Melhores Amigos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Essa é a primeira história que posto e já tô apanhando do site (não sei se fiz as coisas certas kk).
Caso não tenha aparecido é uma one-shot que tem alguns assuntos delicados como suicídio e depressão. Se ela for uma espécie de gatilho pra você, não leia. Sua saúde mental em primeiro lugar.
Pode-se dizer que é uma homenagem ao meu ex-vizinho (eu nunca falei com ele, mas me senti bem triste com sua morte).
Enfim, espero que gostem.
O caminho é feito em silêncio. Eu agradeço ao motorista e pago a corrida. Ao sair do carro, olho rapidamente para as minhas roupas e percebo que os meus tênis estão sujos de lama. Devia ter lavado antes de colocá-los, mas ele nunca se importou com a minha falta de vaidade mesmo. Aperto o pequeno jarro de orquídeas amarelas na minha mão tentando passar uma confiança que não me pertence. Respirando fundo, passo pelos portões de ferro enfeitados com diversas flores coloridas e alegres. Um disfarce macabro para a situação.
Apesar do feriado, o local está relativamente vazio. Também, cheguei tarde o suficiente para ver o pôr do sol. Ando sem pressa, desviando de algumas pessoas e esbarrando em outras. Ao chegar no meu destino, me sento no chão e observo o movimento mórbido. Solto um suspiro e coloco as flores na minha frente perto de uma foto de um casal de adolescentes. Sorrio para a imagem, mas logo o sorriso se transforma em uma careta de dor.
— Droga – digo para mim – Prometi que não ia chorar.
Desvio minha atenção para o céu e vejo as nuvens cinzas. Percebo que não demorará muito para chover. Acho bem conveniente considerando a sua situação a qual me encontro. Uma cena digna dos filmes de animação da Disney feitos para chorar rios de lágrimas e aprender lições valiosas para a vida. Contudo, meus olhos traidores são atraídos em direção à fotografia e me pego os observando com nostalgia. O menino de cabelos rebeldes sorri timidamente para a garota de óculos. Eles parecem felizes. E eles eram felizes.
Lembro-me de quando o conheci. Era o meu primeiro dia de aula em outra escola, ou seja, não conhecia ninguém e estava bastante ansioso e nervoso. Só faltava eu andar com uma plaquinha escrito “calouro” para me denunciar ainda mais. Tirando uma coragem inexistente (talvez do apêndice, afinal qual é a função dele?), entrei na sala de aula e todos os alunos me ignoraram. Naquela época, eu não gostava de Harry Potter, mas hoje poderia muito bem comparar a cena quando o bruxo utilizava a capa da invisibilidade. Sem perceptivas, sentei-me no antepenúltimo lugar perto da parede. Quem era o idiota que falava que primeiro dia de aula era legal? Não pude aprofundar muito meus pensamentos, pois o professor entrou desejando um ótimo ano para nós e já passando o conteúdo.
Depois de três aulas, tive a certeza que o sétimo ano era coisa do capeta. Fala sério, o ano tinha literalmente acabado de começar e eu já desejava estar em Dezembro. As matérias pareciam confusas e difíceis. E eu não tinha interesse alguma de estudá-las.
O sinal para o intervalo tocou e todos os estudantes saíram da sala como se suas vidas dependessem disso. Todos, exceto eu que peguei o lanche da manhã da minha mochila. Abri o pacote de bolinho e, quando já estava na metade, notei que não estava sozinho. Um outro garoto sentado na última carteira da fila do meio se encontrava concentrado num livro. Ele ria enquanto lia e eu achei isso super estranho. Aparentemente, eu não fui discreto ao observá-lo, pois o garoto me olhou com a sobrancelha esquerda arqueada.
— Você é novo aqui – não foi uma pergunta e eu concordei com a cabeça.
— Como sabe?
— A escola ainda não tirou o brilho dos seus olhos – respondeu seriamente. Eu fiz uma expressão de surpresa e ele teve a audácia de rir – É brincadeira. É só que nunca te vi antes.
— Você não me parece o tipo de pessoa que saí da sala para fazer esse tipo de comentário – rebati com frieza. Ele deu de ombros como se não se importasse.
— Pelo jeito, você também não – falou com uma voz calma – Afinal, é o seu primeiro dia de aula e não foi pro recreio – eu o olhei irritado e o garoto sorriu mais largamente. Ele percebeu isso, aquele maldito.
— Devo ter feito algo de muito errado para estar aqui com um esquisito – murmurei não tão baixo, pois notei que os olhos dele se avermelharam.
— Vou indo já que te incomodo tanto – me assustei ao escutar o quão chorosa a voz dele soou. Só percebi que falava sério quando se levantou da cadeira carregando o livro na mão.
— Desculpe – disse me sentindo culpado – Podemos começar de novo? – ele me encarou e negou.
— Não quero sua pena – com isso, me deixou sozinho.
No dia seguinte, tentei falar com o menino misterioso, mas ele me ignorou. Quando o intervalo chegou, ele também saiu da sala e percebi que eu tinha feito uma burrice muito grande. Meus pais sempre me alertaram para pensar antes de falar porque poderia machucar as pessoas e o que eu faço? Justamente o contrário do que me ensinaram.
Após uma semana, desisti de tentar me desculpar. Se ele não queria conversa, eu que não ia insistir. Então, comecei a andar com outros garotos da sala e, aos poucos, estava entrando no círculo de amizades. Os rapazes eram legais, apesar de falarem sobre pessoas que eu não conhecia. Ainda assim, sempre me incluíam no assunto quando percebiam que eu não o compreendia.
Foi numa sexta-feira em que as coisas começaram a mudar. Eu e os meus quatro colegas (ainda estávamos na parte inicial de construir uma amizade, então eram apenas colegas mesmo) encontramos o Esquisito (o apelido que dei para ele por ainda desconhecer o nome dele). Ele tentou desviar da gente e não fez contato visual, mas um dos garotos achou que era uma afronta e o impediu de atravessar o corredor que se encontrava relativamente vazio já que as aulas não haviam começado.
— Onde pensa que vai, seu nerd? – o menino rolou os olhos discretamente e nada disse – Eu sei que você sabe falar. Então, me responda! – dessa vez, o meu colega-não-tão-legal-como-achei-que-fosse empurrou com força o Esquisito que continuou quieto.
— Isso é mesmo necessário? – perguntei. Nunca gostei de brigas e sempre achei que o diálogo fosse a melhor forma de chegar a um acordo. Ao menos, era isso que os meus pais me falavam quando eu fazia algo de errado.
— Fica na sua, novato.
Observei, petrificado, os quatro rodearem o esquisitão. Eles estravam os dedos das mãos e faziam caretas ameaçadoras. Ainda assim, o garoto intimidado não demostrava nenhuma reação e eu cheguei a me perguntar se ele era capaz de fazer isso, porém mudei de ideia ao me lembrar do quanto ele pareceu magoado com minhas palavras.
Não querendo participar da violência nem querendo ser cúmplice dela, fiz a coisa que achei mais lógica na hora. Estávamos perto do sinal de incêndio e, sem pensar duas vezes nas futuras consequências que esse ato podia me trazer, quebrei o vidro e pressionei o botão. No outro segundo, o alarme tocava assustando os alunos e os professores presentes na escola, inclusive os quatro valentões que foram os primeiros a correr. Sem muito o que fazer, agarrei o pulso do Esquisito e o levei para fora do colégio tendo o cuidado de nos distanciarmos um pouco das outras pessoas.
— Obrigado – ele falou assim que paramos de correr.
— Disponha – um silêncio constrangedor se instalou entre nós até que me recordei de algo – Qual o seu nome?
— Vinícius, seu idiota – respondeu com um sorriso zombeteiro – Prazer em te conhecer, Guilherme – ele foi embora antes que eu percebesse que fui xingado de idiota.
Eu sei que o final de semana que se seguiu foi o mais longo e tedioso. Estava ansioso pensando no que aconteceria quando chegasse no colégio. Será que alguém descobriu que fui eu quem acionou o alarme de incêndio e eu seria suspenso? Bem, nunca fui um aluno exemplar, mas também não tinha um histórico escolar ruim. E quanto ao Vinícius? Ele falaria comigo? Eu queria que ele falasse comigo? Muitas perguntas, poucas respostas. A única coisa na qual tinha certeza era que não gostaria de conversar com os quatro babacas valentões.
Fiquei tão imerso imaginando o futuro e sempre colocando as piores hipóteses que minha mãe entrou no meu quarto, se sentou na minha cama e só percebi quando ela falou comigo.
— O que aconteceu, meu filho?
— Ontem eu vi uns colegas meus de sala intimidando outro. Eram quatro contra um e achei tão injusto, ainda mais porque o outro garoto é tão na dele – disse a verdade. Minha mãe me olhou com toda a sabedoria que só mães têm e sorriu pra mim.
— Você se incomodou? Não gostou do que viu? – concordei com a cabeça – E por isso disparou a alarme de incêndio? – arregalei meus olhos em choque.
— Vou ficar de castigo? – perguntei e ela negou.
— Guilherme, você ajudou uma pessoa. É lógico que não farei isso, mas saiba que tem outras formas de ajudar sem assustar ninguém. Agora vamos jantar. Seu pai fez lasanha de carne.
Finalmente, segunda-feira chegou. Ainda não sabia o que faria nem se faria algo, mas me senti bem melhor quando os Babacas (um apelido fofo para os quatro considerando a situação) passaram por mim sem me cumprimentar. Entrei na sala e vi o Esquisito no mesmo lugar lendo outro livro. Céus, quem gosta tanto de ler assim? Com uma discrição que eu não tinha, me aproximei dele.
— Oi – falei. Ele fechou o livro após marcar a página e me olhou.
— Se não é o idiota – fiz uma expressão indignada e ele riu.
— Pelo jeito, você está ótimo. Tchau.
— Já falei que não quero a sua pena, Guilherme – respondeu quando eu já estava de costas.
— Quem disse que estou com pena? Só queria saber se estava bem e entender o que aconteceu naquele dia!
— Seus amigos acéfalos precisam se sentir melhores do que os outros intimidando as pessoas – falou como se explicasse para uma criança.
— Eles não são meus amigos, Esquisito.
— Ótimo – e então, voltou a ler. Ainda assim, juro ter visto um sorrisinho.
Dois meses se passaram e eu não tinha nenhum amigo. Os Babacas nunca me incomodaram e agradeci por isso, mas também não falavam comigo. A verdade era que eu não falava com ninguém, exceto com o Vinícius. Porém, nossas conversas, se é que posso chamar assim, eram regadas a uma estranheza sinistra e sempre trocávamos farpas.
Eu me lembro de um intervalo que me peguei observando o Esquisito. Ele estava lendo uma HQ dessa vez, mas ainda fazia expressões engraçadas com a história. Ele era um dez centímetros mais baixo do que eu (algo que sempre fiz questão de lembrar só para irritá-lo) e tinha os cabelos pretos repicados e um pouco acima dos ombros. Os olhos eram castanhos de uma cor bem escura e também tinha uma cicatriz na sobrancelha esquerda graças a uma queda na escada causada pelos Babacas.
— Tem algo de errado para me olhar tanto? – ele perguntou e senti meu rosto corar.
— Não – ele se virou para mim e abriu um sorriso. Fiquei surpreso ao notar que não era um sorriso debochado. Era um sorriso verdadeiro e contagiante.
— Você é estranho – decretou ainda sorrindo.
— E você não tem o direito de me julgar – mais uma vez, ele riu e concordou com a cabeça.
Não éramos amigos, mas acho que começamos a gostar da companhia um do outro a partir desse dia. Digo, as implicâncias continuaram e as conversas sem nexo também, porém eu gostava de saber que passaria o intervalo com ele e ficava apostando comigo qual livro ele leria ou quando acabaria um.
Contudo, tudo mudou com um trabalho de História. A professora queria que fizéssemos um trabalho de cinco páginas sobre a Primeira Revolução Industrial. Quase chorei ao escutar a tarefa e mais ainda quando disse que seria em dupla e ela já havia sorteado. Qual foi a minha surpresa ao saber que ficaria com o Vinícius? O Esquisito me olhou e deu de ombros sem demostrar interesse.
— Como vamos fazer o trabalho? – perguntei assim que as aulas acabaram. Infelizmente, História era a última aula do dia.
— Podemos ficar na biblioteca daqui alguma tarde – respondeu e eu tentei não me surpreender com o fato da escola ter uma biblioteca.
— Ou podemos fazer na minha casa – sugeri não gostando da ideia de ficar mais um minuto no colégio.
— Amanhã na minha casa, Idiota. Avise aos seus pais.
Como combinado, estávamos indo pra casa do Esquisito. Quando falei pros meus pais que iria passar a tarde fora com um colega para fazer um trabalho, eles quase soltaram fogos de artifício de tanta felicidade. Eles sabiam que eu não tinha nenhum amigo na escola e acharam que era uma oportunidade perfeita para eu mudar isso. Bem, o importante é que deixaram contanto que enviasse uma mensagem dizendo que havia chegado e com o endereço do lugar.
Eu e o Vinícius não conversamos durante o trajeto que fazíamos a pé. O Esquisito morava a uns quinze minutos do colégio e, ironicamente, a uns dez minutos da minha casa. Éramos quase vizinhos. Finalmente, paramos em frente a uma casa azul de dois andares. Ele abriu o portão e me deu espaço para passar.
— Mãe, chegamos – anunciou quando estávamos na sala – Quer deixar sua mochila no meu quarto? – apenas concordei. Ele a pegou e subiu as escadas me deixando sozinho.
— Você deve ser o Guilherme – uma mulher comentou. Ela tinha cabelos escuros e olhos castanhos acolhedores. Também usava um terninho e estava terminando de colocar um brinco.
— Sim, senhora.
— Por favor, me chame de Sabrina – pediu com um sorrisinho – Prefere colocar a comida ou quer que eu faça? – perguntou.
— Eu coloco.
Segui a mãe do Vinícius pra cozinha e senti um cheiro muito bom de comida caseira. Quase salivei ao ver que era frango assado com batatas assadas. Eu amo esse prato tanto quanto amo lasanha de carne. A tia Sabrina foi muito simpática e até me deu uma asa. Sorri extremamente feliz com isso. Eu já estava sentado na mesa de jantar quando o Esquisito apareceu com uma calça moletom e uma blusa escrito: Save bacteria. It’s the only culture some people have! Eu não era muito bom em inglês, mas compreendi a piada triste e sorri ao ler a frase. Era bem a cara dele.
Almoçamos com conversas amenas. A mãe dele me fazia algumas perguntas que todas mães fazem quando conhecem alguma pessoa e ela também fez uma torta de limão que estava maravilhosa. Depois, saiu alegando que não podia chegar atrasada pro trabalho, mas com a promessa que tinha sanduíches naturais na geladeira.
— Vamos pro meu quarto – o Vinícius falou após ter terminado de lavar a louça. Eu também me voluntariei, mas ele recusou o pedido dizendo que eu era visita (depois de um tempo, ele nunca mais recusou minha ajuda alegando que eu não era mais visita).
Subimos as escadas e entramos na segunda porta a direita. E então, eu vi o quarto do Esquisito e percebi que fazia jus ao dono. O lugar tinha duas prateleiras gigantes cheias de livros e HQs que estavam enfeitadas com bonequinhos colecionáveis. Também tinha pôsteres de Star Wars, de Harry Potter, de Senhor do Anéis e… de Toy Story? Sem falar de algumas varinhas de HP. Na cama, tinha um travesseiro no formato do Homem-Aranha. E na escrivania, um globo mundial que servia como luminária. E, em cima da mesa, pregado na parede, um mapa mundi com alguns alfinetes.
— Quarto interessante – comentei – Qual é a do mapa?
— São lugares que quero conhecer.
— Você é meio nerd – ele me olhou e riu.
— Também jogo RPG. Devia tentar.
— Um nerd beeeeem antissocial – completei.
— Desculpa se não tenho uma vida tão agitada quanto a sua, Guilherme. Afinal, como é que você aguenta tantas pessoas em cima de você no colégio? – a ironia era quase palpável na voz dele.
— Também não precisa tocar na ferida.
Ele não respondeu, estava mais concentrado em ligar o notebook. A vantagem era que o trabalho podia ser digitalizado, então nossas mãos agradeceriam. Continuei analisando o quarto até parar numa roupa estranha pendurada do lado de fora do guarda-roupa. Era uma blusa branca bem espaçosa com alguns botões, eu suponho, e uma calça preta. Um conjunto intrigante.
— Pra que é isso? – indaguei apontando para a roupa. Ele olhou rapidamente e voltou pro notebook.
— É meu uniforme de Kung Fu – está aí algo que não sabia sobre ele.
Depois disso, começamos a fazer o trabalho. E, apesar de não gostar de História, foi bem divertido. Talvez, foi por causa da companhia ou do fato de conversamos sobre coisas aleatórias enquanto pesquisávamos. Só sei que, quando terminamos e os meus pais foram me buscar, eu saí de lá com uma HQ do Batman nas mãos e com um sorriso no rosto por ter um amigo.
Era Setembro e a gente estava em baixo de um ipê amarelo. Trouxemos comida e um pano para o piquenique improvisado. Escutávamos Link Park e nunca pensei que gostaria tanto da banda. O Vinícius cantava baixinho algumas partes da música e eu achei isso muito engraçado.
— O que foi? – ele perguntou.
— Sua voz é terrivelmente horrível – falei. Ele simplesmente me ignorou. Contudo, era uma pessoa observadora e logo notou que tinha algo de errado.
— Desembucha – mandou.
— O que aconteceu entre você e os Babacas?
Um dia antes do ferido de Sete de Setembro, eu vi uma briga se inciando. Como já falei, sempre gostei mais de dialogar e me aproximei mais para ver o que estava acontecendo. Não me surpreendi ao notar que os Babacas estavam no meio, mas o que diachos o Vini fazia ali? Ele sorria zombeteiro o que deixava os quatro mais irritados ainda. Então, ele falou algo que não escutei e saiu como se nada tivesse acontecido.
— Por que quer saber? – revirei os olhos com essa questão.
— Porque sou seu amigo, caramba!
— Eles estavam sendo os idiotas de sempre – respondeu com tédio – Falaram um monte de besteiras achando que iam me incomodar, mas só serviram para fortalecer ainda mais minha opinião acerca deles.
— Que tipo de besteiras?
— Algo sobre eu ser estranho, nunca ter beijado, ter uma queda por garotos. Fala sério, desde quando ser chamado de gay é ofensivo? – ele estava certo, mas algo me chamou a atenção.
— E você é? – indaguei hesitante, porém ele não tinha entendido – Você é gay? – a cara dele foi maravilhosa.
— De tudo o que falei você só ouviu isso? – neguei com a cabeça – Eu não sou gay, só acho idiota algumas pessoas pensarem que isso é uma ofensa.
— E você nunca beijou? – ele revirou os olhos, mas as bochechas estavam vermelhas. Fingi que não vi.
— Não, caramba – então, ele fez a pergunta que me deixou sem jeito – Você já?
— Também não – respondi.
Hoje sei que foi besta eu ter ficado envergonhado, afinal as pessoas e os filmes esperam que aos treze anos você já tenha beijado alguém. E, apesar de achar algumas garotas bem bonitas, nunca tive a vontade de beijá-las. Meu pai falou que isso só acontece com quem gostamos de verdade e que não preciso me sentir forçado a fazer algo no qual não estou pronto. De fato, ele estava certo. Meu primeiro beijo só aconteceu em Janeiro nas férias.
Estava no meu quarto sem nada para fazer. O Vini tinha viajado com a família e só voltaria no final do mês. Enquanto a mim, passava a maior parte do dia em uma cafeteria.
Encontrei o estabelecimento bem por acaso. Tinha ido ao shopping comprar os presentes de Natal para meus pais e, quando já estava no meio do caminho voltando pra casa, começou a chover. Como não tinha trago guarda-chuva, entrei na primeira loja que vi. Só mais tarde que me toquei que era uma cafeteria. Bem, sempre fui muito fã de café e o cheiro era delicioso. Então, me sentei em uma das mesas e esperei alguém me atender.
— O que deseja? – uma voz feminina perguntou. Olhei para a pessoa e vi que era uma garota de catorze anos, no máximo. Ela tinha olhos cor de mel e cabelos loiros enrolados. Sorria como uma princesa e a voz dela parecia de um anjo. Corei ao notar que não a havia respondido.
— Um cappuccino, por favor.
Desde esse dia, eu ia constantemente na cafeteria só para encontrar a bela moça. Eu levava um livro de Harry Potter (o Vini tinha me emprestado toda a coleção dele antes de viajar com a condição que eu cuidasse bem dos livros. Ele era tão dramático) e tomava um copo de café. Sempre pedia um diferente e sempre a mesma garota me atendia.
Após um tempo, descobri que a nome dela era Maria. E, não sei quando, mas ela não atendia ninguém depois que vinha na minha mesa. A gente conversava horas a fio e, então, eu pedi o número do celular dela. Fiquei tão feliz quando ela pegou o meu telefone e anotou o número. Contudo, não superou quando aceitou sair comigo para o cinema.
— Bom encontro, filho – minha mãe falou antes de eu sair. Eu a olhei com vergonha e balancei a cabeça.
— Não é um encontro, mãe.
— Sei.
Foi um encontro.
Combinamos de nos encontrar na entrada do cinema. E, quando eu a vi, parecia que o mundo tinha parado. Ela usava uma blusa preta e um short jeans claro, além de estar com botas pretas. Tinha uma leve maquiagem realçando os olhos e um colar com um pingente de bailarina. Estava ainda mais bonita se é que era possível.
— Oi – eu disse.
— Oi – ela respondeu tão sem jeito quanto eu. Céus, se o Vini estivesse aqui ele riria da minha cara.
Como uma boa pessoa educada, eu a deixei escolher o filme. E fiquei em dúvida se pagaria tudo ou não. Mas, ela não hesitou quando disse que iríamos dividir porque ainda sobrava dinheiro pro lanche. Achei uma ótima ideia.
Eu já não me lembro mais do filme porque não tinha gostado. Era meloso de mais, dramático de mais e triste de mais. Tive que segurar as lágrimas de felicidade quando ele acabou e saí aliviado da sala de cinema.
— Quer comer alguma coisa? – indaguei.
— Um sorvete, que tal?
— Acho muito bom.
Comprei um milk shake de chocolate e ela, um de morango. Nós ainda andamos um pouco e entramos em algumas lojas. Conversamos sobre nossos gostos, nossas famílias, nossos amigos e nossos sonhos. Por exemplo, descobri que ela era mais velha do que eu por cinco meses. E eu falei que, na semana seguinte, faria catorze anos.
— E só me conta agora? – Maria indagou fingindo irritação – Bem, eu vou viajar amanhã e só volto depois do seu aniversário, porém quero te dar algo.
— Não precisa.
— Mas eu insisto – concordei com a cabeça e fui agraciado com um sorriso – Feche os olhos, por favor. E não espie – fiz o que ela pediu. Então, senti lábios sendo pressionados contra os meus e as malditas borboletas no estômago. Quando os abri, ela estava tão corada quanto eu.
— Minha vez – falei e a beijei de novo e de novo e de novo.
Quando Maria chegou da viagem, a gente combinou de se encontrar no Parque da Cidade. Ela estava com um vestido florido que achei que ficou perfeito nela. E, ao nos cumprimentarmos, não sabia o que fazer. Porém, ela era uma pessoa bem mais segura do que eu e me beijou. Sorri como um bobo apaixonado.
Então, Janeiro já tinha chegado ao fim e com ele trazia o meu amigo de volta. Fiquei extremamente feliz com o retorno dele e estava super ansioso para falar o que tinha acontecido nesses últimos dias. Assim, entrei no quarto dele sem ser convidado.
— Eu podia estar trocando de roupa – o Vini comentou com um biquinho irritado. Ele não gostava que eu entrasse sem avisar, mas estava pouco me ligando para as manias chatas do meu amigo.
— E graças a Deus está de roupa, então problema resolvido – rebati com um sorriso. Ele me deu as costas e foi em direção ao guarda-roupa. De lá, tirou uma sacola e me estendeu.
— Feliz aniversário atrasado, Idiota.
— Obrigado, Esquisito – abri a sacola e peguei uma caixa embrulhada de forma perfeita. Com cuidado, rasguei o papel e quase deixei o presente cair quando vi o que era – Fala sério! – exclamei feliz ao ter ganhado o jogo Out Last para PS4. Mal joguei nas férias por estar ocupado com a Maria – Cara, muito obrigado mesmo.
— Que bom que gostou – comentou com um sorrisinho.
— E como foi a viagem? – percebi que o sorriso dele diminuiu de tamanho e estranhei isso.
— Foi bem normal. Vi os meus tios e meus primos e ficamos na casa da minha avó. Nada de emocionante aconteceu – falou dando de ombros – E você? – eu sabia que o Vini estava se esquivando do assunto, mas podia perguntar o que era mais tarde e com mais calma.
— Também vi meus parentes no Natal e no Ano Novo. Eles não mudaram muito, sabe? – então, sentindo o meu rosto corar, resolvi contar o que queria logo – Eu conheci uma garota também – ele não se importou muito e ficou me olhando tentando compreender o motivo de eu estar falando sobre ela – E a gente se beijou – se o Vini estivesse bebendo água, tenho certeza que ele cuspiria.
— E quem é a louca? – indagou zombeteiro. Revirei os olhos com o comentário – Quando aconteceu?
— Eu a conheci em Dezembro e começamos a conversar muito. Daí, eu a chamei pra sair e nos beijamos.
— Você a convidou pra um encontro? – não gostei da descrença na voz dele – E onde a levou? Por favor, não me diga que foi no cinema – eu fiquei em silêncio e ele me olhou como se eu tivesse cometido um crime horrível – Isso é tão clichê – logo, ele riu (de fato, no primeiro encontro que ele teve, o Vini levou a garota para observar o lago de noite. Nunca contei, porém também achei clichê e muito romântico).
— Ao menos, eu não sou mais BV – rebati. O Vini revirou os olhos e eu ri. Sabia que ele não se importava com esse tipo de coisa, porém adorava implicá-lo.
— Qual o nome da guerreira?
— Guerreira? O nome dela é Maria.
— É um nome legal.
— Ela quer te conhecer – e mais uma vez, jogaria água na minha cara se estivesse bebendo.
— O quê?
— Ela quer te conhecer. Tipo, o meu melhor amigo, sabe? Algum problema? – indaguei preocupado.
— Não. Só estou surpreso – comentou desconcertado – Eu vou adorar conhecê-la.
Eu estava nervoso. Depois de três semanas da conversa com o Vini, eu pedi a Maria em namoro. E… ela aceitou para minha felicidade. Então, teve todo aquele processo de conhecer os pais dela e ela conhecer os meus. Apesar de alguns micos que passei, não foi tão desastroso quanto achei que seria. Mas, estava nervoso por outro motivo. Finalmente, ela conheceria o Vini e eu gostaria que os dois se dessem bem.
— Vamos, Amor? – Maria perguntou. Concordei com a cabeça e fomos de mãos dadas até a cafeteria. Estávamos atrasados meia hora e o Vini já tinha lotado meu celular com mensagens ameaçando sair de lá.
— Ali – falei quando vi a cabeleira inconfundível dele. A gente se aproximou de vagar e ele levantou o olhar para me fuzilar, mas suavizou a expressão ao ver a Maria. A gente se sentou e um silêncio constrangedor se instalou.
— Então, você é a Maria. A namorada do Idiota ao seu lado – o Vini comentou arrancando uma risada dela e um olhar irritado meu – Ele vive falando sobre você que acho que já até a conheço.
— Digo o mesmo sobre você, Vinícius – ele arqueou uma sobrancelha como se não acreditasse – Ele me falou que você é um ótimo amigo.
— Eu tenho minhas qualidades, mas não posso dizer o mesmo sobre o Guilherme – e com o sorriso debochado dele, eu soube que estava ferrado.
— Como assim? – a Maria fez a pergunta que me condenou a morte lenta e vergonhosa.
— O seu namorado não te conta sobre as coisas que faz? – indagou com falsa indignação – Que feio, Guilherme – ele olhou para a Maria e sorriu largamente – Você sabia que ele tem medo de borboletas? Um dia a gente estava andando e uma borboleta pousou bem em cima do nariz dele e o que ele faz? Começa a se estapear na cara. Foi uma cena hilária ainda mais porque tinha um monte de gente o olhando.
— Eu não sabia disso, Amor – Maria comentou ainda rindo.
— Só não foi melhor no dia em que derrubou sorvete na própria jaqueta e tropeçou numa pedra caindo de cara no chão e bem próximo de um cocô de cachorro – minha namorada começou a rir como louca e eu senti o meu rosto esquentando – Também teve o dia em que ele estava falando mal da professora de História e ela estava atrás dele.
— Não acredito!
— Vini – chamei irritado. Ele me ignorou e percebi que o filho de uma mulher pura (porque a tia Sabrina não tinha culpa do filho) estava se divertindo as minhas custas. Além disso, era uma vingança dele por ter chegado atrasado.
Por fim, ele e a Maria se deram bem. E a tarde terminou com eles rindo de mim e eu tendo a certeza que o meu amigo fez um impacto com o Demônio para se divertir com eu passando vergonha.
Estávamos no meu quarto estudando para as provas. O Vini estava concentrado na matéria de Matemática e eu mandava mensagens pra Maria. O nosso namoro ia fazer três meses e estava bastante preocupado com o presente que daria a ela. Não queria parecer clichê como o Vini me acusava ser. Então, tentando distrair minha mente com outra coisa, uma ideia me apareceu extremamente atrativa. Levantei da cama e peguei o meu notebook abrindo numa página de um site com segurança duvidosa. Após alguns minutos, encontrei o vídeo que mudaria nossas vidas (talvez, só talvez eu tenha pegado a manina dramática do meu amigo).
— Meus pais não estão em casa – comentei como se não quisesse nada – Podemos assistir aquilo.
— Sério? – o Vini perguntou preocupado. Ele sempre foi o mais certinho de nós e, às vezes, isso me irritava.
— Vem logo – pedi.
Ele se levantou da cadeira, apagou a luz do quarto e realmente garantiu que só tinha a gente em casa. Achei a última parte desnecessária, mas não comentei. Finalmente, ele se sentou comigo na cama olhando atentamente para a tela em preto esperando que eu desse play no vídeo.
— Pronto? – perguntei hesitante. A adrenalina corria por minhas veias ao saber que faria algo que os meus pais não gostariam.
— Sim.
Então, o vídeo começou. E a primeira coisa que vimos foi uma garota com um cabelo platinado tomando banho e mostrando os seios para a câmara. Senti meu rosto esquentar ao imaginar a Maria e me recusei a olhar pro lado. Acho que nunca tinha visto tanta gente pelada em quatro horas, além de sangue e carnificina. Realmente, nesse dia, nós entendemos o porquê das pessoas serem viciadas em Game of Thrones.
Faltavam duas semanas para as férias do meio do ano e já sorria de alívio. O oitavo ano estava puxado, porém consegui manter minhas notas razoáveis. Afinal, eu não era um nerd como o Vini que tirava só acima de nove. Além disso, tinha planejado o cronograma que faria nesse um mês sem aulas. E foi o repassando na minha mente que percebi que não teria muito tempo pro meu amigo.
— Esquisito – chamei no horário do intervalo. Ele fechou o livro que lia e me deu a devida atenção.
— O que foi, Idiota?
— O que vai fazer nas férias?
— Provavelmente ler – respondeu como se fosse óbvio.
— Eu andei pensando e percebi que a gente mal tem se falado nos últimos dias. Digo, quase todo final de semana a gente saía.
— Bem, você está namorando e é normal ficar mais tempo com a sua namorada. Mas, se isso te incomoda tanto, a gente pode ir pro cinema na sexta.
— Acho uma boa ideia – ficamos em silêncio até eu me lembrar de algo – Você pode ser sincero comigo?
— Claro – o Vini falou assumindo uma expressão séria.
— O meu namoro com a Maria te incomoda? – ele se surpreendeu com a questão e demorou um pouco para respondê-la.
— Quer saber se eu tenho ciúmes de você? – rebateu com deboche, porém logo voltou a seriedade – Não me incomoda, exceto quando tenho que segurar vela. Tipo, não sou obrigado a ver nem ouvir vocês trocando saliva – apontou com certa indignação. OK, ele realmente não gostava disso – Mas, já que você me pediu pra ser sincero, devo dizer que fiquei preocupado no início.
— Como assim?
— Me pareceu muito rápido o namoro de vocês. Digo, vocês não se conheciam direito quando começaram a namorar e fiquei com medo de que alguém saísse magoado – concordei com a cabeça. Até eu admito que fomos com pressa – Hoje eu não me preocupo tanto.
— Posso fazer uma pergunta que não tem relação alguma com o assunto? – indaguei me dando conta de que já havia adiado de mais.
— Vai.
— O que realmente aconteceu nas férias de início de ano? – eu poderia não estar tão presente na vida do Vini, porém notei que ele estava diferente desde aquela época. Ainda mais pelo fato de sempre fugir da conversa. Incrivelmente, não foi isso que aconteceu.
— Alguns tios e primos meus são bem cabeça duras, sabe? Então, eles acharam estranho eu nunca ter namorado nem ter nenhuma garota na qual converso. Aliais, a única pessoa na qual converso é com você, um garoto. Também falaram que eu nunca conseguiria entrar numa faculdade que preste porque não sou um bom aluno e um monte de outras coisas que me deixaram pé da vida.
Bem, eu fiquei pé da vida ao escutar isso. Ele não precisava namorar ou ficar com garotas só porque a sociedade fala que precisa fazer isso depois dos treze anos. E, qual o problema em ter um melhor amigo? Eu por acaso sou uma má influência? Se tem alguém que eu conhecia que conseguiria entrar na melhor faculdade do país esse alguém era o Vini. As notas dele eram impecáveis e ele era muito inteligente.
— Não liga pra eles. Você é excelente do jeito que é – disse tentando passar confiança. Ele me olhou por alguns segundos e sorriu um dos sorrisos sinceros e raros de se ver.
— Filho, o Vini já chegou – meu pai avisou batendo rapidamente na porta do meu quarto.
— Já vou – falei após responder uma mensagem da Maria. Tadinha, ela tinha tomado muito sorvete e acabou gripando.
Conhecendo a peça, eu sabia que ele ficaria irritado se a gente chegasse atrasado no cinema. Por isso, peguei minha mochila com algumas mudas de roupas já que dormiria na casa dele e desci as escadas correndo. Eu o encontrei na sala conversando com os meus pais.
— Bora? – chamei. Ele me olhou e concordou com a cabeça seguindo em direção à porta – Tchau mãe, tchau pai.
— Tchau garotos. Bom filme – meu pai desejou.
— Tchau, meus amores. Não durmam tarde e venha mais vezes aqui, Vini – minha mãe falou.
— Pode deixar, tia.
Finalmente, conseguimos sair de casa. Pegamos um ônibus pro shopping considerando que já estava escurecendo e minha mãe ficaria se louca se fôssemos a pé. Não demorou muito e chegamos faltando meia hora pro filme começar. O Vini, sendo o fanático pontual como era, foi para a fila de ingressos e coube a mim comprar a comida. Quando terminamos, entramos na sala de cinema e fomos para nossos assentos.
Admito que nunca gostei de filmes de terror porque tinha medo, porém o Vini estava tão empolgado para assisti-lo que não tive coragem de negar. Era raro vê-lo animado com algo que não fosse livros ou HQs. Ao sairmos, tive a certeza que não dormiria bem naquela noite.
Como era o nosso costume, andamos um pouco pelo shopping após comprarmos uma casquinha de sorvete. Estávamos indo pra livraria quando uma garota me chama atenção. Ela tinha cabelos loiros e um sorriso que me fazia derreter, porém, o mais surpreendente, era o fato dela estar agarrada com um rapaz moreno e mais velho. Os dois se beijaram apaixonadamente e, então, a menina me viu. Ela arregalou os olhos, mas o Vini me puxou antes que ela viesse falar comigo.
Saímos do shopping e fomos pra casa dele em silêncio. Eu ainda estava em choque tentando encaixar as peças do quebra-cabeça e me recusava a acreditar no que os meus olhos me mostraram. Chegamos na casa dele e andamos direto pro quarto. O Vini me colocou na cama dele e fez algo ainda mais surpreendente: ele me abraçou. E foi assim que eu tive o meu coração quebrado pela primeira vez.
Era o primeiro dia de aula do segundo ano. Ambos já tínhamos dezesseis anos e muitas incertezas pela frente como o curso que faríamos e em qual universidade. Contudo, ainda negávamos que decisões precisavam ser tomadas visto o assunto no qual eu tentava conversar e o Vini claramente não apresentava nenhum interesse, mas fingia me escutar mesmo assim.
— Então, você transou com ela. Que emocionante – falou com tédio. Diferentemente de mim, o Vini nunca beijou alguém nem chegou a ficar com qualquer pessoa. Às vezes, pensava que era assexuado. Ele só me dizia que ninguém despertou o seu interesse. Bem, isso estava prestes a mudar.
— Você me decepciona com… – eu parei de falar quando notei que o olhar dele foi para a porta. Estranhando esse comportamento, também segui nessa direção e vi uma garota. Era aluna nova, pois nunca a encontrei no colégio. A garota tinha os olhos puxados e escuros, além de usar óculos. Os cabelos eram negros e lisos e, amarrada na cintura, havia uma blusa de frio da Sonserina. Olhei dela pro meu amigo e me surpreendi ao vê-lo corar. Com um sorriso irônico no rosto, pensei que era a minha vez de me vingar – Ei! Aluna nova! – chamei para o desespero bem disfarçado do Vini. Ela me olhou e eu sorri – Quer sentar com a gente?
— Claro – até eu me assustei com a resposta, porém tratei de colocar um sorriso simpático.
— Oi, seja bem-vinda – disse tentando não assustá-la com minha animação. Ver o Vini desconcertado ao meu lado era algo extremamente raro – Eu sou o Guilherme e o ser aqui é o Vinícius.
— Prazer em conhecê-los, rapazes – respondeu com sorriso discreto. Ela analisou rapidamente o Vini e eu pude jurar que a vi corar – Sou Hana.
— É um nome diferente, mas muito bonito – comentei.
— Obrigada.
— É em japonês, né? – o meu amigo questionou e eu fiquei sem entender.
— Sim. Significa flor. Como sabia? – a garota perguntou curiosa.
— Animes.
— Você gosta de quais? – foi então que me senti sobrando na conversa. Peguei meus fones de ouvido e pluguei no celular sendo embalado por um rock.
Já faziam dois meses quando notei que de dupla passamos para trio. A Hana estava em todos os lugares que íamos e a ideia inicial de incluí-la no nosso círculo de amizade só para irritar o Vini caiu por terra quando percebi que gostava da presença dela.
A garota era alguém bem divertida e outra nerd para a felicidade do meu amigo. Na verdade, os dois tinham muita coisa em comum e era interessante ver a relação deles se fortalecer e crescer. Apesar disso, viviam de implicância e minha paciência se esgotava toda vez que isso acontecia. Estava tão óbvio o que acontecia que só eles não percebiam.
— Bom dia, meu casal favorito – falei. Os dois ficaram vermelhos e eu ri internamente.
— Oi, Guilherme – a menina me respondeu.
— Idiota – anotei mentalmente que nenhum dos dois me corrigiriu.
Não conversamos muito porque cheguei atrasado e o professor já entrou na sala com as provas corrigidas em mãos. E a desvantagem em ter dois amigos nerds é que eles prestam atenção em todas as aulas o que significa sem chance de conversamos. Quando o sinal tocou pro intervalo, o Vini disse que precisava falar com o professor de Bilogia e ele saiu correndo.
— O Vinícius está estranho – a Hana comentou quando só ficamos nós na sala.
— Como assim?
— Ele me parece mais triste e sem disposição, não acha? – de fato, ela estava certa. Já nem lembrava a última vez que nós saímos.
— Vou ir na casa dele hoje depois da aula. Quer vir também? Daí aproveitamos e perguntamos o que anda rolando – sugeri.
— Não vai dar. Minha mãe tem consulta hoje e eu vou com ela. Mas pergunte mesmo o que tá acontecendo. Tô preocupada – o clima ficou pesado entre nós, então resolvi quebrá-lo.
— Preocupada com o namorado? – questionei. Ela corou até os pés e me deu um tapa no braço. Eu ri, apesar da força aplicada no golpe.
Apertei a campainha e esperei alguns segundos até a porta abrir e encontrar o Vini com os cabelos ainda mais rebeldes vestindo uma calça moletom (ele adorava calças moletom por achar mais confortáveis) e uma blusa com a estampa da Princesa Leia e do Han Solo. Ele arqueou a sobrancelha sem entender o que eu fazia e me deu espaço pra entrar.
Assim que entrei, fui rumo ao quarto dele sabendo que ele me seguiria. Como eu imaginei, o lugar estava extremamente arrumado e com decorações bem dignas de um nerd de carteirinha. Sentei-me na cama dele e percebi que tinha uma blusa de frio roxa. Peguei a peça e mostrei pra ele.
— É de quem? – perguntei mesmo já sabendo a resposta.
— Da Hana. Ela esqueceu aqui ontem e eu não me lembrei de levar pra escola – explicou.
— E o que ela fazia aqui? – ele desviou o olhar e notei que estava embaraçado.
— Estudando. Ao contrário de você – me acusou. Eu apenas dei de ombros – O que quer?
— Como assim? Preciso querer algo pra vir na casa do meu melhor amigo? – questionei com certa dramaticidade.
— Guilherme, fala sério.
— Tá bom – me dei por vencido e fiquei sério – O que tá rolando com você? E não me diga que é coisa da minha cabeça porque não é.
— Você não entenderia – falou triste.
— Então me ensina.
— Eu não entendo.
— Então tente.
Ele se sentou ao meu lado na cama e pegou o edredom nos cobrindo do ar gélido que saía do ar-condicionado. Ele observava o chão e eu o respeitei. Seja lá o que fosse, devia assustá-lo muito.
— Eu sinto que estou sendo sugado por um buraco negro todos os dias. Daí, eu percebo que o buraco negro está dentro de mim me sugando tudo e só me restando o vazio, o nada. E eu não consigo sair nem tenho vontade – quando o olhei, ele chorava. Isso me quebrou porque podia contar nos dedos de uma única mão quantas vezes já o vi chorando – Eu me sinto tão entediado, tão nada, tão um lixo que tem dias que desejo que isso acabe. Daí, eu tento pensar no meu futuro e vejo só escuridão.
— Vini – sussurrei o abraçando. Acho que isso só serviu para fazê-lo chorar ainda mais.
— Eu penso nos meus pais e quero rir da desgraça que é essa família. Somos felizes e completos para os vizinhos, mas, quando as portas se fecham e ninguém vê, o verdadeiro tormento acontece. Eu vivo num inferno com pais que se odeiam, porém não se separam por imagem. E eu sofro com esse ódio generalizado – eu o aperto mais forte sem palavras. Não sabia disso – Para completar, tem os meus tios e primos babacas que acham que podem me julgar porque não cumpro as metas ridículas deles e, por mais que eu não demostre, isso me corta. E a única coisa que quero fazer é gritar até meus pulmões explodirem e ver se assim eu preencho o vazio que tenho. Mas eu não consigo porque minha voz acabou e ninguém me escuta. Eu não sei o que fazer, Guilherme – o meu amigo me olhou pedindo por uma solução, mas eu também não tinha.
— Vini, eu estou aqui por você. Nunca vou te deixar – murmurei sabendo que ele me ouviu. Então, esperei que ele adormecesse.
Um mês se passou desde as revelações assustadoras que o Vini fez. Eu contei resumidamente para a Hana o que aconteceu e vi os olhos dela se enchendo de lágrimas. Contudo, ela despistou bem quando o nosso amigo chegou. Agora, eu estava o observando deitado na minha cama com um travesseiro tampando o rosto dele.
— O que foi? – perguntei temendo que algo de ruim tivesse ocorrido na casa dele.
— Eu e a Hana nos beijamos – respondeu tão baixo que quase não escutei.
— Vocês o quê? – questionei sem acreditar.
— Eu não vou repetir – falou teimoso.
Ainda assim, exibi o meu melhor e maior sorriso. Estava muito feliz por eles e, principalmente, pelo Vini estar pensando em outras coisas que não fossem tão triste e angustiantes.
— Vocês demoraram – comentei rindo.
Na minha cabeça, o relacionamento dos dois iria mudar radicalmente. Eles andariam de mãos dadas, se beijariam toda hora, falariam mil e uma declarações de amor e me fariam vomitar arco-íris sempre que os visse. Como fui trouxa! Os dois continuaram agindo da mesma forma que antes com a única diferença que não implicavam comigo quando dizia que eram um casal. Afinal, fazia quatro meses que namoravam.
— Minha mãe já chegou – a Hana anunciou se levantando da cama e espalhando algumas cartas. Ela pegou a mochila e, já na porta, olhou pra gente – Até amanhã, rapazes.
— Até – respondi.
— Eu te acompanho – meu amigo, como o bom namorado que era, falou. Como se eu não soubesse que era só uma desculpa para beijá-la sem plateia. Afinal, foi algo que fiquei admirado ao descobrir: o Vini era tímido. Após deixá-la na porta, ele retornou pro quarto com um sorrisinho. Os dois ficaram se olhando de forma estranha o dia todo, além de ficarem vermelhos sem motivo aparente. A menos que… Oh, eles não fizeram o que pensei, fizeram?
— Vini? – chamei. Ele me olhou e organizou as cartas do baralho que estavam jogadas na cama – Você e a Hana já transaram? – ele ficou da cor de um tomate tão rapidamente que eu tive que rir – Isso é um sim? – ainda envergonhado, ele concordou com a cabeça – Faz quanto tempo?
— Por que está tão interessado? – rebateu irritado.
— Até um tempo atrás você era BV e agora não é mais virgem. É muita informação pra processar – comentei me sentindo bem feliz. Definitivamente, estava me vingando de todas as vergonhas que ele já me fez passar na frente de garotas que eu gostava.
— Você me irrita – sorri ainda mais – Duas semanas.
— E usaram camisinha? – fui expulso da casa dele depois disso.
Já estávamos a três dias da véspera de Natal e as ruas estavam todas coloridas e enfeitadas para a data especial. Eu e os meus amigos estávamos no meu quarto com sacolas em mãos. A Hana viajaria pro Japão e só voltaria no final de Janeiro. Por isso, combinamos de trocar presentes antes dela ir.
— Eu começo – falei me levantando e entregando um pacote pra ela. A garota agradeceu e abriu o presente com um sorriso no rosto.
— Eu amei. Muito obrigada, Guilherme – falou levantando a blusa com a estampa do Naruto, um anime que ela gostava muito – Minha vez – disse me estendendo uma sacola azul.
— Não acredito! – berrei extremamente feliz. Céus, como eu a amava. Simplesmente ganhei o jogo mais legal do universo e mais fodidamente triste: Life is Strange.
— Gostou?
— Você ainda pergunta? Eu adorei! – depois do meu ataque de alegria, olhei pro Vini e indiquei que era a vez dele.
— Espero que goste – falou entregando um pacotinho pra namorada. Ela abriu a caixa com cuidado e eu pude ver os olhos dela brilhando de felicidade.
— É lindo, Vini – fui obrigado a concordar. Ele comprou um colar de prata com um pingente em formato de uma flor de orquídea amarela. Como nos filmes, ele a ajudou a colocar o presente no pescoço. Mesmo sabendo da timidez do namorado, ela deu um selinho muito rápido nele, porém o suficiente para deixá-lo envergonhado – Pra você – ela falou entregando uma caixa. Ele rasgou o papel devagar e sorriu de maneira verdadeira ao ver o box de livros da Agatha Christie.
— Obrigado – escutamos o barulho de um carro e a Hana se levantou.
— São os meus pais – avisou me dando um beijo na bochecha e outro no namorado, porém sussurrou algo pra ele que corou – Tô indo!
— O que foi? – indaguei com curiosidade quando ela já tinha ido embora.
— Ela disse que vai me dar outro presente de noite – respondeu com o rosto avermelhado. Contudo, senti que algo estava errado.
— Qual o problema?
— O de sempre. O mesmo vazio que só não é tão percebido quando estou com vocês – não gostava disso. Se eu pudesse, preencheria todo buraco que ele sentia.
— Então, passe o Natal comigo – convidei.
— É sério?
— Sim.
— Tudo bem, então.
Creio que a Hana realmente deu o presente prometido pra ele porque o Vini estava de muito bom humor no dia seguinte. A garota junto com os pais já estavam no avião com destino a Tóquio, contudo nunca chegaram na cidade. O transporte caiu após três horas de voo. Ninguém sobreviveu.
Foi um baque quando recebi a notícia. Eu não parava de chorar me lembrando da garota incrível que ela era. Essa foi a segunda vez que o meu coração quebrou. Então, percebi que, se eu estava assim, o Vini estaria ainda pior. Eu o encontrei no quarto dele chorando agarrado ao box da Rainha do Crime. Não falei nada porque não sabia o que dizer. Poxa, ele perdeu a namorada de uma forma trágica. Tinha como amenizar isso?
O enterro simbólico aconteceu aqui mesmo. No Japão, a Hana só tinha os avós maternos de parentes. O restante dos tios estavam no Brasil. Os três caixões vazios foram enterrados juntos com muitas lágrimas e saudades. Quando terminaram, o Vini ficou mais um pouco. Eu pensei em ir embora, porém resolvi esperá-lo mais afastado dando a devida privacidade para ele se despedir da namorada.
O início do ano letivo começou de forma terrível. Todos da nossa sala sabiam que a Hana e o Vini namoravam e que ela tinha morrido no acidente de avião. Então, os nossos colegas tentaram amenizar o clima pesado. Até os Babacas (sim, desde do sétimo ano estudamos juntos) pararam de implicar com a gente.
Contudo, o Vini não conseguiu suportar os acontecimentos. A morte dela foi só o estopim para as próximas tragédias que estavam por vir.
O fato dele ter se isolado ainda mais do mundo não foi tão surpreendente. Eu sabia que uma das formas de luto era se afastar das pessoas e sofrer sozinho. Ainda assim, eu não aceitava isso e tentava a todo custo trazer o meu amigo para perto. Foram tantas tentativas que até brigamos.
— O que porras eu sou pra você? – o Vini perguntou se controlando para não me socar. Eu sabia que perderia uma luta física contra ele, afinal nunca saiu do Kung Fu. Porém, se apanhar significaria que eu o traria de volta, não me importaria com os machucados.
— Você é o meu melhor amigo – respondi. No outro segundo, ele estava sentado no chão com os joelhos flexionados enquanto chorava. Devagar, me aproximei e o abracei.
— Eu sinto saudades dela.
Eu também sentia. Era estranho ir pra aula e não encontrá-la com um sorriso estonteante no rosto. Ficar na sala durante o intervalo e não escutar as histórias engraçadas que tinha. Não assistir as discussões bobas dos dois e ficar feliz internamente quando eles se beijavam mesmo com vergonha. Não andar na Praça da Cidade e tomar um sorvete para compensar o sol escaldante. Não escutá-la falando em japonês tendo a certeza que só dizia uma única palavra com entonações diferentes. Era extremamente difícil não notar a falta que a Hana fazia nas nossas vidas e saber que nunca mais teríamos esses momentos juntos só nós três. Eu não queria pensar nisso, não queria imaginar isso.
— Nós vamos passar por isso juntos, sim? – perguntei. Ele concordou com a cabeça e eu quis tanto acreditar que era verdade, mas não era.
Depois de dois meses, o Vini permanecia estranho. Ele não se isolava completamente, porém passou a usar blusas com manga comprida mesmo quando estava calor. Questionei sobre isso e ele mudou de assunto alegando que se sentia melhor assim escondido em roupas largas. Eu não era tão otário a esse ponto e fingi que acreditei na desculpa mal contada.
— O que é isso? – indaguei segurando no braço dele. Mais uma vez, entrei no quarto dele sem avisar e o peguei ainda de toalha após ter tomado um banho. Já estava pedindo desculpas quando uma cicatriz no braço dele me chamou a atenção. Então, notei que tinha vários cortes – Vini, o que é isso?
Ele soltou a mão do meu aperto e se encolheu desviando o olhar. Eu levantei as mãos e as coloquei no rosto dele o obrigando a me encarar. Então, eu vi os olhos escuros mais tristes do mundo. Eles refletiam tanta dor, tanta solidão, tanta angústia que não segurei o choro. Meu amigo era sugado por um buraco negro e eu não conseguia salvá-lo.
— Eu queria desistir de tudo – ele me falou um dia.
— Tipo, jogar tudo pra ar e partir? – ele não me parecia capaz de fazer essa loucura.
— É. Pode ser.
Ficamos calados cada um perdido em um mundo diferente. Eu fingia interesse num livro só para estar ao lado dele caso resolvesse se cortar de novo quando notei um desenho estranho. Era uma corda com um nó simbolizando uma forca. Por que caralhos ele desenharia isso? Então, encontrei mais imagens bizarras e já sentia lágrimas se formando nos meus olhos.
— Por que desenhou isso? – indaguei apontando para os rabiscos como se fossem tóxicos.
— Não fui eu. Foi a Hana – explicou com uma voz saudosa – Não tive coragem de apagar.
O Vini não tinha ido pra aula e eu estranhei. Ele nunca faltava as aulas exceto quando estava doente a ponto de parar no hospital. E, mesmo no dia seguinte sendo feriado, não costumava emendar datas. Assim, enviei mensagens e liguei sem parar pro celular dele, mas só caía no caixa postal.
Saí do colégio correndo em direção a minha casa. Daria só o tempo de almoçar e iria pra casa dele descobrir o motivo de ter faltado. Abri a porta da sala e encontrei os meus pais com os olhos vermelhos e inchados e isso me desarmou.
— Filho – minha mãe chamou me abraçando. Eu recebi o carinho sem entender nada.
— Mãe? Pai? O que foi? – perguntei sentindo um caraço na minha garganta.
— É melhor se sentar, Guilherme – meu pai recomendou e isso só serviu para me deixar mais agoniado, mas fiz o que pediu.
— O que foi? – indaguei desesperado. Minha mãe voltou a chorar contida e sobrou pro meu pai soltar a bomba. Ele me olhou com carinho e pegou nas minhas mãos.
— O Vinícius.
— O que tem ele? – o interrompi querendo me levantar e sendo impedido.
— O Vinícius se enforcou. Eu sinto muito, filho.
Demorei para processar a informação. Meu melhor amigo tinha se matado. Ele se enforcou enquanto eu estava na aula estudando. Não sei quando as lágrimas caíram ou quando os meus pais me abraçaram. O mundo tinha parado pra mim no exato momento em que escutei um barulho de algo se partindo. Meu coração foi quebrado pela terceira vez.
Nesse mesmo dia, eu recebi da tia Sabrina a carta que o Vini escreveu pra mim. Não tive coragem de lê-la na hora e uma parte de mim queria jogá-la fora. Depois de vários minutos virando de um lado pro outro na minha cama, peguei o maldito pedaço de papel e o abri encontrando a letra terrivelmente perfeita do Esquisito.
“Querido Idiota,
Você é o meu melhor amigo e nunca imaginei que poderia existir uma amizade tão verdadeira quanto a nossa.
A primeira vez que nos vimos foi a melhor definição de tragédia. Você disse que não gostaria de estar comigo e eu me senti horrível. Naquela época, eu me magoava facilmente. Daí, você me defendeu dos Babacas e tivemos que fazer o trabalho de História juntos. Eu percebi que tinha um amigo incrível nesse dia.
A nossa amizade foi recheada de altos e baixos. A primeira vez que assistimos Game os Thrones ou a primeira vez que você entendeu uma referência de Star Wars foram momentos épicos. Nossa primeira briga por causa do filme que queríamos assistir e o seu namoro desastroso com a Maria até as outras rápidas namoradas que teve. Nós éramos uma dupla imbatível até sermos um trio.
Admito que nunca gostei de alguém da mesma forma que gostei da Hana. Ela era inteligente, engraçada e a garota mais legal que já tive o privilégio de conhecer. Não foi difícil amá-la. E, quando soube do acidente, meu mundo desandou.
Na verdade, ele já estava desabando a muito tempo.. Todos os dias sentia um vazio de dentro de mim e minha única vontade era de acabar com essa dor. E eu tentei lutar por motivos que não eram meus, por sonhos que não me pertenciam, por alegrias que já não mais existiam. E teve uma hora que era muita pressão em cima de mim, muito peso pra carregar sozinho e eu desisti. Simplesmente, desisti de viver uma vida que não era minha nos levando a isso.
Eu não vou culpá-lo se me odiar. Eu me odeio e vou entender perfeitamente se sentir o mesmo. Porém, independente do sentimento que tiver ao se lembrar de mim (se eu ainda viver nos seus pensamentos), quero que saiba que eu te amo, meu amigo. E você, Guilherme, é a pessoa mais sensacional que já conheci e é um ótimo amigo. Infelizmente, eu não estou a altura da sua amizade, mas alguém estará.
Ainda assim, quero desejar que você seja feliz no futuro. Que você tenha motivos reais para lutar, que os seus sonhos se tornem realidade e que sua vida seja maravilhosa. Porque eu sei que, onde quer que você vá nesse caminho maluco que chamamos de vida, você será extraordinário. E eu ficarei contente em saber que você está bem e feliz.
Com sinceridade, Esquisito.”
Olho mais uma vez para a foto. O Vinícius e a Hana já namoravam nessa época e eu demorei um século para convencê-los a tirar a fotografia. Hoje, agradeço por ter sido tão insistente. É uma das melhores lembranças que tenho deles.
Pego a carta já amassada do meu bolso e sorrio o quão bobo o Vini era. Como poderia odiar alguém que fez parte da minha vida de forma tão direta? Odiá-lo seria o mesmo que odiar parte de mim e eu não consigo fazer isso.
— Sabe, Vini, já faz um tempo que não o visito e quero me desculpar – falo já sentindo as lágrimas se derramando – Eu nunca te esqueci. Não seria capaz disso – respiro fundo e continuo o discurso que nunca tive a oportunidade de fazer quando ele estava vivo – Você é, foi um ótimo amigo. Você era sensível, amável, um pouco irônico e, ainda assim, era a melhor pessoa que conheci. Eu queria que as coisas tivessem terminado de um jeito diferente. Queria que a Hana e os pais dela nunca tivessem entrado no avião. Queria ter percebido antes que você tinha uma doença e que ela devia ter sido tratada. Queria que você tivesse enxergado beleza na vida por mais difícil que seja. Queria te ver pessoalmente e ficar feliz pelas suas escolhas. Mas não posso voltar no tempo. Então, o que me resta é viver com vocês nas minhas memórias e me relembrar dos momentos bons que tivemos – dou mais uma pausa e pego a fotografia – Eu terminei o Ensino Médio no mesmo colégio. Não acho que seria capaz de me mudar, apesar daquele lugar me ser tão nostálgico. Eu entrei pra faculdade. Na verdade, no final desse ano, vou me formar em Psicologia. Quero ajudar pessoas que passam pelo mesmo que você e, quem sabe, convencê-las que existem outras formas de suportar a dor, o nada. Também estou namorando uma garota incrível. O nome dela é Renata e eu sei que vocês se dariam bem. Ela gostaria da Hana e nós dois passaríamos vergonha juntos. A tia Sabrina me deu algumas coisas suas, entre elas o seu mapa. Resolvi que vou fazer o seu roteiro de viagem nessas férias – mais lágrimas escorrem e eu tento limpá-las – Eu te amo, Vini. Você é meu melhor amigo e nunca vou deixar de te amar. E eu gostaria que você estivesse aqui comigo junto com a Hana. A verdade é que nunca superei vocês e acho que nunca vou. Vocês são importantes de mais pra mim e eu sou péssimo com despedidas, ainda mais quando não tive oportunidade para isso. Mas, eu vou sobreviver e viverei por mim e, internamente, quero que sintam orgulho de mim. Eu amo vocês do fundo do meu coração.
Levanto do chão segurando a imagem. Não vou deixá-la aí. Com uma leveza na alma, saio do cemitério com a certeza de que sou uma pessoa muito sortuda pelos amigos que tive.
Notas finais
Espero que tenham gostado.
Caso saibam de alguém que esteja passando pelos mesmos problemas que o Vini ou se você for esse alguém, a primeira coisa que deve fazer é pedir ajuda psicológica.
Ainda assim, vou deixar um telefone que pode ajudá-los:
CVV (Centro de Valorização da Vida): 188
PS: A ligação é gratuita.
Fale com o autor