Melhor que O Esperado
15 Capítulo 15
A movimentação dos guerreiros causada pela captura de um prisioneiro inusitado chamou a atenção da líder do Povo das Cinzas e, sem demora, ela foi até o local onde guardavam o tal aprisionado. A surpresa entre os dois foi mútua, no entanto, Varang tratou de deixá-la para trás assumindo sua postura de chefe e tomando conta da situação.
O garoto estava claramente assustado por seu olhar destacado, no entanto, adotou rapidamente uma postura rebelde e impulsiva, disposto até a expor os dentes em rosnado. Ver que a líder estava claramente grávida não devia impressioná-lo tanto, já que não era a primeira vez que via algo assim.
Por um breve momento, as memórias de Varang a levaram até as imagens que tinha visto do garoto pela mente de Miles. Sabendo exatamente quem ele era, decidiu como lidar com ele.
—Soltem-no, eu lido com ele — ela ordenou e seus soldados a obedeceram.
Mesmo confuso e assustado, Spider a seguiu, sem abaixar sua guarda.
Durante o caminho, uma série de coisas passou por sua cabeça, se seria melhor avisar a Miles que o garoto estava ali, ou dizer ao próprio Spider que ela já o conhecia, de certa forma, e que se tratava de sua madrasta.
No entanto, Varang não teve muita escolha quando Miles já se encontrava na cabana deles.
—Eu espero que... — ele ia dizendo quando se deu conta de quem a estava acompanhando — não pode ser...
—Quaritch! — Spider exclamou, numa mistura de raiva, medo e defensiva, rapidamente passou por sua mente que seria burrice enfrentá-lo, confrontá-lo ou tentar fugir dali.
—Como você veio parar aqui? O que aconteceu? — Miles se aproximou dele, claramente preocupado.
—Você liga pra isso? — o garoto optou pela defensiva, chegando a cruzar os braços, completamente irado e impaciente.
—Não é uma boa escolha fazer esse jogo — o pai dele aconselhou, de bom grado — tudo bem, eu posso dar um tempo pra você, se senta e se acalma.
—Eu lá posso fazer isso? Eu não sou seu prisioneiro? — ele rebateu.
—Digamos que está sob nossa custódia — Varang resolveu intervir, achando que era um bom momento para isso — eu sou Varang, líder do clã das cinzas.
—Com todo respeito senhora, está me protegendo por causa dele? — Spider respondeu, seu tom muito mais cauteloso dessa vez.
—Em parte sim, mas em outra parte, porque eu conheço você, Miles Socorro — Varang se dirigiu a ele, arriscando alguns passos mais próximos — ou devo dizer, Spider.
—Ele contou pra você sobre mim? — a curiosidade acabou instigando o menino.
—Ah sim, mas só depois de compartilharmos nossas visões mentais — ela esclareceu — foi onde eu o vi primeiramente, nas lembranças do seu pai.
—Por que compartilhariam suas memórias? — ao ouvir isso, ele fez uma típica cara de nojo de adolescente.
—Você tem muitas perguntas, rapaz, mas eu tenho muitas outras, como está na nossa casa, eu gostaria que respondesse — Miles se impôs, ficando de pé na frente de Spider de forma intimidadora.
—Calma, meu amado, trate o menino com mais paciência — Varang tocou o ombro dele, o fazendo recuar um pouco.
A partir do jeito afetuoso com o qual ela chamou Quaritch, Spider realmente desistiu de todas as perguntas.
—O que fazia quando foi capturado pelos meus guerreiros? — Varang voltou a questioná-lo, num tom muito mais bondoso e suave.
—Eu estava em patrulha com os Metakayina, me perdi do resto do grupo, tentando achar uma outra rota — ele murmurou, contra sua vontade.
—Muito bem, já basta para mim de respostas — ela se satisfez com a declaração dele — posso achar meus próprios modos de descobrir mais, caso eu precise, e por falar em precisar, acredito que você precise de um tempo, Spider. Fique à vontade para ser meu hóspede, não prisioneiro.
Com um sorriso suspeito, Varang os deixou a sós e, apesar da frustração de Miles, ele percebeu logo em seguida o que ela queria. Uma conversa franca e necessária entre os dois. Sendo honesto consigo mesmo, Miles sabia que era isso que precisava também. Então suspirou fundo e decidiu seguir em frente.
—Como é que você conseguiu isso? — Spider se atreveu a perguntar, antes que seu pai pudesse formular qualquer frase.
—Se refere a que? Eu ter sobrevivido sem você ou ter me casado com a chefe da tribo? — Miles rebateu, um pouco menos amargo.
—Aos dois — o garoto retrucou.
—Varang — seu pai disse simplesmente — os guerreiros me encontraram e me levaram até ela, ela tinha uma vaga ideia do que eu era, achou que eu seria um bom aliado nesse conflito entre os na'vi, então garantiu a aliança com uma proposta de casamento.
—E você se aproveitou da situação — Spider riu com sarcasmo.
—Eu aceitei pra salvar minha vida, no começo, mas acredite ou não, eu me apaixonei por ela, eu a amo de verdade — declarou o mais velho, se desfazendo de suas amarras emocionais aos poucos, chegando a se sentar no chão e ficar mais da altura de Spider.
Havia algo de diferente e sincero na declaração de Miles, que por um singelo instante, quase comoveu o menino.
—E então tem vivido como um nativo desde então — constatou Spider — a vida que você tanto desprezou.
—Eu sei, sou culpado por tudo isso, mas acho que já fui punido o suficiente — Miles ergueu as mãos em rendição — eu morri duas vezes, e perdi um filho.
—Eu estou aqui, não estou? — Spider estendeu os braços, numa posição de claro ataque.
—Não, não estou falando de você — ele balançou a cabeça, se sentindo um tanto confuso — quer dizer, eu perdi você de alguma forma, eu desperdicei o tempo que tivemos juntos, joguei tudo fora por uma causa que hoje eu considero perdida e sem sentido pra mim, mas não foi de você que eu lembrei quando disse isso.
—Então do que é que você tá falando? — o garoto ficou mais atento, sensível ao que estava por vir.
—Varang perdeu uma criança antes, era meu filho também, seu... irmão que não pôde nascer — o pai dele explicou — eu acredito que isso foi punição suficiente de Eywa, por que eu merecia.
—Quer dizer que... o filho que a Varang tá esperando é seu — Spider constatou.
—Isso mesmo, é seu irmão — Miles assentiu.
—Eu sinto muito pela sua perda — ele disse, compreendendo o luto.
—Obrigado, mas eu agradeço ainda mais por ouvir — seu pai respondeu — sabe, eu... disse à Varang uma vez que, se tivesse outra oportunidade de ser um bom pai para você eu seria, eu não desperdiçaria, mas sei que essa escolha é sua. Se quiser ficar aqui, pode ter um lar, pode ter uma família... embora eu saiba que você tenha uma família com os Sully.
—As coisas nem sempre foram tão fáceis com os Sully, muito por culpa sua — o menino comentou, mostrando um pouco mais de sua mágoa.
—Eu entendo, meu eu do passado e o eu desse corpo fez muito mal pra muita gente, mas acredite, eu mudei e estou disposto a consertar as coisas com você, de verdade — Miles declarou, com pesar e arrependimento.
Mais uma vez, Spider se observou comovido com situação do antigo coronel. O único resquício do seu antigo eu que ele conseguia reconhecer agora era o olhar de ternura de quando ele o chamou de filho, quando Spider decidiu abandoná-lo. A maneira como Varang o tinha tratado e toda a história, por mais absurda que parecesse, diante das provas diante de seus olhos, tudo parecia se encaixar e fazer algum sentido na cabeça de Spider.
—Eu vou ter que pensar no seu caso — resolveu o garoto, com muito a considerar.
—É melhor que um não definitivo, ou um dedo do meio — Miles opinou.
O comentário arrancou uma risada espontânea de Spider, o que pareceu um sinal de esperança para seu pai.
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