Julie estendeu seus braços. Desviei de um ataque, quando ela atirou algum tipo de adaga em mim. Não demorou muito tempo e ela voltou a jogar outras em mim — EU SOU A GAROTA DA PROFECIA!

Nico segurou seus braços, antes que ela tacasse outra faca. Eu estava no chão. A garota agora soluçava loucamente. Ela estava chorando? Eu que deveria estar chorando.

– Uau — falei — está escrito na minha testa: "por favor, me matem"?

– Não é hora para piadas, Melissa. — Disse Rachel — Julie, venha comigo. Nico — Ela virou-se para o garoto que não parou de fitar o chão- você pode ficar um tempo com Melissa, por favor?

Ele balançou a cabeça. A garota ruiva e Julie já saiam do chalé, fechando as grandes portas.

Era um lugar grande, com algumas velas com chamas verdes. Havia roupas no chão e fotos na parede, e dois beliches com colchas pretas. Uma estátua de um homem alto e barbudo estava no canto da sala, sentada em um trono, como se nos vigiasse. O menino soltou um longo suspiro e abriu um baú que até então eu não havia notado. Jogou uma colcha para mim e se sentou na cama, colocando o rosto entre as mãos. Continuei olhando-o como se esperasse que ele fizesse alguma coisa. Senti um forte aperto no peito. Uma vontade louca de correr e ir embora. Pelo que eu entendi, tinha vindo para os Estados Unidos, então como me viraria sem falar inglês? Espera um pouco... Como eu estava entendendo todo mundo?

– Ahn... Você é, daqui?

Ele virou seus olhos em minha direção, agora vermelhos.

– Do Acampamento? — Falou com a voz embargada.

– Não, digo, dos Estados Unidos?

– Sim, por que? — Pigarreou.

Balanceei meu peso entre um pé e o outro.

– Eu... Não sabia que... Vocês, digo, os norte-americanos falavam português.

– Português? — Nico soltou uma gargalhada, agora secando os olhos. — Não, todos aqui falam em grego antigo. Sabe, desses anos para cá vem surgindo muitos semideuses, em grande quantidade. Então, todos decidimos falar na língua que todos entendem.

– Eu não sabia que entendia grego antigo.

– É natural para o nosso tipo. Assim é mais fácil de entendermos uns aos outros e ninguém se sentir... sozinho. — Ele engoliu em seco.

Sozinha. Eu não me contive. Quando tomei consciência, eu estava chorando. Chorando amargamente, como louca. Me ajoelhei no chão e abracei a colcha com força. Meu chão estava caindo. Pela primeira vez na vida, eu quis minha mãe. Eu queria que Diego viesse e me dissesse coisas engraçadas e me fizesse rir com seu jeitinho. Nico continuou me olhando, parecendo não saber o que fazer. Ele parecia tão sozinho e confuso quanto eu.

Quando acordei, o chalé estava vazio. As cortinas estavam abertas, mas ainda estava tudo escuro. Aparentemente, eu estava deitada no chão, com um travesseiro e a colcha que Nico me deu. Um som de trombeta soou alto lá fora, o que me fez levantar apressada. O garoto de olhos fundos abriu a porta e me ajudou a levantar, em silêncio absoluto. Saímos do chalé e eu o segui até um enorme conjunto de mesas, apenas um pouco separadas. A maioria das mesas estavam cheias, com muita gente conversando, comendo e rindo. Apenas quatro mesas estavam ligeiramente vazias. Numa delas, sentava apenas um garoto de aparentemente dezoito anos, cabelos pretos e olhos verdes, conversando com uma garota loira de olhos cinzentos e mais dois meninos e quatro meninas parecidas com ele. Outra tinha apenas Nicolas, o garoto dos raios. Outra estava completamente vazio e na minha mesa estavam sentadas a garota que me atacou — Julie — e Rachel. Elas pareciam estar conversando sobre alguma coisa tensa. Quando eu e Nico chegamos, Rachel se levantou e murmurou para Julie algo como "não faça isso". Julie se levantou cruzando os braços. Todos em volta ficaram em silêncio e olharam para nossa mesa. Nicolas abriu um sorriso irônico e pareceu ansioso para ver o que iria acontecer.

– Eu... Eu te desafio — Gaguejou Julie, se levantando.

O senhor da cadeira de rodas — agora em forma de homem cavalo (centauro?) — bateu o casco no chão. Ele estava em algum tipo de altar, em pé ao lado de uma mesa comprida, junto com o senhor da camiseta havaiana. Ele parecia preocupado, mas não interviu.

– Como assim?

– Bom... — Rachel se aproximou — Eu sinto que o Oráculo quer dizer algo. Uma profecia, para uma de vocês irem numa missão. Mas ambas são filhas de Hades e eu só posso dar a profecia para uma de vocês. Julie quer duelar. Lutar.

Olho em todas as direções e então, algo me chama a atenção. Puglielli está lá no canto. Me olhando encorajador. Chega. Eu quero fazer algo para orgulhá-lo. Eu quero que ele diga: "essa é minha amiga".

– Eu aceito. — Digo sem pensar.

********************

– Você tem que ganhar – Sussurrou o garoto do meu chalé atrás de mim, enquanto pegávamos a fila para – sinto pesar ao dizer – jogar parte da nossa comida fora. O centauro, que agora eu já sabia se chamar Quíron, acalmou a todos após eu aceitar o desafio e em meio a milhares de burbúrinhos, Rachel veio me explicar tudo sobre o duelo e algumas regras do Acampamento.

– Você diz como se fosse fácil. – Cochicho de volta.

– Não acho que vai ser fácil. Julie vai fazer de tudo para pegar a missão, ela treinou pesado para isso desde que o Oráculo disse que uma filha de Hades... – Ele se conteve. – A última filha de Hades, na verdade, teria um papel importante para acabar com as coisas estranhas que estão acontecendo.

– De que coisas você está falando? Algo sobre almas, não é? Por que ela quer ser responsável por isso? Não é algo bom! – Chegou minha vez e, assim como Rachel explicou, fiz uma oferenda ao meu "pai", Hades, jogando um pedaço de bife na fogueira. Espero não ter dado meu bife mais suculento atoa pra você, cara. Me ajuda! Pensei. Saímos da fila, agora sem a melhor parte da minha comida e eu muito intrigada. Nico ainda me seguia de perto, mas sem dar minha resposta. Sentamos-nos na mesa e Julie sentou bem distante de nós, fuzilando Nico com o olhar e depois, devorando selvagem sua comida como se fossem meus miolos.

– Ela vai me matar por não estar apoiando-a. – Ele diz, meio que para si mesmo.

– Por que você não a está apoiando? – Digo – Você nem me conhece.

Ele me olha com um olhar misto de tristeza e nostalgia. Seu olhar distante me dá a sensação de que ele está viajando por algum lugar no passado. Bom, minha comida parece apetitosa demais para eu me importar com o que ele pensa, então, passo a comer desesperadamente como se não tivesse comido nada há semanas. De repente, ele diz.

– Porque eu sei que não é ela.

– Como assim? – Exclamo, de boca cheia, agora mais atenta.

– Quando Rachel sussurrou aquelas palavras... Desde o dia que disse que essa filha de Hades teria um papel importante, eu soube que não era ela.

– Mas como?

– Eu não sou como a maioria dos campistas. Saio sempre que quero, muitas vezes sem profecia e desacompanhado. Na noite do dia em que isso aconteceu, fui pensar um pouco e enquanto estava na estrada, eu vi. Foi como... Como uma visão. Uma garota de cabelos negros como a noite, segurando um amuleto que tinha uma aura poderosa e que puxava para si, uma névoa branca. De onde vinha a névoa, vinha também um grito aterrador. Me aproximei mais e quando vi, um corpo pálido e semi esquelético jazia no chão, com uma expressão de terror no rosto e... E... A garota... A garota que estava fazendo isso... Ela era muito poderosa. Estava indo em direção ao acampamento... Ela não era boa.

Fiquei refletindo sobre o que ele disse e esperando que ele dissesse mais. O que ele queria dizer com toda essa história? Por que não era Julie a garota? O que isso tem a ver com a profecia ou seja lá o que for?

– Hum... Entendo... Mas, o que isso tem a ver?

Ele me olhou com pesar.

– Aquela garota estava sugando almas. Foi aí que notei que o "papel importante", não era algo bom. A filha de Hades tinha um papel importante, mas para o lado ruim da história entende? – Disse, e depois suspirou profundamente – Quíron e os deuses já sabem de tudo isso, mas Julie não e não podemos afetar o destino de ninguém, por isso não posso contar minha visão. Os deuses estão conflitantes com isso, como sempre, tentando matar todos os suspeitos, você, as suspeitas filhas de Hades e, claro, Julie. Mas ela é bondosa demais, Melissa. E não luta com uma espada.

– Está insinuando que eu que saí por aí roubando almas e tudo o mais?

– Não. Estou dizendo que você é quem é a garota da profecia. E mandando você ganhar esse duelo – Ele diz, se aproximando um pouco mais e falando cada vez mais baixo – e depois disso, vou tirar você daqui antes que saibam que você vai fazer algo ruim e tentem te matar.

Notas finais
Espero que tenham gostado.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.