Melhor Ano de Nossas Vidas - Prelúdio
2 Capítulo 02
Nós quatro olhamos para Sarinha, em expectativa. Ela estreitou os olhos para Liz, e deu um longo suspiro, assentindo com a cabeça, de novo.
— Eu já disse que sim! Vou te ajudar, Arthur. No fundo, bem fundo, acho que a Lili realmente tem uma queda por você, afinal. – Eliza riu com o comentário da morena e ficou ereta, aproximando-se da mesa, e, consequentemente da amiga.
— Desculpe, princesa, você poderia repetir isso? – Sarinha deu um tapinha de leve no braço de Eliza, por sobre a mesa.
— Não força a barra, bruxinha!— Resmungou fazendo Eliza balançar a cabeça, achando graça da amiga.
O garçom voltou com os pedidos e os entregou para cada um, diretamente.
Mordi um pedaço do meu, observando Eliza atentamente. Ela mordiscou um pedacinho do cookie, parecendo querer prolongar o prazer que o biscoito lhe dava. Com um longo suspiro, ela retomou o assunto:
— Então, quanto ao Art, — Sarinha balançou a cabeça em dúvida. – Vamos Sah, se ele realmente se esforçar...
— É, ele parece querer se esforçar, mas não sei Liz. Ano passado ela disse que estava cansada de toda essa discussão... – Sarinha franziu a testa, pensativa, então suspirou. – Eu também ficaria cansada, vocês vêm discutindo por dois anos.
— Ela discute comigo. – Corrigiu Yakko com um meio sorriso. Sarinha franziu mais a testa, mas Liz sorriu.
— Cheque mate, Yakko! Sabe? Admiro sua insistência e percepção. Qualquer outro cara já teria desistido da Lili. o Gabs falou que você está apaixonado... Vamos focar nisso, sim?
— Mas a Lili já tá tão cansada dele! – Insistiu a morena, cortando Eliza. Ela se virou rapidamente para Yakko. — Vamos ter que mudar algumas atitudes, não é Arthur, por exemplo, você precisa parar de ser galinha, a Lili não vai ficar com você só por ficar.
— Eliza, Sarah. – Yakko, de repente chamou a atenção das meninas que se viraram para ele, curiosas. Afinal, ele as havia chamado pelo nome de batismo. — Tive bastante tempo para pensar sobre isso nas férias e está bem claro pra mim: eu quero algo sério com a Lili.
Levantei as sobrancelhas, surpreso, essa era novidade. Não que eu duvidasse de algo assim, até porque um cara só fica atrás de uma garota por dois anos se quer algo sério, mas daí falar isso tão abertamente para as melhores amigas da Lili? Acho que o Yakko estava mais desesperado do que eu imaginava.
— Viram? Eu disse que o caso era sério. – Comentei, entre risos, tentando deixar o clima mais leve.
Dot me acompanhou, mas paramos no mesmo instante que recebemos olhares fuziladores de Yakko e Sarinha. Apenas Eliza sorria como se já esperasse a piada e não nos recriminasse por ela.
— Eu vou me esforçar mais. De verdade. Eu... – Yakko tinha certa dificuldade para se expressar. Também pudera, ele estava se declarando para as amigas da Lili. – Olha, eu estou... Eu sou apaixonado pela Alice, tudo bem? O que o Gabriel falou é verdade. Fiquei remoendo isso desde que acabamos aquela droga daquele trabalho de história ano passado! Sempre fiz tudo que ela me pediu.
— Exceto se afastar. – Comentou Eliza, com tranquilidade. Ela estava constatando um fato.
Franzi as linhas da testa. Será que isso tudo era doce? A Lili estava fazendo doce com o Yakko por dois anos? Não era possível! Ninguém conseguia fazer doce por tanto tempo assim! Ok, nossa "época sombria" não foi da melhor época e afastou muita gente, mas o Yakko já era afim da Lili antes disso.
— Exatamente! É sério, meninas. Preciso da ajuda de vocês. Desde o primeiro ano já sei o que sinto pela Alice, mas nunca verbalizei isso. Nem pro Wakko ou pro Dot, vocês... Vocês entendem? É realmente difícil... Esses caras são meus amigos desde que nasci! Eu não estou brincando quanto ao que sinto pela Lili. Quero namorar com ela. Se for preciso mudar, se for preciso ser um cara melhor, eu vou ser. Eu vou mudar por ela. – Yakko soltou cada palavra como uma enxurrada, quase sem respirar.
Olhei para ele espantado e levantei as mãos para aplaudi-lo. Sei que era irônico, mas a vontade foi grande, a única coisa que me impediu foi que Eliza, ainda sorrindo fez um discreto não com a cabeça para mim.
Como era possível uma pessoa ser tão tranquila como a Eliza? Ela não se irritava com nada, afinal?
— Poxa, eu sabia que 'cê gostava dela, mano, mas não imaginava que era tanto... – Comentei, ao invés de implicar com Yakko. Ele passou a mão pelos cabelos com certo desespero.
— Eu meio que imaginava. – Assentiu Dot, fingindo prestar atenção no guardanapo com o qual brincava em cima da mesa.
— Como? – Perguntei confuso.
Dot parou de olhar o guardanapo e se virou para mim, com um meio sorriso, sem jeito.
— Pelos sinais, Wakko. Desde... — Dot coçou a garganta, como se pra limpa-la e me lançou aquele olhar que falava sobre nossas "escapada da realidade" — Enfim, desde o meio do ano passado o Yakko parou de sair com outras meninas. Quer sempre saber se a Lili tá bem, se foi bem nas provas... Até mesmo no Círculo ele faz de tudo pra tentar ver as aulas e os e ensaios dela, torce por ela e... Se vocês não tiverem percebido que ele parou de chamar tanta atenção assim, vocês são cegos!
Eliza sorriu para o Dot, a nossa frente, enquanto observava com exímia atenção a reação de todos nós.
— Vocês deviam escutar mais ao que o Be tem a dizer. Vocês dois não conseguem ter um por cento da percepção que ele tem. – Comentou, movimentando o canudinho dentro do copo de suco, distraidamente.
Sarinha estalou a língua e rolou os olhos, no mesmo instante que fiz uma careta para Eliza. Tá, obviamente o Dot era mais sensitivo! O "segredo de vida" dele era pior que o meu!
— Liz, não se encha de vãs expectativas quanto a esses dois! Pensa bem, eles são assim desde que se entendem por gente! E quanto a srta... Não é a toa que a gente te chama de bruxinha! – O tom de voz de Sarinha chamou minha atenção, ele era carinhoso. Eliza se limitou a dar de ombros.
— Não saquei. – Olhei de Sarah para Eliza, confuso. Ao lado das meninas, Yakko parecia tão confuso quanto eu.
Com um longo suspiro dramático e completamente encenado, Sarinha se virou para mim.
— A Liz disse que Yakko nos procuraria até o fim do ano para resolver a "questão da Lili".
Yakko se movimentou na cadeira, aproximando da mesa, olhava Eliza com uma expressão curiosa no rosto.
— Como você sabia?
— Yakko, pelo amor de Deus! Só se você fosse muito tapado pra não pedir ajuda a elas! Se você não procurasse, eu mesmo procuraria em seu nome! – Garantiu Dot. Me virei para ele, com a sobrancelha levantada. Ele sorriu e deu de ombros. – Seria o melhor caminho, Wakko.
— Tá bem. – Sarinha nos cortou de novo, chamando a atenção de Arthur. — Qual sua ideia?
— Gente, o Yakko não tem ideia nenhuma do que pode fazer, não existe um "plano"– Dot tinha um tom de diversão na voz.
— Imaginei... – Comentou Sarinha, com um sorriso superior.
— Tá bem. – Eliza chamou a atenção para si, olhando demoradamente para Sarinha. A morena assentiu e ela se voltou para a gente — Vou falar e vocês vão ficar quietos, tudo bem?
Nós três assentimos, nos aproximando mais da mesa.
— Olha, seguinte, você tem seus defeitos, Art... Todos temos, na verdade, mas vamos tentar amenizar os defeitos e trabalhar nas suas qualidades, que são muitas. — Elogiou sorridente, como se quisesse amenizar a situação. — Certo. Você precisa parar de se esforçar para ser o centro das atenções, Art.
— Difícil isso aí, Liz. Ele já diminuiu ao máximo que consegue, sendo quem ele é. – Comentou Dot, me fazendo rir com ele, mas Eliza se virou para Yakko, esperançosa, pegando-lhe as mãos.
— Eu sei! E você está no caminho certo! Mas precisa manter esse ano! E eu sei que é difícil pra você. – Ela deu um leve sorrisinho cúmplice para Yakko que o retribuiu, sem graça.
Não havia nenhum tom de desprezo ou acusação. Eliza falava como se soubesse que ele era assim, aceitasse isso e tivesse plena consciência de que era complicado pra ele mudar.
Respirei fundo, olhando-a ao meu lado. Como ela conseguia ser tão... Assim?! Como eu nunca tinha visto isso?
— Agora, meninos, por favor, me deixem falar tudo. – Eliza voltou a falar e Dot se desculpou, sem jeito. — Você... Na verdade, vocês dois — Eliza apontou para mim e para Uakko com o canudinho — são exibidos, por mais que chamem atenção sem querer por serem bons nos esportes, porque os professores adoram vocês, vocês gosta. O ego infla, e vocês adoram que ele seja massageado. O Gabs não precisa mudar nada, mas você, Art, pra conquistar a Lili... Assim, não estou julgando...
— Eu sei, eu tô entendendo o que você quer dizer. — Concordou o Yakko, e me virei para ele surpreso.
Me aponte um adolescente que aceita ouvir seus defeitos assim, e fica de boa com isso. Eu tinha sentido uma pontinha de vontade de responder a Eliza! Não disse nada por que... Não sei muito bem porque. A forma que ela colocou tudo não tinha me ofendido.
Tá bem, talvez um pouco. Mas foi bem pouco.
Não existe adolescente que não se incomode com defeitos sendo jogados no ventilador! E pro Yakko, que é o senhor do "massageie meu ego", então! A Lili estava fazendo uma revolução na vida do meu amigo!
— Você precisa parar de sair atrás de qualquer rabo de saia que vê na sua frente, também... de novo, são pontos que você já melhorou bastante, agora é só manter. Você precisa diminuir sua grande necessidade de ser engraçadinho, mas sem parar de ser brincalhão. A Lili gosta de você por que você é quem é.
Eu e Yakko olhamos para a Liz como se fosse louca, apenas Dot riu discretamente, e soltou um "eu disse" enquanto balançava a cabeça. Pra mim, admitir que a ruivinha não dava foras de verdade em Yakko era uma coisa, agora falar que ela também gostava dele? Retribuía o que ele sentia? Ai era loucura total.
— Ah gente, chega de palhaçada! Sim, Art a Lili gosta de você também, tá estampado na cara dela. – Eliza fez um gesto com a mão, como se quisesse afastas nossas caras de incredulidade. – Pra mim, se ela não gostasse, teria te chamado para conversar e te mandado seguir em frente, procurar outra. Ela só te chama por qualquer adjetivo pejorativo que consiga pensar sem nunca te dar real certeza que não quer nada. Se ninguém percebeu que existe tensão entre eles, concordo com o Be, vocês são cegos.
— Acho que eles já entenderam Eliza. – Cortou Sarinha, mas Liz riu.
— Não, Sah, o Art procurou a gente, se declarou, vamos jogar limpo com ele. A gente deve a ele. Acho justo eu falar o que percebo, de fora da situação. E isso é o que percebo: a Lili gosta de você também, mas alguma coisa a impede de admitir, até pra si mesma.
— Te digo que o problema dos bullyings fazia com que ela odiasse vocês. Bem, todo mundo odiava. — Comentou Sarinha.
Oho! la estava nosso "passado negro" sendo colocado em palavras.
— Quase todo mundo. — Sussurrou Eliza, com pesar.
Franzi o cenho, tinha como não nos odiar por aquela época? Eu teria que me lembrar de perguntar a Eliza o porque do "quase todo mundo" depois.
Sarinha queria lembrar o que fizemos, queria ver nossa reação direta a esse assunto. Sempre justiceira.
— Junto a esses bullyings, vocês andavam para cima e para baixo como seres superiores, arrogantes, exibidos. — Completou a morena, olhando diretamente pada Yakko, que havia se encolhido na cadeira. Ele se sentia culpado. Eu e Dot também.
Os bullyings foram a parte das nossas vidas, da qual tínhamos vergonha. Se tivesse algo que pudéssemos apagar de nossa existência, seria essa época.
Dot fez um barulho, arranhando a garganta e se mexeu, desconfortavelmente na cadeira.
— Ano passado nos caímos na real, meninas. Já nos desculpamos, já percebemos que éramos babacas. Já mudamos. — Garanti.
Sarinha apertou os lábios, como se soubesse que voltaríamos a ser babacas, se pudéssemos, o que era errado. Ela tinha preconceito a respeito da gente! Nós nunca mais faríamos o que havíamos feito durante o primeiro ano e a primeira parte do segundo ano. Era cruel. Pior que cruel, era desumano. Eu conseguia sentir nojo de mim mesmo por conta dessa época.
— Vocês mudaram e até a Lili percebeu. — Garantiu Eliza tentando deixar o assunto do sobre os bullyings de lado. — Eu entendo que ela não quisesse nada com você naquela época por conta dos bullyings, mas você não é o mesmo cara de antes, Art. Vocês viram seus erros e mudaram, então não. Não sei o que é ainda... Tenho uma teoria e quando eu tiver certeza que essa teoria tem sentido, te aviso. A Lili ainda te despreza, e sim, vocês forçavam... A Sah, por exemplo, ainda julga.
— Desculpem. – Comentou Sarinha com um olhar de deboche nos fazendo rir. – Desde os treze anos, vocês dois tem um ego tão inflado! – Ela usou o dedo pra indicar a mim e ao Yakko.
— Acredite, Sarinha, eu tento amenizar as coisas, mas... – Começou Dot, mas Sarah o cortou com a mão, mostrando que ela só estava implicando com a gente.
— Mas sério, gente, voltemos ao foco, recapitulando: parar de se exibir, fazer menos gracinhas, parar de correr atrás de todo rabo de saia que aparece. E você precisa parar de chegar nela. – Enumerou Eliza, olhando para Yakko. Ele sorriu sem jeito, os ombros pareciam tensos. — Calma, Art, vai dar certo.
— Eu realmente espero que dê. – Concordou Yakko me lançando um olhar nervoso. – Quer dizer, é difícil mudar certos hábitos.
— Não acho que você deva mudar, apenas aprimore-se. – Me intrometi. Ao menos, era isso que Eliza parecia querer dizer.
— Exatamente, Gabs! Você entendeu! – Eliza apontou o canudinho para Arthur. – Você precisa destacar suas qualidades, aquelas que atraem a Lili... Eu tenho para mim que ela é atraída por você porque você é o oposto de cara que ela cresceu imaginando para a vida dela. Você tira a Lili da zona de conforto, Art! Seja brincalhão, alto astral, bom nas coisas que faz e demonstre isso, sem exageros. Seu problemas são os exageros e a falta de modéstia.
— Só lembra que a Lili não é um desafio. – Disse Sarinha, de repente e Yakko lançou um olhar indignado para a morena.
— Eu não acabei de me declarar pra vocês?! – Perguntou, fazendo Sarinha sorrir.
— Sim, Arthur. Só estou reforçando porque isso é muito importante. Se, em algum momento, a Lili achar que é só um jogo, ela vai ficar com mais ódio ainda. – Insistiu a morena.
— Tá. Ela não vai sentir isso. Vou tomar cuidado. — Prometeu Yakko, com uma expressão séria no rosto.
Foi naquele exato momento que eu tive a certeza que o Yakko buscaria a lua e as estrelas para a Lili, se fosse preciso. Ele teria a ruivinha como namorada até o fim do ano.
— Ah Art, isso é verdade! Você já pensou se só está interessado nela por conta do desafio? Digo, uma vez que não houver mais desafio, será que o que você sente vai acabar? Será que a Lili vai perder a graça? — Eliza parecia analisar cada uma das reações de Yakko.
— Eu pensei nisso, Liz. Pensei muito e consigo me ver, daqui uns anos, tendo um relacionamento tranquilo com a Lili.
— E o que isso quer dizer? – Insistiu intrigada.
— Quer dizer que fiz meu serviço. Conheço os gostos da Lili, o tipo de música, o tipo de filmes, danças, entretimentos, posicionamentos políticos, sociais e eu não consigo ver um futuro tedioso nisso. Acho que seremos companheiros, amigos. — Yakko respirou fundo e vi sua testa se vincar.
Destaco, nesse momento, que estava sentindo muito orgulho do Yakko. A vida toda nos quatro — eu, Yakka, Eliza e Sarah — convivemos juntos, mas eu fui amigo dele. Lili e Bernardo só vieram aparecer no fundamental. O que Yakko vinha demonstrado enquanto comíamos cookies e conversávamos com as meninas era puro amadurecimento.
Sempre fomos os brincalhões da turma, os bagunceiros, piadistas. Nossa cabeça era aquela cabeça de moleque que não quer nada com a dureza e irrita todo mundo por conta disso. E naquele momento eu vi que o Yakko começou a pensar num futuro. O que ele sentia pela ruivinha havia feito ele mudar um pouco a atitude de moleque.
Será que, se um dia, eu fosse capaz de me apaixonar, aconteceria da mesma forma?
— Meninas, tenho uma dúvida: como vou fazer pra ter um momento com ela? Pra mudar, e pra ela conhecer esse "novo Arthur" se não convidá-la para sair ou chegar nela? — Arthur esperava que Eliza aparecesse com a resposta. Me virei para ela, também, curioso.
— Durante o ano, Art. – Respondeu Eliza com simplicidade.
Dot riu, balançando a cabeça e concordado.
— Sabe o que acho impressionante? São coisas que já falei pra esses dois milhões de vezes, mas nos somos amigos demais pra eles levarem em conta. – Ele tinha um sorriso superior que me fez amassar o guardanapo que estava a minha frente e jogá-lo na cara dele.
— Pois vocês dois deviam levar mais fé nas coisas que nosso querido Be-pedaço-de-mal-caminho-e-consciência-ambulante fala. – Sarinha agarrou o braço de Bernardo, deixando-o vermelho como um pimentão.
— Você está deixando ele sem graça, princesa... – Eliza tinha um tom de voz divertido, mas conseguiu fazer com que Sarinha se soltasse do Dot.
Dot tinha um pouco de receio de deixar que as pessoas encostassem nele. Um trauma bem bobo, mas se considerarmos o motivo, da pra entender. Não que eu ache que faça algum sentindo, quer dizer, todo mundo sabe que AIDS não passa com contato! Exatamente, esse era o "segredinho" do Dot.
De toda forma, Dot se ajeitou na cadeira, afastando um pouco mais de Sarinha e voltamos ao assunto do Yakko e da Lili. O problema era que o ano todo era tempo demais e, ainda assim, tempo de menos. Poderia dar errado.
— A questão aqui é fazer a Lili admitir que gosta de você. E isso pode demorar... – Sarinha parecia preocupada. Era engraçado como que, de um momento para o outro, ela tinha abraçado os planos para juntar a Lili e o Yakko. Eu sabia que todo aquele desprezo era só teatro.
— O que eu faço, então? Como fazer isso mais rápido? – Perguntou Yakko.
Sarah suspirou, pensativa. Consegui ver as engrenagens se movendo em sua cabeça. Sinceramente? Eu não achava que teria mais o que fazer, era só a gente começar a andar junto, conviver e, eventualmente, a Lili cederia. Poderia demorar? Poderia. Poderia dar errado? Poderia, mas não tínhamos outra saída.
— Talvez se você fingisse que está apaixonado por outra, e mudasse, a Lili perceberia. Se você virar o príncipe que ela sempre sonhou e perceber que te perdeu para outra...
Olhei para Sarinha, sem acreditar e comecei a rir, dessa vez nem precisei que o Dot avisasse que era uma ideia maluca para saber que era uma ideia maluca! De onde a morena tirou essa? Ela tava vendo Malhação demais!
— Não vai dar certo. – Falei as gargalhadas.
— Vocês estão o quê? No quinto ano do fundamental? Gente isso aqui é vida real, vamos deixar Malhação pra tevê. – Concordou Dot, me acompanhando na gargalhada.
Eliza ficou quieta, observando Sarinha atentamente, como se procurasse por alguma coisa na expressão da morena. Me virei para Sarinha também, após a crise de gargalhada acabar. Pelo pouco que havia entendido a Eliza quem daria a última palavra. Obviamente ela não concordaria com essa ideia de novela mexicana da Sarinha! Nossa, eu conseguia ver muitos furos!
— É claro que vai dar certo! – Insistiu Sarinha — A gente só precisa que alguém, que saiba do plano, aceite, aí o Arthur finge que tá namorando com ela e faz ciúmes na Lili... – Eliza lançou um olhar consternado para a amiga.
— E quem iria fingir? – Perguntou Dot revirando os olhos. – Você?
— Tá louco? Eu não gosto de homem! Inclusive, tenho namorada! A Liz não! – Sarah apontou para a Eliza que, dessa vez levantou as duas sobrancelhas em um típico sinal de incredulidade.
Meu coração perdeu o compasso por um segundo e senti meu estômago gelar. A Sarinha estava doida?
Então, cai na real com o que ela havia acabado de revelar e me virei vagarosamente para a morena, sem saber o que responder. Ela havia mesmo falado que namorava uma mulher ou eu estava ouvindo coisas?
Merda. Mais um ponto para o Dot. O cara parecia o guru feminino! Como ele sabia de todas aquelas coisas, sem nunca ter namorado?! Ele disse que aquela amiga da Sarinha que sempre ia nas festas dos nossos pais era mais que amiga!
Eu não ia adivinhar isso nunca na vida! E olha que a gente passava tempo suficiente com ela! Yakko também olhava para Sarinha com a mesma surpresa que eu. Por um minuto havíamos esquecido o real motivo de todo o encontro e, o plano louco que a morena tinha dado.
Levou um tempo para conseguirmos nos recompor, e foi a Eliza quem se manifestou primeiro. "O dela" estava em jogo, e minhas entranhas gelaram de novo, sem motivo aparente algum.
— Vou magoar a Lili à toa, Sah. A gente sabe que ela gosta do Art. – Negou, recuperando da risada. – Coragem sua falar da Patrícia pros meninos.
— Pera, Patricia? Aquela que tá sempre com vocês quando a gente se encontra nas festas dos nosso pais? – Perguntou Arthur, incrédulo. Dot perdeu a paciência e jogou a bolinha de papel, que eu havia jogado nele, no meio da fuça de Yakko.
— Eu já tinha dito isso pra vocês! Porque não prestam atenção nas coisas que eu falo?! – Eliza riu da irritação de Dot, colcando a mão por sobre a dele em sinal de compreensão.
Ela fez o gesto rápido o suficiente, de uma forma que Dot não precisou a afastar, como seria o costume. Mesmo assim, ele retirou as mãos de cima da mesa e as colocou sobre o próprio colo, bem afastadas de Eliza e Sarinha.
Eliza deu um sorrisinho amarelo que ele preferiu ignorar. Era impressão minha ou ela já havia sacado que tinha algo de "errado" com o Dot?
— O Arthur acabou de se declarar o... Me fala um personagem de romance. – Pediu Sarinha para Eliza.
— Mister Darcy. – Ajudou Eliza, e fiz cara de desentendido. Ela riu. – Principal personagem do romance mais famoso de Jane Austin. – Explicou rapidamente.
— Isso! O Arthur se declarou o Darcy pela Lili. Nós vamos acabar passando mais tempo com os três esse ano, é melhor que vocês já saibam. Eu sou lésbica, namoro há dois anos uma menina que é três anos mais velha, algum problema com isso? – Completou Sarinha, como se não tivesse feito nada demais.
Nos negamos instantaneamente.
— Normal. – Comentei, olhando-a fixamente.
— Você está em choque. – Comentou Sarah para mim. E eu me movi para trás, sem jeito.
— Só um pouco. – Concordei, baixando o rosto para me recuperar da notícia. – Eu... Só não imaginava... Quer dizer, a gente se conhece desde que me entendo por gente e eu nunca imaginei.
— Que uma menina lésbica fosse tão feminina como a Sah. Ninguém imagina, Gabs, mas ela não é a questão aqui e já que todo mundo tá sabendo, podemos voltar pra Lili e pro Art. – Eliza se ajeitou na cadeira, e todos concordamos.
Me voltei para Sarinha, mais sem graça ainda. Nunca tive nada contra a escolha sexual de alguém. Só me assustei porque Sarinha nunca deu indícios de que gostava de meninas. Mas também, o que eu sabia de indícios sobre opção sexual de quem quer que fosse?
— É nosso último ano. – Eliza voltou a falar, chamando nossa atenção. — O ano em que a turma toda fica mais junta. Se a Lili for obrigada a passar um tempo com o Art, eventualmente ela vai ter que cortar o gelo. E se eu e a Sah começarmos a, finalmente, andar com vocês, ela não vai ter outra opção. – Eliza deu um leve riso e balançou a cabeça. – Dona Bia vai amar esse história!
— A gente pode ir arrumando mais desculpas durante o ano para passarmos tempos juntos e... Sei lá, mano! Os pais de vocês são amigos quase inseparáveis! Vocês não precisam de muita desculpa pra se encontrarem! — Dot entrou na conversa, animado, e eu assenti.
— Fato, não precisamos mesmo. — Sarinha sorriu para nós e eu pude perceber um quê de alívio no sorriso, como se ela já quisesse ser nossa amiga há mais tempo.
Era meio idiota porque a gente nadava contra a maré, nos mantendo afastado daquele jeito.
— A Alice nunca vai aceitar. – Sussurrou Yakko desanimado, mas as meninas negaram.
— A Alice não vai ficar longe da gente, Art. – Eliza brincava distraidamente com o colarzinho que usava, como se os medos de Yakko fossem sem parâmetro algum. Eu via uma justificativa pros medos dele: eram dois anos de foras.
— Sim. Se nós duas, agora, quisermos estreitar os laços, ela não vai ter opção, a não ser "te aturar". – Finalizou Sarinha, confiante.
Eu conhecia o Yakko o suficiente para saber que ele estava chateado com a ideia. Yakko era o cara que queria que o ego fosse inflado, lembra? Ele não queria forçar nada com a Lili, apesar de só desistir depois de muito tentar. O que ele queria, de verdade, é que a Lili percebesse que estava afim dele sem a gente ter que forçar a barra.
Se eu pudesse ajudar de outra forma, eu ajudaria, mas não tinha jeito. A Lili não iria perceber nada se não houvesse insistência, pelo que as meninas estavam falando.
— Foda ela ter que "aturar", né, mano... – Sussurrou Arthur desanimado.
Eliza deu um tapa na mesa, que me fez assustar. Olhei para ela como se fosse doida, mas ela tinha uma expressão séria e convicta no rosto, como que desafiando o Yakko a desisitir.
— Nada de desânimo! Vai dar certo!
— Tá... Como vamos fazer? – Perguntou Yakko, se aprumando na cadeira.
Sarinha deu um suspiro e puxou um guardanapo para perto de si. Abriu a bolsa e tirou uma caneta rosa e lilás com uma coroa na ponta. Bem baranga e bem princesa. Ela fez uns rabiscos no guardanapo e passou-o para Yakko:
— Você vai sair lá do fundo da sala antes do mapa de sala ficar pronto. Vai sentar lá na frente, com a gente. Vou conversar com a conselheira da nossa turma, se for a Tereza temos um trunfo, ela ama a gente. Se você prometer não atrapalhar a aula, tenho certeza que ela vai deixar que se sente na frente. Eles nunca mudam nossos lugares no mapa de sala e a Alice gosta de sentar na primeira carteira na frente do professor... Então, você vai ter que sentar no lugar dela. – a morena apontou o lugar no guardanapo para Yakko. — Você é alto, e sentado ao lado da parede não vai atrapalhar ninguém.
— Ela vai me detestar mais ainda! – Reclamou Yakko, mas Sarinha fez um gesto para que Arthur a deixasse acabar de falar.
— Só no início, depois ela vai se acostumar com a ideia de te ver todos os dias, de conversar com você todos os dias. Ela vai acostumar com sua presença. Chega cedo amanhã, Arthur, a Lili vai tentar chegar vinte pras sete na escola para pegar o lugar que ela gosta, você precisa estar lá as seis e meia. – Completou.
— Sério, Sah? Cedo assim? – Tive que rir da expressão zangada que Sarinha colocou no rosto.
— Você quer ou não namorar a Lili?
— Quero!
— Então me ajuda a te ajudar! – Falou exasperada, se inclinando mais para frente na mesa. Yakko cruzou os braços e bufou.
— Eu chego com você, Yakko. – Disse Dot, Arthur lançou um sorriso de agradecimento a ele.
Revirei os olhos. A gente era um time, se um iria pra guerra, iriamos os três!
— Tá, eu chego também. – Resmunguei, fazendo Eliza rir.
— Enfim! Tá, então vamos sentar assim: — Sarinha puxou o guardanapo para o centro da mesa para que todos pudéssemos olhar. — Arthur na primeira mesa da parede em frente ao professor, depois Gabriel e então Bernardo. Ao lado do Arthur será a Lili, a Liz atrás dela e eu na frente, ao lado dela. Tudo bem? – Nós quatro concordamos e Sarinha sorriu.
Nem acreditei que tínhamos um plano. Uma chance em trinta mil, para o Yakko! A gente ia fazer dar certo! Eu poderia estar cético quando cheguei, mas quando a Eliza falou que a Lili sentia algo pelo Yakko, meu ceticismo foi diluindo e, admito, conseguia ver a luz no fim do túnel.
Nos cinco nos olhamos sorridentes com a perspectiva do último ano. Iria ser o melhor ano que poderíamos ter! De repente, Sarinha balançou a cabeça, como se fosse muito ter que passar tanto tempo assim com a gente.
Quem ela queria enganar? Eu sabia que ela estava animada com toda a ideia do terceirão! E a gente junto só faria com que o ano fosse mais animado ainda!
— E ai? Quem anima um cinema? – Perguntou Dot, de repente.
As meninas se entreolharam e assentiram, animadas. Levantamos da mesa e pagamos a conta, para depois andarmos em direção ao cinema.
Era o começo de uma amizade que já devia existir há muitos anos.
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