— Estava tudo tão escuro e não havia ninguém por perto para me ajudar. Eu... Eu me sinto tão sozinha e abandonada, alguém me esqueceu aqui e eles nunca voltaram para me procurar, eu posso ouvir vozes, mas eles não escutam meus gritos, por favor, me tirem daqui, eu quero sair, alguém, por favor.

— Rose, abra os olhos. — Ouvi a voz suave de Adam me tirar da minha visão ou como ele preferia falar, do meu sonho. Abri lentamente meus olhos já sabendo que veria a mesma expressão esperançosa e sorridente, mas que é só uma fachada para esconder o fato de que ele não tem mais ideia do que fazer comigo. Sento-me em seu divã esperando ouvi seu discurso encorajador de sempre, ele tira seus óculos, me lança um meio sorriso, que se já não houvesse visto uma centena de vezes me deixaria sem jeito, mas esse não era mais o caso, seu olhos castanhos com um leve tom de dourado, seu cabelo encaracolado e seu sorriso estrondeante não me afetavam já havia um bom tempo, respirei fundo e deixe que ele falasse. – Muito bem Rose, você esta bem melhor, ainda me lembro da primeira vez que você veio até aqui, mal conseguia falar e quando finalmente o fazia, começava a chorar e falar que você tinha que ir, que precisavam de você, agora você já me conta seus sonhos sem problema algum em fazer isso, e também parece que hoje você já entende melhor seus sonhos e... — Não deixei que ele terminasse seu discurso e o interrompi

— Já faz três meses que eu só sonho com isso, não diga que estou melhor Adam, você mesmo sabe que não estou, há dois dias que não durmo, por que minha mente tem medo de voltar a ter essa visão e eu não faço a menor ideia do que ela significa, não me diga que esta tudo bem e que eu estou apenas confusa, você também não sabe que isso significa. — Por fim suspiro e abaixo minha cabeça, desde que comecei a ter essas visões minha vida virou de cabeça para baixo, não consigo me concentrar em nada, levo horas na cama tentando dormir e das vezes que eu finamente consegui tive esse sonho. Levanto minha cabeça e olho para Adam. – Me desculpe, eu só estou cansada. — Peço desculpas e logo me levanto e quando ele me olha confuso indico o relógio mostrando que nosso tempo acabou. – Mesma hora semana que vem? — Pergunto jogando a mochila nas costas.

— Sim, claro, e Rose, não se esqueça de tomar os remédios que o psiquiatra passou. — Ele fala enquanto abre a porta para mim, com um sorriso gentil.

Saio do consultório passando pelos outros que esperavam para serem atendidos, a maioria deles adolescentes, muitas vezes obrigados por seus pais a estarem ali. Passei tentando não fazer contato visual com as pessoas que estavam ali, rapidamente cheguei ao elevador e quando finalmente fico aliviada por estar vazio e eu finalmente ter um momento sozinha com meus pensamentos, um garoto, que não faço ideia de onde veio, coloca sua mão para impedir que a porta se feche, olho para ele um pouco surpresa, podia jurar que não havia ninguém vindo a um segundo atrás. O observo entrar no elevador enquanto analiso seu cabelo liso e completamente negro, difícil de acreditar que ele tenha nascido com um cabelo tão escuro, sua pele branca, imagino se ele não seria a versão masculina da branca de neve, estava tão entretida em meus pensamentos que não notei que o rapaz me encarava, até que ele me arrancou de meus pensamentos com certa arrogância.

— Tem algo na minha cara? — ele perguntou parecendo um pouco irritado, o que me fez corar, não meu costume encarar as pessoas tão descaradamente, então por que eu estava fazendo isso agora? – Se a resposta for não então ou você tira uma foto logo de uma vez ou para de me encarar dessa maneira tão estranha.

Estava prestes a retrucar quando a porta do elevador se abriu na garagem, tentamos sair ao mesmo tempo o que não funcionou muito bem, acabamos esbarrando nossos ombros, bufei e esperei que ele saísse com impaciência, saio logo depois dele seguindo meu caminho até onde havia estacionado meu carro, por coincidência o rapaz parecia fazer o mesmo caminho que eu, não pensei que fosse nada de mais afinal era um estacionamento pequeno ele poderia ter estacionado numa vaga próxima, no entanto, aparentemente o garoto não achou o mesmo, pelo que contei ele olhou para trás umas três ou quatro vezes até que por fim chegamos ao meu carro, um belo BMW 320i, que eu havia comprado para não ter que usar o carro que meus pais me mandaram de presente há alguns meses, estava prestes a pegar a chave na minha bolsa quando o garoto virou e começou a falar alto.

— Você quer alguma coisa, ou só vai ficar me seguindo? – Ele perguntou totalmente convencido de que eu estava o seguindo.

Soltei um riso baixo e disse pegando a minha chave.

— Não seja tão idiota você não faz meu tipo, não me leva a mal, mas prefiro homens com um pouco mais de cérebro que você. – Disse e tirei o alarme do carro, e antes mesmo que ele pudesse falar mais alguma bobagem entrei no carro, liguei e acenei para ele enquanto eu acelerava com um sorriso triunfante no rosto.

Saí rapidamente do estacionamento e comecei a fazer meu caminho até o meu apartamento, que como quase tudo na minha vida meus pais haviam me dado, não que eu esteja reclamando, mas as vezes gostaria que eles me deixassem fazer algo sozinha.

Eu morava perto do consultório então cheguei bem rápido, logo que abri a porta fui abordada por Anne, minha melhor amiga que convidei para vir morar comigo assim que meus pais me deram esse apartamento imenso para morar sozinha, ela estava completamente desesperada, provavelmente me esperando para irmos para a faculdade, mesmo detestando meu modo de dirigir era a melhor opção que ela tinha no momento, já que seu orgulho e falta de coordenação não me deixavam dar um carro ou moto para ela, e claro Anne não queria de maneira alguma ser vista chegando à faculdade de ônibus.

— O que você está pensando, nem se atreva a entrar, já estamos completamente atrasadas, eu te disse ao menos umas vinte vezes para você mudar seu horário de consulta, mas como sempre você é teimosa demais para fazer isso. – Anne continuou falando um milhão de motivos para não chegarmos atrasadas no nosso primeiro dia de aula, esse era uma das nossas maiores diferenças, ela era sempre pontual e eu sempre atrasada. Anne me empurrou de volta para o elevador, enquanto segurava sua mochila com uma mão, Anne pressionou o botão de fechar várias vezes e enquanto descíamos a garota batia o pé praguejando pelo elevador estar demorando tanto para chegar à garagem. – Droga! – Ela disse quando o elevador parou quatro andares antes do que íamos descer. – Quem é o idio... – Anne parou de falar quando viu um garoto ruivo, de óculos e sardas parado na porta do elevador. – B-bom dia. – Ela disse o mais educadamente possível.

Esforcei-me para não rir até chegarmos ao meu carro que havia estacionado a menos de dez minutos, e quando finalmente chegamos nela olhei para a garota morena, e de olhos castanhos que ainda estava um pouco desnorteada, e não pude conter o riso.

— Nenhuma palavra. – Disse ela enquanto eu me matava de tanto rir. – Ah, e alias por que não vamos no carro que seus pais te deram, ele é bem mais rápido e mais bonito também.

— Por que pela décima vez não vou usar aquele carro, se você quiser pode pega-lo para você, e esse carro também é muito bonito e mais seguro, e antes que você comece a pensar que aquele carro iria causar uma melhor primeira impressão eu tenho que te lembrar de que mais da metade dos alunos da nossa faculdade sequer deve ter um carro. Então por favor, entre no carro ou vamos ficar ainda mais atrasadas. – Essa era uma das poucas coisas que nos fazia discutir, Anne nunca entendia o motivo que me levava a recusar praticamente tudo que meus pais me davam, afinal seus pais nunca tiveram condições de lhe dar muita coisa e muitas vezes ela não podia ter o que queria.

Entrei no carro e durante o nosso caminho, contei para Anne tudo o que tinha acontecido no psicólogo, e obviamente tudo que ela ouvi foi, blá blá blá garoto lindo, não que eu tenha dito que ele era lindo, mas eu sei como ela pensa e com certeza foi isso que ela entendeu. Finalmente chegamos à faculdade e advinha só, chegamos cedo demais, o estaciona mento tinha apenas três carros, quando chegamos, ficamos lá por quase quinze minutos até que o estacionamento começou a enche de veteranos e calouros, era fácil diferencia-los, os veteranos estavam animados formando alguns grupos e contando como foram as férias e os calouros. como nós, olhavam para tudo perdidos e impressionados ao mesmo tempo.

Suspirei e me levantei cansada de esperar dar a hora de algo, olhei para Anne e disse.

— Vamos pegar nossos horários logo antes que o escritório do reitor fique cheio de calouros.

Ela apenas assentiu e entrou comigo no prédio da reitoria, Anne podia não coordenação alguma, mas encontrava o caminho para onde queria ir, em uma questão de minutos sem problema algum. Chegamos ao escritório do reitor e ele ainda estava vazio, a secretaria, uma senhora com cara de quem odiava o que fazia, nos atendeu de forma ríspida perguntando nossos nomes e cursos, eu fazia engenharia química e Anne jornalismo, o que fazia com que tivéssemos apenas uma aula em comum, nos olhamos um pouco tristes, não iriamos no ver muito, já sabíamos que isso iria acontecer mais ainda tínhamos um pouco de esperança de algo fazer com que ficássemos nas mesmas salas.

Anne e eu saímos da reitoria e nos separamos para irmos procurar nossas salas, que ficavam em alas separadas.

— Te vejo no intervalo. – Falei sorrindo para ela, tentando encoraja-la.

Segui silenciosamente o meu caminho até a minha primeira aula, por sorte não fui a primeira a chegar, quando entrei na sala já havia uma garota, com cabelos tingidos em um tom de azul-claro, lá dentro sentada na segunda dupla de cadeiras, aparentemente essa aula seria em dupla já que todas as cadeiras estavam divididas em duplas, sentei-me atrás da garota de cabelos tingidos e logo me lembrei que Anne havia me feito prometer que eu faria amigos, suspirei, peguei bastante folego, tomando coragem e falei com a garota tentando não parecer nervosa.

— Oi, sou Rose, gostei da cor do seu cabelo, onde você pintou? – perguntei tentando parecer interessada, eu havia gostado da cor do cabelo da garota, mas não aponto de querer saber onde ela pintou.

Ela me olhou por alguns instantes como se estivesse decidindo se iria ou não me responder, estava começando a pensar que ela não falava meu idioma quando ela finalmente respondeu.

— Sou Evin, e não gosto nem um pouco de conversar com princesinhas mimadas. – Ela respondeu grosseira, mas com uma feição adorável e pacífica, incapaz de machucar um inseto por menor que fosse.

Me assustei com a resposta dela, como alguém podia ter um rosto tão doce e angelical e ainda assim ser tão grosseira, passei alguns bons instantes boquiaberta, de onde ela tirou que sou uma princesinha mimada, e como ela consegue manter uma aparência tão delicada e ser tão... perversa, não tem nenhuma lei no universo que defina que pessoas boas são fofas e adoráveis e pessoas más são feias?

Antes mesmo que eu fosse capaz de responder uma garota entrou pela porta ofegante e falando alto.

— Professor, sou Olive, sinto muito o atraso, eu me perdi dentro do prédio e acabei indo parar no vestiário masculino.

Evin e eu olhamos para a loira que obviamente não havia pensado muito bem na desculpa enquanto corria até aqui e também não havia visto que não tinha nenhum professor na sala, apenas eu e uma garota bem grosseira com carinha de anjo.

A garota por fim olhou para toda sala e depois para nós e então com uma mistura de alívio e desapontamento, ela perguntou.

— O professor ainda não chegou?

Fiz que não com a cabeça e assisti Olive entrar e sentar-se na dupla de cadeiras ao lado da minha. A partir de então mais alunos foram chegando e tomando seus lugares, logo quase toda a turma estava presente, não sabia dizer ao certo se todas as cadeiras já estavam ocupadas, mas eu tinha certeza de que a cadeira ao meu lado estava desocupa, que ao lado de Olive uma garota havia se sentado e agora as duas conversavam animadamente, enquanto ao lado de Evin um pobre garoto estava se arrependendo de ter escolhido sentar ao lado da garota mais atraente que ele viu.

Tudo ia perfeitamente bem até que, um último aluno entrou pela porta, algumas garotas o olharam e cochicharam, outras tentaram olhar discretamente, e quando meu olhar encontrou o dele, eu o reconheci logo de cara, não podia ser de todas as pessoas do mundo, era aquele mesmo garoto de cabelos negros e pele branca, olhei ao redor tentando encontrar um lugar vazio onde ele pudesse sentar, mas o único restante era ao meu lado, ele deu um sorriso triunfante e sentou-se na cadeira vazia, senti o olhar de inveja de algumas garotas, mal sabem elas a praga que ele é.

— Nossa parece que nenhum homem com mais cérebro que eu quis sentar-se junto a você. – Ele disse sarcástico. – Acho que você não faz o tipo deles. — O garoto falou num tom triunfante, e parecia estar se divertindo muito com a situação.

— Na verdade, todos eles tentaram, mas nenhum deles parecia ser bom o bastante para isso, mas agora que você chegou... – Era mentira, óbvio, mas ele não teria como saber. Fingi pensar e analisa-lo, até que ele era bonito, corpo atlético, cabelo meio desarrumado, olhos negros, da mesma cor que o seu cabelo, e sua pele branca, sem nenhuma cicatriz ou imperfeição. Fiz uma cara de desaprovação e continuei a falar. – Não, acho que não, deveria ter ficado com o segundo ou o quinto cara. – Falei tentando parecer confiante.

O garoto riu e fez que não com a cabeça.

— Acho que você vai ter que se contentar com o primeiro, porque eu tenho certeza que ninguém tentou sentar aqui antes de mim. – Abri a boca para falar, mas ele sequer me deu a chance. – Você não é do tipo sai daqui e não me toque você esta mais para, por favor, prestem atenção em mim, a mamãe e papai, não se importam comigo, tudo que eles fazem é me dar coisas das quais não preciso, mas eu não tenho coragem suficiente para dizer isso a eles, por isso eu aceito tudo, mas não uso nada que não me seja útil.

Ele disse tudo tão rápido, não pude sequer assimilar tudo, mas tive certeza de que o que ele dizia me irritava muito, tanto que não pude me conter, minha mão foi diretamente para o rosto dele, a tapa acabou por fazer um estalo muito alto o que chamou atenção de todos na sala, que imediatamente pararam suas conversas e se puseram a me encarar, olhei para o garoto ao meu lado, que agora passava mão onde eu havia batido.

— Nunca mais fale de algo que você não sabe. – Levantei-me, coloquei a bolsa nas costas e sai da sala a tempo de ver algumas garotas irem falar com ele.

Comecei a andar pelos corredores um pouco sem rumo, ainda não conhecia o prédio, mas consegui sair dele e andar pelo campus.

Devo ter dado voltas no campus durante quase todo o primeiro horário, já estava cansada e não pensava mais no garoto quando decidi ir lavar o rosto antes de voltar para o segundo horário. Comecei a perguntar para alguns alunos e funcionários onde ficava o banheiro, e depois de ser mandada para vários caminhos diferentes consegui chegar a um. Entrei no banheiro e fui logo para a primeira pia que vi, enquanto lavava o rosto escuto alguém falar.

— Você é garota que bateu naquele cara não é?

Levantei o rosto para ver quem era, e me surpreendi ao ver que era Olive, dei um meio sorriso e respondi.

— Sim e se tiver a chance vou bater de novo.

Ouvi uma das portas dos banheiros se abrir e ouvi a voz arrogante de Evin falar.

— Nossa, cuidado Olive, a princesinha tem garras.

— Como você sabe meu nome? – Perguntou Olive confusa, ela provavelmente não se lembrava de seu pedido de desculpas constrangedor.

Evin bufou e respondeu.

— Eu estava na sala quando você entrou e fez o favor de anunciar que havia entrado no vestiário masculino.

Olive pareceu envergonhada pela lembrança constrangedora, mas não sei bem qual, o pedido de desculpas ou o que quer que ela tenha visto no vestiário, mas logo ela pareceu se desvencilhar da lembrança e volta a falar comigo.

— Se você for bater nele sempre vocês se virem nossa aula vai virar um ringue de boxe, vocês dois vão ter que ficar em dupla durante todo o semestre.

— O que?! Por quê?! – Perguntei sem aceitar muito bem essa notícia.

— Você não estava na sala quando o professor nos mandou escolher nossas duplas e o Kylan, não quis fazer com nenhuma das garotas que pediram para ele e como você foi a única que não estava na sala só sobrou você.

Ouvi Evin rir.

— Essa aula vai ser bem interessante, quanto tempo acha que a princesinha leva para parar de bater, se apaixonar e casar com o Kylan, Olive?

—Eu acho que já te disse que meu nome é Rose, então pare de me chamar assim. – Ser chamada dessa forma já estava me dando nos nervos.

Olive estendeu a mão sorrindo e se apresentou.

— Eu sou Olive e você? – Ela perguntou olhando para Evin.

Apertei a mão dela sem entender o motivo dela estar se apresentando, nós já sabíamos o nome dela.

— Sou Evin e eu vou chamar você de princesinha até que eu me canse disso. – Ela respondeu.

Suspirei cansada dessa história boba, passei pelas duas indo enxugar minhas mãos no secador, mas assim que pus as mãos sob o secador uma espécie de buraco negro apareceu tomando conta de toda a parede, tentei me afastar, mas quando dei o primeiro passo para trás dei um passo para trás uma mão que parecia ser humana agarrou meu braço, Eu comecei a gritar e a puxar meu braço com força.

— Solta! – Gritei Olive veio me ajudar, nós duas puxávamos com toda a nossa força, mas mal conseguíamos sair do lugar.

— Evin, ajuda a gente! – Olive gritou para a garota que até então apenas assistia a tudo.

Assim que Evin segurou-me e começou a puxar, a mão que até então só fazia segurar meu braço, nos puxou com força, nos obrigando a entrar no portal a nossa frente, olhei para trás tentando voltar, mas apenas pude assistir o portal se fechar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.